sexta-feira, 27 de maio de 2016

"A Árvore das Palavras" de Teolinda Gersão [Opinião]

Título: A Árvore das Palavras
Autora: Teolinda Gersão
Data de edição: 2003 (1.ª publicação: 1997)
Editora: Visão/Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 159
Para adquirir:


Sinopse:

"Ela estava na margem, olhando. Enquanto a vida, como os barcos à vela, passava ao largo. Era tudo tão visível e concreto que tinha vontade de chorar. Mas se chorasse era pior, sentiu tirando da mala um lenço de papel, era como se o mundo risse dela, os guarda-sóis, as casas, os barcos, as árvores, as pessoas, sobretudo as pessoas rissem dela."

Opinião:

Uma obra dividida em três partes em que se acompanha Gita e os pais, Laureano e Amélia, no primeiro acto; no segundo, a história de vida de Amélia; e o amadurecimento de Gita no terceiro. Gita é apresentada, inicialmente, como uma menina que encontra compreensão no pai e um tremendo sufoco da parte da mãe, pelo seu desejo de liberdade e independência. Os pais possuem prioridades completamente diferentes: enquanto Laureano se satisfaz com uma vida pacata e sem sobressaltos, Amélia mostra-se permanentemente insatisfeita com a sua sorte, invejando todos os que usufruem de um nível de vida superior ao seu e desdenhando os negros, como Lóia, a empregada doméstica. É neste embate de vivências tão diferentes que Gita cresce e se observa como as discriminações e os preconceitos podem condicionar as vidas.

Habilmente conduzido por Teolinda Gersão, o fio narrativo com avanços e recuos e repartido entre as personagens principais, torna a leitura fluída e saborosa. Moçambique surge como pano de fundo e, simultaneamente, como personagem principal, assumindo-se como a homenagem que a autora pretendeu realizar às dádivas de África recebidas.

"O dia não quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e a vida era gozosa e fácil como o jogo e o sonho. Podiam-se abrir os braços e gritar: Eu vivo - mas não era necessário esse gesto exultante e excessivo, as coisas eram tão próximas e simples que quase não se reparava nelas. Saía-se por exemplo a porta da cozinha sem se dar conta de transpor um limiar. Não havia separação entre os espaços, nem intervalos a separar os dias. Porque o corpo ligava a terra ao céu".

Classificação: 4,5/5*

Este livro foi autografado pela autora na sua vinda à Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago a 8 de Janeiro de 2016.

Sobre a autora: 
Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras de Lisboa e depois de provas académicas professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada. A partir de 1995 passou a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Além da permanência de três anos na Alemanha viveu dois anos em São Paulo, Brasil, e conheceu Moçambique, onde decorre o romance de 1997 A Árvore das Palavras.

Autora sobretudo de romances, publicou até agora duas novelas (Os Teclados e Os Anjos) e duas colectâneas de contos (Histórias de Ver e Andar e A Mulher que prendeu a Chuva).Três dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia: Os Teclados por Jorge Listopad no Centro Cultural da Belém, 2001; Os Anjos por por João Brites e o grupo O Bando, 2003; A Casa da Cabeça de Cavalo ganhou o Grande Prémio do Festival Internacional de Teatro de Bucareste, Roménia, em 2005, com encenação de Eusebiu Stefanescu. Encenada também na Alemanha por Beatriz de Medeiros Silva e o grupo Os Quasilusos, em 2005.

Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004.

O seu livro mais recente é o romance Passagens (2014).

Vive em Lisboa. Fonte: Teolinda Gersão | Site oficial

quinta-feira, 26 de maio de 2016

XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja [Divulgação]


De 27 de Maio a 12 de Junho irá decorrer a 12.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, um "grande evento com relevo a nível internacional e com grande repercussão europeia". 

Esta edição estreará um novo formato, deixando de se restringir à Casa de Cultura. As exposições, o mercado do livro e demais programação abraçará "o Centro Histórico da cidade e em particular o Largo do Museu Regional".

Podem encontrar toda a programação no site ou na página de Facebook oficiais do Festival. 

E me aguardem, porque será feita a devida «fotorreportagem». 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Atenção! A Feira do Livro de Lisboa está a chegar... [Divulgação]

...e a revista Sábado realizou um guia sobre quase tudo o que se refere a sessões de "autógrafos, lançamentos, showcookings, actividades para crianças e restaurantes". Leiam o artigo aqui:

Para mais informações, incluindo o calendário de eventos e os livros do dia, consultar o site oficial da 85.ª Feira do Livro de Lisboa ou a sua página oficial no Facebook.

E recomendo vivamente que provem estes maravilhosos brigadeiros. Já os provei e são uma delícia! Tudo sobre eles aqui:


Por aqui, a visita já está marcada e mal se pode esperar!
( via Giphy )

segunda-feira, 23 de maio de 2016

III Festival Beja Romana: a minha visita

Pelo terceiro ano consecutivo, durante os dias 20, 21 e 22 de Maio, a minha cidade foi palco do festival Beja Romana, em que se recriaram os tempos da grandiosa Pax Julia.

Segundo as palavras da Professora Conceição Lopes, "a cidade de Pax Iulia foi fundada por Augusto, algures entre os anos 25 e 15 do séc. I a.C." e o respectivo "forum localizava-se junto à actual Praça da República, como testemunham as escavações recentemente realizadas nesse local, as quais permitiram a descoberta do maior templo romano conhecido em território nacional". Assim se confirma a riqueza histórica de Beja que, felizmente, vem a ser descoberta pelos bejenses e pelo país com a realização destes eventos.

Nada melhor então do que mostrar alguns dos aspectos que mais gostei na minha visita:

Parte do acampamento militar, com réplicas do armamento usado à época.


Algum artesanato, não especificamente de inspiração romana, mas bastante original.



O palco e um tabernáculo de homenagem a Marte e a Vénus.


Exposição de aves de rapina, demonstração de cavalos, passeios de burro para crianças.
 


E, claro, inúmeros figurantes, entre os quais se encontravam vários habitantes.
 


Uma iniciativa que trouxe uma animação raramente vista no centro histórico da cidade e da qual se espera a repetição nos anos vindouros.

domingo, 22 de maio de 2016

Música ao Domingo #2: Beirut "Elephant Gun"



If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around

Let the seasons begin - when all was right and wrong
Let the seasons begin - take the big king down

Let the seasons begin - when all was right and wrong
Let the seasons begin - take the big king down

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all that I hide

quarta-feira, 18 de maio de 2016

"Toda a Luz que Não Podemos Ver" de Anthony Doerr [Opinião]

Titulo: Toda a Luz que Não Podemos Ver
Título original: All the Light We Cannot See
Autor: Anthony Doerr
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Editorial Presença
Temática: Ficção histórica
N.º de páginas: 520
Para adquirir (outra edição da obra):

Sinopse:

Marie-Laure é uma jovem cega que vive com o pai, o encarregado das chaves do Museu Nacional de História Natural em Paris. Quando as tropas de Hitler ocupam a França, pai e filha refugiam-se na cidade fortificada de Saint-Malo, levando com eles uma joia valiosíssima do museu, que carrega uma maldição. Werner Pfenning é um órfão alemão com um fascínio por rádios, talento que não passou despercebido à temida escola militar da Juventude Hitleriana. Seguindo o exército alemão por uma Europa em guerra, Werner chega a Saint-Malo na véspera do Dia D, onde, inevitavelmente, o seu destino se cruza com o de Marie-Laure, numa comovente combinação de amizade, inocência e humanidade num tempo de ódio e de trevas.

Opinião:

As Grandes Guerras são, e continuarão a ser, uma inesgotável fonte de inspiração para relatos, ficcionados ou reais, que nos permitem assistir a lições de vida (e de valorização da mesma) indescritíveis.

Sem dúvida que as personagens principais, Marie-Laure LeBlanc e Werner Pfennig, em pólos opostos da guerra, nos trazem perspectivas únicas sobre o que foi a 2.ª Guerra Mundial. Porém, a inteligência, a sua perseverança na sobrevivência e o facto de verem e sentirem de forma lúcida a realidade que os rodeava, tornou-os especiais e, instintivamente, reconheceram-se um ao outro como semelhantes. E a alternância de relatos entre as duas personagens permitem-nos acompanhar o seu sofrido percurso com ânsia e preocupação.

Todas as outras personagens - Daniel LeBlanc, o pai de Marie-Laure, e o seu tio-avô Étienne, Jutta, irmã de Werner, Madame Manec, Von Rumpel, Frederick, e tantas outras - apesar de completamente diferentes, expõe uma galeria de quase todas as facetas da espécie humana, transmitindo-me mensagens significantes enquanto leitora.

Não a encarei enquanto leitura compulsiva - aliás, saborear foi a palavra-chave. Foi mesmo bastante pausada, degustada, com a calma necessária para imaginar o que seria não ver e desfrutar dos restantes sentidos, ou não conhecer a música vinda de um rádio e, pela primeira vez, ouvi-la e fazer dos sons o centro da minha vida. O mar que Marie-Laure descobriu teve um eco profundo em mim.
Compreendo as críticas dirigidas ao parco encontro de Marie-Laure e Werner, porém, mais do que esse encontro, considero que o percurso até ele é absolutamente mais relevante, tal como as suas consequências.

Concluo, reflectindo que as guerras, de dimensões bíblicas ou territoriais, continuam a ser uma tragédia, já que impossibilitam milhões de continuarem a abrir os olhos e de verem "tudo o que conseguirem ver antes que se fechem para sempre". Esta será uma história que, espero, perdurará na minha memória por muito e muito tempo, e sobre a qual não poderia deixar de escrever.

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:

Anthony Doerr nasceu em Cleveland, no Ohio em 1973. Vive com a mulher e os dois filhos em Boise, no Idaho. Publicou os livros de contos - The Shell Collector (2002) e Memory Wall (2010), uma autobiografia Four Seasons in Rome (2007) e dois romances, About Grace (2004) e Toda a Luz que não Podemos Ver, que foi finalista do National Book Award em 2014 e bestseller número 1 do New York Times. Anthony Doerr já foi galardoado com vários prémios, tanto nos Estados Unidos como noutros países: quatro O. Henry Prizes, três Pushcart Prizes, dois Pacific Northwest Book Awards, três Ohioana Book Awards, Barnes & Noble Discover Prize, Rome Prize, New Yorker Public Library’s Young Lions Award, Guggenheim Fellowship, NEA Fellowship, National Magazine Award para ficção. Em 2010, recebeu o Story Prize, um dos mais prestigiados prémios nos Estados Unidos e o Sunday Times EFG Short Story Award. Em 2007 a revista literária Granta considerou Anthony Doerr um dos melhores jovens romancistas americanos.