quarta-feira, 25 de abril de 2018

"No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex" de Nathaniel Philbrick [Opinião]

Título: No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex
Título original: In the Heart of the Sea
Autor: Nathaniel Philbrick
Tradutoras: Maria João da Rocha Afonso e Ana Cristina Pais
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Editorial Presença
Temática: Não Ficção e Ensaios - Viagens
N.º de páginas: 320
Para adquirir:


Sinopse: 

No verão de 1819, o baleeiro Essex partiu de Nantucket para mais uma expedição de caça à baleia. Quinze meses depois, o impensável aconteceu: numa região remota do Pacífico Sul, um cachalote de enormes proporções provocou o naufrágio do Essex.

A tripulação de 20 homens refugiou-se em três botes salva-vidas rumo à América do Sul, numa jornada épica pela sobrevivência. Três meses depois, os oito tripulantes que continuavam vivos foram encontrados à deriva. Para sobreviver, usaram todos os recursos, inclusive o canibalismo.

No Coração do Mar é um relato empolgante de um naufrágio tão relevante no seu tempo como o do Titanic atualmente. A aventura do Essex inspirou Herman Melville a escrever o clássico Moby Dick.

Opinião:

Apesar de viver em pleno Alentejo, apartada do mar, o meu fascínio pelo este sempre esteve presente. Leituras como Moby Dick de Hermann Melville, A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson ou Robinson Crusoé de Daniel Defoe ainda mais o acentuaram e introduziram-me na época em que os oceanos, além de caminhos para o desconhecido, eram eles próprios um mistério

Na sinopse de No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex, desde logo se destaca o facto de ter sido esta história a inspirar Herman Melville a escrever Moby Dick - um estímulo sobretudo para quem já realizou esta leitura.

Sendo uma obra de não ficção pressupunha-se um tom mais seco, menos artificioso, o que não se verifica de todo. Nathaniel Philbrick consegue agarrar o leitor com a sua profunda pesquisa acerca de todos os aspectos que rodearam este naufrágio, desde a socialização e psicologia de sobrevivência, como a corroboração e/ou esclarecimento das ocorrências descritas pelos sobreviventes. Ficaram demonstrados os efeitos assustadoramente dramáticos da desidratação e da fome em condições extremas, sendo a recorrência ao canibalismo mais frequente do que se julga nestes contextos.

A abertura da obra apresenta uma introdução à história de Nantucket, ilha que, na época dos acontecimentos - no século XIX -, se havia tornado o maior porto baleeiro, dependendo toda a sua economia desta actividade e, no final, constata-se como a diminuição da baleação a afectou Além disso, os esquemas, mapas e fotografias ajudam sem dúvida os leigos na matéria.

O autor conseguiu, ou pelo menos tentou incansavelmente, deslindar a veracidade entre os relatos nem sempre coincidentes de dois dos sobreviventes, Owen Chase e Thomas Nickerson. O que prevalece não deixa margem para dúvidas: desde o início, toda a tripulação do Essex  esteve sujeita a uma terrível conjuntura, quer fosse pelos caprichos da Natureza, quer pelas inexperiência e teimosia dos seus membros, adiando-se a sua salvação muito para lá do razoável.

A adaptação cinematográfica toma algumas liberdades quanto à narrativa de Nathaniel Philbrick, criando interacções entre personagens que não terão sucedido. Tornou, desta forma, o filme mais coeso pelo preenchimento de algumas lacunas impossíveis de desvendar, exceptuando-se o uso excessivo da aparição da vingativa baleia. 

"O desastre do Essex não é uma história de aventura. É uma tragédia que por acaso é uma das maiores histórias verídicas jamais contadas" e com tal não posso deixar de concordar.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Nathaniel Philbrick é autor dos livros Mayflower: A Story of Courage, Community, and War e Sea of Glory: The Epic South Seas Expedition, 1838-1842, que venceu o Theodore and Franklin D. Roosevelt Naval History Prize. No Coração do Mar, vencedor do National Book Award, encontra-se traduzido em 23 línguas e deu origem a uma adaptação cinematográfica realizada por Ron Howard e produzida pela Warner Brothers, com Chris Hemsworth como protagonista. Nathaniel Philbrick vive na ilha de Nantucket, nos Estados Unidos da América.  Fonte: Editorial Presença 

domingo, 8 de abril de 2018

"Baker's Magic - A Magia do Pão" de Diane Zahler [Opinião]

Título: Baker's Magic - A Magia do Pão
Título original: Baker's Magic
Autora: Diane Zahler 
Tradutora: Carla Ribeiro
Edição/reimpressão:  2016
Editora:  Individual
Temática: Juvenil
N.º de páginas:  280
Para adquirir:


Sinopse:

Quando Bee, uma órfã no pobre reino de Aradyn, é apanhada a roubar um bolo numa padaria, o padeiro solitário oferece-se, para alegria da jovem, para a tomar como aprendiza. A felicidade recém-descoberta de Bee passa através de magia para os seus bolos, começando a atrair as atenções do palácio, onde reside a princesa Anika. Mestre Joris, um poderoso mago e apreciador de bolos, torna-se no "guardião" de Bee, mantendo-a prisioneira e convertendo todos os terrenos aráveis em campos de tulipas. Graças ao ajudante de ferreiro da aldeia, Bee ajuda a princesa Anika a fugir de um casamento que lhe é imposto. O grupo dá início a uma incrível aventura no alto mar, acabando por naufragar e ser salvo por uma tripulação de piratas, liderada pela temerária capitã Zafira Zay. É uma aventura que conduz a descobertas surpreendentes, de parentes supostamente falecidos e árvores há muito perdidas. O tema da órfã corajosa que descobre a magia e a amizade, pode não ser original, mas ação a rodos e personagens cativantes como Bee, a Princesa Anika e a capitã Zafira Zay, fazem com que este livro se leia dum só fôlego.

Opinião:

Feiticeiros, bruxas e magos, jovens à procura do seu lugar no mundo, muita magia e fantasia à mistura... Relembrar-vos-á algo?

Num reino onde as árvores desapareceram e campos de túlipas se estendem a perder de vista, Bee encontra refúgio na padaria do Mestre Bouts, que lhe ensina o seu ofício. Como Tita, em Como Água para Chocolate de Laura Esquível, Bee descobre que transmite os seus sentimentos enquanto cozinha. No seu caso, pães e bolos contêm medo, veracidade, amor, coragem, ou seja, tudo o que desejar consoante aquilo em que se concentra durante a confecção.

Mas a sua vida não se cingirá por muito tempo à padaria. Juntamente com Will, o seu amigo aprendiz de ferreiro, e a solitária princesa Anika, irão numa demanda pela defesa do reino de Aradyn. Ao erradicar as árvores, o ganancioso mago responsável pelo reino desequilibrou a Natureza, iniciando a sua auto-destruição. Muitas aventuras decorrerão, sobretudo proporcionadas por personagens como a capitã Zafira Zay.

Uma história sobre a amizade, a perseverança, a importância do respeito pela Natureza e dos bens preciosos que nos fornece e que, como certos tomamos e desprezamos. 

Constitui uma leitura ideal para quem gosta de contos de fadas, leve e fluída, cativante para jovens leitores - o seu público-alvo natural -, por isso a aconselho vivamente a quem queira estimular, a esta faixa etária, o gosto pela leitura. Já para leitores mais experientes poderá tornar-se previsível, compensada pela doçura da sua fantasia e moral. 

Para encerrar, a autora partilha connosco a receita do delicioso - pelo menos assim creio - bolo Bouts, o famoso bolo que enleva todos os que o provam ao longo da história.


Classificação: 3,0/5*

Sobre a autora:
Diane Zahler é autora de quatro contos de fadas: A Décima Terceira Princesa, Uma Verdadeira Princesa, Princesa dos Cisnes Selvagens e As Filhas da Bela Adormecida. Também escreveu dois ensaios para leitores adultos - A Morte Negra e A Birmânia de Than Shwe, e uma quantidade quase infinita de livros didáticos para estudantes do secundário. Já morou em Seattle, Morgantown, Ithaca, Solana Beach, Manhattan, Bronx e Bélgica, mas agora reside com o marido e o cão numa velha quinta no vale do Hudson. Gosta a sério de cozinhar – e de provar os seus cozinhados. Fonte: WOOK | Fotografia: DianeZahler

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Dia Internacional do Livro Infantil 2018

Desde 1967, data em que se assinala o nascimento de Hans Christian Andersen, que se celebra o Dia Internacional do Livro Infantil. Pretende-se assim chamar "a atenção para a importância da leitura e para o papel fundamental dos livros para a infância".

Este ano "a DGLAB convidou a ilustradora Fátima Afonso, vencedora do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado, para ser a autora da imagem do cartaz". Pode igualmente visualizar-se o cartaz internacional aqui.


O pequeno torna-se grande num livro

"As pessoas inclinam-se para o ritmo e para o equilíbrio, tal como a energia magnética organiza as aparas de metal numa experiência da física, tal como um floco de neve forma cristais a partir da água.

Num conto de fadas ou num poema, as crianças gostam de repetição, de refrãos e de temas universais, porque eles podem ser reconhecidos uma e outra vez – trazem ao texto regularidade. O mundo ganha uma ordem bonita. Ainda me lembro como, em criança, lutava comigo mesma para defender a justiça e a simetria, pela igualdade de direitos da esquerda e da direita: se tamborilava com os dedos em cima da mesa, contava quantas vezes tinha de bater com cada dedo, para que os outros não se sentissem ofendidos. E quando aplaudia, batia com a mão direita na esquerda, mas depois pensava que não era justo e aprendi a fazê-lo de maneira contrária – batendo com a esquerda na direita. Este desejo instintivo de equilíbrio parece engraçado, é certo, mas mostra a necessidade de evitar que o mundo se torne assimétrico. E eu tinha a sensação de ser a única responsável por todo o seu equilíbrio.

A inclinação das crianças por poemas e por histórias surge igualmente da sua necessidade de levar harmonia ao caos do mundo. Da indeterminação, tudo tende para a ordem. As canções infantis, as canções populares, os jogos, os contos de fadas, a poesia – são formas de existência ritmicamente organizadas que ajudam os mais pequenos a estruturar a sua presença no grande caos. Criam a consciência instintiva de que a ordem do mundo é possível, e que as pessoas têm nele um lugar único. Tudo conduz para este objetivo: a organização rítmica do texto, as linhas com letras e o design da página, a impressão do livro como um todo bem estruturado. O grande revela-se no pequeno, e damos-lhe forma nos livros infantis, mesmo quando não estamos a pensar em Deus ou na dimensão fractal. Um livro infantil é uma força milagrosa que favorece o enorme desejo das crianças e a sua capacidade de ser. Promove a sua coragem de viver.

Num livro, o pequeno é sempre grande, de forma instantânea e não apenas quando se chega à idade adulta. Um livro é um mistério onde se pode encontrar algo que não se procurava ou que não estava ao nosso alcance. Aquilo que os leitores de uma certa idade não conseguem compreender, permanece na sua consciência como uma impressão, e continua a atuar mesmo quando não o compreendem totalmente. Um livro ilustrado pode funcionar como uma arca do tesouro de sabedoria e cultura mesmo para os adultos, da mesma forma que as crianças podem ler um livro para adultos e encontrar nele a sua própria história, um indício para as suas jovens vidas. O contexto cultural molda as pessoas, estabelecendo as bases para as impressões que se farão sentir no futuro, assim como para experiências mais difíceis, às quais terão de sobreviver sem por isso terem de deixar de ser íntegras.

Um livro infantil representa o respeito pela grandeza do pequeno. Representa um mundo que se cria de novo uma e outra vez, uma seriedade lúdica e preciosa, sem a qual tudo, incluindo a literatura para crianças, seria apenas um trabalho pesado e vazio.

INESE ZANDERE, nascida na Letónia em 1958, é poeta e uma das maiores escritoras de livros para a infância do seu país.

Tradução: Maria Carlos Loureiro, feita a partir da versão francesa e espanhola".

Fonte: DGLAB

segunda-feira, 19 de março de 2018

"Um Homem Chamado Ove" de Fredrik Backman [Opinião]

Título: Um Homem Chamado Ove
Título original:  En man som heter Ove
Autor: Fredrik Backman
Tradutor: Alberto Gomes
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Editorial Presença
Temática: Romance
N.º de páginas: 312
Para adquirir:


Sinopse:


À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se. Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter.

Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer. Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises. Este livro, simultaneamente hilariante e encantador, fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros.

Um Homem Chamado Ove foi adaptado ao cinema e reuniu duas nomeações para os Óscares.

Opinião:

Ove chegou à altura da vida em que considerou o seu propósito cumprido: casou, pagou a hipoteca da casa, assumiu as suas responsabilidades, trabalhou até ser dispensado. Agora nada lhe resta a não ser terminar com a vida, da maneira mais eficaz possível e sem deixar assuntos pendentes, mas esse objectivo será mais difícil de alcançar do que poderia imaginar.

Escudando-se numa personalidade conflituosa e autoritária, Ove nem sempre compreende o mundo ao seu redor. Comprar um iPad ou discutir a promoção na compra de umas flores podem revelar-se tarefas exasperantes para ele... e para quem o ouve. Ao longo da narrativa, num cruzamento entre o passado e o presente, conheceremos a origem da amargura e do espírito reivindicativo que o movem.

Com ele se cruzará Parvaneh, uma emigrante paquistanesa que se mudou com a família para o bairro onde vive, e será ela a principal responsável por não lhe permitir seguir os seus desígnios suicidas. Ao fazer uso da sua perseverança e empatia, Parvaneh consegue imiscuir-se, paulatinamente, na vida de alguém que, à partida, traz um sinal proibitivo pregado na testa.

Ove descobrirá à sua maneira que, apesar da revolta causada pelas suas perdas, a luta pelas suas causas pode ser igualmente um motivo de satisfação e reconhecimento.

Ao terminar a leitura de Um Homem Chamado Ove constatei que a história estava repleta de figuras-tipo como o idoso, a emigrante, o homossexual, o gordo, o gato, os burocratas - "os homens de camisa branca". Neste caso, porém, julgo que a sua utilização foi devidamente ponderada, numa tentativa de mostrar as realidades que se cruzam no quotidiano sueco.

Sem aprofundar exaustivamente, em Um Homem Chamado Ove, o drama e o caricato entrelaçam-se, criando uma leitura ligeira ideal para quem aprecia descontrair mas sem com ela se alienar.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Fredrik Backman é um blogger, colunista e escritor sueco. Este seu romance de estreia tornou-se um bestseller na Escandinávia. Já vendeu 2 milhões de exemplares em todo o mundo, encontrando-se em tradução em mais de 30 países. Fonte: Editorial Presença

domingo, 3 de setembro de 2017

Música ao Domingo #41: Peter Bjorn And John "Young Folks"


Music video by Peter Bjorn And John performing Young Folks. (C) 2006 Universal Music AB

If I told you things I did before
Told you how I used to be
Would you go along with someone like me
If you knew my story word for word
Had all of my history
Would you go along with someone like me

I did before and had my share
It didn't lead nowhere
I would go along with someone like you
It doesn't matter what you did
Who you were hanging with
We could stick around and see this night through

And we don't care about the young folks
Talkin' 'bout the young style
And we don't care about the old folks
Talkin' 'bout the old style too
And we don't care about their own faults
Talkin' 'bout our own style
All we care 'bout is talking
Talking only me and you

Usually when things has gone this far
People tend to disappear
No one will surprise me unless you do

I can tell there's something goin' on
Hours seems to disappear
Everyone is leaving I'm still with you

It doesn't matter what we do
Where we are going too
We can stick around and see this night through

And we don't care about the young folks
Talkin' 'bout the young style
And we don't care about the old folks
Talkin' 'bout the old style too
And we don't care about their own faults
Talkin' 'bout our own style
All we care 'bout is talking
Talking only me and you

And we don't care about the young folks
Talkin' 'bout the young style
And we don't care about the old folks
Talkin' 'bout the old style too
And we don't care about their own faults
Talkin' 'bout our own style
All we care 'bout is talking
Talking only me and you
Talking only me and you

Talking only me and you

Talking only me and you

Fonte: Vagalume

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Afinador de Memórias" de Jorge Serafim [Opinião]

Título: O Afinador de Memórias
Autor: Jorge Serafim
Edição/reimpressão: 2017
Editora: Edição de Autor
Temática: Infanto-Juvenil
N.º de páginas: 58

Sinopse: 


Era apenas um solitário afinador de memórias! Um homem tenazmente dedicado a consertar coisas esquecidas. Como as frágeis flores, assim deveria ser cuidado tudo o que passou. "Há que manter a memória regada, tão viçosa quanto o tempo a passar", defendia.

Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.

Opinião:

O Contar - Festival de contos do mundo começou hoje e aproveito a deixa para vos falar do último livro de um dos contadores presentes, Jorge Serafim.

Habituada que estou a narrativas longas, as leituras infantis, por norma mais curtas, deixam-me o agravo de saberem a pouco. Neste livro lancei-me num exercício diferente: saborear cada palavra como se fosse a última e o resultado foi um escrutínio demorado de cada recanto, de cada sentido oculto das suas páginas.

Saltam logo à vista as referências a Beja, tanto nas ilustrações como no texto: "Um amor cego à janela de um convento". Mas a história de que nos fala Serafim não tem limitação geográfica. 

Um homem solitário, "dedicado a consertar coisas esquecidas", leva inexoravelmente as suas palavras a ouvidos desinteressados, onde o tempo para escutar é nulo. Dirige-as às ruas da sua cidade, onde muitas são as casas abandonadas, desleixadas, e convencido está de que a sua reabilitação passará pela partilha das histórias que um dia possuíram, pois "A memória é uma casa obrigatória". 

É esta uma busca pela identidade individual e colectiva com um assumido gosto pelo surrealismo mágico, em que a essência transformadora do contador de histórias surge.

As ilustrações apelativas resultam igualmente do trabalho do autor. Admitindo a sua pouca queda para o desenho, optou pelas colagens de diferentes materiais e texturas, da qual a capa é um exemplo. Não será de estranhar encontrar  códigos de barras enquanto vidraças das janelas, ou pelo menos uma pequena flor em cada ilustração, entre recortes do Diário do Alentejo onde se vislumbram edifícios de Beja.

E, na apresentação de O Afinador de Memórias, Jorge Serafim reafirmou o seu amor por esta nossa cidade em palavras, ao expressar de viva voz o que lhe ia na alma sobre a vida cultural de Beja, e em actos, por publicar um livro que lhe incendeia a inspiração. Não poderá por isso ser acusado de não praticar o que prega.

As memórias somos nós e, quem não as tem, é um quadro vazio, por isso tão necessário é cultivá-las - as boas, as más, as nossas, as de todos.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Técnico no sector infanto-juvenil da Biblioteca Municipal de Beja, desenvolveu actividade regular na área da promoção do livro e da leitura durante cerca de treze anos. Como contador de histórias, tem percorrido o país de norte a sul, incluindo os Açores, efectuando inúmeras sessões de contos para públicos de todas as idades. Tem participado em encontros de narração oral, nomeadamente em Espanha, Argentina e Canadá. É presença regular na SIC e na RTP1 em programas de humor e é também autor de vários livros: A.Ventura, A Sul de Ti e Estórias do Serafim.: "Conto para que as palavras regressem a casa mais cedo. Para que entre nós deixem de haver vazios difíceis de habitar. Como as aves rumo a um sul à espera de existir. Conto para dar sentido aos passos que faço. Para reaprender a amar todas as ruas que percorro e entender todas as gentes que encontro. Conto para apagar silêncios fundos e afagar tristezas demoradas. Para fazer dos dias a morada da fala e dos meses a terra sonhada. Conto para que tudo à minha volta seja mais bonito. Tão simples de fazer tão complicado de entender...” Contactos: serafimstoria@gmail.com contacontos@sapo.pt contacontos_2@hotmail.com 965428856 Fonte: Narração Oral Fotografia: Red Internacional de Cuentacuentos