terça-feira, 7 de junho de 2011

Árvore


( pintura elaborada por mim )

Tronco meu corpo
Raízes minha vida,
A elas busco a seiva que o faz medrar.
Nascem as ilusões
E em ramos se vão mostrar.
Por vezes entrelaçam-se,
Por vezes folhas surgem,
Poucas vezes brotam flores,
Ainda menos frutos nascem.

O vento sopra:
As folhas caem,
Os frutos despedaçam-se,
As flores morrem.
Resta o meu corpo
Vazio,
Tão frio.

Quem me vem salvar?

Ai vida, dá-me a seiva!
E ela dá, sem nunca parar.

domingo, 5 de junho de 2011

"Precious" de Sapphire [Opinião]

Título original: Push
Autor: Sapphire
1.ª publicação: 1996
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 180

Para adquirir (outra edição da obra):


Sinopse:

Esta é a história de Claireece Precious Jones, uma jovem de 16 anos, igual às outras raparigas da sua idade em muitas coisas... mas muito singular noutras: Claireece é obesa, analfabeta, foi vítima de abusos sexuais do seu pai, do qual teve uma filha, e é maltratada psicologicamente pela sua mãe. Quando Precious, após outra violação, fica novamente grávida, é expulsa da escola e começa uma nova educação num centro especial para casos extremos... e a sua vida mudará para sempre.

Poucos filmes causaram tanta comoção nos festivais de Sundance e de Cannes de 2009 como Precious de Lee Daniels, no qual as interpretações da recém-chegada ao grande ecrã Gabourey Sidibe no papel de Precious e Mo'Nique no da sua abusiva mãe foram celebradas pela crítica e arrasaram todos os prémios do ano.



Opinião:

Li há poucos dias Precious de Sapphire porque senti necessidade de um exemplo de força e coragem, o que me fez lembrar que este era um livro que falava disso mesmo.

Quem nos fala é Claireece Precious Jones, uma rapariga afro-americana de 16 anos, obesa, que está grávida pela segunda vez do próprio pai (foi mãe pela primeira vez aos 12 anos de uma criança com Síndrome de Down) e que chegou ao 9.º ano analfabeta (só chumbou duas vezes) - para ela todas as páginas são iguais. É ainda vítima da violência física e psicológica da mãe, uma pessoa desestruturada a todos os níveis, que culpa a filha, por ela ter engravidado, de o pai as ter abandonado.

A linguagem tenta retratar as dificuldades por que passa alguém que só aprende a ler e a escrever aos 16 anos. Não sinto que o objectivo tenha sido alcançado, porque se via que Precious tanto escrevia mal palavras simples, como conseguia escrever palavras no mínimo complicadas para uma pessoa possuidora de tão reduzido vocabulário. Ressalve-se que a linguagem utilizada é explícita, o que não nos deixa passar indiferentes por esta leitura - obriga-nos a parar e a reflectir, a retomar o fôlego e a preparar-nos para mais um murro no estômago - o que deve,  sem dúvida alguma, perturbar as mentes mais susceptíveis.

A sucessão de desgraças que ocorrem a Precious é tão intensa que se torna inverosímil: parece padecer e concentrar em si todos os sofrimentos possíveis e imagináveis. Apesar disso, a sua força é, no mínimo, inspiradora. Com a ajuda das suas colegas e da professora Blue Rain da escola alternativa Each One Teach One, vai ultrapassando todas as contrariedades que se lhe deparam, preocupando-se com o seu destino, na medida em que este inclua também um futuro risonho para os seus filhos.
O livro fala ainda de casos de outras mulheres, colegas de turma de Precious: vítimas da droga, do incesto, do roubo e da violência, foram crianças que não existiram...

Está patente uma intensa crítica ao sistema de ensino americano que permitiu que Precious chegasse ao 9.º ano (com 16 anos e só chumbando em dois anos) sem saber ler nem escrever (chegou a ter óptimas notas!). Nenhum dos professores que a ensinaram se preocupou em descobrir as causas dos alarmantes sinais de perturbação emocional que demonstrava.

Igualmente se critica o Well Fare State, correspondente à Segurança Social portuguesa, relativamente à sua  importância para salvar as pessoas de uma situação de penúria extrema, por um lado, e à fiscalização ineficiente, por outro, criando situações viciosas como a de mãe de Precious que, para além de não trabalhar e não procurar emprego, ainda por cima utiliza a filha e a neta - esta última que nem sequer está a seu cargo, mas sim com a mãe, avó de Precious - para obter os cheques da Segurança Social.


O filme: Confesso que as minhas expectativas não eram muitas uma vez que o filme foi produzido pela Oprah Winfrey (o conceito do programa dela é pelo menos duvidoso...). Por outro lado, na altura em que foi lançado, foi tão aclamado pela crítica que ainda me lembrava disso três anos depois. É uma adaptação quase integral do livro, com poucas alterações, que se notam principalmente a partir do meio do filme e não se poupa em reproduzir as suas imagens chocantes. Felizmente estas são alternadas com momentos menos maus que nos ajudam a ver o filme até ao fim. Termina com o destino de Precious em aberto, dando-nos a esperança de que a partir dali só algo de bom lhe pode suceder.

Certo é que, tanto no livro como no filme, a mensagem patente é a de que se tem de lutar para que não nos deixemos dominar pelo infortúnio e para que alcancemos os nossos sonhos. A vida não é fácil, porém, não é menos verdade que podemos sempre fazer algo para que ela melhore.

Classificação: 4/5* (Vale, sobretudo, pela sua mensagem)

domingo, 29 de maio de 2011

"Filhos e Amantes" de D. H. Lawrence [Opinião]

Título original: Sons and Lovers 
Autor: D. H. Lawrence 
1.ª publicação: 1913 
Editora: Público 
Temática: Romance 
ISBN: 9789896820855 
N.º de páginas: 507
Para adquirir (outra edição da obra):



Sinopse:

"Este clássico de D. H. Lawrence passa-se nas minas de carvão de Nothingham e acompanha a vida da família de Walter Morel, mineiro de profissão. Cansado e desiludido com o seu trabalho, Morel é um homem rude que está frequentemente alcoolizado. A sua mulher, decepcionada com o seu comportamento, acaba por depositar todas as suas esperanças nos filhos, principalmente em Paul, o protagonista do romance. Filhos e Amantes é considerado o primeiro retrato moderno do Complexo de Édipo, estudado por Freud.

D. H. Lawrence não ganhou o prémio Nobel por ser considerado um misógino "fora de moda". O escritor de Lady Chaterley foi uma figura controversa, com obras censuradas pelo seu erotismo, o que pode ter contribuído para a não atribuição do prémio."

Opinião:

Quem não ouviu já falar do complexo de Édipo? Freud formulou-o com base na tragédia grega Édipo Rei. De forma resumida, esta contava-nos a história de Édipo: ainda em pequeno, após ser predestinado pelos oráculos que mataria o seu pai e se casaria com a mãe, os pais, reis de Tebas, resolvem abandoná-lo. Encontrado por um pastor, Édipo cresce e sai da sua terra. Ignorando as suas verdadeiras origens, encontra no caminho o seu verdadeiro pai, acabando por matá-lo. Ficando com o direito a ser rei de Tebas por um desafio que ultrapassou, sua cidade natal. Inconscientemente escolhe para sua consorte a sua própria mãe, tendo com ela quatro filhos. Novamente os oráculos têm um papel predominante: dizem a Jocasta e a Édipo que são mãe e filho. A primeira, suicida-se; o segundo, fura os próprios olhos, castigo a que se submete por não ter reconhecido aquela que era sua mãe. Assim, Freud diz-nos que o complexo de Édipo se baseia no desejo que o rapaz, num dado estádio do seu desenvolvimento físico e sexual, sente pela mãe por ser um ser do sexo oposto, nutrindo por ela amor, enquanto que o pai passa a ser um seu rival, o que lhe desperta ódio. Apenas quando a criança se apercebe da impossibilidade de possuir a mãe, o pai surge como uma figura que deve ser tomada como exemplo.

Ora, que tem tudo isto a ver com o romance?  Filhos e Amantes surge exactamente como um retrato do complexo de Édipo em tempos mais recentes (princípio do século XX).

Gerturde e Walter Morel formam um casal que, à partida, não tem muito futuro. Walter é um ser primitivo, irascível, rude e fogoso. Gertrude apaixona-se por ele, fascinada com o seu vigor e vitalidade. Após os primeiros tempos de um casamento feliz, Gertrude depara-se com consecutivas desilusões: ao contrário de si, Walter é imprudente, irresponsável, mentiroso, nada ambicioso, contentando-se com a vida pouco regrada que o seu labor de mineiro pode proporcionar, não se preocupando em dar mais do que o estritamente necessário à família. Pelo contrário, Gertrude é uma mulher de carácter vincado, o pilar da família, responsável por controlar a economia familiar e a criação e educação dos filhos. Intelectualmente activa, religiosa e puritana, nunca dançava. Incutiu aos filhos a sua visão da vida, já que a sua educação estava a seu cargo e promete a si própria poupar os filhos do ambiente familiar miserável em que vivem -  as privações materiais mais a ausência de carinho e amor por parte do pai - sendo que tudo redonda na sobreprotecção da mãe.

Acompanhamos o nascimento dos filhos no seio de uma relação extremamente conflituosa: William, o primogénito, é a esperança da mãe; Annie, a única menina; Paul, de quem acompanhamos o nascimento e se torna o protagonista - profundamente ligado à mãe; Arthur, o único que gostava do pai, a princípio, e que herdou o seu carácter impetuoso. Estes estão contra o pai, alcoólico, presente mas ausente, sempre surripiando o dinheiro para satisfazer o seu vício, ainda que numa proporção manifestamente inconsequente.

Os episódios de extrema violência sucedem-se numa guerra pautada pela frustração de Gertrude e pela insensibilidade do seu marido. Após um episódio deveras marcante para o casal, Gertrude desiste de tentar mudar o marido e faz dos filhos a sua razão de viver.

William e Paul tornam-se, primeiro um, depois o outro, em depósitos das esperanças, desejos e mesmo da vida da mãe, que só vive para e por eles. A mãe desencadeia neles, sobretudo em Paul, o amor, mesmo a uma paixão ardente, e retribui-lhes na mesma moeda, ainda que não tenha havido concretização física - tudo acontece do ponto de vista de uma análise psicológica.

A segunda parte do romance (está dividido em duas partes, sendo que a segunda é a maior) foca-se em Paul, o terceiro filho da família Morel. Dependente da mãe e da irmã, mais distante de William, o irmão mais velho, e sem qualquer ligação ao pai - tudo isto contribuiu para a não resolução do seu complexo de Édipo. Assume a predilecção da mãe por si e corresponde-lhe vivamente. Ela não tem defeitos perante os seus olhos e recusa-se a aceitar que o passar dos anos lhe causem algum desgaste, santificando-a. Conta-lhe todos os acontecimentos da sua vida, por mais insignificantes que sejam, à excepção das experiências sexuais. Paul mostra-se ainda extremamente influenciável pela mãe, ainda que a sua personalidade caprichosa por vezes o faça divergir dela. Nota-se como facilmente se torna íntimo das mulheres e como elas o têm entre si sem receios, chegando mesmo a competir pela sua atenção e amizade. Gertrude é ciumenta pelo lugar que elas ocupam no coração do filho, contudo é a si que Paul retorna sempre, pois a mãe é o seu porto seguro. Por tudo isto julgo que é explorado um quadrilátero amoroso entre Paul, a sua mãe, Miriam e Clara.

Após consultar uma outra edição desta obra (edição de 1994 das Publicações Dom Quixote), acho que há duas informações que não podem deixar de ser dadas: "D. H. Lawrence (1885-1930) nasceu em Eastwood, no Nottinghamshire, filho de um mineiro e de uma mulher de grandes ambições, assistiu desde menino às desavenças entre os pais, motivadas por divergências de opinião quanto ao futuro dos filhos, conflitos conjugais esses que retratou na presente obra" , o que revela um carácter marcadamente autobiográfico nesta história.

Para além disso, na contracapa da mesma edição é-nos dito que: "A versão integral de Filhos e Amantes é agora publicada pela primeira vez. É dez por cento mais longa do que a versão disponível até à data: oitenta páginas haviam sido cortadas pelo primeiro editor, algumas delas devido à inclusão de sexo explícito. Sem outra fonte de rendimento, D. H. Lawrence viu-se forçado a concordar com os cortes e as alterações introduzidas: «Quero lá saber se [o editor] vai cortar uma centena de páginas duvidosas de Filhos e Amantes. O livro tem de se vender, preciso do dinheiro para viver». Passados oitenta anos, a obra-prima de D. H. Lawrence pode finalmente ser publicada tal qual ele a escrever". Fiquei sinceramente na dúvida se esta edição do Público que li está ou não completa, sobretudo depois de ler a introdução da edição da Dom Quixote. Não encontrei cenas de sexo explícito, apenas erotismo. Comparei e encontrei manifestas diferenças. Por exemplo:

Versão da edição do Público: "Havia até um par de meias no espaldar duma cadeira. [...] Sentou-se na cama, considerou em volta a escuridão do quarto, com as pernas cruzadas, imóvel, escutando" (pp. 407-408).

Versão original: "Sentou-se na cama e olhou o quarto às escuras. Apercebeu-se então de um par de meias de vidro nas costas de uma cadeira. Levantou-se sem ruído e calçou-as, sentando-se na cadeira imóvel, sabendo que tinha de a possuir. Depois, sentou-se na cama, erecto, com os pés dobrados sob o corpo, perfeitamente imóvel, à escuta".

Afinal, em que ficamos? Se alguém souber, que me diga. Custo a acreditar que tenha sido publicada a versão censurada de uma obra em pleno século XXI...

De qualquer forma, o livro não me cativou o suficiente para me fazer aprofundar as pesquisas. Dividido em duas partes, achei a primeira, com o combate entre Gertrude e Walter e a formação da sua família, bastante melhor do que a segunda, onde acompanhamos o crescimento de Paul, os seus amores e desamores e a sua relação com a mãe. A exploração do complexo de Édipo é bem feita, sem dúvida - e julgo que esse era o propósito do autor: mostrar como o seu protagonista foi vítima do excesso de amor da mãe e do seu complexo de Édipo não resolvido. Porém, Paul revela-se como alguém cada vez menos interessante, cada vez mais vazio, perdido nas teias do amor que consagra à mãe, até ele próprio se desfazer em nada. Deste modo, acabei por naturalmente me desinteressar acerca do seu destino e perder interesse na leitura.

Classificação:  3,0/5*

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A problemática do verbo amar



Olho para os teus pés, descalços. Se não estivéssemos aqui, nada me impediria de idolatrá-los. Não, não é o resultado de alguma perversão fetichista. Apenas quero amar-te. Apetece-me. E se os meus braços não te podem abarcar por inteiro, melhor será que vá por partes. 

Nada em ti é por acaso. Tudo está em total harmonia ainda que toldado pela mais perfeita desproporção. Se as partes fazem o todo, e o todo é perfeito, por que não haveriam de o ser as partes? São incompletas, dizes, nada significam por si só. Mais uma razão para que as abandones: todo o teu pouco é tudo para mim.

Neste jogo em que não há certo ou errado, por que não me deixas a eles consagrar? Não quererás que lhes conjugue o verbo amar?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A leitora





Sou uma leitora compulsiva, mesmo quando não tenho vontade de mais nada (e isso acontece mais vezes do que o recomendável...).  Não sou capaz de ler de manhã à noite, porque rapidamente os meus olhos se ressentem e me impedem de prosseguir as leituras de que tanto gosto. Por isso mesmo a minha falta de vista tem aumentado de forma galopante, mas não me importo, porque quem corre por gosto não se cansa.

Consigo ler em qualquer sítio, sendo fácil, por um lado, concentrar-me no que leio, e, por outro, abstrair-me do que me rodeia. Sinto que não tenho uma imaginação pródiga, pois não consigo visualizar sempre, com toda a precisão, as imagens que nos tentam evocar (talvez porque a experiência de vida não é muita? ou, noutros casos, será incapacidade do próprio escritor?). Quando isso acontece, recorro a filmes baseados nas obras, se existirem, claro (por exemplo, Orgulho e Preconceito de Jane Austen).

Privilegio os clássicos. Creio que, para terem alcançado esse estatuto, certamente são garante de alguma qualidade e o preço é, de um modo geral, convidativo (graças a colecções que revistas e jornais têm vindo lançando). São imperenes: aprendo com eles e enriqueço o meu carácter, quer tenham surgido no século XV ou XX.

Todos os livros da minha biblioteca passam por um mesmo ritual. A aquisição de um novo inquilino é especial: estudo-o ao pormenor, analiso se a relação qualidade-preço é positiva, e, quando o obtenho, sinto um gozo imenso ao folheá-lo e cheirá-lo (adoro tanto o cheiro de um livro novo!);  adiciono-o à minha base de dados livresca (utilizo o Goodreads); coloco-o na minha biblioteca, que vou vendo crescer de dia para dia, o que exige sempre alguns estratagemas para ir arranjando espaço; observo-os a todos nos sítios que lhes destinei; e, por fim e mais importante, chega o momento de os ler, acabando quase sempre por decidir impulsivamente.

Como não consigo estar sem fazer nada - começo a ficar ansiosa, sem saber onde pôr as mãos, olhando para tudo e todos -, socorro-me da leitura para me livrar dos tempos mortos. E, devo admitir, dá um certo ar de intelectual ler numa esplanada, café, jardim, ou até na escola, sobretudo se os que me rodeiam passam o tempo em maledicências sobre a vida dos outros...

Encaro as vidas que se desenrolam perante mim como muito menos interessantes quando comparadas às que encontro nos livros. Nem que seja por, na maioria dos casos que, apesar de se tratarem de épocas remotas e/ou lugares longínquos, me ensinam muito mais sobre o carácter humano do que o contacto com as pessoas reais,  já que as personagens nos são apresentadas em toda a sua dimensão: conhecemos os seus segredos, intenções e motivações. Fica a esperança de um dia poder pôr em prática os conhecimentos que adquiri.