sábado, 7 de maio de 2011

Agorafobia


"O sujeito que sofre de agorafobia experimenta uma extrema ansiedade e angústia perante agrupamentos de pessoas ou animais, espaços públicos e, sobretudo, espaços amplos.
(...)
Os pacientes agorafóbicos consideram tais situações ameaçadoras, sentindo que não conseguem sair delas nem obter ajuda para o mesmo efeito. Assim, estes pacientes restringem em muito as suas atividades pessoais, sociais e profissionais pelo medo que sentem em sair de casa sozinhos, causando-lhes muita dependência em relação a outras pessoas, em especial, à família com quem convivem mais.

Esta doença insere-se no grupo das perturbações fóbicas e, dentro deste grupo, é considerada uma fobia que a ela pode, ou não, estar associada uma perturbação de pânico. Pânico é um medo terrível, insuportável, que faz com que a pessoa deixe de raciocinar com clareza e apresente um comportamento estranho e irrefletido."

agorafobia. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-07]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$agorafobia>.


Ela e eu

Tudo começou num concerto. Andávamos no meio da multidão, à procura do melhor lugar, andávamos até de mãos dadas para não nos perdermos uns dos outros. No momento em que parámos, senti-me sem forças, receosa e com tonturas. Tive de me sentar e agarrar-me bem ao banco. Não passou disso, porém. Voltámos mesmo para a confusão e nem me senti mal outra vez. Desvalorizei completamente o que se passou.

Não me lembro quando se voltou a repetir, mas sei que ao longo dos anos tenho vindo a evitar cada vez mais lugares assim, repletos de pessoas. Assusta-me sequer a ideia de ir sozinha a hipermercados ou centros comerciais, a feiras ou concertos, a bares ou discotecas, ou meramente a sítios que tenham demasiados rostos desconhecidos. No entanto, se for acompanhada, não me sinto tão mal, ainda que esteja constantemente a olhar para os lados, até me ambientar. Sigo quem vai comigo, não vá por mero acaso perder-me.

( Obviamente que uma pessoa da minha idade que não frequente bares e discotecas, ou acontecimentos sociais, como é uma feira cá da minha terriola, pura e simplesmente não existe. Ainda por cima, não bebendo álcool, autocondenei-me ao ostracismo. Bem que me podem dizer que não beber e não gostar de lugares assim não tem influência alguma na aceitação de alguém no seio de um grupo. Balelas. A cultura do álcool está instalada e é um milagre encontrar alguém que não lhe pertença. )

Entro em pânico. No meu caso, é um estado de terror total. Não desato a gritar, apenas fujo ou espero que alguém "de confiança" apareça. Um horror inenarrável apossa-se da minha razão. Sinto-me dissecada até aos ossos. Tantos olhos em cima de mim fazem-me sentir nua e vulnerável. Parece que a barreira que protege os meus pensamentos se quebra ali, num instante, e que todos me podem ouvir. Perdi a conta a quantas vezes julguei que ia morrer. É sempre assim, nestes momentos mais desesperantes...

Há sempre altos e baixos. Se a depressão que não me larga me puxa ainda mais para baixo, então nem vale a pena pensar em enfrentar isto. Tudo me parece odioso: as pessoas e as suas atitudes, tudo o que ocorra e do qual não esteja à espera: nunca me agradaram imprevistos. Contudo, não deixo de apreciar espaços verdes, principalmente jardins. É igualmente bom estar sentada numa esplanada e observar as pessoas que me rodeiam. A "minha" agorafobia está bem longe de uma fase extrema. Mesmo assim, se vejo um aglomerado de pessoas, dou logo a volta, nem que a distância a percorrer seja muito maior.

Os piores momentos foram mesmo as apresentações de trabalhos. É um receio que, de um modo geral, todos nós temos. Uma sala de aula não é um lugar propriamente ameaçador: não costuma ser muito grande e nem tem assim tanta gente. Sentia-me bem, desde que sentada no meu canto, observando os outros. Muitas foram as vezes que utilizei os livros para fugir à confusão que me rodeava.

Sempre tive tendência para me faltarem as palavras quando estou nervosa - quando vou a uma loja e tenho de pedir algo, por exemplo -, só que aqui era demais. O cérebro pura e simplesmente apagava-se. Cheguei a fugir, a faltar às aulas... Mas era inevitável. De uma maneira ou de outra, os professores exigiam sempre uma apresentação de um qualquer trabalho. E com o tempo, fui conseguindo, a muito custo, com resultados até surpreendentes para mim.

Por isso tenho a certeza de que um dia libertar-me-ei disto. Se me consegui superar em salas cheias de pessoas que me escutavam atentamente, não será impossível ir a um sítio maior e com ainda mais pessoas que, provavelmente, nem darão pela minha existência...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham [Opinião]

Título Original: The Razor's Edge
Autor: Somerset Maugham
1.ª publicação: 1944
Colecção: Biblioteca Universal Unibolso
Editora: Ed. Associados
Temática: Romance
N.º de páginas: 272
Para adquirir (outra edição da obra):

Sinopse:

"Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.

(...) Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam (...) e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso.

O Fio da Navalha foi originalmente publicado em 1944, num mundo muito diferente do actual. Contudo, algumas das suas ansiedades e dúvidas permanecem: continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência, mas não queremos apenas deter esse conhecimento, queremos senti-lo no mais fundo de nós. (...) Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento dos homens."

Opinião:

A natureza humana é deveras fascinante. Neste romance, Maugham apresenta-nos uma reflexão sobre um leque de personagens que, segundo nos diz, conheceu ao longo da sua vida e que se relacionaram entre si, retratando exemplarmente as sociedades ocidentais. Porém, de entre todas, uma personalidade eleva-se: Larry.

Larry, rapaz americano igual a tantos outros, é profundamente afectado pela morte de um camarada a que assiste, impotente, durante a Primeira Grande Guerra. De submisso, acatando os caprichos de Isabel, sua namorada, volta à sua pátria imerso numa imensa reflexão sobre a vida e a natureza de deus e do homem, assumindo uma postura em nada igual à dos seus contemporâneos - jovens empreendedores que procuram o sucesso, reconhecimento social e bem-estar material. Incompatibiliza-se com Isabel, a personificação da futilidade e dedica-se, posteriormente, a uma série de estudos e viagens que o guiarão às pessoas que irão mudar profundamente a sua personalidade e a forma como encara o que o rodeia. Parte pelo mundo à descoberta de si e de algo transcendental que o faça perder-se no meio da multidão.

Observamos igualmente Elliot, o "novo-rico", que tem embaraço das suas origens e da forma como adquiriu riqueza, vivendo sempre em prol da aceitação social e de um estilo de vida opulento. No fundo, é apenas uma criança que exibe os seus brinquedos para ser aceite entre os da sua estirpe. Gray, americano típico, só se sente realizado caso trabalhe e proporcione, a si e aos seus, um estilo de vida folgado, tal como havia feito o seu pai. E ainda Sarah, possuidora de um espírito hipersensitivo, leitora de poesia desde tenra idade, que não consegue recuperar de uma grande tragédia e se entrega a uma vida de devassidão e promiscuidade.

O narrador é alguém que convive com todas as personagens, assumindo-se como escritor e contador das suas  histórias e escolhas, as quais, muitas vezes, se entrelaçam, não esquecendo todas as suas consequências. Até que, por fim, cada um segue o seu rumo e encontra aquilo que aparentemente deseja, quer o consideremos positivo ou não.

Realizado um aprofundado retrato físico e psicológico das personagens, mantém-se, no entanto, uma aura de mistério em redor de Larry, até porque a complexidade da sua descoberta dá-lhe poderes e capacidades inacessíveis ao ser humano comum. Ele encontra respostas a questões que vêem assolando civilização ao longo de toda a história da Humanidade: qual é o nosso papel?, qual o sentido da vida?, existe bem e mal?, foi deus quem nos criou?, e o que é, afinal de contas, deus? e as respostas ficam para ele, no mais intrínseco do seu ser.

A linguagem é simplesmente acessível, o que facilita uma leitura devoradora, e ainda por cima motivada pelo verdadeiro interesse que o próprio narrador sente pelas personagens, o qual nos consegue transmitir.

De um modo geral, Larry cativou-me  por ter sido capaz de romper com estereótipos e ultrapassar todas as barreiras. E tudo isto num mundo onde impera o consumismo e o desconhecimento do eu, porque, mais do que tudo, é importante conhecê-lo - ouvir aquela voz que sempre nos acompanha, a nossa consciência - e tentarmos, no mínimo, responder às questões que do íntimo nos brotam. E ele conseguiu-o: arriscando, conhecendo, vivendo, com um desprendimento inexcedível, e ao contrário de todos nós, que nos magoamos, manipulamos e enganamos, só para fugirmos ao vazio que nos corrói...

Assim, sem dúvida que o mais marcante é, na minha humilde opinião, a apologia ao livre-arbítrio, à capacidade e à possibilidade de escolha do ser humano. Afinal, não estamos condenados à vida de todos os dias, está quase tudo na nossa mão.

Classificação: 5,0/5*

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Siddhartha" de Hermann Hesse [Opinião]


Não vale a pena estar a fabricar uma opinião sobre este livro.
Estas palavras falarão por si:

"Avançou reflectindo, cada vez mais devagar, e perguntou a si mesmo: «Mas o que era isso que querias aprender com doutrinas e com mestres e que eles, que tanto te ensinaram, não te podiam ensinar?» E compreendeu: «Era o Eu, cujo sentido e natureza eu queria conhecer. Era o Eu, de que eu queria libertar-me, que eu queria vencer. Mas não fui capaz de o vencer, apenas de o enganar, de fugir dele, esconder-me dele. Na verdade, nada no mundo ocupou tanto os meus pensamentos como este Eu, este enigma, o facto de eu estar vivo, de existir separado e isolado dos outros, de ser Siddhartha! E sobre nada no mundo sei tão pouco como sobre mim próprio, sobre Siddhartha!»"

"- Ah, o samana é forte e nada teme. Ele podia forçar-te, bela jovem. Podia roubar-te. Podia magoar-te.
 - Não, samana, não tenho medo. Alguma vez um samana ou um brâmane receou que alguém o atacasse e lhe roubasse a sua sabedoria, a sua religiosidade e o seu pensamento? Não, porque essas coisas só a ele lhe pertencem e ele só as partilha quando quer e com quem quer. Assim é, e também assim é com Kamala e com as alegrias do amor. A boca de Kamala é bela e vermelha, mas se tentares beijá-la contra a vontade de Kamala não receberás uma gota sequer de toda a doçura que ela contém! Tu és um aluno aplicado. Siddhartha, por isso aprende isto: podes mendigar amor, comprá-lo, recebê-lo de oferta, encontrá-lo na rua, mas nunca roubá-lo. Imaginaste um caminho errado e seria uma pena se um belo jovem como tu tão mal o compreendesse."

"Ele, que no amor era ainda uma criança, com tendência para se atirar cega e sofregamente para o prazer sem dar prazer e que cada gesto, cada carícia, cada contacto, cada olhar, todos os ínfimos recantos do corpo têm o seu segredo, que podem dar a felicidade àquele que o sabe despertar. Ela ensinou-lhe que os amantes não se devem separar, depois do festim do amor, sem se admirarem mutuamente, sem serem conquistados ou conquistarem, para que nenhum deles sinta tédio ou solidão e para evitar a desagradável sensação de terem maltratado ou terem sido maltratados."

"E no entanto este caminho foi muito bom, e no entanto a ave que habita no meu peito não morreu. Mas que caminho foi este! Fui obrigado a cometer tantos erros, tantos pecados, tantas loucuras, a enfrentar tanta miséria e desilusão e sofrimento, para voltar a ser uma criança e poder recomeçar. Mas foi o caminho certo, o meu coração concorda, os meus olhos sorriem-lhe. Tive de sobreviver ao desespero, tive de descer ao pensamento mais insensato, à ideia de suicídio, para poder experimentar a misericórdia, para aceitar novamente o Om, para poder voltar a dormir bem e acordar bem. Tive de ser louco para redescobrir Atman em mim. Tive de pecar para poder voltar a viver. Para onde me conduzirá ainda o meu caminho? É um caminho louco, anda às curvas, anda talvez em círculos. Que vá por onde quiser, eu segui-lo-ei."

"- Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos."

Para adquirir:

domingo, 24 de abril de 2011

Cansada...


Estou tão velha e cansada...

Tenho em mim as tristezas de mil vidas
Que não me deixam gozar
E nem tão pouco sorrir.

Tenho em mim as desilusões de mil almas
Que me fazem chorar
E nunca parar de questionar.

Tenho em mim o peso de mil anos
Que me está a oprimir
E não me deixa respirar!
 
Estou tão velha e cansada,
e, nem assim, paro de procurar...

Onde está
    A juventude que me foge,
O amor por quem me ama,
A felicidade que teima em não ficar?

Oh, eu bem sei,
Que nunca vou deixar de procurar!

sábado, 23 de abril de 2011