domingo, 31 de julho de 2016

Música ao Domingo #11: Clã "Sexto andar"


Os Clã comemoram vinte anos de carreira e lançam uma colectânea com os seus vinte maiores êxitos, por isso, aqui fica uma das músicas que deles mais gosto.


Uma canção passou no rádio
E quando o seu sentido
Se parecia apagar
Nos ponteiros do relógio
Encontrou num sexto andar
Alguém que julgou
Que era para si
Em particular
Que a canção estava a falar

E quando a canção morreu
Na frágil onda do ar
Ninguém soube o que ela deu
O que ninguém
estava lá para dar

Um sopro um calafrio
Raio de sol num refrão
Um nexo enchendo o vazio
Tudo isso veio
Numa simples canção

Uma canção passou no rádio
Habitou um sexto andar

sábado, 30 de julho de 2016

Roteiros por Beja #2: No Museu Regional de Beja (parte I)

Na continuação dos roteiros por Beja, seguiu-se a visita ao Museu Regional de Beja (ou Museu Rainha D. Leonor), instalado num antigo convento, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e cuja dimensão original não é já a mesma. 

Sendo um museu muitas vezes ignorado pelos próprios bejenses, e cuja administração tem estado envolta em polémica, reúne no seu espólio uma variedade imensa de atracções. Vale a pena, sem sombra de dúvida, uma visita demorada e, se possível, guiada, que felizmente tive o prazer de usufruir por várias vezes.

Logo na entrada costumam estar patentes exposições temporárias. Desta vez o tema era "Aquedutos de Portugal".

No antigo Convento destacava-se a peculiaridade de coexistirem duas facções opostas, ou seja, freiras seguidoras de S. João Evangelista e freiras adeptas de S. João Baptista, possuindo estas últimas mais poder económico. Este facto culminou em diferentes obras artísticas que almejavam superiorizar-se às existentes.

Riquíssima em talha dourada, no centro da igreja, podem ser observados dois andores, incompletos, para desincentivar eventuais amigos do alheio e quatro altares: de S. Cristóvão e de S. Bento (1741) - ambos de barroco pobre -, e de S. João Evangelista - composto por madeira e folha de ouro, num barroco extremamente ornamentado - e de S. João Baptista com mármore de Florentina. Tanto estes altares como os andores colocados ao centro, testemunham a rivalidade anteriormente referida.

Dirigindo-nos para o claustro, encontramos a escudela de Pêro Faria, oferta da dinastia Ming, datada de 1541, de inestimável valor por ser apenas uma das três existentes (em Nápoles e Istambul encontram-se as outras duas). Curiosamente, foi descoberta numa casa particular em que não lhe era reconhecido o seu real valor e ofertada posteriormente ao museu. A sua importância deriva de ser uma das primeiras existentes com caracteres ocidentais, ainda por cima em português.

Em cada convento é usual haver um claustro, rectangular ou quadrangular Neste caso, é quadrangular e os corredores em seu redor denominam-se quadras.

Na quadra de São João Baptista, em que se encontra a capela a si dedicada datada de 1614, as paredes encontram-se cobertas por azulejos com magnólias em azul, amarelo e branco. As faixas de azulejo pretendem reproduzir as rendas de bilros.

Com azulejos portugueses do século XVII, surge a quadra da Portaria. Nela se localizaria a entrada original do Convento e a porta que, em estilo gótico-manuelino, seria uma entrada indirecta para o refeitório.

A quadra de São João Evangelista apresenta azulejos sevilhanos de xadrez do século XVI.  Os azulejos, de inspiração árabe, cobrem  as paredes que estariam repletas de pinturas. O pórtico, entrada para a Sala da Capítulo, está carregado de simbologia: lagartos e caracóis indicam o mal que actua devagar e profusamente; as parras serão sinal de vida e a rosa no topo o bem, que só poderá ser transcendido pelos santos.

Na quadra de Nossa Senhora do Rosário, igualmente com azulejos portugueses do século XVII, observam-se alguns achados arqueológicos, nomeadamente:
  • Estátua do deus romano da Medicina, Esculápio;
  • Uma cabeça de touro, ou seja, a cabeça de touro presente no brasão da cidade já provinha desta altura;
  • Um peixe em mosaico romano, sendo que poderia ser uma representação naturalista ou de parábola para a vida do pescador ou, ainda, símbolo dos primitivos cristãos. Este é realizado com cubinhos de pedra de tecela, utilizados primordialmente como pavimento de chão e piscinas e, só mais tarde, no Império Romano Bizantino, aproveitados como ornamentação nestas composições.

Na segunda parte dar-vos-ei mais detalhes, incluindo a história de Mariana Alcoforado, um dos símbolos da cidade.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf [Opinião]

Título: Mrs. Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Tradutor: Mário Quintana
Data de edição: 1992 (1.ª publicação em 1925)
Editora: Livros do Brasil
Temática: Romance
N.º de páginas: 340
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Sinopse:

Numa clara manhã de primavera, Clarissa Dalloway resolve sair para comprar flores para a festa que acolherá naquela mesma noite, em sua casa. Enquanto passeia pelas ruas de Londres, são recolhidas imagens, sensações e ideias, entrelaçadas com as personagens que habitam o seu mundo - do marido, Richard Dalloway, à filha, Elizabeth, e a Peter Walsh, amigo de juventude acabado de voltar da Índia - e que com ele se cruzam - como Septimus Warren Smith, veterano da Primeira Guerra Mundial assombrado pela doença mental. Romance que revelou em pleno o talento de Virginia Woolf, a sua perspicácia, a sensibilidade transparente e, sobretudo, a arte suprema de descrever os segredos das almas - não os atos mas as sensações que eles despertam - fazem de Mrs Dalloway uma obra-prima indiscutível da literatura universal.

Opinião:

Esta leitura seguiu-se a As Horas de Michael Cunningham, visto que se baseia assumidamente nesta. Ao longo dela, estabeleci imensos paralelos entre as duas obras: Cunningham busca em Virginia Woolf um dos três planos da sua narrativa e em Clarissa Vaughan a sua Mrs. Dalloway, para além de outras personagens em que se podem encontrar semelhanças.

A história segue Clarissa Dalloway sobretudo, mas igualmente outras personagens, no decorrer de um dia. Mrs. Dalloway encarrega-se de realizar, mais uma vez, uma festa na sua residência. A este pretexto e, naturalmente, explorando toda a vida de Clarissa, a narradora faz surgir uma série de personagens, entre as quais Sally, a sua amiga da juventude, revoltosa e contestatária; Peter, com o qual quase casou, e que se reencontram após imensos anos; Richard, o seu marido e Elizabeth, a sua filha. Surgem também Lucrécia e Septimus, numa história paralela, mas que converge à principal pelos motivos mais dramáticos. A abordagem feita aos sentimentos e pensamentos mais íntimos de todos os que surgem é espelho da acutilância com que a autora interpretava o mundo e os seus habitantes, bebendo-lhes a essência.

De notar que a história de Septimus continua actual, na medida em que demonstra o preconceito em relação à doença mental, a começar pelos próprios médicos, e a impotência dos mais queridos e próximos – neste caso Lucrécia – levados a um desespero quase idêntico ao dos próprios doentes.

Classificação: 4,5/5*

Sobre a autora:

Escritora inglesa nascida a 25 de janeiro de 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina, e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virginia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virginia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.

Em sua casa foi formado o Grupo de Bloomsbury, onde se reuniam regularmente personalidades como os poetas T. S. Elliot e Clive Bell, o escritor E.M. Forster entre outros artistas e intelectuais. Os quatro irmãos, entretanto, viajaram pela Grécia e Turquia, mas pouco depois do regresso morreu Tholby, em novembro de 1906. Virginia sofreu a primeira de muitas grandes depressões. Casou em 1912 com o crítico literário Leonard Woolf, que viria a ser o seu companheiro de toda a vida.
The Voyage Out, de 1915, marca o início da sua carreira de romancista, mas só dez anos depois, com Mrs Dalloway, considerado o seu primeiro grande romance modernista, chegou o reconhecimento como escritora reputada. Orlando, obra de 1928, confirmou as qualidades de Virgina Woolf. Esta obra tem um protagonista andrógino, inspirado na sua amiga Vita Sackville-West, com quem manteve uma longa relação íntima. Após obras como A Room of One's Own (Um Quarto Que Seja Seu), onde defende a independência das mulheres, The Waves (As Ondas) e The Years (Os Anos), em 1938 lançou um romance polémico, Three Guineas (Os Três Guineus), na sequência da morte de um sobrinho na Guerra Civil espanhola. Neste livro, Virginia Woolf defende que a guerra é a expressão do instinto sexual masculino. A 28 de março de 1941, pouco depois de ter lançado Between the Acts, Virginia Woolf suicidou-se, atirando-se a um rio com os bolsos cheios de pedras. Foi a segunda tentativa em poucos dias, interrompendo assim uma carreira marcada pela obtenção de diversos prémios literários, dos quais, contudo, só aceitou um, o Fémina, de França.

Paralelamente à atividade de escritora, Virginia, em conjunto com o marido, fundou e manteve uma editora, destinada a publicar textos experimentais, textos de amigos e traduções de russo. Intitulada Hobart Press, a editora funcionava em moldes caseiros, depois de em 1917 Leonard ter oferecido à esposa uma pequena tipografia. Fonte: WOOK

domingo, 24 de julho de 2016

Música ao Domingo #10: Kasabian "Where Did All the Love Go?"



Never took a punch in the ribcage, sonny
Never met a soul who had no shrine
Keep this all in your mind and get it inside my window

What do we become trying to kill each other?
You're faking it son, gonna get you tonight
I suck another breath to the hearts of the revolution
Because you still ain't right

Where did all the love go?
I don't know, I don't know
(I bet you can't see it)
Where did all the love go?
I don't know, I don't know
(I bet you can't see it)

Can't see the signs of a real change a comin'?
Take another sip from your hobo's wine
Get yourself a million miles from the concrete jungle

This is a time full of fear, full of anger
A hero's exchange for a telephone line
Whatever happened to the youth of this generation
Because it still ain't right

Where did all the love go?
I don't know, I don't know
(I bet you can't see it)
Where did all the love go?
Now I don't know why, oh why

The rivers of the pavement are flowing now with blood
The children of the future are drowning in the flood

Where did all the love go?
Now I don't know why, oh why

In this social chaos there's violence in the air
Gotta keep your wits about you, be careful not to stare

Where did all the love go?
I don't know, I don't know
(I bet you can't see it)
Where did all the love go?
Now I don't know why, oh why
(I bet you can't see it)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Roteiros por Beja #1: Seguindo a antiga muralha

Aos mais despistados podem passar ao lado os vestígios que existem da antiga muralha que rodeava a cidade. Por isso, em contexto de mais uma formação, foi-me proporcionada uma visita guiada para os conhecer. [Para mais informações sobre o Castelo de Beja e a sua muralha ver aqui e aqui]

O ponto de encontro foi a chamada Meia Laranja nas Portas de Mértola, junto ao mais antigo café da cidade, o Luiz da Rocha.

Junto à Caixa Geral de Depósitos, este torreão foi o primeiro vestígio observado das antigas muralhas romanas.

 Por cima da Casa Nataly, um mini mercado, revelou-se mais um pouco.

Na Rua Capitão João Francisco de Sousa, ocultada pelas lojas locais.

Fugindo ao tema principal, estes murais realizados recentemente pela cidade aquando do Beja na Rua, tornaram-se motivo de atracção.

E na continuação da observação da muralha, eis que surge um importante aviso...

...surgindo ela: as suas arestas são feitas em mármore e tem embutida uma cabeça de touro, naturalmente desgastada pelo tempo.

 Na Rua das Portas de Aljustrel.

Da Avenida Miguel Fernandes avista-se o depósito de água, já em processo de demolição, e que se situa na zona onde se localizaria o templo romano da Pax Jvlia.

Mais um dos murais anteriormente referidos, neste caso apresentando o retrato de João Honrado, jornalista e antifascista.  

Surgiu igualmente a oportunidade de visitarmos a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. Construída em 1672, pela responsabilidade da Irmandade da Nossa Senhora dos Prazeres, o seu espaço reduzido e limitado deve-se ao facto de a muralha da cidade delimitar o espaço disponível para a construção.

As famílias pertencentes a esta irmandade eram detentoras de grande poder económico e financiaram a sua construção, o que se deveu, sobretudo, à rivalidade com Évora, já que estas famílias ambicionavam que a Diocese retornasse a Beja, o que veio a suceder no século XVIII.

Na nave surge um mural (cuja foto se encontra mais abaixo): António de Oliveira Bernardes foi o seu projectista, e poderá dizer-se que é uma espécie de banda desenhada com episódios da vida de Nossa Senhora, utilizando estampas já existentes e reproduzidas em França e Itália. O tecto é o primeiro barroco no país e a sua forma indica que a fé não pode ser contida num espaço físico.

Quanto aos estilos temos, predominantemente: 
  • Maneirismo – no altar-mor;
  • Barroco – naturalismo e rococo – na nave.
No exterior encontra-se a capela de Santo Estevão.
( via Beja y Arrabaldes; foto: Rita Cortês)

Voltamos à muralha, continuamente oculta, perto da Santa Casa da Misericórdia de Beja. A reabilitação deste espaço seria de louvar.

Este roteiro terminou na recém-aberta Torre de Menagem do Castelo de Beja, cuja brancura de agora contrasta com as muralhas que a rodeiam.    

A título de curiosidade, todas as pedras usadas na construção estão assinaladas pelos canteiros que, desta forma, garantiriam os seus pagamentos e, ao se chegar ao cimo, na paisagem que surge destacam-se as torres das igrejas relativamente aos edifícios circundantes.

Para a semana haverá mais!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Passatempo #3: "Quadro de Honra"

Crónicas de uma Leitora está em festa! E numa iniciativa espectacular, a Vera Carregueira, que celebrou ontem o seu aniversário, decidiu presentear os seus seguidores e o As Horas... que me preenchem de prazer resolveu ajudar nas comemorações. Por isso, cedi para oferta um exemplar do livro Quadro de Honra e podem participar aqui.


Sinopse:
Entrevistas retrospetivas com elementos de 35 bandas portuguesas. 

Motivada pela vontade de recordar o passado inscrito ao longo de dezenas de edições, a equipa da revista LOUD! encetou um processo de (re)descoberta de alguns dos discos mais emblemáticos da música pesada nacional.

Falando directamente com os intervenientes e, em alguns casos, reunindo músicos que não estavam juntos há anos, pintou-se um quadro fiel das motivações, processos e consequências dos lançamentos mais importantes da música alternativa em Portugal.

Reunidos pela primeira vez num livro, e com vários originais, esta é a história do movimento underground português em todas as suas variantes, contada pela voz dos seus protagonistas.

Mais uma vez, ficam os parabéns à Vera e o agradecimento por me deixar participar na sua festa!
via GIPHY )