Ontem foi dia de recordar, na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, o legado de Florbela Espanca e o lugar da sua obra no contexto literário português.
Autora «provinciana», não pertenceu a nenhum grupo literário, até porque não é facilmente enquadrável numa só corrente literária, em contraponto com o seu contemporâneo Fernando Pessoa e os modernistas. Não obteve por isso, enquanto viveu, apoio nem tão pouco reconhecimento.
O seu contexto sócio-económico e familiar foi abordado, mas não demasiado aprofundado, embarcando-se antes numa viagem pelo seu diário e lírica, na continuação de um excelente trabalho de promoção da literatura portuguesa por parte de Elsa Ligeiro. Com genuíno entusiasmo discursou sobre Florbela e a sua obra que, apesar de considerada autora menor no meio académico - preconceito outrora partilhado por Elsa, porém ultrapassado com uma leitura mais atenta - tem rasgos de genialidade inegáveis:
"(...)
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."
"Faço às vezes o gesto de quem segura um filho ao colo. Um filho, um filho de carne e osso, não me interessaria talvez, agora... mas sorrio a este, que é apenas amor nos meus braços."
A todos os presentes foi gentilmente oferecido um exemplar de Diário e, convidados a ler em voz alta um excerto, escolhi este soneto:
"És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.
Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!
Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!
És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!..."
Com uma audiência numerosa, entre a qual verdadeiros apaixonados, discutiram-se aspectos mais ou menos polémicos da sua existência, mas sobretudo a ambivalência característica da sua produção literária.

Autora: Florbela Espanca
Edição/reimpressão: 2007
Temática: Diário
N.º de páginas: 48
N.º de páginas: 48
Para adquirir:

Sinopse:
No seu último ano de vida Florbela Espanca registou num diário tudo que lhe ia na alma. O seu último registo data de 2 de Dezembro, dias antes do seu suicídio a 8 de Dezembro de 1930.
Sinopse:
No seu último ano de vida Florbela Espanca registou num diário tudo que lhe ia na alma. O seu último registo data de 2 de Dezembro, dias antes do seu suicídio a 8 de Dezembro de 1930.
Opinião:
Em adolescente os sonetos de Florbela Espanca e, mais tarde, os seus contos foram leituras da minha preferência. Assim como Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde ou António Nobre, a sua poesia teve um papel preponderante na minha formação enquanto leitora.
Desconhecia este seu Diário onde Florbela sentiu, pela primeira vez, a necessidade de escrever no seu último ano de vida. Esparso, com maior número de entradas em Janeiro e Fevereiro e com a última frase escrita seis dias antes da sua morte.
Afirma, no início, que tais registos serão atirados "para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, nem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir". Não diferindo da sua produção literária, presentes estão as dicotomias morte/vida, exaltação/melancolia, desejo/perda: a sua perpétua inconstância de insatisfação/concretização.
Nele encontramos referências às suas leituras, pensamentos avulsos, desabafos e momentos de afirmação: "Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu?" Contudo, apesar destes últimos, a dor da incompreensão, de si e dos outros, corroía-a: "Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada... Porquê?", em que se reconhece uma alma atormentada.
A última entrada, "E não haver gestos novos nem palavras novas!", será indicativa do que estaria para vir ou uma mera coincidência? Até que ponto nos revelam as suas palavras o que viveu? Meras interrogações que surgem, não silenciadas naturalmente, para alimentar o obscurantismo e o mito que a envolvem e que, aos poucos, vão sendo desvendados.
Em adolescente os sonetos de Florbela Espanca e, mais tarde, os seus contos foram leituras da minha preferência. Assim como Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde ou António Nobre, a sua poesia teve um papel preponderante na minha formação enquanto leitora.
Desconhecia este seu Diário onde Florbela sentiu, pela primeira vez, a necessidade de escrever no seu último ano de vida. Esparso, com maior número de entradas em Janeiro e Fevereiro e com a última frase escrita seis dias antes da sua morte.
Afirma, no início, que tais registos serão atirados "para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, nem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir". Não diferindo da sua produção literária, presentes estão as dicotomias morte/vida, exaltação/melancolia, desejo/perda: a sua perpétua inconstância de insatisfação/concretização.
Nele encontramos referências às suas leituras, pensamentos avulsos, desabafos e momentos de afirmação: "Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu?" Contudo, apesar destes últimos, a dor da incompreensão, de si e dos outros, corroía-a: "Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada... Porquê?", em que se reconhece uma alma atormentada.
A última entrada, "E não haver gestos novos nem palavras novas!", será indicativa do que estaria para vir ou uma mera coincidência? Até que ponto nos revelam as suas palavras o que viveu? Meras interrogações que surgem, não silenciadas naturalmente, para alimentar o obscurantismo e o mito que a envolvem e que, aos poucos, vão sendo desvendados.
Classificação: 4,0/5*
Sobre a autora:
Poetisa e contista. Depois de concluir os estudos liceais em
Évora, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa. A abordagem crítica da sua
obra poética, marcada pela exaltação passional, tem permanecido demasiado
devedora de correlações, mais ou menos implícitas, estabelecidas entre o seu
conturbado percurso biográfico - uma existência amorosa e socialmente malograda
que culminaria com um suicídio aos 36 anos de idade -, e uma voz poética
feminina, egotista e sentimental, singularmente isolada no contexto literário
das primeiras décadas do século. Na verdade, a leitura mais imparcial das suas
composições, entre as quais se contam alguns dos mais belos sonetos da língua
portuguesa, permite posicioná-la quer na matriz de uma poesia finissecular que,
formalmente, cruza caracteres decadentistas, simbolistas (são várias as
referências na sua poesia a autores simbolistas) e neorromânticos (acusando a
admiração por certos autores da terceira geração romântica, como Antero de
Quental), "à maneira de um epígono de António Nobre" (cf. PEREIRA,
José Augusto Seabra - prefácio a Obras Completas de Florbela Espanca, vol. I,
Poesia, Lisboa, D. Quixote, 1985, p. IV), quer, ainda, pela forma como a
vivência do amor promove, a cada passo, uma mitificação do eu, na senda de certos
autores do primeiro modernismo como Sá-Carneiro, Alfredo Guisado ou António
Botto. Por outra via, a da literatura mística, Florbela Espanca reata
conscientemente (Soror Saudade) com a tradição da literatura
claustral feminina que recebera, no período de maior florescimento, uma marca
conceptista, mantida na poética de Florbela por certa propensão para a
exploração das antíteses morte/vida, amor/dor, verdade/engano. A imagem da
mulher que sofre de ilusão em ilusão amorosa, que reitera até ao desespero a
sua fatalidade, que dá expressão a uma existência irremediavelmente minada pela
ansiedade e pela incompreensão, acabou por, na receção alargada da sua poesia,
sobrepor-se a outros nexos temáticos com igual pertinência, como a dor de
pensar e a aspiração à simplicidade (...). Florbela Espanca. In Infopédia
[Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. Fonte: WOOK





















