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terça-feira, 12 de junho de 2018

"Amor em Minúsculas" de Francesc Miralles [Opinião]

Título: Amor em Minúsculas
Título original:  Amor en Minúscula
Autor: Francesc Miralles
Tradutora: Liliana Sousa
Edição/reimpressão: 2017
Editora: Marcador
Temática: Romance
N.º de páginas: 248
Para adquirir (a edição mais recente):


Sinopse:

Ao acordar no dia 1 de Janeiro, Samuel, um professor de Linguística solitário, está convencido de que o ano que se inicia só lhe trará verbos no passivo e poucos momentos em itálico, até que um visitante inesperado se esgueira para dentro do seu apartamento e se recusa a sair.

Mishima, um gato vadio, torna-se o catalisador que faz Samuel abandonar a comodidade dos seus livros favoritos, dos seus filmes estrangeiros e da sua música clássica, para ir a lugares onde nunca esteve - como a casa do vizinho - e conhecer pessoas que jamais pensaria conhecer - um velho com o qual nunca trocaria uma palavra.

Mas há mais: o gato fará com que ele reencontre Gabriela, uma misteriosa mulher do seu passado, que ele já não tinha esperança de voltar a ver.

Uma história inteligente, divertida e doce que nos comove e revela que os pequenos detalhes são o grande segredo da felicidade. Amor em Minúsculas é uma pequena preciosidade, que conjuga referências literárias e filosóficas com a magia única das pequenas coisas.

Opinião: 

Procurando uma leitura mais leve, para recuperar da densidade de O Jogo do Anjo, veio encontrar-me este Amor em MinúsculasDa Barcelona de Zafón para a Barcelona de Miralles: que diferença significativa! No primeiro, enquanto o ambiente assume quase o papel de uma personagem mutável, no segundo é quase irrelevante, podendo a narrativa ter tido lugar em qualquer outra grande cidade.

Samuel de Juan, um professor-adjunto do curso de Filologia Alemã está na casa dos trinta e tem a sua independência assegurada. Só que a carapaça que em seu torno formou é de tal forma densa que se isolou de tudo e todos, incluindo dos seus próprios sentimentos.

 Entre as todas as suas dificuldades, a principal é a de sair da sua área de conforto e da solidão em que se instalou. Até que à sua porta aparece um gato que veio para ficar e tudo começa a mudar. Aos poucos começa a fazer o impensável: conviver com o vizinho de cima, percorrer novos locais e, curiosamente, reencontrar um antigo amor. 

Algo que me causou uma certa confusão foi o súbito "despertar" de Samuel, como se do nada se apercebesse que a sua vida estava incompleta. Até aí teria agido tal e qual um mero autómato, seguindo a corrente e tendo inclusive atitudes de quem não sabia lidar com as pessoas.

A mensagem que o autor pretende transmitir é positiva, apelando ao rompimento com a estagnação e à saída de zonas cinzentas. Recorre para isso a uma constante de citações literárias, cinematográficas, musicais, sobretudo de autores alemães e clássicos, não fosse o nosso protagonista um académico, para enquadrar as suas reflexões (mas teria sido absolutamente dispensável o spoiler de Werther!). Contudo, tal volume de referências poderia ter sido mais moderado, causando menos quebras na narrativa que, no final, se precipitou em demasia.

Entre o romance e a introspecção, seja esta uma leitura adequada para quem procura o entretenimento, mas com uma certa dose de seriedade. 


Classificação: 3,5/5*

Sobre o autor:

Francesc Miralles é escritor, mas trabalhou durante vários anos como editor e assessor literário sobre obras de autoajuda e espiritualidade. O seu romance Amor em Minúsculas está traduzido em mais de 20 idiomas. Vendeu 15 000 exemplares nos Estados Unidos, num só dia, figura nas listas dos livros mais vendidos na Alemanha e o seu êxito internacional continua. Fonte: Editorial Presença

quarta-feira, 25 de abril de 2018

"No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex" de Nathaniel Philbrick [Opinião]

Título: No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex
Título original: In the Heart of the Sea
Autor: Nathaniel Philbrick
Tradutoras: Maria João da Rocha Afonso e Ana Cristina Pais
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Editorial Presença
Temática: Não Ficção e Ensaios - Viagens
N.º de páginas: 320
Para adquirir:


Sinopse: 

No verão de 1819, o baleeiro Essex partiu de Nantucket para mais uma expedição de caça à baleia. Quinze meses depois, o impensável aconteceu: numa região remota do Pacífico Sul, um cachalote de enormes proporções provocou o naufrágio do Essex.

A tripulação de 20 homens refugiou-se em três botes salva-vidas rumo à América do Sul, numa jornada épica pela sobrevivência. Três meses depois, os oito tripulantes que continuavam vivos foram encontrados à deriva. Para sobreviver, usaram todos os recursos, inclusive o canibalismo.

No Coração do Mar é um relato empolgante de um naufrágio tão relevante no seu tempo como o do Titanic atualmente. A aventura do Essex inspirou Herman Melville a escrever o clássico Moby Dick.

Opinião:

Apesar de viver em pleno Alentejo, apartada do mar, o meu fascínio pelo este sempre esteve presente. Leituras como Moby Dick de Hermann Melville, A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson ou Robinson Crusoé de Daniel Defoe ainda mais o acentuaram e introduziram-me na época em que os oceanos, além de caminhos para o desconhecido, eram eles próprios um mistério

Na sinopse de No Coração do Mar - A tragédia do Baleeiro Essex, desde logo se destaca o facto de ter sido esta história a inspirar Herman Melville a escrever Moby Dick - um estímulo sobretudo para quem já realizou esta leitura.

Sendo uma obra de não ficção pressupunha-se um tom mais seco, menos artificioso, o que não se verifica de todo. Nathaniel Philbrick consegue agarrar o leitor com a sua profunda pesquisa acerca de todos os aspectos que rodearam este naufrágio, desde a socialização e psicologia de sobrevivência, como a corroboração e/ou esclarecimento das ocorrências descritas pelos sobreviventes. Ficaram demonstrados os efeitos assustadoramente dramáticos da desidratação e da fome em condições extremas, sendo a recorrência ao canibalismo mais frequente do que se julga nestes contextos.

A abertura da obra apresenta uma introdução à história de Nantucket, ilha que, na época dos acontecimentos - no século XIX -, se havia tornado o maior porto baleeiro, dependendo toda a sua economia desta actividade e, no final, constata-se como a diminuição da baleação a afectou Além disso, os esquemas, mapas e fotografias ajudam sem dúvida os leigos na matéria.

O autor conseguiu, ou pelo menos tentou incansavelmente, deslindar a veracidade entre os relatos nem sempre coincidentes de dois dos sobreviventes, Owen Chase e Thomas Nickerson. O que prevalece não deixa margem para dúvidas: desde o início, toda a tripulação do Essex  esteve sujeita a uma terrível conjuntura, quer fosse pelos caprichos da Natureza, quer pelas inexperiência e teimosia dos seus membros, adiando-se a sua salvação muito para lá do razoável.

A adaptação cinematográfica toma algumas liberdades quanto à narrativa de Nathaniel Philbrick, criando interacções entre personagens que não terão sucedido. Tornou, desta forma, o filme mais coeso pelo preenchimento de algumas lacunas impossíveis de desvendar, exceptuando-se o uso excessivo da aparição da vingativa baleia. 

"O desastre do Essex não é uma história de aventura. É uma tragédia que por acaso é uma das maiores histórias verídicas jamais contadas" e com tal não posso deixar de concordar.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Nathaniel Philbrick é autor dos livros Mayflower: A Story of Courage, Community, and War e Sea of Glory: The Epic South Seas Expedition, 1838-1842, que venceu o Theodore and Franklin D. Roosevelt Naval History Prize. No Coração do Mar, vencedor do National Book Award, encontra-se traduzido em 23 línguas e deu origem a uma adaptação cinematográfica realizada por Ron Howard e produzida pela Warner Brothers, com Chris Hemsworth como protagonista. Nathaniel Philbrick vive na ilha de Nantucket, nos Estados Unidos da América.  Fonte: Editorial Presença 

domingo, 8 de abril de 2018

"Baker's Magic - A Magia do Pão" de Diane Zahler [Opinião]

Título: Baker's Magic - A Magia do Pão
Título original: Baker's Magic
Autora: Diane Zahler 
Tradutora: Carla Ribeiro
Edição/reimpressão:  2016
Editora:  Individual
Temática: Juvenil
N.º de páginas:  280
Para adquirir:


Sinopse:

Quando Bee, uma órfã no pobre reino de Aradyn, é apanhada a roubar um bolo numa padaria, o padeiro solitário oferece-se, para alegria da jovem, para a tomar como aprendiza. A felicidade recém-descoberta de Bee passa através de magia para os seus bolos, começando a atrair as atenções do palácio, onde reside a princesa Anika. Mestre Joris, um poderoso mago e apreciador de bolos, torna-se no "guardião" de Bee, mantendo-a prisioneira e convertendo todos os terrenos aráveis em campos de tulipas. Graças ao ajudante de ferreiro da aldeia, Bee ajuda a princesa Anika a fugir de um casamento que lhe é imposto. O grupo dá início a uma incrível aventura no alto mar, acabando por naufragar e ser salvo por uma tripulação de piratas, liderada pela temerária capitã Zafira Zay. É uma aventura que conduz a descobertas surpreendentes, de parentes supostamente falecidos e árvores há muito perdidas. O tema da órfã corajosa que descobre a magia e a amizade, pode não ser original, mas ação a rodos e personagens cativantes como Bee, a Princesa Anika e a capitã Zafira Zay, fazem com que este livro se leia dum só fôlego.

Opinião:

Feiticeiros, bruxas e magos, jovens à procura do seu lugar no mundo, muita magia e fantasia à mistura... Relembrar-vos-á algo?

Num reino onde as árvores desapareceram e campos de túlipas se estendem a perder de vista, Bee encontra refúgio na padaria do Mestre Bouts, que lhe ensina o seu ofício. Como Tita, em Como Água para Chocolate de Laura Esquível, Bee descobre que transmite os seus sentimentos enquanto cozinha. No seu caso, pães e bolos contêm medo, veracidade, amor, coragem, ou seja, tudo o que desejar consoante aquilo em que se concentra durante a confecção.

Mas a sua vida não se cingirá por muito tempo à padaria. Juntamente com Will, o seu amigo aprendiz de ferreiro, e a solitária princesa Anika, irão numa demanda pela defesa do reino de Aradyn. Ao erradicar as árvores, o ganancioso mago responsável pelo reino desequilibrou a Natureza, iniciando a sua auto-destruição. Muitas aventuras decorrerão, sobretudo proporcionadas por personagens como a capitã Zafira Zay.

Uma história sobre a amizade, a perseverança, a importância do respeito pela Natureza e dos bens preciosos que nos fornece e que, como certos tomamos e desprezamos. 

Constitui uma leitura ideal para quem gosta de contos de fadas, leve e fluída, cativante para jovens leitores - o seu público-alvo natural -, por isso a aconselho vivamente a quem queira estimular, a esta faixa etária, o gosto pela leitura. Já para leitores mais experientes poderá tornar-se previsível, compensada pela doçura da sua fantasia e moral. 

Para encerrar, a autora partilha connosco a receita do delicioso - pelo menos assim creio - bolo Bouts, o famoso bolo que enleva todos os que o provam ao longo da história.


Classificação: 3,0/5*

Sobre a autora:
Diane Zahler é autora de quatro contos de fadas: A Décima Terceira Princesa, Uma Verdadeira Princesa, Princesa dos Cisnes Selvagens e As Filhas da Bela Adormecida. Também escreveu dois ensaios para leitores adultos - A Morte Negra e A Birmânia de Than Shwe, e uma quantidade quase infinita de livros didáticos para estudantes do secundário. Já morou em Seattle, Morgantown, Ithaca, Solana Beach, Manhattan, Bronx e Bélgica, mas agora reside com o marido e o cão numa velha quinta no vale do Hudson. Gosta a sério de cozinhar – e de provar os seus cozinhados. Fonte: WOOK | Fotografia: DianeZahler

segunda-feira, 19 de março de 2018

"Um Homem Chamado Ove" de Fredrik Backman [Opinião]

Título: Um Homem Chamado Ove
Título original:  En man som heter Ove
Autor: Fredrik Backman
Tradutor: Alberto Gomes
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Editorial Presença
Temática: Romance
N.º de páginas: 312
Para adquirir:


Sinopse:


À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se. Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter.

Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer. Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises. Este livro, simultaneamente hilariante e encantador, fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros.

Um Homem Chamado Ove foi adaptado ao cinema e reuniu duas nomeações para os Óscares.

Opinião:

Ove chegou à altura da vida em que considerou o seu propósito cumprido: casou, pagou a hipoteca da casa, assumiu as suas responsabilidades, trabalhou até ser dispensado. Agora nada lhe resta a não ser terminar com a vida, da maneira mais eficaz possível e sem deixar assuntos pendentes, mas esse objectivo será mais difícil de alcançar do que poderia imaginar.

Escudando-se numa personalidade conflituosa e autoritária, Ove nem sempre compreende o mundo ao seu redor. Comprar um iPad ou discutir a promoção na compra de umas flores podem revelar-se tarefas exasperantes para ele... e para quem o ouve. Ao longo da narrativa, num cruzamento entre o passado e o presente, conheceremos a origem da amargura e do espírito reivindicativo que o movem.

Com ele se cruzará Parvaneh, uma emigrante paquistanesa que se mudou com a família para o bairro onde vive, e será ela a principal responsável por não lhe permitir seguir os seus desígnios suicidas. Ao fazer uso da sua perseverança e empatia, Parvaneh consegue imiscuir-se, paulatinamente, na vida de alguém que, à partida, traz um sinal proibitivo pregado na testa.

Ove descobrirá à sua maneira que, apesar da revolta causada pelas suas perdas, a luta pelas suas causas pode ser igualmente um motivo de satisfação e reconhecimento.

Ao terminar a leitura de Um Homem Chamado Ove constatei que a história estava repleta de figuras-tipo como o idoso, a emigrante, o homossexual, o gordo, o gato, os burocratas - "os homens de camisa branca". Neste caso, porém, julgo que a sua utilização foi devidamente ponderada, numa tentativa de mostrar as realidades que se cruzam no quotidiano sueco.

Sem aprofundar exaustivamente, em Um Homem Chamado Ove, o drama e o caricato entrelaçam-se, criando uma leitura ligeira ideal para quem aprecia descontrair mas sem com ela se alienar.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Fredrik Backman é um blogger, colunista e escritor sueco. Este seu romance de estreia tornou-se um bestseller na Escandinávia. Já vendeu 2 milhões de exemplares em todo o mundo, encontrando-se em tradução em mais de 30 países. Fonte: Editorial Presença

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Afinador de Memórias" de Jorge Serafim [Opinião]

Título: O Afinador de Memórias
Autor: Jorge Serafim
Edição/reimpressão: 2017
Editora: Edição de Autor
Temática: Infanto-Juvenil
N.º de páginas: 58

Sinopse: 


Era apenas um solitário afinador de memórias! Um homem tenazmente dedicado a consertar coisas esquecidas. Como as frágeis flores, assim deveria ser cuidado tudo o que passou. "Há que manter a memória regada, tão viçosa quanto o tempo a passar", defendia.

Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.

Opinião:

O Contar - Festival de contos do mundo começou hoje e aproveito a deixa para vos falar do último livro de um dos contadores presentes, Jorge Serafim.

Habituada que estou a narrativas longas, as leituras infantis, por norma mais curtas, deixam-me o agravo de saberem a pouco. Neste livro lancei-me num exercício diferente: saborear cada palavra como se fosse a última e o resultado foi um escrutínio demorado de cada recanto, de cada sentido oculto das suas páginas.

Saltam logo à vista as referências a Beja, tanto nas ilustrações como no texto: "Um amor cego à janela de um convento". Mas a história de que nos fala Serafim não tem limitação geográfica. 

Um homem solitário, "dedicado a consertar coisas esquecidas", leva inexoravelmente as suas palavras a ouvidos desinteressados, onde o tempo para escutar é nulo. Dirige-as às ruas da sua cidade, onde muitas são as casas abandonadas, desleixadas, e convencido está de que a sua reabilitação passará pela partilha das histórias que um dia possuíram, pois "A memória é uma casa obrigatória". 

É esta uma busca pela identidade individual e colectiva com um assumido gosto pelo surrealismo mágico, em que a essência transformadora do contador de histórias surge.

As ilustrações apelativas resultam igualmente do trabalho do autor. Admitindo a sua pouca queda para o desenho, optou pelas colagens de diferentes materiais e texturas, da qual a capa é um exemplo. Não será de estranhar encontrar  códigos de barras enquanto vidraças das janelas, ou pelo menos uma pequena flor em cada ilustração, entre recortes do Diário do Alentejo onde se vislumbram edifícios de Beja.

E, na apresentação de O Afinador de Memórias, Jorge Serafim reafirmou o seu amor por esta nossa cidade em palavras, ao expressar de viva voz o que lhe ia na alma sobre a vida cultural de Beja, e em actos, por publicar um livro que lhe incendeia a inspiração. Não poderá por isso ser acusado de não praticar o que prega.

As memórias somos nós e, quem não as tem, é um quadro vazio, por isso tão necessário é cultivá-las - as boas, as más, as nossas, as de todos.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Técnico no sector infanto-juvenil da Biblioteca Municipal de Beja, desenvolveu actividade regular na área da promoção do livro e da leitura durante cerca de treze anos. Como contador de histórias, tem percorrido o país de norte a sul, incluindo os Açores, efectuando inúmeras sessões de contos para públicos de todas as idades. Tem participado em encontros de narração oral, nomeadamente em Espanha, Argentina e Canadá. É presença regular na SIC e na RTP1 em programas de humor e é também autor de vários livros: A.Ventura, A Sul de Ti e Estórias do Serafim.: "Conto para que as palavras regressem a casa mais cedo. Para que entre nós deixem de haver vazios difíceis de habitar. Como as aves rumo a um sul à espera de existir. Conto para dar sentido aos passos que faço. Para reaprender a amar todas as ruas que percorro e entender todas as gentes que encontro. Conto para apagar silêncios fundos e afagar tristezas demoradas. Para fazer dos dias a morada da fala e dos meses a terra sonhada. Conto para que tudo à minha volta seja mais bonito. Tão simples de fazer tão complicado de entender...” Contactos: serafimstoria@gmail.com contacontos@sapo.pt contacontos_2@hotmail.com 965428856 Fonte: Narração Oral Fotografia: Red Internacional de Cuentacuentos

sábado, 29 de julho de 2017

"Marina" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: Marina
Título original:  Marina
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutora: Maria do Carmo Abreu
Edição/reimpressão: 2010
Editora: Editorial Planeta
Temática: Romance
N.º de páginas: 264
Para adquirir:


Sinopse:


«Por qualquer estranha razão, sentimo-nos mais próximos de algumas das nossas criaturas sem sabermos explicar muito bem o porquê. De entre todos os livros que publiquei desde que comecei neste estranho ofício de romancista, lá por 1992, Marina é um dos meus favoritos.» «À medida que avançava na escrita, tudo naquela história começou a ter sabor a despedida e, quando a terminei, tive a impressão de que qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que ainda hoje não sei muito bem o que era, mas de que sinto falta dia a dia, ficou ali para sempre.» Carlos Ruiz Zafón «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

Opinião:


Óscar Drai é um jovem aventureiro que se perde pelas ruas de Barcelona para combater o tédio, até ao dia em que um canto hipnotizante o leva a invadir uma das velhas mansões. Assim conhece Marina e a luz que se acende perante o seu encontro alumiará as suas solidões. É a história de ambos que ele recordará 15 anos depois.

Através das suas investigações, Óscar e Marina encontram aquele que luta obsessivamente contra o inexorável passar do tempo, condenando-se a ele e todos os que quer salvar à sua perdição. 

Ao preceder a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos, não é de estranhar que em Marina encontremos os elementos caracterizadores dos universos de Zafón. Óscar é a personagem masculina dúbia, Marina é a personagem feminina amaldiçoada, mas cuja fortaleza é invejável. E sempre o ambiente barcelonês, repleto de encantos e recantos, onde ao virar de cada esquina se encontram mistérios cujas resoluções causam danos irreparáveis nos destinos dos seus personagens. 

Uma atmosfera densa e a presença de elementos sobrenaturais reportam para O Jogo do Anjo, onde se incluem ainda referências steampunk e a evocação de Frankenstein, com o surgimento de María Shelley e do seu pai, o doutor Shelley. 

Tendo em conta o tamanho reduzido da narrativa - em comparação com o enorme O Labirinto dos Espíritos - a acção desenrola-se vertiginosamente e o efeito dramático é mais impactante. 

Tornou-se uma leitura mais dura do que as anteriores - ainda que a tenha adorado -, onde Zafón deixava, nos seus finais, a porta aberta ao futuro, ainda que não da forma mais imediata. Em Marinapela tremenda sensação de impotência, fica a certeza de que algo se perdeu e não mais se poderá reclamar, porque a morte é sempre o mais injusto dos fins.

Uma leitura realizada no âmbito do:



Classificação:  5,0/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la MedianocheLas Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

segunda-feira, 26 de junho de 2017

"O Fantasma de Canterville" de Oscar Wilde [Opinião]

Título: O Fantasma de Canterville
Título original: The Canterville Ghost and Other Stories
Autor: Oscar Wilde
Tradutor: João Gentil
Edições/reimpressão: 2011
Editora:  Biblioteca Sábado
Temática:  Contos
N.º de páginas:  216

Sinopse:
Sir Simon é um espírito bastante contente com o papel que interpreta no mundo: é um fantasma que se dedica a aterrorizar os moradores de Canterville Chase... Até que tudo muda para sempre quando na sua mansão se instala uma família de norte-americanos que não acreditam nas superstições e que não têm medo de fantasmas, e ele descobre que o seu poder sobre os vivos começa a desaparecer.

Oscar Wilde assina aqui um dos contos de fantasmas mais conhecidos de toda a história da literatura, objecto de várias adaptações cinematográficas, no qual critica as antigas convenções da sociedade vitoriana e a frivolidade da emergente cultura americana, que completamos com outros contos tão conhecidos como O Crime de Lord Arthur Saville ou A Esfinge Sem Segredos.

Contém os contos:
- O Fantasma de Canterville
- O Pescador e a sua Alma
- O Aniversário da Infanta
- A Esfinge Sem Segredos
- O Crime de Lord Arthur Saville


Opinião:

A figura de Oscar Wilde, para leitores interessados em clássicos, é um nome deveras conhecido, mais não seja pela sua polémica existência.

A sua escrita e, sobretudo, os seus temas não deixam de lhe fazer jus: elementos mórbidos estão presentes em todos estes contos, a par de uma Natureza e luxo inebriantes.

O Pescador e a sua Alma foi o meu preferido desta colectânea: um homem, pescador de profissão, apaixonado por uma sereia que todas as noites lhe canta e o encanta, abdica da sua alma para com ela concretizar o seu amor. Todavia, a alma, abandonada, toma forma e irá trazer-lhe as maiores tentações.  

Ao ler O Crime de Lord Arthur Saville e A Esfinge Sem Segredos, algo me pareceu estranhamente familiar e ao finalizar a leitura tive a certeza de os haver lido. O Goodreads confirmou-mo: li-os isoladamente na seguinte edição apresentado ao lado.

De qualquer forma, não dei o tempo por desperdiçado: sobretudo O Crime de Lord Arthur Saville é suficientemente perverso para merecer uma releitura. 

Todos os contos foram intrigantes, surpreendentes e, como seria de esperar, com uma moral certeira. 

Sobre O Fantasma de Canterville falarei de seguida.

Classificação de cada conto (x/5*):

4,5* O Fantasma de Canterville
5,0* O Pescador e a sua Alma
4,5* O Aniversário da Infanta
3,5* A Esfinge Sem Segredos
4,0* O Crime de Lord Arthur Saville

4,3/5* classificação final


Título: O Fantasma de Canterville
Título original: The Canterville Ghost
Autor: Oscar Wilde
Tradutora: Maria Manuela Novais Santos
Edição/reimpressão: Outubro de 2016
Editora: Porto Editora
Temática: Literatura juvenil
N.º de páginas: 80
Para adquirir:

Sinopse:


A primeira história publicada por Oscar Wilde leva-nos a um castelo assombrado, adquirido por uma abastada família americana que não acredita no sobrenatural, obrigando o pobre fantasma residente a encetar uma série de estratagemas para assustar os seus novos hóspedes. Nunca o fantástico, o terror e a comédia se combinaram numa trama tão genial, que nos diverte e nos leva a refletir sobre os valores mais elevados da vida.

A Coleção Reino das Letras nasce da vontade de aliar a magia das melhores histórias de todos os tempos à leitura sempre renovada que delas podemos fazer. No Reino das Letras, o rei chama-se Sonho e a rainha Imaginação!

Opinião:

O Fantasma de Canterville é uma belíssima paródia às superstições, além do inerente criticismo à aristocracia inglesa e aos novo-ricos americanos.


Habitando Canterville Chase desde o século XVI, Sir Simon tem como o único propósito  da sua existência assombrar qualquer que seja o residente dos seus aposentos e, com efeito, tem desempenhado essa função brilhantemente. Porém, o caso muda de figura quando a propriedade da mansão passa para um ministro americano, Sir Otis, e respectiva família. Apesar de alertados para a presença de um fantasma, nenhum dos familiares mostra o mais ínfimo receio e seguem-se uma série de episódios hilariantes em que a dignidade do pobre fantasma é reduzida a cinzas.


Nota-se claramente que o autor não se prende a convenções e critica tanto os compatriotas como os estrangeiros que, de uma forma ou de outra, pretendem impor os seus padrões e muito a isso ajuda o fantasma, incumbido de uma função que não questionou durante séculos.

Mas serão a coragem e a constância  que irão conduzir àquilo que realmente importa: o perdão e a redenção que trarão a tão desejada paz.

Li as duas traduções: esta, da edição Porto Editora (colecção Reino das Letras) e a anterior, referente à colecção Biblioteca Sábado. Apreciei notar e comparar as ligeiras diferenças, as opções dos tradutores, mas sem alterarem em nada o cerne da história. Recomendo, sem dúvida, esta edição aos mais novos e a anterior a leitores mais maduros.

Classificação: 4,5/5*


Sobre o autor:
Oscar Wilde foi talvez o mais importante dramaturgo da época vitoriana. Criador do movimento dândi, que defendia o belo e o culto da beleza como um antídoto para os horrores da época industrial, Wilde publicou a sua primeira obra em 1881, a que se seguiram duas peças de teatro. A partir de 1887 iniciou uma fase de produção literária intensa, em que escreveu diversos contos, peças de teatro, como A Importância de se Chamar Ernesto, e um romance. Em 1895, foi acusado de homossexualidade e violentamente atacado pela imprensa, tendo-se envolvido num processo que o levou à prisão. Morreu em Paris em 1900. Fonte: WOOK

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"O Meu Irmão" de Afonso Reis Cabral [Opinião]

Título: O Meu Irmão
Autor: Afonso Reis Cabral
Edição/reimpressão: 2014
Editora: Leya
Temática: Romance
N.º de páginas: 368
Para adquirir:


Sinopse:

A relação entre dois irmãos, um deles com necessidades especiais, que têm de aprender a viver juntos.

Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.

Opinião:

Os Prémios LeYa têm por hábito incitar-me a curiosidade e, assim que possível, entram na minha lista de leituras. O Meu Irmão não foi excepção e que brutalidade se revelou.

Na primeira pessoa, um narrador alterna o seu discurso entre o passado e o presente. Assim conhecemos a infância, a adolescência e a idade adulta de dois irmãos, um deles chamado Miguel e portador de síndrome de Down, num fio narrativo que se estende até à actualidade, em que os encontramos isolados no Tojal, na casa de campo herdada dos pais. Os únicos vizinhos serão uma família de pai e mãe idosos e um filho doente e perturbado. 

Na sua infância e adolescência, o narrador parece ter uma rivalidade saudável com Miguel. Porém, momentos há em que o culpa pela atenção desviada dos pais e, apesar da sua forte ligação, há uma inveja pelo seu Éden, o paraíso perdido, e pelo seu papel de anjo ferido na Terra, incluindo o que isso implica: a devoção dos pais - e do mundo - que nada lhe exigem e tudo lhe perdoam.

Com a deslocação para Lisboa, para estudar e trabalhar, este narrador acaba por se afastar da família por cerca de vinte anos, não estabelecendo mais relações sólidas e duradouras, com ressalva de um casamento, por mera solidão e que redunda em rejeição.

O seu retorno, após a morte dos pais, leva-o a assumir-se como tutor de Miguel e obriga-o a estabelecer uma relação de exclusividade. Define o que para ele acha melhor, independentemente das suas mais ínfimas vontades.

Do possuidor desta mente perturbada nunca conheceremos o nome: a criação de empatia para com ele não se concebe, já que é, além de perturbado, frio e alienado. Ironicamente, o único ser por quem cria uma necessidade de afecto é o seu irmão Miguel, e que, pela sua condicionante, não lhe consegue corresponder na medida do desejado. Chega a acusar o irmão de um egocentrismo exacerbado, naquilo que não passa de um espelhar de si próprio.

A exploração deste tema, a deficiência, é crua e sem rodeios. Numa prosa irrepreensível, passagens relembrarei e não esquecerei tão cedo. E é de realçar que não é qualquer um que se encontra preparado para lidar com tal condição, como ultimamente se vem notando com algumas notícias de maus tratos.

Pela introspecção que me causou, bastante mais poderia dizer. Cinjo-me a afirmar que é uma obra de estreia invejável, uma reflexão sobre a condição do homem perante a deficiência, a velhice, a doença e o seu impacto em todos nós.



Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Afonso Reis Cabral nasceu em Lisboa em 1990 e cresceu no Porto. É o quinto de seis irmãos. Escreve desde os 9 anos. Em 2005 publicou o livro Condensação, no qual reuniu poemas escritos até aos 15 anos. Publicou textos em diversos periódicos. Em 2008 ficou em 8.º lugar no 7th European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, entre mais de 3500 concorrentes de 551 escolas europeias e mexicanas. Foi o único português a concorrer.

É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo recebido o Prémio Mérito e Excelência atribuído ao melhor aluno do curso. Na mesma instituição fez o mestrado em Estudos Portugueses com a dissertação A Orquestra Oculta - Os Estudos da Consciência e a Literatura. Foi bolseiro no Centro de História da Cultura (FCSH-UNL), onde desenvolveu investigação sobre a editora Romano Torres.

Sempre se imaginou a trabalhar na área editorial. Trabalhou como revisor em regime de free-lance e desempenha actualmente as funções de editor. Fonte: Leya