sexta-feira, 28 de setembro de 2018

"Pequenos Fogos em Todo o Lado" de Celeste Ng [Opinião]

Título: Pequenos Fogos em Todo o Lado
Título original: Little Fires Everywhere
Autora: Celeste Ng
Tradutora: Inês Dias
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Relógio D'Água
Temática: Romance
N.º de páginas: 320
Para adquirir:


Sinopse:

Em Shaker Heights, um pacato subúrbio de Cleveland, está tudo previsto - desde o traçado das ruas sinuosas até à cor das casas, passando pelas vidas bem-sucedidas que os seus residentes levam. E ninguém encarna melhor esse espírito do que Elena Richardson, cujo princípio orientador é obedecer às regras do jogo.

A esta idílica redoma chega Mia Warren - uma artista enigmática e mãe solteira - com a filha adolescente, Pearl. Mia arrenda uma casa aos Richardsons. Rapidamente Mia e Pearl se tornam mais do que inquilinas: os quatro filhos dos Richardsons sentem-se cativados pelas duas figuras femininas. Mas Mia traz consigo um passado misterioso e um desprezo pelo statu quo que ameaçam perturbar esta comunidade cuidadosamente ordenada.

Opinião:

A leitura de novidades não costuma ser um hábito. Acabo por delegar as minhas aquisições para oportunidades com preços mais convidativos e abundância de opiniões. Mas em (quase) tudo há excepções e aproveitei como pretexto o #netbookclub, mais uma iniciativa d'a mulher que ama livros, para uma fuga à rotina enquanto leitora.

A sinopse de Pequenos Fogos em Todo o Lado, sem dúvida, é promissora: uma personagem misteriosa, Mia, e a sua filha Pearl, mudam-se para Shaker Heights, o proclamado arquétipo da ordem, e as suas presenças serão a origem de uma série de ignições. A família Richardson é a mais afectada pela sua chegada, sobretudo a sua matriarca. Elena domina marido e filhos e não permite outra senão a vida perfeita. Torna-se-lhe impactante a liberdade e genuinidade das suas novas vizinhas, confrontando-se assim com as próprias inseguranças.

Celeste Ng aborda os dilemas dos jovens, enquadrados nos anos 90, altura em que os efeitos da Internet não se faziam sentir no seu quotidiano. Não obstante são as memórias dos adultos e as suas dúvidas quanto ao presente e ao que se seguirá, o mais cativante.

No início do enredo conhecemos o seu fim: um incêndio na casa dos Richardsons levam a autora a desenrolar, engenhosamente, o novelo dos acontecimentos que durante um ano o vão desencadear. Ainda assim, a sua rápida sucessão levou-me a que, a mais de metade do livro de uma leitura sôfrega, me sentisse refrear por uma certa perda de empatia. 

O final compensou, sem que um desenvolvimento mais longo não tivesse deixado de ser apreciado, dado o manancial de personagens e temas, longe de inoportunos ou superficiais. A autora aborda questões raciais e de classe social de forma bastante pungente, mostrando como o estatuto e a cor da pele influenciam a sociedade e a opinião pública*. 

Todos possuem um lado oculto e não há quem não esconda segredos, duvide e se interrogue sobre certo e errado, bem e mal. E Mia ensina a Elena como é vão o esforço de tudo tentar controlar: nada é estático e tudo se transforma, mesmo quando menos se espera. 

Uma obra que me conseguiu deixar um sabor agridoce, do mesmo modo que nela lhe reconheço evidentes predicados. Não é de admirar que esteja prevista a sua adaptação a série.

*Leitura complementar aqui

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
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Celeste Ng cresceu numa família de cientistas. Formou-se na Universidade de Harvard e tirou um mestrado em Belas Artes na Universidade de Michigan, onde recebeu uma bolsa Hopwood, destinada a jovens escritores. Começou por publicar pequenas ficções e ensaios em revistas da especialidade, tendo recebido o prémio Pushcart (que premeia textos literários publicados em revistas). Vive em Cambridge (Massachusetts) com o marido e o filho.

Tudo o que Ficou por Dizer, bestseller do New York Times, foi traduzido em mais de 20 países. Fonte: WOOK Fotografia: CELESTE NG

domingo, 16 de setembro de 2018

Aquisições de Julho e Agosto

O Outono está a chegar e o Verão não podia ter sido melhor: 24 é o total de livros adquiridos. Nem o tórrido calor alentejano conseguiu deter esta necessidade tão arreigada.

[clicar na imagem para aumentar]
 
Entre clássicos e obras de referência encontram-se Os Cadernos de Pickwick de Charles Dickens, O Retrato de Ricardina de Camilo Castelo Branco, Três Homens Num Barco de Jerome K. Jerome, Uma Família Inglesa de Júlio Dinis, A Curva da Estrada de Ferreira Castro, Na Minha Morte de William Faulkner, Se Numa Noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino, O Homem que Via Passar os Comboios de Georges Simenon, Homer & Langley de E.L. Doctorow e Carol de Patricia Highsmith.

No sentido de completar séries ou colecções, As Reencarnações de Pitágoras e Mil Anos de Esquecimento, dois volumes da Enciclopédia da Estória Universal de Afonso Cruz; e Titus - O herdeiro de Gormenghast de Mervyn Peake, uma vez que tenho O Castelo de Gormenghast, ambos de uma saga marcante da literatura fantástica.

Parem todos os relógios de Nuno Amado, Cronovelemas de Mário de Carvalho e Alçapão de João Leal, são livros de autores nacionais contemporâneos.

Para o #netbookclub, clube de leitura no Instagram, adquiri e li Pequenos Fogos em Todo o Lado de Celeste Ng (a próxima opinião a ser publicada).

A Minha Verdadeira História de Juan José Millás foi uma ofertaEstação Onze de Emily St. John uma pechincha com 60% de desconto!

Cinco livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o qual destaco Vale a Pena? Conversas com Escritores de Inês Fonseca Santos, o único comprado porque os restantes vieram gratuitamente com a campanha "Traga um amigo e receba um livro". Uma excelente iniciativa desta Fundação!

Naturalmente o arrependimento é nenhum, até porque os gastos foram minimizados ao máximo, e a satisfação mais do que muita, como uma bookaholic que se preze.

Todas as informações sobre os livros:

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ler os Nossos | Ler Autores Portugueses: Balanço

Especialmente no Verão, altura em que as férias permitem o ócio, surgem várias propostas de maratonas e leituras partilhadas. Os mais atentos saberão que decidi participar no desafio Ler os Nossos

Para além de obras lidas dentro do calendário previsto, consegui publicar as suas opiniões atempadamente, que podem consultar aqui:
Destes livros, da autoria de escritores portugueses, destaco Levantado do Chão, de longe o meu favorito, ainda que não sejam comparáveis por pertença a géneros e estilos literários diversos.

Fiquei então apurada para o sorteio que a Cláudia Oliveira, a mulher que ama livros, realizou a propósito deste desafio e ganhei Cronovelemas de Mário de Carvalho:


A felicidade de juntar mais um livro à minha pequena colecção, de um autor que passei a acompanhar pelas recomendações de Ricardo Araújo Pereira - como se pode constatar no vídeo -, é inegável. 


Por norma sinto um gosto especial ao escrever sobre obras de reconhecida qualidade mas não tão divulgadas. E o melhor de tudo é que, com a contínua partilha de opiniões, poderei induzir à leitura sendo que, neste caso específico, de autores nacionais. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

"Levantado do Chão" de José Saramago [Opinião]

Título: Levantado do Chão
Autor: José Saramago
Edição/reimpressão: 1999
Editora: Círculo de Leitores
Temática: Romance
N.º de páginas: 382
Para adquirir (a edição mais recente):


Sinopse:


A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. «Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do setor seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto.»

As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações.

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998

Opinião: 

Foi este o último livro para o Ler os Nossos, do qual em breve farei um balanço, e que serviu de pretexto - ainda que não fosse necessário - para ler mais uma obra de José Saramago. Sendo um dos meus autores favoritos, a par de Gabriel García Márquez e Eça de Queiroz, entre outros, não será de admirar que esta leitura tenha sido do meu agrado. 

O Alentejo é o pano de fundo para a história destes homens - e mulheres - desde o início do século XX até à posse dos latifúndios pelos trabalhadores, no pós-25 de Abril de 1974. Por sua vez, o foco está na família Mau-Tempo, a inssurecta, desde Domingos, passando por João, o de olhos azuis, até António, que herda a necessidade de itinerância do avô. São homens que vivem de ofícios ou da árdua lavoura do campo e que, apesar de esforços que arrancam sangue, suor e lágrimas, não vêem a sua situação, nem a dos seus companheiros, melhorar.

As mulheres acompanham os homens, em igual medida protagonistas destas jornadas de sofrimento. Sobrecarregadas pela criação dos filhos - mais braços com destino marcado -  e oprimidas por pais e maridos, são incansáveis na labuta diária que confrange quem a testemunha.

É esta a realidade específica que serve como retrato de um colectivo: o povo assalariado e a sua condição. Um povo que, paulatinamente, se consciencializa e questiona as normas estabelecidas e o seu papel no mundo. Um mundo em que os salários não matam a fome, em eterna precariedade do nascer ao pôr do sol e onde se labora na miserabilidade. 

Iniciado o caminho que levará à libertação, percorrê-lo não é isento de dificuldades e de vítimas, obra da Santíssima Trindade Terrena. O poder do Estado imposto pela autoridade, a guarda, e por Leandro Leandres, responsável da PIDE;  Noberto, Gilberto, Dagoberto e afins como personificação do Latifúndio; e aquela que deve ser a voz de razão e indulgência, o padre Agamedes. O trio que impõe a ordem vigente e dela sugam seus proveitos. O regime responsável por deixar cair a espada da repressão sobre as cabeças daqueles que o renegam, enquanto os privilegiados assistem, refugiados nas muralhas do castelo.

Saramago refere-se a esta obra como aquela em que encontrou a sua voz e é ela para mim, tal como a delícia do seu arguto sentido crítico, o factor de maior atracção nas suas narrativas. O seu narrador polifacetado que reflecte, critica, observa e, sendo omnisciente, tem conhecimento de todos os tempos, num relato de fusão entre discurso directo e indirecto. 

Inequivocamente uma recomendação sem reservas, pela importância de conhecer a provação dos que nos antecederam. Por todos os que se levantaram do chão. 

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:
José SaramagoAutor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.

As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»

Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
(…)
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.

Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.

No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.

No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.

José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998. Fonte: WOOK

terça-feira, 14 de agosto de 2018

XV Palavras Andarilhas [Divulgação]



As Palavras Andarilhas estão quase, quase aí! De 23 a 26 de Agosto, no Jardim Público e na Biblioteca Municipal de Beja, contos, leituras, oficinas, tertúlias, mercadinho andarilho, marionetas e música, farão parte da programação. Com actividades para todos os amantes da palavra lida e falada, desde as famílias aos técnicos, esta é uma alternativa no mínimo, original, aos habituais planos veraneantes. 

As Palavras Andarilhas são "uma festa da palavra contada, lida, ilustrada que em 2018 integra na coprodução para além do Município de Beja, as associações: Ouvir e contar – Associação de Contadores de Histórias, Laredo – Associação Cultural e Carpe Librum – Movimento Educação pela Arte e pela Leitura – Associação Cultural”. Terão lugar o Encontro de Aprendizes do Contar, o Festival de Narração Oral "Eu conto para que tu Sonhes", o Mercadinho Andarilho - feira da leitura e as Palavras Andarilhas | Estafeta dos Contos (algumas das actividades exigem inscrição prévia).

Toda a programação pode ser consultada em Palavras Andarilhas | Beja - A Cidade dos Contos.

Entretanto convido-vos a recordar a edição anterior aqui e a minha presença na mesma aqui

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

"Onório, o poeta bêbado" de Fernando P. Fernandes [Opinião]

Título: Onório, o poeta bêbado
Autor: Fernando P. Fernandes
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Coolbooks
Temática: Humor
N.º de páginas: 120
Para adquirir:


Sinopse:

Onório, o poeta bêbado é o retrato de um quase-pícaro a quem tudo corre mal - até o nome.

Nascido numa aldeia do Minho, neto do mais respeitado lavrador de Rubiães, o rapaz faz-se, quase inadvertidamente, poeta satírico, ainda nos tempos de escola. Qual repórter do absurdo, Onório ilustra com quadras rudimentares, as peripécias em que se envolve - e são muitas. Tudo acontece ao pobre diabo.

Com uma narrativa dinâmica e bem-humorada, salpicada de pequenas quadras alusivas aos episódios da vida do protagonista, a obra promete arrancar muitos sorrisos e proporcionar uma viagem divertida.

Opinião:

Escolhido na categoria "Um título que não te parece minimamente interessante, mas que vais arriscar", para o Ler os Nossos, Onório, o poeta bêbado mostrou ser um livro leve e divertido, que se lê de um fôlego e, verdade seja dita, pelo título julguei que não andaria longe disso, mesmo que não soubesse absolutamente o que esperar por desconhecer o autor.

A história de Onório - sim, Onório, porque o H ficou esquecido algures - é singela e repleta de peripécias rocambolescas a que a sua família e amigos não são alheios. Antes de poeta tornou-se bêbado, pois vinho fez-se remédio que sua mãe encontrou para o choro. E tocado foi pela poesia graças à sua professora primária, que tanto desconsiderou os seus versos. O signo do caricato marca-o desde o casamento dos pais, passando pelo seu nascimento, entre fardos de palha e os animais do sítio, até aquilo que nos é permitido conhecer da sua vida. 

Não há personagem que seja «normal», diremos antes que são pitorescas. Oriundas do interior minhoto, o seu discurso é marcado pela troca dos v pelos b e por expressões idiomáticas, numa reprodução do falar destas gentes. Várias vezes rememorei Camilo Castelo Branco, quem sabe uma inspiração para o autor, que me deu a conhecer algumas das figuras mais risíveis da literatura portuguesa, neste mesmo contexto, o Minho.

Sendo poeta, não é de estranhar que as quadras de Onório pontuem a narrativa. Abordam episódios da sua vivência da mesma forma que confissões, num misto de sabedoria popular e crítica acirrada. Eis um exemplo: 

«(...)
Minha terra também tinha
curbas que metiam medo.
Eram piores à tardinha
quando binha do Semedo.

O raça do home tem lá
uma marabilha de binho.
Se bou pra lá de manhá,
num dou com o caminho.

As retas parecem curbas,
o pneu da Zundapp chia.
Chego c'o as bistas turbas,
limpa-mas logo a Maria».

Até ao fim o absurdo repete-se, semeando sorrisos e algumas gargalhadas e, se não posso dizer que é indelével, posso pelo menos afirmar que Onório e as suas aventuras merecem ser conhecidos se em vista se tem o aprazimento tanto quanto o bom humor.

Classificação: 3,0/5*

Sobre o autor:
Wook.pt - Fernando P. FernandesFernando P. Fernandes nasceu em Lisboa, em 1978.

É professor de Português, tradutor e revisor , para ele, escrever e narrar vidas caricaturadas são prazeres inigualáveis.

Admira Eça e García Márquez pela fluidez narrativa e pelo sarcasmo sempre à espreita. Fonte: WOOK

domingo, 29 de julho de 2018

"Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa" de Soror Mariana Alcoforado [Opinião]

Título: Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa
Autora: Soror Mariana Alcoforado
Edição/reimpressão: 2013
Editora: Alêtheia Editores
Temática: Epístolas e cartas
N.º de páginas: 70
Para adquirir:


Sinopse:


Primeiro publicadas em Paris, em 1669, sob autoria anónima, as cinco cartas que aqui se reúnem são o retrato de um romance malfadado - e um dos mais impressionantes textos que se conhecem sobre a solidão, a ansiedade amorosa e a entrega total e que acabaram consideradas um dos clássicos da literatura mundial.

Só em 1810 a autoria seria atribuída a Mariana Alcoforado (1640-1723), freira do convento da Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Beja, em Portugal. O suposto destinatário era um certo cavalheiro De Chamilly, oficial do exército francês que servira em terras lusas.

Stendhal, Sainte-Beuve, Rilke e Rousseau impressionaram-se com o teor de tais missivas, tendo este último inclusivamente, desconfiado da qualidade e da força dos textos, colocando mesmo em causa a sua autoria: "As mulheres não gostam de arte... é possível que alcancem algum sucesso com pequenos trabalhos que só necessitem de algum espírito e malícia. Elas não sabem descrever ou sentir o amor. Aposto tudo em como estas cartas foram escritas por um homem."

Opinião:

A história de Mariana Alcoforado (1640-1723) é deveras conhecida por terras bejenses, pelo menos por todos os que estão atentos e se interessam pelas curiosidades da região. A sua peculiaridade prende-se pela sua condição de freira e pelas cinco cartas que dirigiu ao amante após a sua partida precipitada, julga ela, por razões familiares.

Na época de Mariana era habitual, entre as famílias nobres, a integração de membros do seu núcleo em conventos renomados, com vista ao aumento do prestígio e influência junto do clero e da sociedade em geral. 

Enclausurada no convento da Conceição, Mariana relata em suas palavras a primeira visão do amado, o cavaleiro De Chamillyestava naquele balcão [a janela gradeada] no dia fatal em que senti os primeiros sinais da minha desgraçada paixão”. Sucedem-se encontros, provavelmente nos aposentos de freira no Convento. Se pode ela ter visto neste amor a personificação da fuga à clausura, imposta tão precocemente, além da expectiva de um futuro diverso, é uma especulação plausível. O certo é que este amor termina com o regresso do cavaleiro a França, deixando Mariana em suspenso. Decide-se por isso ao envio de missivas: num tom cada vez mais extremado e amargo, questiona a ausência de notícias, a veracidade dos sentimentos e as promessas de amor ardente. Testemunhamos um crescendo de sofrimento, fruto da negação da realidade, que redunda em descrença no amor e, por fim, numa inevitável e penosa aceitação dos factos.

A polémica atribuição da autoria [mais pormenores aquipoderia colocar em causa o seu valor mas, dúvidas à parte, e assumindo que Mariana Alcoforado é a remetente destas cartas, a sua originalidade reside na voz feminina destas epístolas. Estando a mulher condicionada e considerada um ser menor, não seria de esperar que fosse capaz de expressar sentimentos de tamanha intensidade, nem tão pouco se associariam a uma religiosa cuja devoção deveria ser o único foco da sua mente.

Os dramas amorosos são recorrentes na literatura, pelo que este tema não constituiu novidade para mim. Ainda assim, gostaria que me ter sentido arrebatada por estas pungentes confissões. E, mesmo que não tenha sucedido por não me identificar com esta vivência do amor, recomendo a sua leitura visto reconhecer a sua importância como fonte histórica da condição feminina e da vida religiosa no Portugal do século XVII.

De referir a parca divulgação da figura e da história associada, a nível regional e nacional, e o seu chocante desaproveitamento enquanto potenciador do desenvolvimento turístico em Beja.

Este foi o terceiro livro no projeto Ler os Nosssos em "Um livro que te custou uma pechincha", ou seja, adquirido pela maquia de € 3,99 (com 20% de desconto) na WOOK.

Classificação: 3,0/5*

Sobre a autora:
Soror Mariana AlcoforadoSoror Mariana Alcoforado nasceu na cidade de Beja em 1640. Ingressou no Convento de Nossa Senhora da Conceição com apenas 12 anos, determinada a dedicar a sua vida ao Senhor.

Contudo, a sua vocação religiosa seria posta à prova quando conheceu o cavaleiro francês Noel Bouton, marquês de Chamilly, que estava em Portugal com as suas tropas, envolvido na guerra da Restauração. Entre os dois surgiu um amor impossível, do qual as Cartas Portuguesas [ou Cartas amorosas de uma religiosa portuguesa] são um belíssimo testemunho.

Publicadas pela primeira vez em francês, em 1669, pelo escritor Lavergne de Guilleraggues, as Cartas têm sido até hoje alvo de grande controvérsia no que diz respeito à sua autoria. A existência de Mariana Alcoforado e do Marquês de Chamilly e o facto de as cartas serem dirigidas a este último são indubitáveis. Aquilo que se discute é a atribuição da autoria dos textos a Soror Mariana Alcoforado e a sua autenticidade. Fonte: WOOK

domingo, 22 de julho de 2018

"Quando o Sol Brilha" de Rui Conceição Silva [Opinião]

Título: Quando o Sol Brilha
Autor: Rui Conceição Silva
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Marcador
Temática: Romance
N.º de páginas: 304
Para adquirir:

Sinopse:


Haverá um dia em que tu perceberás. Que verás claramente a estrela que agora não vês. Que distinguirás o seu brilho na noite de penumbra. Porque só então, quando todas as outras se apagarem, essa pequenina estrela brilhará no céu.

«Acho que vi cavalos no horizonte», disse o meu pai com olhos de luz, naquele sábado tão longe dos sonhos.

E era um sábado fácil de descrever: eu lia um livro na varanda e o meu pai esperava pelos cavalos. Era assim ultimamente.

O sorriso do meu pai pacificou-se, sossegando pensamentos tristes que me invadiam, quase sempre àquela hora, quando a tarde se despedia e eu ficava a falar com o pôr do Sol sobre os meus silêncios, contando-lhe toda a verdade, todos os sentimentos que me asfixiavam. Dizia-lhe tudo o que sentia, que acreditava que os dias felizes apenas existiam nas lendas.

Opinião:

Neste segundo livro para o projecto Ler os Nossos, no desafio "Um autor português recomendado por alguém", não posso deixar de agradecer à  Sílvia A. Reis (O Dia da Liberdade / Boas Leituras -  O Dia da Liberdade). Não fosse ela e, provavelmente, não iria chegar a esta leitura.

Quase toda a história decorre num ambiente rural, onde as existências se levam com diminutos percalços. Como é típico, a taberna é o centro de convívio e a população dedica-se a labores marcadamente manuais devido à sua parca instrução. O quotidiano não é de abundância, mas a fome não se faz sentir.

Edmundo surge como o mais reflexivo desta sua comunidade - concluiu a quarta classe, quem diria -, ainda que não ostracizado por tal. Escudando-se na sua natureza melancólica, está resignado a operário para subsistência sua e da família, e a leitor nas horas vagas, aquilo que realmente o compraz. Desde jovem encontra nos livros um refúgio para o seu espírito curioso e aventureiro que as condicionantes não libertaram.
Talvez por essa necessidade de ver outros mundos, eu passava muitos fins de tarde sentado ao lado do meu pai a ler um dos livros que costumava trazer da Biblioteca Municipal da vila velha. Apesar de ser um simples operário, eu gostava de ler livros e de viajar com eles pelo mundo fora. De escutar as personagens falando sozinhas ou umas com as outras, quase como um espreita ou um companheiro secreto escondido atrás de uma cortina invisível, ouvindo-as sem nada dizer. Às vezes, queria falar com elas, chorar ou rir com todas, entrar nos livros como um amigo ou um justiceiro implacável. Queria muito pertencer a todos os livros, figurar neles como parte da vitória ou da ruína. Quando lia, absorvia bocados de bom silêncio, interrompidos apenas quando a minha mulher me chamava para cear ou quando o meu pai me falava dos cavalos imaginários, dos filhos do vento. - p. 29
Constitui família com Evangelina na quinta dos pais, próxima da aldeia - a quinta do Jardins, a aldeia de Granja dos Pardais, a vila velha e a cidade nova: denota-se o contraste entre as ambiências sociais e económicas de um povoado profundamente ruralizado para o mundo urbano e industrializado, onde o progresso não dá tréguas. Após a morte da mãe, o pai, Felismino Jardins, sofre pelo fim do seu grande amor e vive em alheamento. Ainda assim, é um ser pacífico que apenas se agita aquando da visita dos "seus" cavalos, uma doce memória do passado que agora o conforta.

A narrativa compreende um período de mudança, de momentos críticos para o protagonista. É ele quem, de viva voz, os conta em puro despojamento e, desde o início, pressente-se uma carga emocional pesada que a natureza enquadra, reflectindo os estados de espírito. No reverso da medalha encontrar-se-á, enfim, o perdão, o consolo, a resiliência, curiosamente sempre associados ao universo feminino. Quando a vida não o permite, procurar compreensão e concretização naqueles que nos estimam, pode ser a melhor via para não cair no desânimo derivado da perda.

A leitura sucedeu-se célere pela pronta empatia que senti pelas batalhas desta família no limiar do abismo. O seu final não me agradou por completo, no seio de tanta dor veio-me a incredulidade por se chegar a algo de aparência demasiado fácil. Ainda assim, na sua totalidade, é uma história inspiradora e de realidades palpáveis que não deixo de recomendar. Mais do que tantos livros de auto-ajuda que infestam os escaparates, acredito que sejam histórias como esta, ficcionais ou não, que modificam visões e ajudam à reflexão sobre o que somos e o que queremos ser.

Deixo o alerta: não leiam a sinopse presente na contracapa do livro. Felizmente não o fiz, ou teria a leitura definitivamente arruinada por tantos spoilers, por isso, para o início desta opinião, não deixei de procurar um texto diferente.

Classificação: 3,5/5*

Sobre o autor:
Rui Conceição SilvaRui Conceição Silva nasceu em 1963 em Figueiró dos Vinhos, onde reside. É casado e tens dois filhos. Apesar de ter vivido em Coimbra, Tavira e Lisboa, é na sua terra que se sente completo. Escreveu um primeiro romance, Quando o Sol Brilha (2015), onde fala da saudade triste da perda de alguém que se ama, mas também da reconciliação necessária com a vida e com toda a sua beleza. Dei o Teu Nome às Estrelas é o seu segundo romance. Fonte: WOOK

sábado, 14 de julho de 2018

"Reload. Menos stress. Melhor performance." de José Soares [Opinião]

Título: Reload. Menos stress. Melhor performance.
Autor: José Soares
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Porto Editora
Temática: Gestão e Organização
N.º de páginas: 240
Para adquirir:

Sinopse:


O dia a dia profissional nunca foi tão desgastante, estamos sempre online, a pressão para obter resultados aumenta constantemente e são cada vez mais as horas que dedicamos ao trabalho. Não descansamos o necessário e isso tem um custo elevado, não apenas na performance, mas também na saúde.

Em Reload, José Soares aplica os conhecimentos adquiridos ao longo de vários anos no treino de atletas de alto rendimento ao ambiente empresarial e explica-nos o que podemos fazer para minimizar o stress e o cansaço.

Através da fórmula dos 4 «R» da performance, o autor demonstra de que modo os princípios do desporto nos podem ajudar a ser mais produtivos, mais saudáveis e a conseguirmos um melhor equilíbrio entre as exigências profissionais e a vida pessoal e familiar.

Opinião:

Com uma vasta experiência na melhoria da performance corporativa, José Soares reuniu neste Reload. Menos stress. Melhor performance. os resultados da sua prática que se podem aplicar, não só a desportistas e profissionais, mas igualmente ao quotidiano de qualquer indivíduo.

Iniciando-se com uma abordagem sobre o ambiente corporativo, o stress e a fadiga, frequentemente o autor recorre ao atleta de alta competição como metáfora para o colaborador de empresas cujos níveis de exigência e de stress são, além de elevados, uma constante.

Surge assim a performance - o conceito-base - e aposta na sua melhoria e manutenção é o foco, tanto na vida profissional como pessoal. Com isso em vista, a proposta do autor passa pelos 4 «R» da Performance: Recover, a recuperação eficaz; Refuel, relacionado com a reposição do nosso stock de energias; Rethink, para repensar a gestão de stress e fadiga; e Reenergize, a forma de recuperar energia "ao longo do dia e da vida" para maximizar o potencial.

Os conselhos transmitidos são relativos ao bem-estar geral: a regulação do sono, o equilíbrio na alimentação, a prática de exercício adequado, entre outros, tal como algumas desmistificações, devidamente sustentados com dados de inúmeros estudos científicos.

Por um lado, a simplificação do discurso leva a uma certa repetição e, por outro, a sua linguagem é extremamente perceptível e as ideias-chave vão sendo sintetizadas para uma melhor assimilação, pelo que a leitura se torna ligeira.

Foi o primeiro livro lido no âmbito do projecto Ler os Nossos, na categoria "Um livro comprado recentemente", e poderia recomendá-lo a todos os que procuram, em oposto a outras sugestões presentes nos escaparates, dicas de saúde aliadas a uma extrema dose de conhecimento e bom senso.

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:

José SoaresJosé Soares é Professor Catedrático de Fisiologia na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADE-UP). É o coordenador do Gabinete de Biologia do Desporto da FADE-UP e docente em diferentes pós-graduações, em Portugal e no estrangeiro. Na sua atividade profissional destaca-se a ligação ao desporto de alto rendimento como treinador e consultor de atletas em diferentes modalidades. Publicou cerca de 70 artigos científicos em revistas internacionais peer reviewed, é autor de quatro livros e participou como conferencista convidado em mais de 200 reuniões científicas nacionais e internacionais. É, ainda, coordenador da Unidade de Exercício Clínico do Instituto CUF Porto e cofundador da BBY Solutions. Fonte: WOOK