domingo, 15 de maio de 2016

Música ao Domingo #1: David Fonseca "Hoje eu não sou"



Abre os olhos são 6 da tarde do dia que já passou,
acordei dentro de um corpo dormente tal e qual ao que se deitou,
hoje eu não sou
transparente tão ausente já esqueci tudo o que lembrei,
hoje eu não sou
quase nada, alma apagada e tenho tanto que ainda não tem,
saio de casa passo apressado mas não sei bem para onde vou,
sigo a calçada mas está desfocada tanta gente que aqui já passou
hoje eu não sou
quase morto, controlo remoto, sou boneco à tua mercê,
hoje eu não sou
de joelhos bola de espelhos dá-me luz mas nunca me vê,
hoje eu não sou
hoje eu não estou
sou um fantasma de um desejo
sou só uma boca sem o teu beijo
hoje eu não sou
hoje eu não estou
sou uma chaga sempre aberta,
e o teu abraço só me aperta onde eu não sou,
ponho dois pratos na mesa um retrato em que sorris para quem o tirou,
faço as perguntas, dou as respostas tu já foste eu ainda aqui estou,
hoje eu não sou
já deitado farol apagado, quarto escuro não sei de quem,
hoje eu não sou
uma prece só reconhece a tua voz e a de mais ninguém,
hoje eu não sou
hoje eu não estou
sou um fantasma de um desejo
sou só uma boca sem o teu beijo
hoje eu não sou
hoje eu não estou
...
onde estás no escuro eu não te vejo

tudo me faz lembrar de ti mas não te tenho

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Mil e uma Noites Mil e uma Histórias - HISTÓRIAS DE TANTOS LUGARES com Maria Clara Cavalcanti

Ontem à noite, uma vez mais marquei presença na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago para mais uma noite de contos, desta vez com a presença de Maria Clara Cavalcanti, excelente narradora brasileira.


Foi uma hora e pouco num serão bem passado, em que Maria Clara contou histórias que desconhecia e outras que conhecia da tradição portuguesa, mas com adaptações notórias à cultura brasileira. Aliás, foi referido pela própria que, ao longo das suas pesquisas sobre contos de todo o mundo, encontrou o mesmo conto em diferentes regiões do mundo com as respectivas adaptações à sua origem geográfica. Por exemplo, existe a Cinderela africana, ajudada por um sapo, ou uma Cinderela japonesa, neste caso auxiliada por um peixe. Curioso ainda como, uma tribo índia de Goiás tinha uma história tão semelhante a O Príncipe com Orelhas de BurroJuca Sára tem Orelhas de Maracajá.


O Mil e Uma Noites, Mil e Uma Histórias é uma iniciativa organizada pela Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, realizada há vários anos e, devido aos profissionais que nela trabalham, Beja tem uma forte tradição de narração oral com o seu expoente máximo no evento Palavras Andarilhas.  Brevemente falarei nele, uma vez que se vai realizar este ano. 

E na vossa região, também têm a sorte de a biblioteca organizar eventos como estes? 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"Uma Noite Caiu Uma Estrela" de David Machado e Paulo Galindro [Opinião]

Título: Uma Noite Caiu Uma Estrela
Autor: David Machado
Ilustrador: Paulo Galindro
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Alfaguara
Temática: Infanto-juvenil
N.º de páginas: 48
Para adquirir:


Sinopse:

Uma noite, cai uma estrela na terra. Um menino resolve guardá-la sem saber que a luz emitida pela estrela vai impedir toda a gente de dormir. É uma história sobre coragem, sobre superação de adversidades, sobre a aventura que é ser-se criança.

Opinião:

Esta é uma história sobre um menino pouco confiante, o Óscar, posto à prova quando uma estrela cai do céu e escolhe ficar com ela, impossibilitando-se de dormir devido à sua permeável e ofuscante luz.

Por um lado, as maravilhosas ilustrações de Paulo Galindro relembram-me o universo de Tim Burton, que muito aprecio, quer pelo traço, quer pelo seu colorido monocromático; já os apontamentos a vermelho trouxeram-me à memória A Lista de Schindler. A história, escrita por David Machado, é simples mas com uma moral bem definida. Excelente para nos lembrarmos que, para se ultrapassarem os medos que nos perseguem e as constantes dificuldades com que nos deparamos, um pouco de coragem basta.

Um livro a que vou sempre 
voltar quando me sentir desesperançada e incrédula quanto ao futuro.

"O importante é que, apesar do MEDO que imediatamente rebentou  dentro do seu peito, o Óscar não foi capaz de resistir ao impulso de segurar a estrela na sua mão. Como todas as crianças, ele sabia que não há nada tão bonito como o brilho das estrelas à noite".

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:


David Machado nasceu em Lisboa em 1978. É autor do romance O Fabuloso Teatro do Gigante e do livro de contos Histórias Possíveis. Em 2005, o seu conto infantil A Noite dos Animais Inventados recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca, da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso, e desde então publicou mais três contos para crianças, Os Quatro Comandantes da Cama Voadora, Um Homem Verde num Buraco muito Fundo e O Tubarão na Banheira, distinguido com o Prémio Autor SPA/RTP 2010 de Melhor Livro Infanto-Juvenil. Tem livros publicados em Itália e Marrocos e contos presentes em antologias e revistas literárias em Itália, Alemanha, Noruega, Reino Unido, Islândia e Marrocos. Traduziu os livros O Herói das Mulheres, de Adolfo Bioy Casares, e Obrigada pelo Lume, de Mario Benedetti.  Fonte: WOOK


Nascido em 1970 e licenciado em arquitetura, Paulo Galindro é autor de diversos livros ilustrados, feitos em parceria com alguns dos mais importantes escritores nacionais e internacionais, como Luís Sepúlveda, António Mota, David Machado, entre outros. Viu a sua obra premiada por diversas vezes. Juntamente com Natalina Cóias criou o coletivo de ilustração Pintarriscos.  Fonte: BOOKOFFICE

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Passatempo #1: "Dias Perfeitos" de Raphael Montes [TERMINADO]

Como forma de dar a conhecer este novo espaço na blogosfera, decidi realizar o seu primeiro passatempo. Desta forma, será sorteado um exemplar de Dias Perfeitos de Raphael Montes. 

Sinopse: Téo é um solitário estudante de Medicina que divide o seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas. Durante uma festa, conhece Clarice. Obcecado por ela, começa então uma aproximação doentia, que o leva a tomar uma atitude extrema que estabelece entre o casal uma rotina repleta de tortura psicológica e sordidez. "Dias Perfeitos" é uma história de amor, sequestro e obsessão.

Sobre o autor: Nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na Playboy e na prestigiada revista americana Ellery Queen Mystery Magazine. Suicidas, romance de estreia do autor, foi finalista do prémio Benvirá de Literatura 2010, do prémio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do prémio São Paulo de Literatura 2013.

Este passatempo não é apoiado por nenhuma editora, já que o exemplar fazia parte da minha biblioteca - mas garanto que está como novo, não se preocupem. 

Leiam as regras que se seguem, preencham o formulário com atenção e boa sorte a todos!

Regras:
1. Só são válidas as participações em que os dados solicitados sejam correctamente preenchidos.
2. Apenas é permitida uma participação por pessoa e por morada (moradas de envio em Portugal Continental e Ilhas).
3. Só são válidas participações de seguidores da página de Facebook e/ou do blogue, que realizem partilha pública do passatempo, tal como solicitado no formulário.
4. O passatempo termina dia 29 de Maio às 23h59m.
5. O vencedor será escolhido aleatoriamente através do mecanismo criado para o efeito pertencente aos formulários Rafflecopter.
6. O vencedor será anunciado no blogue e contactado para o e-mail que indicar no formulário. Tem 72h para responder ao e-mail, caso contrário, será sorteado um novo vencedor.
7. O envio do prémio não representa qualquer custo para o vencedor e a administração do blogue não se responsabiliza por eventuais extravios dos CTT.
8. Caso não concorde com algum dos pontos anteriormente referidos, por favor, abstenha-se de participar.

sábado, 7 de maio de 2016

Livros RTP - Coleção Essencial [Divulgação]


É verdade, os velhinhos livros RTP, que muitas vezes se encontram nas feiras de velharias, alfarrabistas, ou em qualquer outro sítio onde possamos encontrar livros em segunda mão, estão de volta, com um design simplista, agradável e uma relação qualidade-preço bastante apreciável.


Todos os meses sairá um novo título e está prevista a publicação de 25 livros, sendo os 12 primeiros:
  • Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (prefácio de Zeferino Coelho)
  • A Guerra do Fim do Mundo de Mario Vargas Llosa (prefácio de António Mega Ferreira)
  • Jerusalém de Mia Couto (prefácio de Miguel Real)
  • A Mancha Humana de Philip Roth (prefácio de Clara Ferreira Alves)
  • Capitães da Areia de Jorge Amado (prefácio de José Carlos de Vasconcelos)
  • As Naus de António Lobo Antunes (prefácio de Ricardo Araújo Pereira)
  • Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez (prefácio de Alberto Manguel)
  • O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald (prefácio de António-Pedro Vasconcelos)
  • Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires (prefácio de Carlos Reis)
  • A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera (prefácio de Inês Pedrosa)
  • As Cidades Invisíveis de Italo Calvino (prefácio de Nuno Júdice)
  • A Geração da Utopia de Pepetela (prefácio de Ondjaki)

Já tive em mãos Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (lançado a 21 de Abril) - o primeiro livro que li do autor, o meu preferido, mas que ainda não tenho na minha biblioteca... - e gostei bastante da capa dura e do tamanho - julguei que eram de bolso, como os antigos, mas não, o formato é o normal. Tive de me controlar para não o trazer... 

Desta forma, por achar que é uma excelente iniciativa, aqui a divulgo e recomendo. 

Podem encontrá-la aqui: http://www.leyaonline.com/pt/promocoes/colecao-essencial-livros-rtp/

quinta-feira, 5 de maio de 2016

"O Torcicologologista, Excelência" e "breves notas sobre música" de Gonçalo M. Tavares [Opinião]

Título: O Torcicologologista, Excelência
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015 
Editora: Caminho
Temática: Ficção
N.º de páginas: 265
Para adquirir:


Sinopse: 

"- Gosto muito de bater na cabeça das pessoas com uma certa força.
- Gosta?
- Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
- E ela - a Excelência - vai?
- Sim. Quem não gosta de ser chamado à distância por Vossa Excelência? Apanho sempre, primeiro, as pessoas pela vaidade… é a melhor forma.
- E quando a pessoa-Excelência chega ao pé de Vossa Excelência, o que acontece?
- Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa força na cabeça de Vossa Excelência. É isto que eu digo, apenas. Nem mais uma palavra."

Opinião:

Primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, ainda por cima autografado pelo autor, que esteve presente na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago a 4 de Dezembro [de 2015].

O Torcicologologista, Excelência divide-se em duas partes - Diálogos e Cidade. Na primeira, maior em número de páginas, encontramos uma série de diálogos, dos quais posso destacar Como relatar uma experiência dolorosa e Sobre o pensamento e o bater na cabeça, por exemplo. São diálogos que, pelo absurdo e surrealismo de algumas suposições e acções, abrem campo às mais variadas reflexões do leitor. Os interlocutores dialogam cordialmente, ainda que as acções que desempenham nem sempre o sejam  e o tratamento por "Excelência" ainda mais enfatiza essa cortesia.

Relativamente a Cidade, que encerra o livro, encontramos aquilo a que eu chamo de enumerações, dado que se tratam de frases curtas sobre estados e acções de indivíduos que, em vez de nomeados, são numerados pelo autor. Segue-se um excerto para que melhor se compreenda o que quero dizer:

"O Número 1 disse uma vez que queria matar o pai, mas não era isso que queria dizer.
O Número 2 não pára de falar.
O Número 3 ainda não disse uma palavra.
[...]
O Número 42 está a dormir com a amante.
O Número 43 partiu outra vez um copo.
O Número 44 foi ao hospital visitar o pai e quando voltou disse à mulher: mais um mês.
O Número 45 está careca, está a fazer quimioterapia, diz que está bonita mas está assustada, treme muito quando leva um copo à boca. O marido diz que ela está linda mas sabe que não é verdade.
O Número 46 diz sim.
O Número 47 dia não."

Possui passagens brilhantes, hilariantes, acutilantes, que expõe a cru a natureza humana. As palavras que me surgem para melhor o descrever seriam: diálogos que fazem pensar, enumerações que perturbam.

Em algumas das emissões de O Livro do Dia (emitido na rádio TSF),  Carlos Vaz Marques e o ator Gonçalo Waddington dão voz a estes diálogos de Gonçalo M. Tavares. Para ouvirem, basta clicarem aqui: O Livro do Dia @ TSF e de seguida procurarem pelas emissões denominadas O Torcicologologista, Excelência.

Classificação: 4,5/5*


Título: breve notas sobre música
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015 
Editora: Caminho
Temática: Ficção
N.º de páginas: 265
Para adquirir:

Sinopse: 
«1. Um homem que gostava de ouvir música às escuras mas com uma lanterna na mão.
Quando ligava a lanterna, não a apontava para o aparelho técnico de onde saíam os sons, mas sim para o espaço por onde a música se espalhava. Queria localizar os sons como se localiza um objecto.»
Esta é uma das breves notas sobre música, de Gonçalo M. Tavares.

Opinião:

Decidi juntar esta opinião à anterior uma vez que foram leituras com pouco tempo a separá-las. Assim, sendo a minha segunda leitura de Gonçalo M. Tavares, já estava familiarizada com a sua forma de escrever: nada complexa nem pretensiosa.

Em breve notas sobre música, a música, naturalmente, é a protagonista das reflexões do autor que, desta vez, não surgem sobre a forma de diálogos, mas de pequenos textos, acompanhados de ilustrações de Rachel Caiano. Fala-se da música enquanto objecto corpóreo, dos músicos, dos ouvintes e das suas atitudes perante ela e de infindas associações passíveis de serem realizadas, numa busca incansável por uma possível definição.

Deixo-vos esta passagem, de que gostei imenso: "A pré-história do homem parece muda; pelo menos fazemos dos nossos velhíssimos pais seres mudos com mãos e cérebros. [...] mas que não são pensados como capazes de produzir música. [...] O que nos conta a história é que fizeram objectos, o fogo, utensílios requintados, mataram, esganaram, trucidaram e, uma ou outra vez, salvaram. Mas as mãos dos antigos também pintaram e desenham e, sim, claro, tocaram no mundo que existia para que o mundo que existia, em contacto com as superfícies do seu corpo, produzisse música. Mas disso pouco sabemos. Conhecemos alguns instrumentos mas não a música. Recuperámos o esqueleto mas não o sangue".

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países.

Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Com Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros.

Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, etc. Fonte: WOOK