sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve"


 ( via glamorous things )

Sei que este texto tem circulado pela blogosfera desde a sua publicação, mas não resisti a partilhá-lo convosco. Identifico-me com quase tudo e adorei lê-lo. Enjoy! (:
Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nova estante, novos espaços

Há uns tempos publiquei umas fotos das minhas estantes. Como não eram suficientes e o meu quarto é pequeno, tinha que fazer um estudo aprofundado cada vez que comprava um livro, para descobrir onde o podia enfiar... Depois de muito pedinchar, tiveram dó do meu vício por livros e uma vizinha ofereceu-me uma nova estante. Eis o resultado:






Continuo a ter dois pequenos módulos, que usei para aproveitar o espaço nas mesas-de-cabeceira, e outro módulo para as colecções da revista Sábado.




 E ainda, estas duas aquisições: um cadeirão bastante confortável e este tabuleiro de apoio para os livros ou portátil.


E por agora é tudo... Até que volte a precisar de novos espaços para a minha crescente biblioteca. (:

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

fénix


( via Pinterest )

fénix 
insofrida
requeimada
retorcida
asas
em frenesim
sonhos e cinzas 
esvoaçantes
ser desgraçado
sou eu
que te falo

pela janela em que te vi
repouso
o meu regaço
brilham
como brasas
as duas lágrimas
escorrem

olhas 
como quem 
não quer 
quer
tudo de mim

lábios teus 
anelos
me pedem
infalível a fraqueza
estremece
alma e corpo
te dou

fénix 
insofrida
requeimada
retorcida
tuas asas
procuro
e
ardo 
não sei quem sou.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

E ainda... Ondjaki

( Mulher à janela de Fernando Botero)

"(…) Nada.., que a tuga até num vale a pena…! Mambo(1) que às vezes penso – epá, vais rir, eu sei, mas é o rabo das tugas… Meu, tábua d’engomar, a xoetice(2) toda? Rabo foi aonde então, Nzambi(3) lhes castigou assim porquê?, nossa observação que nós fazíamos, antigas missões na tuga e noutras europas mais, comissão disto e daquilo que dava é pra tirarmos comissões no nosso bolso, e nós ali no bar, fim de tarde, sem as palavras – os olhares só: uma tuga, duas tugas, muitas tugas, mas agora pra encontrar inda um rabo de acender mesmo as vistas? Passas mal. Uí, falo isso por causa da maka(4) das culturas, diferenças só, que eu fico mesmo a pensar que a cultura está mesmo até nos nossos olhos de pessoas, tás a rir?, gala(5) só então: um gajo é daqui, fica a pôr riso na dança dos tugas e outros europeus, ancas desarranjadas e não dão semba(6), tão a falar é malcriado, mambos(7) dos brasileiros, carnaval só. Afinal? Mas depois, considera só: eles também a nos verem dançar e vestir e pôr cu duro, num vão falar dança dos bêbados?, a dar bungula(8) puramente e pôr açúcar e as kabetulas(9) todas, num vão dizer estamos a ficar parecidos com os macacos?, xinguilamentos(10) musicais? Olhos deles, muadiê(11), tou ta pôr, e os nossos olhos todos de cada um: culturas!, num enormes plural e final das contas.” – página 105, em Quantas Madrugas Tem a Noite, de Ondjaki.

(1) coisa; assunto. (2) desprovimento de nádegas salientes. (3) Deus. (4) problema. (5) vê. (6) passo de dança que consiste no confronto das zonas pélvicas entre duas pessoas. (7) coisas; assuntos. (8) tipo de dança. (9) tipo de dança. (10) o estrebuchar. (11) moço; rapaz; homem.


Admirável como Ondjaki consegue conjugar temas tão diversos como a anatomia feminina e os preconceitos culturais. Simultaneamente, deu ainda pequenos consolos à minha auto-estima. Peso 70 kg e a minha gordura está localizada nas ancas e nas coxas. Deverei eu, e todas as mulheres que não tiveram a sorte da perfeição, emigrar para Angola? Ou tudo não passa de uma brutal futilidade que só tem valor pelo lugar em que nascemos e fomos educados? E como isto é tudo, pois caso tivéssemos derivado de um sítio onde fosse culturalmente aceite que, por um lado, os homens andassem de saltos altos e, por outro, as mulheres se pavoneassem nuas para facilitar a reprodução, alguém veria o ridículo da questão? Eu não.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Influências camonianas


Até hoje nunca tinha compreendido tão bem o drama de Camões...

Há poucas horas fui submetida a uma cirurgia oftalmológica para corrigir a miopia do olho direito, ou seja, quando este olho estiver «operacional» vou ver bem sem óculos ou lentes de contacto. O mesmo acontecerá com o olho esquerdo, intervencionado daqui a sensivelmente um mês.

Voltando à afirmação inicial: na noite de domingo para segunda sonhei com o Poeta. Não que tenha algo contra ele, pois até já li a monumental obra que é Os Lusíadas. Porém, se já andava nervosa, não me deixou propriamente descansada vê-lo surgir de entre as sombras.

Bom, em parte o «prenúncio» concretizou-se. Primeiro, porque tenho um olho tapado - graças a deus que não foi vazado durante uma escaramuça! - e o campo de visão substancialmente reduzido. Segundo, porque quando o destapar não vou puder fazer o que mais gosto por um período que me parece por demais longo: satisfazer o vício da leitura e, também, o de escrever aqui para o blogue. Mas sei que todos estes incómodos vão valer a pena, nem que seja pela minha saúde e pela minha auto-estima.

Por isso vos peço que me desejem uma rapidíssima recuperação, para que não esteja missing my wonderland...

Até breve!, ou, como eu gosto de dizer, see u soon