sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O Fiel Jardineiro" de John Le Carré [Opinião]

Título original: The Constant Gardener
Autor: John Le Carré
1.ª publicação: 2000 
Editora: Biblioteca Sábado
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 440
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

"Justin Quayle é um funcionário do Foreign Office destinado no Quénia. A morte da sua mulher, Tessa, ocorrida em misteriosas circunstâncias, incita-o a iniciar por si própria uma investigação para esclarecer o caso. Justin remonta passo a passo o caminho que conduziu à morte da sua esposa, uma atrevida activista de organizações humanitárias, e durante as suas pesquisas vai descobrindo cada um dos fios de uma trama internacional de corrupção, em que os interesses duvidosos de políticos e burocratas se emaranham com as lucrativas acções sem escrúpulos da poderosa indústria farmacêutica."

Opinião:

Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.

Entre outros assuntos, destaco também:
  • O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde acaba a paranóia e começa a verdade?;
  • O encobrimento governamental de realidades totalmente degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
  • Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências ocidentais;
  • A importância das agências não governamentais para a sobrevivências de populações imensas.
A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa, activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de Woodrow, um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo atrás de uma reputação e prestígio social invejável.

Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem, aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign Office no Quénia,  que passa a ser, de mulherengo e solteirão, o marido perfeito.

Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis
. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da população queniana.

Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores. O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.

O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos esperava.

E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente, descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa, apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável, perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao seu filho num mundo melhor.

Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios, acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus, apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.


O filme: realizado por Fernando Meirelles (A Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira) e com Ralph Fiennes e Rachel Weisz nos principais papéis, é uma adaptação quase fiel do livro e, para mim, peca apenas por não explorar com a mesma intensidade do que no livro, a tragédia por que passa Justin ao perder a mulher. No entanto, para tal ser possível, o filme teria com certeza de passar a série. Por outro lado, o drama de África aparece em toda a sua força, deixando-nos uma mensagem de esperança nesta terra e, acima de tudo, nas suas gentes.

Classificação: 5,0/5* Acho que ficou patente que adorei as personagens Justin & Tessa e toda a história que os envolveu. Por isso, julgo que tanto o filme como o livro serão sempre referências para mim. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A minha estante

Estou impada de orgulho por ver os meus livros expostos no Estante de Livros, um dos melhores blogues sobre o mundo literário, e em português! Obrigada...! :'D









domingo, 8 de maio de 2011

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki [Opinião]

Título: Quantas Madrugadas Tem a Noite
Autor: Ondjaki
1.ª publicação: 2004
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 190 
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

Quantas Madrugadas Tem a Noite está destinado a ser um marco na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta, simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:

"Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.

Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias... Uma noite, quantas madrugadas tem?".

Opinião:

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa pele!" – página 9

Assim começa este romance, produto da prodigiosa imaginação de Ondjaki, escritor angolano. Quando decidi ler este livro já sabia o autor tinha recebido vários prémios pela sua obra (Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, Prémio Jabuti na categoria juvenil e prémio Grinzane por melhor escritor africano de 2008), para além de ser considerado um dos melhores escritores da sua geração em África. Além disso já tinha lido e ficado agradada  com O Assobiador (romance, 2002) e Há prendisajens com o xão (poesia, 2002), ambos presentes num livro que saiu na Colecção Frente e Verso da revista Visão. Deste modo, tinha motivos mais do que suficientes para esperar uma boa história, e não fiquei desapontada, antes pelo contrário, fiquei maravilhada.

Numa troca de cervejas, numa tarde e pela madrugada fora,  alguém de muito, muito longe, de tão longe que parece que nasceu de novo, compromete-se a contar uma história. Num monólogo imenso, toda a narrativa se passa em Angola, mais precisamente na Luanda contemporânea. Inclui um conjunto de personagens fora do comum que se cruzam e entrecruzam em situações, no mínimo, surreais, remetendo-nos para o realismo mágico de que García Márquez é mestre: chuvadas apocalípticas; um cadáver que é roubado e que circula do tribunal para a polícia e da polícia para o tribunal num táxi devidamente convertido em carro da polícia pela colocação de um cartaz e de uma sirene; alguém que comanda e convive com abelhas como se delas fosse rainha; um cão assustadoramente aterrador, julgando-se até que poderá ser a encarnação do diabo; um cego que vê tão bem que até se esquiva de uma bala são alguns dos exemplos.

AdolfoDido é o morto. Os seus amigos preparam-lhe o funeral. Mas não é fácil... Disputado por duas mulheres, o seu corpo é apreendido várias vezes pela polícia, e não pára de circular de um lado para o outro. Ainda casado no papel com DonaDivina, vive com KiBebucha. A primeira só o desejou por interesse: pensado que AdolfoDido era influente por ter um primo do éme (Movimento Popular de Libertação de Angola), casa-se com ele esperando uma vida farta. Rapidamente se desilude. À segunda não lhe pode escapar, pois por detrás das suas seduções corporais, desconfiava-se que lhe arreava bem... Ficamos também a saber que, através de uma falcatrua, se disse antigo combatente (num país onde nunca houve guerra!), quando na verdade é demasiado novo para isso - ninguém se dá ao trabalho de o constatar. Por isso lutam as viúvas pelo seu corpo e, claro, pela pensão devida. Sempre se disse que o coração tem razões que a razão desconhece, não é?

BurkinaFaçam, o anão, sente muito a perda do seu grande amigo AdolfoDido, aquele que um dia lhe salvou a vida. Apoia a criação fictícia de um sindicato para as prostitutas para, por um lado, poder gozar de todas as regalias que as suas festas orgíacas podiam proporcionar e, por outro, para fazer felizes as suas amigas Eva e Madalena,  também elas prostitutas. Tem um táxi,  fundamental para o desenrolar da história, já que quase todas as personagens passam pelo seu interior, e servem-se dele para as suas movimentações. Jaí, o albino, professor e comunista, está grato a Burkina por o ter salvo de uma população sedenta da sua cabeça para a cura da sida - ai, as superstições! Conhece um grande amor no decorrer da história... Ambos são amigos de Adolfo e tentam por tudo poupar o que dele resta às inclemências das viúvas, da justiça, da população, das intempéries.

É na casa da Kota das Abelhas que se reúnem e onde ocorrem alguns dos momentos mais decisivos. Após ter «assassinado» a abelha-rainha e transformado a sua própria casa numa colmeia gigante na qual assumiu o papel de rainha passaram-na a chamar deste modo. Subsiste do mel que elas fabricam e utiliza-o em tudo: cremes regeneradores que mantêm a juventude e conservam os cadáveres (inclusive o de AdolfoDido), bolos, bebidas, etc. Vive com o Cão [cuja figura está presente na capa desta edição]: dono e senhor da sala, é um cão assustador que causa um terror imenso em quem se atreve a olhá-lo.

Retrato da coloquialidade angolana, a linguagem pode apresentar-se como um desafio a superar. Felizmente no final do livro há um glossário com o significado de quase todas as expressões utilizadas e, como elas são constantemente repetidas, no decorrer da leitura é fácil apreender o seu significado, ao ponto de se deixar de o consultar. Por exemplo, cumbú é dinheiro, ngaia é garrafa, entre outras. Nem por isso nos deixa de parecer poética e sedutora, onde cada palavra surge no local exacto. De qualquer forma, um pequeno truque que utilizei foi o de imaginar que me falavam com um forte sotaque angolano (qualquer pessoa já o ouviu, nem que fosse na televisão!), meloso pelas cervejas que se sucediam e pelo prazer de uma boa conversa.

Admiravelmente o narrador conhece todos os pormenores e nunca perde o fio à meada, ainda que os apartes sejam recorrentes. Apartes esses que não deixam de ser importantes e que, muitas vezes, contêm reflexões aparentemente tão simples, mas tão, tão bonitas:

"Há muitos teatros – pensas que é só com bilhete e cadeira sentada com mosquitos que vais no teatro? E a vida?, esqueceste esse palco puramente verdadeiro a acontecer todos dias, a se entornar nos teus olhos de lágrimas que nem vês?" – página 31

"Foram então procurar a KiBebucha, na casa dela da Ilha, onde ela gostava de não ficar dentro de casa, mas lá no quintal-rua, início do passeio da casa dela, onde espreitava o mar – vício dos olhos dela desde pequena. Num te falei?, isto é só grandes coisas, efeitos da natureza nas pessoas mesmo: céu, mar, lua, sol, coisas assim enormes não escapam nas vias do coração, meu. Qual é a tua inclinação? Nada, nada mesmo? Pra ti pôr do sol e pôr de merda nenhuma é a mesma coisa? E a lua de noite? Nada mesmo? Porra, meu, dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres meter o corpo e o coração nele?" – página 54

De um modo geral, alguns dos temas abordados são a corrupção e o poder das influências num país ainda marcado pela memória de guerras recentes, sejam elas contra o invasor branco ou de luta pelo poder; a superstição e a credulidade dominantes num povo simples; um sistema burocrático que nem sempre supre as falcatruas que vão surgindo, mas que nem por isso deixa de zelar por quem escuta e julga; a falsidade e o egoísmo; e, acima de tudo, a amizade pela qual ainda tudo é possível.

Porque, afinal de contas, nada do que foi contado são devaneios de um bêbado... Tudo pertence a uma África desconhecida, palpitante de vida. Desconhecida pois erradamente é-nos incutido que África não passa de  um continente perdido, com uma população reduzida à miséria e à doença. Palpitante de vida, já que o seu povo, ultrapassando todo esse sofrimento, nunca deixou de sorrir.

Classificação: 5,0/5*

sábado, 7 de maio de 2011

Agorafobia


"O sujeito que sofre de agorafobia experimenta uma extrema ansiedade e angústia perante agrupamentos de pessoas ou animais, espaços públicos e, sobretudo, espaços amplos.
(...)
Os pacientes agorafóbicos consideram tais situações ameaçadoras, sentindo que não conseguem sair delas nem obter ajuda para o mesmo efeito. Assim, estes pacientes restringem em muito as suas atividades pessoais, sociais e profissionais pelo medo que sentem em sair de casa sozinhos, causando-lhes muita dependência em relação a outras pessoas, em especial, à família com quem convivem mais.

Esta doença insere-se no grupo das perturbações fóbicas e, dentro deste grupo, é considerada uma fobia que a ela pode, ou não, estar associada uma perturbação de pânico. Pânico é um medo terrível, insuportável, que faz com que a pessoa deixe de raciocinar com clareza e apresente um comportamento estranho e irrefletido."

agorafobia. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-07]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$agorafobia>.


Ela e eu

Tudo começou num concerto. Andávamos no meio da multidão, à procura do melhor lugar, andávamos até de mãos dadas para não nos perdermos uns dos outros. No momento em que parámos, senti-me sem forças, receosa e com tonturas. Tive de me sentar e agarrar-me bem ao banco. Não passou disso, porém. Voltámos mesmo para a confusão e nem me senti mal outra vez. Desvalorizei completamente o que se passou.

Não me lembro quando se voltou a repetir, mas sei que ao longo dos anos tenho vindo a evitar cada vez mais lugares assim, repletos de pessoas. Assusta-me sequer a ideia de ir sozinha a hipermercados ou centros comerciais, a feiras ou concertos, a bares ou discotecas, ou meramente a sítios que tenham demasiados rostos desconhecidos. No entanto, se for acompanhada, não me sinto tão mal, ainda que esteja constantemente a olhar para os lados, até me ambientar. Sigo quem vai comigo, não vá por mero acaso perder-me.

( Obviamente que uma pessoa da minha idade que não frequente bares e discotecas, ou acontecimentos sociais, como é uma feira cá da minha terriola, pura e simplesmente não existe. Ainda por cima, não bebendo álcool, autocondenei-me ao ostracismo. Bem que me podem dizer que não beber e não gostar de lugares assim não tem influência alguma na aceitação de alguém no seio de um grupo. Balelas. A cultura do álcool está instalada e é um milagre encontrar alguém que não lhe pertença. )

Entro em pânico. No meu caso, é um estado de terror total. Não desato a gritar, apenas fujo ou espero que alguém "de confiança" apareça. Um horror inenarrável apossa-se da minha razão. Sinto-me dissecada até aos ossos. Tantos olhos em cima de mim fazem-me sentir nua e vulnerável. Parece que a barreira que protege os meus pensamentos se quebra ali, num instante, e que todos me podem ouvir. Perdi a conta a quantas vezes julguei que ia morrer. É sempre assim, nestes momentos mais desesperantes...

Há sempre altos e baixos. Se a depressão que não me larga me puxa ainda mais para baixo, então nem vale a pena pensar em enfrentar isto. Tudo me parece odioso: as pessoas e as suas atitudes, tudo o que ocorra e do qual não esteja à espera: nunca me agradaram imprevistos. Contudo, não deixo de apreciar espaços verdes, principalmente jardins. É igualmente bom estar sentada numa esplanada e observar as pessoas que me rodeiam. A "minha" agorafobia está bem longe de uma fase extrema. Mesmo assim, se vejo um aglomerado de pessoas, dou logo a volta, nem que a distância a percorrer seja muito maior.

Os piores momentos foram mesmo as apresentações de trabalhos. É um receio que, de um modo geral, todos nós temos. Uma sala de aula não é um lugar propriamente ameaçador: não costuma ser muito grande e nem tem assim tanta gente. Sentia-me bem, desde que sentada no meu canto, observando os outros. Muitas foram as vezes que utilizei os livros para fugir à confusão que me rodeava.

Sempre tive tendência para me faltarem as palavras quando estou nervosa - quando vou a uma loja e tenho de pedir algo, por exemplo -, só que aqui era demais. O cérebro pura e simplesmente apagava-se. Cheguei a fugir, a faltar às aulas... Mas era inevitável. De uma maneira ou de outra, os professores exigiam sempre uma apresentação de um qualquer trabalho. E com o tempo, fui conseguindo, a muito custo, com resultados até surpreendentes para mim.

Por isso tenho a certeza de que um dia libertar-me-ei disto. Se me consegui superar em salas cheias de pessoas que me escutavam atentamente, não será impossível ir a um sítio maior e com ainda mais pessoas que, provavelmente, nem darão pela minha existência...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham [Opinião]

Título Original: The Razor's Edge
Autor: Somerset Maugham
1.ª publicação: 1944
Colecção: Biblioteca Universal Unibolso
Editora: Ed. Associados
Temática: Romance
N.º de páginas: 272
Para adquirir (outra edição da obra):

Sinopse:

"Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.

(...) Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam (...) e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso.

O Fio da Navalha foi originalmente publicado em 1944, num mundo muito diferente do actual. Contudo, algumas das suas ansiedades e dúvidas permanecem: continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência, mas não queremos apenas deter esse conhecimento, queremos senti-lo no mais fundo de nós. (...) Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento dos homens."

Opinião:

A natureza humana é deveras fascinante. Neste romance, Maugham apresenta-nos uma reflexão sobre um leque de personagens que, segundo nos diz, conheceu ao longo da sua vida e que se relacionaram entre si, retratando exemplarmente as sociedades ocidentais. Porém, de entre todas, uma personalidade eleva-se: Larry.

Larry, rapaz americano igual a tantos outros, é profundamente afectado pela morte de um camarada a que assiste, impotente, durante a Primeira Grande Guerra. De submisso, acatando os caprichos de Isabel, sua namorada, volta à sua pátria imerso numa imensa reflexão sobre a vida e a natureza de deus e do homem, assumindo uma postura em nada igual à dos seus contemporâneos - jovens empreendedores que procuram o sucesso, reconhecimento social e bem-estar material. Incompatibiliza-se com Isabel, a personificação da futilidade e dedica-se, posteriormente, a uma série de estudos e viagens que o guiarão às pessoas que irão mudar profundamente a sua personalidade e a forma como encara o que o rodeia. Parte pelo mundo à descoberta de si e de algo transcendental que o faça perder-se no meio da multidão.

Observamos igualmente Elliot, o "novo-rico", que tem embaraço das suas origens e da forma como adquiriu riqueza, vivendo sempre em prol da aceitação social e de um estilo de vida opulento. No fundo, é apenas uma criança que exibe os seus brinquedos para ser aceite entre os da sua estirpe. Gray, americano típico, só se sente realizado caso trabalhe e proporcione, a si e aos seus, um estilo de vida folgado, tal como havia feito o seu pai. E ainda Sarah, possuidora de um espírito hipersensitivo, leitora de poesia desde tenra idade, que não consegue recuperar de uma grande tragédia e se entrega a uma vida de devassidão e promiscuidade.

O narrador é alguém que convive com todas as personagens, assumindo-se como escritor e contador das suas  histórias e escolhas, as quais, muitas vezes, se entrelaçam, não esquecendo todas as suas consequências. Até que, por fim, cada um segue o seu rumo e encontra aquilo que aparentemente deseja, quer o consideremos positivo ou não.

Realizado um aprofundado retrato físico e psicológico das personagens, mantém-se, no entanto, uma aura de mistério em redor de Larry, até porque a complexidade da sua descoberta dá-lhe poderes e capacidades inacessíveis ao ser humano comum. Ele encontra respostas a questões que vêem assolando civilização ao longo de toda a história da Humanidade: qual é o nosso papel?, qual o sentido da vida?, existe bem e mal?, foi deus quem nos criou?, e o que é, afinal de contas, deus? e as respostas ficam para ele, no mais intrínseco do seu ser.

A linguagem é simplesmente acessível, o que facilita uma leitura devoradora, e ainda por cima motivada pelo verdadeiro interesse que o próprio narrador sente pelas personagens, o qual nos consegue transmitir.

De um modo geral, Larry cativou-me  por ter sido capaz de romper com estereótipos e ultrapassar todas as barreiras. E tudo isto num mundo onde impera o consumismo e o desconhecimento do eu, porque, mais do que tudo, é importante conhecê-lo - ouvir aquela voz que sempre nos acompanha, a nossa consciência - e tentarmos, no mínimo, responder às questões que do íntimo nos brotam. E ele conseguiu-o: arriscando, conhecendo, vivendo, com um desprendimento inexcedível, e ao contrário de todos nós, que nos magoamos, manipulamos e enganamos, só para fugirmos ao vazio que nos corrói...

Assim, sem dúvida que o mais marcante é, na minha humilde opinião, a apologia ao livre-arbítrio, à capacidade e à possibilidade de escolha do ser humano. Afinal, não estamos condenados à vida de todos os dias, está quase tudo na nossa mão.

Classificação: 5,0/5*