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sábado, 25 de março de 2017

Poesia e Diário de Florbela Espanca com Elsa Ligeiro [Especial Tertúlia + Opinião]



Ontem foi dia de recordar,  na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, o legado de Florbela Espanca e o lugar da sua obra no contexto literário português. 

Autora «provinciana», não pertenceu a nenhum grupo literário, até porque não é facilmente enquadrável numa só corrente literária, em contraponto com o seu contemporâneo Fernando Pessoa e os modernistas. Não obteve por isso, enquanto viveu, apoio nem tão pouco reconhecimento.

O seu contexto sócio-económico e familiar foi abordado, mas não demasiado aprofundado, embarcando-se antes numa viagem pelo seu diário e lírica, na continuação de um excelente trabalho de promoção da literatura portuguesa por parte de Elsa Ligeiro. Com genuíno entusiasmo discursou sobre Florbela e a sua obra que, apesar de considerada autora menor no meio académico - preconceito outrora partilhado por Elsa, porém ultrapassado com uma leitura mais atenta - tem rasgos de genialidade inegáveis: 

"(...)
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."

"Faço às vezes o gesto de quem segura um filho ao colo. Um filho, um filho de carne e osso, não me interessaria talvez, agora... mas sorrio a este, que é apenas amor nos meus braços."

A todos os presentes foi gentilmente oferecido um exemplar de Diário e, convidados a ler em voz alta um excerto, escolhi este soneto:

"És Aquela que tudo te entristece 
Irrita e amargura, tudo humilha; 
Aquela a quem a Mágoa chamou filha; 
A que aos homens e a Deus nada merece. 

Aquela que o sol claro entenebrece 
A que nem sabe a estrada que ora trilha, 
Que nem um lindo amor de maravilha 
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece! 

Mar-Morto sem marés nem ondas largas, 
A rastejar no chão como as mendigas, 
Todo feito de lágrimas amargas! 

És ano que não teve Primavera... 
Ah! Não seres como as outras raparigas 
Ó Princesa Encantada da Quimera!..."

Com uma audiência numerosa, entre a qual verdadeiros apaixonados, discutiram-se aspectos mais ou menos polémicos da sua existência, mas sobretudo a ambivalência característica da sua produção literária. 



Título: Diário 
Autora: Florbela Espanca
Edição/reimpressão: 2007
Editora: Editora Alma Azul
Temática: Diário
N.º de páginas: 48
Para adquirir:


Sinopse:


No seu último ano de vida Florbela Espanca registou num diário tudo que lhe ia na alma. O seu último registo data de 2 de Dezembro, dias antes do seu suicídio a 8 de Dezembro de 1930.

Opinião:

Em adolescente os sonetos de Florbela Espanca e, mais tarde, os seus contos foram leituras da minha preferência. Assim como Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde ou António Nobre, a sua poesia teve um papel preponderante na minha formação enquanto leitora. 

Desconhecia este seu Diário onde Florbela sentiu, pela primeira vez, a necessidade de escrever no seu último ano de vida. Esparso, com maior número de entradas em Janeiro e Fevereiro e com a última frase escrita seis dias antes da sua morte.

Afirma, no início, que tais registos serão atirados "para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, nem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir". Não diferindo da sua produção literária, presentes estão as dicotomias morte/vida, exaltação/melancolia, desejo/perda: a sua perpétua inconstância de insatisfação/concretização. 

Nele encontramos referências às suas leituras, pensamentos avulsos, desabafos e momentos de afirmação: "Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu?" Contudo, apesar destes últimos, a dor da incompreensão, de si e dos outros, corroía-a: "Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada... Porquê?", em que se reconhece uma alma atormentada.

A última entrada, "E não haver gestos novos nem palavras novas!", será indicativa do que estaria para vir ou uma mera coincidência? Até que ponto nos revelam as suas palavras o que viveu? Meras interrogações que surgem, não silenciadas naturalmente, para alimentar o obscurantismo e o mito que a envolvem e que, aos poucos, vão sendo desvendados.


Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Poetisa e contista. Depois de concluir os estudos liceais em Évora, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa. A abordagem crítica da sua obra poética, marcada pela exaltação passional, tem permanecido demasiado devedora de correlações, mais ou menos implícitas, estabelecidas entre o seu conturbado percurso biográfico - uma existência amorosa e socialmente malograda que culminaria com um suicídio aos 36 anos de idade -, e uma voz poética feminina, egotista e sentimental, singularmente isolada no contexto literário das primeiras décadas do século. Na verdade, a leitura mais imparcial das suas composições, entre as quais se contam alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa, permite posicioná-la quer na matriz de uma poesia finissecular que, formalmente, cruza caracteres decadentistas, simbolistas (são várias as referências na sua poesia a autores simbolistas) e neorromânticos (acusando a admiração por certos autores da terceira geração romântica, como Antero de Quental), "à maneira de um epígono de António Nobre" (cf. PEREIRA, José Augusto Seabra - prefácio a Obras Completas de Florbela Espanca, vol. I, Poesia, Lisboa, D. Quixote, 1985, p. IV), quer, ainda, pela forma como a vivência do amor promove, a cada passo, uma mitificação do eu, na senda de certos autores do primeiro modernismo como Sá-Carneiro, Alfredo Guisado ou António Botto. Por outra via, a da literatura mística, Florbela Espanca reata conscientemente (Soror Saudade) com a tradição da literatura claustral feminina que recebera, no período de maior florescimento, uma marca conceptista, mantida na poética de Florbela por certa propensão para a exploração das antíteses morte/vida, amor/dor, verdade/engano. A imagem da mulher que sofre de ilusão em ilusão amorosa, que reitera até ao desespero a sua fatalidade, que dá expressão a uma existência irremediavelmente minada pela ansiedade e pela incompreensão, acabou por, na receção alargada da sua poesia, sobrepor-se a outros nexos temáticos com igual pertinência, como a dor de pensar e a aspiração à simplicidade (...). Florbela Espanca. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. Fonte: WOOK

quarta-feira, 22 de março de 2017

"O Apelo da Selva" de Jack London [Opinião]

Título: O Apelo da Selva
Título original: The Call of the Wild
Autor: Jack London
Tradutora: Maria de Fátima Andrade 
Edição/reimpressão: 2017
Editora: CARDUME EDITORES, LDA. (para Impresa Publishing)
Temática: Romance
N.º de páginas: 128

Sinopse:


Arrancado à doce e pacífica vida que levava numa fazenda da Califórnia, o cão "Buck", metade São Bernardo, metade cão-pastor, é roubado e vendido como cão de trenó. Nas terras selvages do Norte do Canadá, Buck enfrenta a fome, o frio, as lutas com outros cães e os maus tratos sem nunca perder a coragem e a dignidade. Buck acaba por ser esgatado por John Thornton, mas no seu apelo da vida selvagem, que o instiga a rondar livremente pela selva. Esta novela de Jack London, publicada em 1903, revestiu-se de tal sucesso que de imediato foi traduzida em cerca de 90 línguas, sendo reeditada sempre até aos nossos dias.

Opinião:


 No âmbito da inciativa Ler Faz Bem da revista Visão, decidi ler esta obra de Jack London e partilhar a minha opinião de forma diferente: por escrito, como habitual, e por vídeo.


[ ver também aqui ]

Lido numa tarde, o autor não se perde em rodeios e conta uma história poderosa na perspectiva de Buck, o cão traçado de são bernando e cão pastor escocês. Buck parecia destinado a uma vida doméstica, sem percalços além daqueles que encontrasse numa quinta ensolarada em plena Califórnia. Infelizmente, o seu porte possante tenta um dos empregados e Buck acaba por chegar à fronteira com o Canadá, num clima totalmente agreste, depois de vendido para cão de trenó. 


Sujeito às maiores provações, a sua adaptabilidade às circunstâncias foi impressionante: de cão domesticado, torna-se um sobrevivente nato, astuto e líder, evocando a lei do mais forte. O corajoso Buck enfrenta todos os dissabores, mas apenas após a sua prodigiosa transformação num estado totalmente primitivo, encontrará a integração junto dos seus ancestrais.


Esta leitura evocou-me o retrato social de As Vinhas da Ira de John Steinbeck em que, tal como em O Apelo da Selva, se forçam migrações do povo americano devido às condições económico-sociais, ainda que por causas e em períodos diferentes: a seca, durante grande depressão,  e a febre do ouro, iniciada em 1850. Jack London aproveitou, para esta obra, a sua experiência na participação à corrida do ouro (Klondike, no Yukón, Canadá, em 1896). 

Os cães, como todos os animais, são seres sencientes, apenas desconhecemos o alcance da sua percepção da realidade. Ainda assim, o autor deu-lhes voz. Se o ser humano, e assim perdura ao longo de séculos, julga o seu semelhante como objecto mercantil, imaginemos os animais que voz não têm para por si lutar.

Este livro deu-me a esperança de que, desde que estabelecidas com dignidade, as relações entre quaisquer seres vivos só se poderão revestir de respeito e compreensão mútuos.


P.S.: Com esta leitura relembrei-me imediatamente de História de um cão chamado Leal de Luis Sepúlveda, uma história cuja perspectiva é igual - pelos olhos de um cão - e que recomendo vivamente.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:

O escritor norte-americano John Griffith London nasceu em 1876, em San Francisco, e faleceu em 1916. Depois de uma infância marcadamente negativa, exerceu todo o tipo de profissões, interessando-se, no entanto, pela leitura e pela escrita desde muito cedo. Publicou novelas em diversas revistas. Da sua vasta obra, destacam-se The Son of the Wolf (1900), The Call of the Wild (O Apelo da Selva, de 1903, obra diversas vezes adaptada para cinema), Martin Eden (1903), Love of Life (1907) e John Baleycorn (1913). Fonte: WOOK 

Mais sobre o autor em: Entre o mistério e a caricatura, quem é Jack London?

segunda-feira, 13 de março de 2017

"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: O Jogo do Anjo
Título original: El Juego del Angel
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutora: Isabel Fraga
Edição/reimpressão: 2008
Editora: Publicações Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 568
Para adquirir (a edição mais recente):


Sinopse:

«Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais. 

Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral.»

Opinião:

Após a releitura de A Sombra do Vento, um livro que devorei num ápice, tanto na primeira como na segunda vez, e cuja história continua a fazer parte das minhas favoritas de sempre, confesso que as minhas expectativas para com O Jogo do Anjo estavam nos píncaros. E foi este o estado de espírito que me acompanhou durante praticamente toda a releitura, apesar de salpicada de ligeiras lembranças.

Desde o início que me voltei a sentir deveras fascinada por este ambiente gótico da Barcelona de Zafón que, ao contrário do antecessor, de certo modo mais luminoso, se revelou repleto de uma beleza doentia de trevas, sangue e dor. 


Esta visão é-nos transmitida por David Martín, um escritor de thrillers policiais, sempre atraído pelo que de mais misterioso e oculto existe na cidade de Barcelona. Sendo contratado pelo enigmático patrão, para que produza uma grande obra de intenções e fins duvidosos, David vê-se, tal como nos seus livros, envolvido numa série de crimes e estranhos acontecimentos que o levarão a colocar em causa a sua própria sanidade.

Em comparação com A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo quase que perde a sua componente de crítica e retrato histórico-social, não havendo uma personagem tão acutilante como Fermín. Apesar disso, gostei das personalidades contrastantes das personagens femininas, Cristina e Isabella, com pontos com os quais me identifiquei: a primeira, atormentada por uma alma problemática, que não se mostra capaz de lidar com as suas escolhas; a segunda, forte e inspiradora, mas que, tão sensível no seu íntimo, se preocupa mais com os outros.

Fiquei agradavelmente surpreendida pela presença da família Sempere e do Cemitério dos Livros Esquecidos, que tanto tinha apreciado no primeiro livro, conhecendo o avô e a mãe de Daniel, já que, cronologicamente, esta narrativa antecede a de A Sombra do Vento.


Contrariamente à minha primeira leitura, em que julguei o final baço e pouco esclarecedor o seu maior ponto fraco, desta vez não me surgiu esse desagrado. Provavelmente captei melhor alguns pontos ao longo da história que lhe deram sentido.

Quanto a recomendações: se já leram A Sombra do Vento e esperam encontrar exactamente a mesma fórmula, podem sair desiludidos. Porém, O Jogo do Anjo é, sem sombra para dúvidas, da mesma lavra de Carlos Ruiz Zafón e, se gostam de um thriller pleno de suspense, mistério e bastante sobrenatural, esta será uma aposta ganha. 

Uma releitura realizada no âmbito do: 


Classificação: 4,5/5*


Sobre o autor:

Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

quarta-feira, 8 de março de 2017

"Os Olhos de Allan Poe" de Louis Bayard [Opinião]

Título: Os Olhos de Allan Poe
Título original: The Pale Blue Eye
Autor: Louis Bayard
Tradutor: José Remelhe
Edição/reimpressão: 2011
Editora: Edições Saída de Emergência
Temática: Thriller histórico
N.º de páginas: 416

Sinopse:

Corre o ano de 1830. Na Academia de West Point, a tranquilidade de um final de tarde de Outubro é perturbada pela descoberta do corpo de um jovem cadete enforcado junto ao recinto da formatura. Não é a primeira vez que se verifica um aparente suicídio num regime ríspido como o de West Point, mas, na manhã seguinte, constata-se um abominável acto ainda mais grave. Alguém assaltou o quarto onde o cadáver repousava e levou o coração. Desesperada para evitar publicidade negativa, a academia contrata os serviços de Augustus Landor, ex-detective de renome. Viúvo, e atormentado no seu isolamento, Landor decide aceitar o caso. Nos interrogatórios iniciais, descobre um caprichoso e curioso jovem cadete com propensão para a bebida e com um passado sombrio. O nome desse cadete? Edgar Allan Poe. Impressionado pelos astutos poderes de observação de Poe, Landor está convencido de que o poeta lhe pode ser útil - caso consiga permanecer sóbrio o tempo suficiente para colocar em acção os seus perspicazes poderes de raciocínio. Trabalhando em estrita colaboração, os dois homens desenvolvem um relacionamento surpreendentemente profundo à medida que a investigação os conduz a um oculto mundo de sociedades secretas, rituais de sacrifício e mais cadáveres. Porém, os macabros homicídios e o passado secreto de Landor ameaçam afastar os dois e terminar com a sua recente amizade.

Opinião:

Em Os Olhos de Allan Poe, a história tem como pano de fundo a academia militar de West Point, pelo ano de 1830. Neste local ocorre uma morte peculiar, assumindo contornos tenebrosos quando o cadáver desaparece e é posteriormente encontrado com o coração extraído.

Para a investigação deste caso é destacado Landor, um investigador reformado, residente nas redondezas desde há alguns anos, que terá como objectivo descobrir os culpados e salvaguardar o bom nome desta instituição militar. E quem, se não Edgar Allan Poe, poderia ser o seu escolhido para ajudante nestas investigações? Todos poderão ser o criminoso: entre oficiais, funcionários e cadetes, há desconfianças de sobra.

Os thrillers históricos, ao invés de contemporâneos, têm despertado o meu interesse e a presença deste Allan Poe, como personagem deste enredo, ainda mais o cativou. Tendo em conta a minha leitura de Todos os Contos, curiosa fiquei com este título e possíveis informações que desta leitura pudesse extrair.

O autor, aproveitando o desconhecimento de vários aspectos da vida de Allan Poe, reclamou-o como uma das suas personagens. Desta forma, surge nesta narrativa como um jovem na casa dos vinte, culto, eloquente, sagaz e imaginativo. Apresenta, porém, uma faceta perturbada devido à morte da mãe na infância, que continua a venerar, e pela relação conflituosa com o pai adoptivo. Integra a academia de West Point após passagens atribuladas pelas vidas universitárias e militar, com o estigma de problemático e errático. Nesta fase, a sua produção literária tende para a poesia e a sua imensa cultura, evidenciada pelo seu discurso, encontra-se totalmente deslocada no meio académico de West Point, sendo, ao invés de valorizado, marginalizado pelos colegas.

Acompanharemos Landor e Poe nas suas investigações pouco ortodoxas, num crescendo de mistério e suspense, perfeitamente levado a cabo pelo autor Louis Bayard. Os culpados e a conclusão parecem evidentes, todavia, de que forma nos enganamos, e este final não desilude pela previsibilidade que inicialmente aparenta, muito longe disso.

Constituindo esta leitura um caso em que a ficção tomou posse da realidade, a personagem criada é tão palpável que, no fim, só desejamos que corresponda à histórica.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Segundo o Washington Post, com os seus três romances mais recentes, Mr. Timothy, Os Olhos de Allan Poe e The Black Tower, Louis Bayard ascendeu "ao topo da liga do thriller histórico". Notável autor do New York Times, foi nomeado para os galardões Edgar e Dagger e considerado um dos principais autores do ano pela revista People.

Louis é também um ensaísta e crítico reconhecido a nível nacional cujos artigos foram publicados no New York Times, no Washington Post, no Los Angeles Time, no Huffington Post, Salon, Nerve.com e no Preservation. Entre outros romances da sua autoria incluem-se Fool's Errand e Endangered Species. Deu o seu contributo para as antologias The Worst Noel e Maybe Baby (HarperCollins) e 101 Damnations (St. Martin's). Fotografia: Goodreads

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"Criadores" de Paul Johnson [Opinião]

Título: Criadores
Título original: Creators: From Chaucer and Durer to Picasso and Disney
Autor: Paul Johnson
Edição/reimpressão: 2006
Editora: Alêtheia Editores
Temática: Ensaios
N.º de páginas: 388
Para adquirir outras obras do autor:


Sinopse:

Vinte anos depois de ter publicado o «best-seller» Intellectuals, Paul M. Johnson reúne num volume ensaios sobre incríveis e prolíficos espíritos creativos. Ele analisa escritores, de Chaucer a Shakespeare, de Mark Twain a T.S. Elliot, artistas como Dürer, e arquitectos como Pugin e Viollet-le-Duc. Explica as diferentes formas como Jane Austen, Madame de Stael ou George Elliot lutaram para fazer ouvir a sua voz num universo masculino. Victor Hugo por seu turno permitiu-se interrogar: «Podem os génios coexistir com pessoas pouco inteligentes?» Joahnn Sebastian Bach dá-lhe o pretexto para se debruçar sobre o papel da genética na criatividade. Alguns ensaios fazem comparações extraordinárias: de Turner com o japonês Hokusai, e de dois grandes estilistas Balenciaga e Dior. O último ensaio examina dois génios criativos: Picasso e Disney e questiona-se sobre qual dos dois mais influenciou as artes visuais do século XX.

Opinião:

Paul Johnson propõe, com este Criadores, uma reflexão sobre o poder criativo e o que torna determinadas individualidades essencialmente criativas e criadoras. Nas suas palavras:

"(...) embora potencialmente ou na realidade sejamos todos criativos, existem graus na criatividade, que vão desde o instinto que leva um tordo a construir o seu ninho e que, nos seres humanos, se reflecte em construções mais complexas, porém igualmente humildes, ao verdadeiramente sublime, que leva os artistas a empreender obras enormes e delicadas nunca antes concebidas e muito menos concretizadas. Como definir este nível de criatividade, ou como explicá-lo? Não conseguimos defini-lo, da mesma forma que não conseguimos definir o génio. Mas podemos ilustrá-lo. É o que este livro tenta fazer".

Desde o século XIV até à actualidade, as figuras abordadas ocupam essencialmente o campo das artes: literatura - Chauce, Shakespeare, Victor Hugo, Jane Austen, Mark Twain e T.S. Elliot; arquitectura e arte vidreira - Pugin, Viollet-le-duc e Tiffany; moda - Dior e Balenciaga; animação - Wallt Disney; pintura - Dürer, Turner, Hokusai e Picasso. 

O que mais me motivou nesta leitura foi o descobrir do papel de figuras que desconhecia - Dürer e Chaucer, por exemplo - e o conhecer melhor as personalidades de figuras que sempre povoaram o meu imaginário: Shakespeare, Jane Austen, ou Walt Disney. Se, por um lado, deixou-me estarrecida a violência de Picasso, por outro adorei conhecer Mark Twain e compreendi a razão pela qual é uma referência para os comediantes. 

Ao contrário do que se poderia julgar, esta não é uma leitura difícil, apesar do uso de termos mais técnicos referentes aos ofícios de determinadas figuras - Pugin e Viollet-le-duc, enquanto mestres da arte gótica, fizeram-me recorrer várias vezes ao precioso Google.

Não se considere, porém, que o autor menospreza a ciência. No encerramento da obra, surge a referência à bifurcação das artes e das ciências e a importância da «criação» científica:  

"Por que não incluí nada, por exemplo, sobre as ciências? Não tenho resposta satisfatória para esta pergunta. É verdade que alguns observadores não permitirão que os cientistas sejam apelidados de criativos. Os cientistas são descobridores. Não se pode criar algo que já existe. Fazer descobertas é uma forma de actividade factual. Há duas objecções a este argumento (...) ao longo da história não se estabeleceu nenhuma verdadeira distinção entre o exercício da capacidade ou mesmo do génio nas artes e nas ciências.". 

O autor conclui afirmando que a arte ou ciências criativas não estão necessariamente interligadas ao modo de ganhar a vida do criador, nem tão pouco a criação é "propriamente desfrutada", sendo antes "uma experiência dolorosa e muitas vezes aterradora".

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
Paul Johnson, destacado historiador britânico, cuja obra é internacionalmente reconhecida, conta com uma extensa lista de título publicados nas mais diversas áreas. Em History of Christianity e History of the Jews aborda a dimensão religiosa, em Modern Times analisa o século XX, e em Art: a new History relata a história das artes visuais. Com Intellectuals. um «best-seller» internacional, marcou profundamente o pensamento final dos anos 80. Escreve semanalmente para o Spectator e mensalmente para a Forbes. Fotografia: Goodreads

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português" de José-Alain Fralon [Opinião]

Título: Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português
Título original: Le Juste de Bordeaux
Autora: José-Alain Fralon
Tradutor: Saul Barata
Edição/reimpressão: 2008 (1.ª publicação em 1999)
Editora: Editorial Presença
Temática: Biografia
N.º de páginas: 128

Sinopse:

Em Julho de 1885 nascem César e Aristides, dois gémeos de temperamentos diametralmente opostos. Aristides era tão extravagante quanto o seu irmão discreto e cumpridor. Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo, enquanto Salazar jogava habilmente com a neutralidade. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar ao Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, tanto mais que as tropas alemãs se aproximavam, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos.

Opinião:

Numa obra direccionada para o público francófono, José-Alain Fralon elaborou, de início, uma ligeira contextualização da História portuguesa, sucedida pela acção de Aristides de Sousa Mendes no período pré, durante e pós Segunda Guerra Mundial.

Através de um discurso simples e acessível, inteiramo-nos do seu percurso de vida: de jovem aristocrata que se torna cônsul, a pai de uma numerosa família de catorze filhos, esteve colocado em diversos países, nos quais nem sempre o cumprimento escrupuloso pelas regras se verificou.

Todavia, aquando da sua colocação em Bordéus, enquanto cônsul-geral, surgiu o momento crucial da sua existência. Influenciado pela sua índole cristã, e mesmo consciente das provações a que sujeitaria a família, não pôde ignorar a sua consciência: decidiu salvar todos os refugiados que conseguisse através da autorização e até falsificação de vistos, não contemplando credos, estatutos sociais ou quaisquer outras características dos desesperados fugitivos e ignorando as ordens superiores até à última hipótese. 

Porém, julgo que Aristides não imaginaria a proporção, e a tamanha profundidade, que alcançaria o rancor e a desconsideração de Salazar que, não obstante pregar o seu catolicismo, maior devoção tinha à manutenção da ordem e ao cumprimento das suas obrigações e ao zelo pela sua figura de autoridade.
"Depois de uma grande luta interior, tão bem exposta no seu livro, prevaleceu a compaixão e a solidariedade: Aristides obedeceu antes a Deus que aos homens, ou seja, ao imperativo de salvaguarda das exigências de ordem moral e dos direitos fundamentais das pessoas. 
Não foi letra morta a confissão cristã proclamada anos antes na pedra dos monumentos, pois que ficou patenteada nas pedras vivas dos milhares que salvou. 
Admiro-o muito pela decisão que tomou. 
Mas admiro-o ainda mais pela coragem e fortaleza com que enfrentou durante quase catorze anos as injusti[ç]as e dolorossíssimas consequências que sobre ele desabaram. Sem guardar rancor. Sem perder o sorriso."
São estas as palavras de José de Sousa Mendes, sobrinho de Aristides, filho do seu irmão gémeo, César de Sousa Mendes, que melhor ilustram a abnegação deste homem, que findou os seus dias num sofrimento ignoto. Foi notável como as suas origens aristocráticas não impediram a formação de uma integridade devidamente estruturada e de sólidos princípios morais.

Abstraindo-nos do número de socorridos, questão esta polémica, a vida de Aristides de Sousa Mendes é a prova de que nem sempre os justos vencem no imediato, independentemente de se apelar a valores como a justiça, a solidariedade e a compaixão para com o próximo, mas que os frutos medram e que, mais tarde, puderam mesmo ser colhidos através dos que sobreviveram, criaram, amaram e, sobretudo, o estimaram e ainda hoje agradecem pela sua firmeza de carácter. 

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
José-Alain Fralon é um prestigiado jornalista do jornal Le Monde e autor da admirável obra Aristides de Sousa Mendes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: A Sombra do Vento
Título original: La sombra del viento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
Edição/reimpressão: 2006
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 512 
Para adquirir:


Sinopse:

A Sombra do Vento é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do Modernismo até às trevas do pós-guerra. Um inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, num crescendo de suspense que se mantém até à última página. Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo.

Opinião:

Dez anos passaram e, da primeira leitura, lembrava-me de Daniel e do seu pai, o sr. Sempere, da sua livraria e do Cemitérios dos Livros Esquecidos, de uma personagem divertida e de outra, obscura e ameaçadora. Contudo, a memória é volátil e esta releitura soube quase a estreia.

Através de uma escrita cuidada e metafórica, o ambiente marcadamente gótico de uma Barcelona do século XX, marcada por um pós guerra civil espanhola, surge quase sempre envolto em brumas e mistério. 

Quando Daniel, o protagonista desta história, encontra no Cemitério dos Livros Esquecidos um livro que devora em poucas horas - A Sombra do Vento - o seu interesse por conhecer mais obras do desconhecido autor, Julián Carax, torna-se premente. Mas tal não será fácil, já que alguém as procura e as destrói sem hesitação
. As suas investigações levarão a que descubra uma trágica história que se irá entrelaçar com a sua... 

À medida que a leitura avançou, a minha vontade de descobrir com Daniel mais sobre este mistério só se foi acentuando. A mistura de estilos, entre romance, suspense, thriller, histórico e de comédia e satírico, sem, contudo, perder a coerência, é um dos grandes trunfos do autor e permite que o leitor flua com a narrativa.


Outro será o conjunto de todas as personagens, sem excepção. De entre elas se destaca o brilhante Fermín Romero de Torres: o homem das mil caras, sofrido, culto, ansioso, sentimental, desbocado, é o sábio filosofante que orienta o jovem Daniel nos momentos mais cruciais. Admirou-me a empatia sentida para com todos os intervenientes, mesmo perante o sanguinário inspector Fumero, cujo passado não justifica, porém clarifica o seu abominável ser. Nem tão pouco as hesitações de Daniel o tornaram menos merecedor do título de herói, uma vez que age no momento preciso.

O clímax será o revelar de uma fatalidade, ao estilo das grandiosas tragédias gregas que, não sendo de uma originalidade inatacável, pelo culminar dos acontecimentos leva a que dor tão pungente seja alvo de toda a comiseração.

Poderá até não ser considerada uma obra-prima consensual, mas com A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón conseguiu algo inegável: atingir e conquistar os corações dos leitores, numa ode magistral ao mundo dos livros.

Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos –, vamos regressar.

No fim desta releitura, A Sombra do Vento continua a merecer o estatuto de um dos meus livros favoritos de sempre e será, por certo, novamente relido.

Uma releitura realizada no âmbito do: 


Classificação:  5,0/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"A Gata" de Colette [Opinião]

Título: A Gata
Título original: La Chatte
Autora: Colette
Tradutor: João B. Viegas
Edição/reimpressão: 2015 (1.ª publicação em 1959)
Editora: A Bela e o Monstro Edições/Rapsódia Final
Temática: Romance
N.º de páginas: 178
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Sinopse:

A Gata não foge à regra de toda a obra de Colette e está patente o seu amor pelos animais. Tem-se dito que há na sensualidade da escritora qualquer coisa de animal e que uma fraternidade secreta a liga a este mundo: toda a sua escrita é instintiva. A figura central deste romance é uma gata – Saha, de seu nome – e Colette retrata-a através de imagens e reflexões pouco comuns. Com uma mestria única, cria como que a presença física do felino, tornando tangível o seu corpo flexuoso e macio. Mas a história é também a análise de um sentimento muito humano: o ciúme.

Opinião:

Obra da autora francesa Colette, publicada em 1959, fala-nos de um trio amoroso entre um jovem mimado e indolente, a gata, por quem nutre profundo amor, e a sua noiva, uma jovem igualmente caprichosa.

Alain tem uma adoração obsessiva por Saha, de raça azul russa. Residem numa moradia com um belo jardim que ela explora intensivamente para pura delícia do dono. Colette engrandece a sua figura felina com delicadas descrições das suas deambulações, tanto no jardim como nos aposentos, e demonstrando a relação entre gata e dono:
"Com um salto vertical, subindo no ar como um peixe para a superfície da água, a gata atingiu uma piéride orlada de preto. Comeu-a, tossiu, cuspiu uma asa, lambeu-se numa afectação. O sol brincava no seu pêlo de gata dos Cartuxos, roxo e azulado como a garganta dos pombos bravos.
- Saha!
Ela voltou a cabeça e sorriu-lhe sem disfarce.
- Meu puma pequenino ! gata bem-amada ! criatura altaneira ! Como viverá se nos separarmos? Queres que entremos os dois para as ordens? Queres... eu sei lá !...
Saha escutava-o, mirava-o com um ar terno e distraído, mas, a uma inflexão mais trémula da voz amiga, retirou-lhe o olhar."
Esta harmonia entre Alain e Saha altera-se drasticamente com a celebração do casamento com Camila. Pertencente a uma burguesia decadente, Alain deixa-se conduzir para um matrimónio que parece, à partida, mal fundamentado, surgindo uma crítica às relações por interesse e aos dogmas sociais.

Desta forma, Saha sente profundamente o afastamento, adoptando uma postura depressiva que, rapidamente, a leva a definhar. É comum  a ideia de que os gatos, ao contrários do cães, são desleais para com os seus donos. Mas é mais frequente do que se julga a depressão nestes felinos perante o desleixo ou o abandono, chegando a falecer por se recusarem a comer e, em última instância, a viver.

Quando o seu tutor a resgata e o convívio dos três se impõe, os ciúmes que surgem levarão a uma situação insustentável. Ainda que o objecto de tais sentimentos seja uma gata, Colette conseguiu, em poucas páginas, retratar o ciúme em toda a sua plenitude, numa linguagem poética e encantadora.

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Sidonie Gabrielle Colette nasceu em 1873, em Saint-Sauveur-en-Puisaye. Aos vinte anos, casa com Gauthier-Villars, crítico musical, autor de romances populares, mais conhecido pelo nome de Willy, e vai viver para Paris. Começa a escrever o seu primeiro livro, Claudine l'École, que, depois de corrigido pelo marido, aparecerá em 1900 apenas com o nome de Willy. Aproveitando o enorme êxito obtido, Willy leva Colette a escrever mais cinco romances que serão publicados, como o primeiro, sem que figure o nome da Aurora.

Em 1906, os Willy divorciam-se e Colette, para viver, faz-se artista de music-hall, mas sem deixar de escrever. É essa experiência que será aproveitada em La Vagabonde (1911).

Em 1912 casa com Henri de Jouvenel, escritor e homem de Estado, com quem vive até 1924. Em 1935 casa, pela terceira vez, com Maurice Goudeket. Entretanto, continuara a publicar os seus livros que, pouco a pouco, a foram impondo como a primeira escritora francesa dos nossos dias.  Chéri (1920), Le Blé en Herbe (1923), La Fin de Chéri (1926), La Chatte (1933), Gigi (1943) são verdadeiras obras-primas.

Membro da Academia Real da Bélgica (1936) e da Academia Goncourt (1944), Colette, venerada por todos, passa os seus últimos dias imobilizada pelo artritismo. Morre em 1954. O governo francês faz-lhe funerais civis oficiais. Fonte: biografia presente em A Gata  Fotografia: The Great Cat