segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Os Grandes Mistérios da História" [Opinião]

Título original:  Los Grandes Misterios de la Historia
1.ª publicação: 2008 
Editora:  Clube do Autor
ISBN: 9789898452061 
Temática: História 
Páginas: 440
Para adquirir:


Sinopse:

"A História da humanidade está repleta de grandes mistérios. Desde as civilizações mais antigas, passando por continentes perdidos e lendários, até um passado mais recente, são incontáveis os factos «históricos» que carecem de uma explicação razoável. Eis Os Grandes Mistérios da História decifrados com o rigor e perícia do Canal de História.

Mitos, lendas e enigmas seculares são explicados na obra Os Grandes Mistérios da História através da exposição de teorias distintas defendidas por historiadores de renome.

A Atlântida existe? Como foram construídas as pirâmides do Egipto? Onde está, afinal, o Santo Graal? Porque continuam a acontecer desaparecimentos no Triângulo das Bermudas? A História está repleta de perguntas sem resposta, enigmas inquietantes que têm deixado perplexos até os investigadores mais reputados.

Civilizações antigas, tesouros ocultos, fenómenos inexplicáveis, personagens lendárias … Os Grandes Mistérios da História revela as respostas aos temas mais controversos e aparentemente incompreensíveis da história da humanidade."

Opinião:


Para todos os amantes da História, seja ela comprovada ou ainda um mito, este é um livro indispensável. Através de uma linguagem acessível, todos os mistérios são apresentados de forma concisa, seguindo-se as teorias e contra-teorias que os tentam desvendar, ou, simplesmente, a sua explicação quando tudo o que o rodeia está já a descoberto. No que me toca, foi uma leitura compulsiva e assaz agradável, mas a minha opinião é tendenciosa, já que adoro História...  De qualquer forma, aqui ficam imagens e algumas citações de alguns dos mistérios que achei mais fascinantes:


O mistério dos anasazi
"Mesa Verde, no Sudoeste do Colorado, é uma terra de canyons escarpados e mesetas elevadas onde se localizam algumas das ruínas pré-históricas mais impressionantes dos Estados Unidos e alguns dos maiores mistérios da arqueologia norte-americana. (...) No entanto, ninguém conseguiu ainda explicar a razão que terá levado os índios anasazi, antigos habitantes do Sudoeste dos Estados Unidos, a construir estes povoamentos incríveis em alcantilados para os abandonarem décadas depois e nunca mais regressarem."


O que mais me impressionou: a complexidade das construções, o desaparecimento sem deixar rasto deste povo e a brutalidade dos rituais que lhe é associado.

( via Top Tenz )

Os gémeos do Titanic
"Os grandes transatlânticos Olympic, Titanic e Britannic nasceram na primeira década do século XX, quando este tipo de embarcações majestosas dominava o mundo. Os três navios, quase idênticos, tiveram uma existência estranha e um final trágico. Chegou-se mesmo a falar de navios marcados pela desgraça".

O que mais me impressionou: a monumentalidade dos navios - assustadoramente imensos! - e o trágico destino que tiveram.
( via Faro é Faro )

A lenda do rei Artur
"Entre os relatos perduráveis ao longo de séculos na civilização ocidental, e que chegaram aos nossos dias, salienta-se um cuja origem data da Alta Idade Média, numa época de convulsas migrações e brutais guerras étnicas. Um relato de heróis e de grandes batalhas, de um poderoso e magnânimo rei, de fraternidade de nobres cavaleiros e da sua cruzada para criarem o mundo perfeito (...) a  lenda do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola (ou mesa) Redonda."

O que mais me impressionou: a explicação clara de todas as possibilidades acerca da remota origem da lenda do rei Artur, incluindo o próprio idealismo medieval que muitos pormenores terá acrescentado a esta lenda.

( via Britannia )

O Santo Sudário
"Desde 1578, atraídos pela mais famosa relíquia do cristianismo, milhares de crentes acorrem à cidade italiana de Turim. Querem ver um pedaço de lençol de pouco mais de quatro metros de comprimento por cerca de um metro de largura, onde se exibe a imagem de frente e de costas de um homem morto por crucificação. Como tantos outros milhões de cristãos, estão convencidos de que se trata da autêntica mortalha de Jesus, o «Santo Sudário» que lhe envolveu o corpo após a sua morte."

O que mais me impressionou: o combate renhido entre a Fé e a Ciência, sem que nenhum ganhe definitivamente. Muitas são as reticências que ficam, ainda que eu me incline a aceitar a datação por carbono 14 que situa a origem do Sudário entre os séculos XIII e XIV - opinião meramente pessoal, influenciada pelo meu agnosticismo, tendente ao ateísmo...

( via Wikipedia )


Classificação: 5,0/5*

terça-feira, 17 de maio de 2011

Memórias

Porque hoje recebi conselhos de um bom amigo, recordo:

"O Princípio da Loucura" pintado por mim, com a ajuda de Zandre, meu estimado professor de Pintura.


Inspirado em "O Princípio do Prazer" de Magritte.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O Fiel Jardineiro" de John Le Carré [Opinião]

Título original: The Constant Gardener
Autor: John Le Carré
1.ª publicação: 2000 
Editora: Biblioteca Sábado
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 440
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

"Justin Quayle é um funcionário do Foreign Office destinado no Quénia. A morte da sua mulher, Tessa, ocorrida em misteriosas circunstâncias, incita-o a iniciar por si própria uma investigação para esclarecer o caso. Justin remonta passo a passo o caminho que conduziu à morte da sua esposa, uma atrevida activista de organizações humanitárias, e durante as suas pesquisas vai descobrindo cada um dos fios de uma trama internacional de corrupção, em que os interesses duvidosos de políticos e burocratas se emaranham com as lucrativas acções sem escrúpulos da poderosa indústria farmacêutica."

Opinião:

Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.

Entre outros assuntos, destaco também:
  • O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde acaba a paranóia e começa a verdade?;
  • O encobrimento governamental de realidades totalmente degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
  • Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências ocidentais;
  • A importância das agências não governamentais para a sobrevivências de populações imensas.
A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa, activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de Woodrow, um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo atrás de uma reputação e prestígio social invejável.

Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem, aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign Office no Quénia,  que passa a ser, de mulherengo e solteirão, o marido perfeito.

Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis
. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da população queniana.

Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores. O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.

O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos esperava.

E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente, descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa, apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável, perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao seu filho num mundo melhor.

Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios, acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus, apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.


O filme: realizado por Fernando Meirelles (A Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira) e com Ralph Fiennes e Rachel Weisz nos principais papéis, é uma adaptação quase fiel do livro e, para mim, peca apenas por não explorar com a mesma intensidade do que no livro, a tragédia por que passa Justin ao perder a mulher. No entanto, para tal ser possível, o filme teria com certeza de passar a série. Por outro lado, o drama de África aparece em toda a sua força, deixando-nos uma mensagem de esperança nesta terra e, acima de tudo, nas suas gentes.

Classificação: 5,0/5* Acho que ficou patente que adorei as personagens Justin & Tessa e toda a história que os envolveu. Por isso, julgo que tanto o filme como o livro serão sempre referências para mim. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A minha estante

Estou impada de orgulho por ver os meus livros expostos no Estante de Livros, um dos melhores blogues sobre o mundo literário, e em português! Obrigada...! :'D









domingo, 8 de maio de 2011

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki [Opinião]

Título: Quantas Madrugadas Tem a Noite
Autor: Ondjaki
1.ª publicação: 2004
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 190 
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

Quantas Madrugadas Tem a Noite está destinado a ser um marco na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta, simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:

"Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.

Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias... Uma noite, quantas madrugadas tem?".

Opinião:

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa pele!" – página 9

Assim começa este romance, produto da prodigiosa imaginação de Ondjaki, escritor angolano. Quando decidi ler este livro já sabia o autor tinha recebido vários prémios pela sua obra (Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, Prémio Jabuti na categoria juvenil e prémio Grinzane por melhor escritor africano de 2008), para além de ser considerado um dos melhores escritores da sua geração em África. Além disso já tinha lido e ficado agradada  com O Assobiador (romance, 2002) e Há prendisajens com o xão (poesia, 2002), ambos presentes num livro que saiu na Colecção Frente e Verso da revista Visão. Deste modo, tinha motivos mais do que suficientes para esperar uma boa história, e não fiquei desapontada, antes pelo contrário, fiquei maravilhada.

Numa troca de cervejas, numa tarde e pela madrugada fora,  alguém de muito, muito longe, de tão longe que parece que nasceu de novo, compromete-se a contar uma história. Num monólogo imenso, toda a narrativa se passa em Angola, mais precisamente na Luanda contemporânea. Inclui um conjunto de personagens fora do comum que se cruzam e entrecruzam em situações, no mínimo, surreais, remetendo-nos para o realismo mágico de que García Márquez é mestre: chuvadas apocalípticas; um cadáver que é roubado e que circula do tribunal para a polícia e da polícia para o tribunal num táxi devidamente convertido em carro da polícia pela colocação de um cartaz e de uma sirene; alguém que comanda e convive com abelhas como se delas fosse rainha; um cão assustadoramente aterrador, julgando-se até que poderá ser a encarnação do diabo; um cego que vê tão bem que até se esquiva de uma bala são alguns dos exemplos.

AdolfoDido é o morto. Os seus amigos preparam-lhe o funeral. Mas não é fácil... Disputado por duas mulheres, o seu corpo é apreendido várias vezes pela polícia, e não pára de circular de um lado para o outro. Ainda casado no papel com DonaDivina, vive com KiBebucha. A primeira só o desejou por interesse: pensado que AdolfoDido era influente por ter um primo do éme (Movimento Popular de Libertação de Angola), casa-se com ele esperando uma vida farta. Rapidamente se desilude. À segunda não lhe pode escapar, pois por detrás das suas seduções corporais, desconfiava-se que lhe arreava bem... Ficamos também a saber que, através de uma falcatrua, se disse antigo combatente (num país onde nunca houve guerra!), quando na verdade é demasiado novo para isso - ninguém se dá ao trabalho de o constatar. Por isso lutam as viúvas pelo seu corpo e, claro, pela pensão devida. Sempre se disse que o coração tem razões que a razão desconhece, não é?

BurkinaFaçam, o anão, sente muito a perda do seu grande amigo AdolfoDido, aquele que um dia lhe salvou a vida. Apoia a criação fictícia de um sindicato para as prostitutas para, por um lado, poder gozar de todas as regalias que as suas festas orgíacas podiam proporcionar e, por outro, para fazer felizes as suas amigas Eva e Madalena,  também elas prostitutas. Tem um táxi,  fundamental para o desenrolar da história, já que quase todas as personagens passam pelo seu interior, e servem-se dele para as suas movimentações. Jaí, o albino, professor e comunista, está grato a Burkina por o ter salvo de uma população sedenta da sua cabeça para a cura da sida - ai, as superstições! Conhece um grande amor no decorrer da história... Ambos são amigos de Adolfo e tentam por tudo poupar o que dele resta às inclemências das viúvas, da justiça, da população, das intempéries.

É na casa da Kota das Abelhas que se reúnem e onde ocorrem alguns dos momentos mais decisivos. Após ter «assassinado» a abelha-rainha e transformado a sua própria casa numa colmeia gigante na qual assumiu o papel de rainha passaram-na a chamar deste modo. Subsiste do mel que elas fabricam e utiliza-o em tudo: cremes regeneradores que mantêm a juventude e conservam os cadáveres (inclusive o de AdolfoDido), bolos, bebidas, etc. Vive com o Cão [cuja figura está presente na capa desta edição]: dono e senhor da sala, é um cão assustador que causa um terror imenso em quem se atreve a olhá-lo.

Retrato da coloquialidade angolana, a linguagem pode apresentar-se como um desafio a superar. Felizmente no final do livro há um glossário com o significado de quase todas as expressões utilizadas e, como elas são constantemente repetidas, no decorrer da leitura é fácil apreender o seu significado, ao ponto de se deixar de o consultar. Por exemplo, cumbú é dinheiro, ngaia é garrafa, entre outras. Nem por isso nos deixa de parecer poética e sedutora, onde cada palavra surge no local exacto. De qualquer forma, um pequeno truque que utilizei foi o de imaginar que me falavam com um forte sotaque angolano (qualquer pessoa já o ouviu, nem que fosse na televisão!), meloso pelas cervejas que se sucediam e pelo prazer de uma boa conversa.

Admiravelmente o narrador conhece todos os pormenores e nunca perde o fio à meada, ainda que os apartes sejam recorrentes. Apartes esses que não deixam de ser importantes e que, muitas vezes, contêm reflexões aparentemente tão simples, mas tão, tão bonitas:

"Há muitos teatros – pensas que é só com bilhete e cadeira sentada com mosquitos que vais no teatro? E a vida?, esqueceste esse palco puramente verdadeiro a acontecer todos dias, a se entornar nos teus olhos de lágrimas que nem vês?" – página 31

"Foram então procurar a KiBebucha, na casa dela da Ilha, onde ela gostava de não ficar dentro de casa, mas lá no quintal-rua, início do passeio da casa dela, onde espreitava o mar – vício dos olhos dela desde pequena. Num te falei?, isto é só grandes coisas, efeitos da natureza nas pessoas mesmo: céu, mar, lua, sol, coisas assim enormes não escapam nas vias do coração, meu. Qual é a tua inclinação? Nada, nada mesmo? Pra ti pôr do sol e pôr de merda nenhuma é a mesma coisa? E a lua de noite? Nada mesmo? Porra, meu, dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres meter o corpo e o coração nele?" – página 54

De um modo geral, alguns dos temas abordados são a corrupção e o poder das influências num país ainda marcado pela memória de guerras recentes, sejam elas contra o invasor branco ou de luta pelo poder; a superstição e a credulidade dominantes num povo simples; um sistema burocrático que nem sempre supre as falcatruas que vão surgindo, mas que nem por isso deixa de zelar por quem escuta e julga; a falsidade e o egoísmo; e, acima de tudo, a amizade pela qual ainda tudo é possível.

Porque, afinal de contas, nada do que foi contado são devaneios de um bêbado... Tudo pertence a uma África desconhecida, palpitante de vida. Desconhecida pois erradamente é-nos incutido que África não passa de  um continente perdido, com uma população reduzida à miséria e à doença. Palpitante de vida, já que o seu povo, ultrapassando todo esse sofrimento, nunca deixou de sorrir.

Classificação: 5,0/5*