Título:O Jogo do Anjo Título original:El Juego del Angel
Autor: Carlos Ruiz Zafón Tradutora: Isabel Fraga
Edição/reimpressão: 2008
Editora: Publicações Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 568 Para adquirir (a edição mais recente): Sinopse:
«Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais. Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral.»
Opinião:
Após a releitura de A Sombra do Vento, um livro que devorei num ápice, tanto na primeira como na segunda vez, e cuja história continua a fazer parte das minhas favoritas de sempre, confesso que as minhas expectativas para com O Jogo do Anjo estavam nos píncaros. E foi este o estado de espírito que me acompanhou durante praticamente toda a releitura, apesar de salpicada de ligeiras lembranças. Desde o início que me voltei a sentir deveras fascinada por este ambiente gótico da Barcelona de Zafón que, ao contrário do antecessor, de certo modo mais luminoso, se revelou repleto de uma beleza doentia de trevas, sangue e dor. Esta visão é-nos transmitida por David Martín, um escritor de thrillers policiais, sempre atraído pelo que de mais misterioso e oculto existe na cidade de Barcelona. Sendo contratado pelo enigmático patrão, para que produza uma grande obra de intenções e fins duvidosos, David vê-se, tal como nos seus livros, envolvido numa série de crimes e estranhos acontecimentos que o levarão a colocar em causa a sua própria sanidade. Em comparação com A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo quase que perde a sua componente de crítica e retrato histórico-social, não havendo uma personagem tão acutilante como Fermín. Apesar disso, gostei das personalidades contrastantes das personagens femininas, Cristina e Isabella, com pontos com os quais me identifiquei: a primeira, atormentada por uma alma problemática, que não se mostra capaz de lidar com as suas escolhas; a segunda, forte e inspiradora, mas que, tão sensível no seu íntimo, se preocupa mais com os outros. Fiquei agradavelmente surpreendida pela presença da família Sempere e do Cemitério dos Livros Esquecidos, que tanto tinha apreciado no primeiro livro, conhecendo o avô e a mãe de Daniel, já que, cronologicamente, esta narrativa antecede a de A Sombra do Vento. Contrariamente à minha primeira leitura, em que julguei o final baço e pouco esclarecedor o seu maior ponto fraco, desta vez não me surgiu esse desagrado. Provavelmente captei melhor alguns pontos ao longo da história que lhe deram sentido. Quanto a recomendações: se já leram A Sombra do Vento e esperam encontrar exactamente a mesma fórmula, podem sair desiludidos. Porém, O Jogo do Anjoé, sem sombra para dúvidas, da mesma lavra de Carlos Ruiz Zafón e, se gostam de um thriller pleno de suspense, mistério e bastante sobrenatural, esta será uma aposta ganha.
Uma releitura realizada no âmbito do:
Classificação: 4,5/5* Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua
carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que
se seguem El Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre (reunidos no
volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento,
que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo
de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016)
regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em
mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores
nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles,
onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e
El País. Fonte:WOOK [adaptado]
No passado dia 9, tive a possibilidade de assistir a uma conferência sobre o tema o Humor na Comunicação, organizada com o objectivo de abordar «“O humor como uma arma
poderosa de interação e que torna qualquer discurso mais cativante e positivo,
afinal fazer rir estreita ligações e propicia a criatividade.”
Os oradores convidados irão partilhar a sua experiência onde
o humor sempre teve um papel importante mostrando através de histórias e
exemplos, que o sentido de humor também se aprende e se desenvolve ao longo da
vida, contribuindo para uma análise crítica de temas pertinentes e fraturantes
da nossa sociedade.»
Com a moderação de Paulo Barriga, jornalista e director do jornal Diário do Alentejo, Bruno Ferreira, humorista e imitador, e Luís Afonso, cartoonista, foram os oradores convidados.
Perante a pergunta se o humor é também um fogo que arde sem se ver (a tender para o filosófico), Bruno Ferreira falou sobre a dificuldade de definir o humor, considerando a efemeridade o seu maior entrave. Recomendou o livro de Ricardo Araújo Pereira,A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, em que o autor aborda a escrita de humor e os diversos recursos humorísticos passíveis de serem utilizados. Para Luís Afonso, enquanto cartoornista, o processo criativo pode ser doloroso: caso não seja imediato, torna-se inevitavelmente prolongado e esforçado. Além disso, é uma prova cega, ou seja, sendo maioritariamente o seu primeiro e único público antes da publicação, não obtém uma reacção imediata por parte dos destinatários, o que o leva a fazer e refazer o seu trabalho em diversas ocasiões. Os limites do humor são, segundo Bruno Ferreira, cada vez menores. Porém, tal adveio de um caminho percorrido de longos anos por diferentes humoristas que afastaram tais barreiras. Considera necessário o desprendimento para um criticismo eficaz e, sim, o humor está na moda porque bebe do quotidiano, constituindo a política e o futebol alvos preferenciais, com figuras como Gilberto Madaíl ou Jorge Jesus, que não apreciaram desde logo as suas caricaturas... Relativamente ao risco do humor opinativo e à transmissão de informação distorcida, Luís Afonso, enquanto jornalista com respeito pelo seu código deontológico, foi levado a alterar o seu método de trabalho, já que o surgimento do meio digital trouxe novas fontes informativas. Para ele, a matéria-prima deve ser respeitada e confirmada a veracidade informação, o que, por vezes, o conduz a uma encruzilhada: o tempo que decorre entre esta confirmação e a sua utilização poderá causar a desactualização, pelo menos em termos humorísticos. Dado que colabora com vários jornais (e com A Mosca para a RTP), admite que, ocasionalmente, reutiliza o mesmo tema, variando consoante o âmbito das publicações. Já para o nosso imitador, existe um acordo tácito entre quem cria e quem consome o humor: sabe-se que estará implícita, ainda que nem sempre de forma explícita, uma opinião. Além do mais, a caricatura consiste no aproveitamento e exagero de determinadas características, pelo que nem sempre é totalmente verídica. Tal como noutra áreas, no humor existem igualmente modas: encontramo-nos no período áureo de figuras como Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira, mas o exemplo mais visível da oscilação é o de Herman José. Existe actualmente espaço para vários tipos de humor, incluindo o negro ou o inteligente e, mesmo neste, a piada parva pode surgir. Quanto a estarmos perante uma overdose de humor nos meios de comunicação, a sua presença só se mantém dependendo do feedback e, claro, da moda. E se rir dá saúde e faz bem, estariam os nossos oradores conscientes de que estão a dar saúde? Entre nos dizer que rir provoca a libertação de endorfinas, o aumento do fluxo sanguíneo, o treino dos abdominais e o facto de 1 minuto de riso ser equivalente a 45 minutos de relaxamento, entre outros benefícios inegáveis, Bruno Ferreira não deixou margem para dúvidas. Resta o agradecimento por uma tarde bem passada e pelo privilégio de ouvir uma nova versão de Taras e Manias de Marco Paulo, desta feita interpretada por Passos Coelho. 😂
Título:Os Olhos de Allan Poe Título original: The Pale Blue Eye
Autor: Louis Bayard Tradutor: José Remelhe
Edição/reimpressão: 2011
Editora: Edições Saída de Emergência
Temática: Thriller histórico
N.º de páginas: 416
Sinopse: Corre o ano de 1830. Na Academia de West Point, a
tranquilidade de um final de tarde de Outubro é perturbada pela descoberta do
corpo de um jovem cadete enforcado junto ao recinto da formatura. Não é a
primeira vez que se verifica um aparente suicídio num regime ríspido como o de
West Point, mas, na manhã seguinte, constata-se um abominável acto ainda mais
grave. Alguém assaltou o quarto onde o cadáver repousava e levou o coração.
Desesperada para evitar publicidade negativa, a academia contrata os serviços
de Augustus Landor, ex-detective de renome. Viúvo, e atormentado no seu
isolamento, Landor decide aceitar o caso. Nos interrogatórios iniciais,
descobre um caprichoso e curioso jovem cadete com propensão para a bebida e com
um passado sombrio. O nome desse cadete? Edgar Allan Poe. Impressionado pelos
astutos poderes de observação de Poe, Landor está convencido de que o poeta lhe
pode ser útil - caso consiga permanecer sóbrio o tempo suficiente para colocar
em acção os seus perspicazes poderes de raciocínio. Trabalhando em estrita
colaboração, os dois homens desenvolvem um relacionamento surpreendentemente
profundo à medida que a investigação os conduz a um oculto mundo de sociedades
secretas, rituais de sacrifício e mais cadáveres. Porém, os macabros homicídios
e o passado secreto de Landor ameaçam afastar os dois e terminar com a sua
recente amizade.
Opinião:
Em Os Olhos de Allan Poe, a história tem como pano de fundo a academia militar de West Point, pelo ano de 1830. Neste local ocorre uma morte peculiar, assumindo contornos tenebrosos quando o cadáver desaparece e é posteriormente encontrado com o coração extraído. Para a investigação deste caso é destacado Landor, um investigador reformado, residente nas redondezas desde há alguns anos, que terá como objectivo descobrir os culpados e salvaguardar o bom nome desta instituição militar. E quem, se não Edgar Allan Poe, poderia ser o seu escolhido para ajudante nestas investigações? Todos poderão ser o criminoso: entre oficiais, funcionários e cadetes, há desconfianças de sobra. Os thrillers históricos, ao invés de contemporâneos, têm despertado o meu interesse e a presença deste Allan Poe, como personagem deste enredo, ainda mais o cativou. Tendo em conta a minha leitura de Todos os Contos, curiosa fiquei com este título e possíveis informações que desta leitura pudesse extrair. O autor, aproveitando o desconhecimento de vários aspectos da vida de Allan Poe, reclamou-o como uma das suas personagens. Desta forma, surge nesta narrativa como um jovem na casa dos vinte, culto, eloquente, sagaz e imaginativo. Apresenta, porém, uma faceta perturbada devido à morte da mãe na infância, que continua a venerar, e pela relação conflituosa com o pai adoptivo. Integra a academia de West Point após passagens atribuladas pelas vidas universitárias e militar, com o estigma de problemático e errático. Nesta fase, a sua produção literária tende para a poesia e a sua imensa cultura, evidenciada pelo seu discurso, encontra-se totalmente deslocada no meio académico de West Point, sendo, ao invés de valorizado, marginalizado pelos colegas. Acompanharemos Landor e Poe nas suas investigações pouco ortodoxas, num crescendo de mistério e suspense, perfeitamente levado a cabo pelo autor Louis Bayard. Os culpados e a conclusão parecem evidentes, todavia, de que forma nos enganamos, e este final não desilude pela previsibilidade que inicialmente aparenta, muito longe disso. Constituindo esta leitura um caso em que a ficção tomou posse da realidade, a personagem criada é tão palpável que, no fim, só desejamos que corresponda à histórica.
Classificação: 4,5/5*
Sobre o autor:
Segundo o Washington Post, com os seus três romances mais recentes, Mr. Timothy, Os Olhos de Allan Poe e The Black Tower, Louis Bayard ascendeu "ao topo da liga do thriller histórico". Notável autor do New York Times, foi nomeado para os galardões Edgar e Dagger e considerado um dos principais autores do ano pela revista People. Louis é também um ensaísta e crítico reconhecido a nível nacional cujos artigos foram publicados no New York Times, no Washington Post, no Los Angeles Time, no Huffington Post, Salon, Nerve.com e no Preservation. Entre outros romances da sua autoria incluem-se Fool's Errand e Endangered Species. Deu o seu contributo para as antologias The Worst Noel e Maybe Baby (HarperCollins) e 101 Damnations (St. Martin's). Fotografia: Goodreads
Depois de Dezembro e Janeiro bastante recheados [ver aqui], no mês de Fevereiro as aquisições foram, em número, mais modestas, mas nem por isso de menor qualidade.