Mostrar mensagens com a etiqueta leituras 2016. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta leituras 2016. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de setembro de 2016

"Amor, Silêncio e Tempestades" de José Luís Nunes Martins [Opinião]

Título: Amor, Silêncios e Tempestades - 67 reflexões
Autor: José Luís Nunes Martins
Edição/reimpressão: 2014
Editora: Paulus
Temática: Crónicas
N.º de páginas: 256
Para adquirir:


Sinopse:


Amor, silêncios e tempestades é um livro que procura a simplicidade. José Luís Nunes Martins escreve todas as semanas no jornal i.

São 67 reflexões. Todas com ilustrações originais. Reflexões profundas acerca das questões fundamentais da existência humana. Sem complicações.

Cada texto é um desafio concreto ao pensamento sobre a existência concreta e pessoal de cada um. O amor, a morte, o sofrimento e a esperança, são alguns dos pontos essenciais a que o autor retorna várias vezes, enriquecendo e provocando sempre o pensamento de quem lê.

Opinião:

Este é um livro de crónicas à luz trazido pelo filósofo José Luís Nunes Martins e belissimamente ilustrado por Carlos Ribeiro. Tal como no antecessor Filosofias - 79 Reflexões - já lido anteriormente e do qual gostei muito - fala de temas triviais e, em simultâneo, os mais difíceis, como a vida, o amor, a morte, a espiritualidade, o desenvolvimento do eu, sem cair no característico aos livros de auto-ajuda.

Por um lado, apreciei a sua escrita simples, a forma franca como o autor se exprimiu. Denotou-se uma reflexão muito profunda e uma escolha cuidadosa das palavras.

Por outro lado, quanto à leitura destas crónicas, desaconselho a que seja feita de seguida, tal como a que realizei: tornam-se algo repetitivas quer em relação aos temas, quer à opinião do autor que, naturalmente, se mantém, apesar das variações nos prismas pelas quais são observados. Surgiram, por isso, dificuldades em avançar na leitura, uma vez que, apesar de simples, nem sempre são temas de fácil digestão sobretudo quando a reflexão exigida é tão intensa.

Assim, o ideal é que o leitor escolha o momento mais apropriado para este género de leitura, preparando antecipadamente mente e espírito para o que vai encontrar, o que não foi o meu caso desta vez. Voltarei a relê-lo futuramente no timing certo.

Classificação: 3,5/5*

Sobre o autor:
nasceu em 1971.
gosta de Filosofia.
estuda.
prefere o existencialismo cristão.
escreve.
trabalha nas áreas da comunicação e da gestão de crises/emergências.
gosta de cavalos, mar, montanhas e tempestades. Fonte: WOOK

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

"Com os Olhos do Coração" de Virginia MacGregor [Opinião]

Título: Com os Olhos do Coração
Título original: What Milo Saw
Autora: Virginia MacGregor
Tradutora: Raquel Dutra Lopes
Edição/reimpressão: 
Editora: Edições ASA
Temática: Romance 
N.º de páginas: 336
Para adquirir:

Sinopse:

Milo tem nove anos e é praticamente cego - é como se visse tudo pelo buraco de uma agulha. Felizmente a bisavó, de 92 anos, ensina-o a olhar para o mundo de uma maneira diferente: se ele prestar mesmo muita atenção, conseguirá ver coisas que mais ninguém vê.

E o que ele vê não é bonito. Desde que o pai se foi embora de casa, "com a sua Galdéria para Abu Dhabi", a mãe anda triste, sempre com o mesmo vestido de folhos, e a queixar-se de falta de dinheiro. Resta-lhe apenas o consolo de Hamlet, o seu porquinho de estimação, e as conversas com a bisavó sobre tempos idos.

Um dia, porém, a bisavó quase incendeia a casa e é enviada para um lar de terceira idade. Milo fica destroçado. Ainda por cima ele vê no lar coisas que mais ninguém vê. Por trás da fachada imaculada do edifício, os idosos vivem aterrorizados pela diretora, a sinistra Enfermeira Thornhill. Milo tem agora uma missão quase impossível.

Com os Olhos do Coração é a epopeia heróica de um rapaz que não se conforma em perder a bisavó e que tudo fará para a resgatar.

Obra de culto de Virginia MacGregor, traduzida em mais de vinte países, Com os Olhos do Coração dá-nos a conhecer uma inesquecível personagem e, através dela, a insensatez do mundo em que vivemos.

Opinião:

Decidi-me por uma leitura mais leve após as anteriores (As Horas de Michael Cunningham e Mrs. Dalloway de Virginia Woolf).

O escolhido foi este Com os Olhos do Coração de Virginia Macgregor: um cocktail de personagens muito variado: Milo, o centro da história e um menino muito atento devido à sua retinose pigmentar; a sua bisavó Lou, muda e já com visíveis dificuldades na orientação e autonomia; a mãe de Milo, Sandy, que engravidou na adolescência, recém-separada, desempregada e claros problemas de auto-estima; Andy, o sempre irresponsável e omnipresente nos pensamentos de Sandy e Milo, ainda que distante fisicamente; Tripi, o refugiado sírio que procura a sua irmã Ayaishah e que encontrou trabalho no lar Não Me Esqueças; e, não esquecer, o porquinho Hamlet, rechonchudo, inteligente e o grande apoio de Milo; entre muitos outros.

A história inicia-se com um incêndio causado pela avó Lou que piores consequências não teve graças à pronta intervenção de Milo. A partir daí, Sandy decide colocar Lou num lar e passamos a observar a senda de Milo em conseguir que a avó regresse a tempo do Natal. Esta vai ser uma tarefa que assume contornos de missão quando Milo constata que a sua avó e os restantes utentes do lar estão em perigo…

A escrita é simples, despretensiosa e o fio condutor não apresenta muitas quebras. De registar apenas algumas ocorrências previsíveis.

O principal ponto forte deste livro é, sem dúvida, a forma equilibrada como conjuga temas tão diversos como a educação das crianças, as limitações advindas das doenças, o respeito e cuidados que devemos aos mais velhos, a paternidade responsável, o drama dos refugiados, o amor pelos animais ou a importância de cultivar e cuidar das relações.

É assim que a perspectiva de Milo, simples e ingénua, doce e terna, sem ambições além da felicidade da família, ensina-nos que, acima de tudo, se deve aprender a estar atento, focar a nossa visão – e restantes sentidos – no que nos rodeia, para que, desta forma, o mais importante não nos passe despercebido.

Classificação: 3,5/5*

Sobre a autora:
Virginia MacGregor cresceu entre a Alemanha, França e Inglaterra, no seio de uma família onde sempre se contaram histórias. Assim que aprendeu a segurar na caneta, começou ela própria a escrever os seus próprios contos. Estudou em Oxford e tornou-se professora de Inglês, nunca abandonando a escrita. É autora dos romances juvenis When I Hold My Breath e Before I See The Sky. Este Com os Olhos do Coração é o seu primeiro livro para adultos. Vive atualmente em Berkshire, Inglaterra, com o marido e os seus dois gatos. Fonte: Biografia do livro Fotografia: Goodreads

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf [Opinião]

Título: Mrs. Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Tradutor: Mário Quintana
Data de edição: 1992 (1.ª publicação em 1925)
Editora: Livros do Brasil
Temática: Romance
N.º de páginas: 340
Para adquirir:


Sinopse:

Numa clara manhã de primavera, Clarissa Dalloway resolve sair para comprar flores para a festa que acolherá naquela mesma noite, em sua casa. Enquanto passeia pelas ruas de Londres, são recolhidas imagens, sensações e ideias, entrelaçadas com as personagens que habitam o seu mundo - do marido, Richard Dalloway, à filha, Elizabeth, e a Peter Walsh, amigo de juventude acabado de voltar da Índia - e que com ele se cruzam - como Septimus Warren Smith, veterano da Primeira Guerra Mundial assombrado pela doença mental. Romance que revelou em pleno o talento de Virginia Woolf, a sua perspicácia, a sensibilidade transparente e, sobretudo, a arte suprema de descrever os segredos das almas - não os atos mas as sensações que eles despertam - fazem de Mrs Dalloway uma obra-prima indiscutível da literatura universal.

Opinião:

Esta leitura seguiu-se a As Horas de Michael Cunningham, visto que se baseia assumidamente nesta. Ao longo dela, estabeleci imensos paralelos entre as duas obras: Cunningham busca em Virginia Woolf um dos três planos da sua narrativa e em Clarissa Vaughan a sua Mrs. Dalloway, para além de outras personagens em que se podem encontrar semelhanças.

A história segue Clarissa Dalloway sobretudo, mas igualmente outras personagens, no decorrer de um dia. Mrs. Dalloway encarrega-se de realizar, mais uma vez, uma festa na sua residência. A este pretexto e, naturalmente, explorando toda a vida de Clarissa, a narradora faz surgir uma série de personagens, entre as quais Sally, a sua amiga da juventude, revoltosa e contestatária; Peter, com o qual quase casou, e que se reencontram após imensos anos; Richard, o seu marido e Elizabeth, a sua filha. Surgem também Lucrécia e Septimus, numa história paralela, mas que converge à principal pelos motivos mais dramáticos. A abordagem feita aos sentimentos e pensamentos mais íntimos de todos os que surgem é espelho da acutilância com que a autora interpretava o mundo e os seus habitantes, bebendo-lhes a essência.

De notar que a história de Septimus continua actual, na medida em que demonstra o preconceito em relação à doença mental, a começar pelos próprios médicos, e a impotência dos mais queridos e próximos – neste caso Lucrécia – levados a um desespero quase idêntico ao dos próprios doentes.

Classificação: 4,5/5*

Sobre a autora:

Escritora inglesa nascida a 25 de janeiro de 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina, e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virginia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virginia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.

Em sua casa foi formado o Grupo de Bloomsbury, onde se reuniam regularmente personalidades como os poetas T. S. Elliot e Clive Bell, o escritor E.M. Forster entre outros artistas e intelectuais. Os quatro irmãos, entretanto, viajaram pela Grécia e Turquia, mas pouco depois do regresso morreu Tholby, em novembro de 1906. Virginia sofreu a primeira de muitas grandes depressões. Casou em 1912 com o crítico literário Leonard Woolf, que viria a ser o seu companheiro de toda a vida.
The Voyage Out, de 1915, marca o início da sua carreira de romancista, mas só dez anos depois, com Mrs Dalloway, considerado o seu primeiro grande romance modernista, chegou o reconhecimento como escritora reputada. Orlando, obra de 1928, confirmou as qualidades de Virgina Woolf. Esta obra tem um protagonista andrógino, inspirado na sua amiga Vita Sackville-West, com quem manteve uma longa relação íntima. Após obras como A Room of One's Own (Um Quarto Que Seja Seu), onde defende a independência das mulheres, The Waves (As Ondas) e The Years (Os Anos), em 1938 lançou um romance polémico, Three Guineas (Os Três Guineus), na sequência da morte de um sobrinho na Guerra Civil espanhola. Neste livro, Virginia Woolf defende que a guerra é a expressão do instinto sexual masculino. A 28 de março de 1941, pouco depois de ter lançado Between the Acts, Virginia Woolf suicidou-se, atirando-se a um rio com os bolsos cheios de pedras. Foi a segunda tentativa em poucos dias, interrompendo assim uma carreira marcada pela obtenção de diversos prémios literários, dos quais, contudo, só aceitou um, o Fémina, de França.

Paralelamente à atividade de escritora, Virginia, em conjunto com o marido, fundou e manteve uma editora, destinada a publicar textos experimentais, textos de amigos e traduções de russo. Intitulada Hobart Press, a editora funcionava em moldes caseiros, depois de em 1917 Leonard ter oferecido à esposa uma pequena tipografia. Fonte: WOOK

sexta-feira, 15 de julho de 2016

"As Horas" de Michael Cunningham [Opinião]

Título: As Horas
Título original: The Hours
Autor: Michael Cunningham
Tradutora: Fernanda Pinto Rodrigues 
Data de edição: 2002 (1.ª publicação em 1998)
Editora: Público
Temática: Romance
N.º de páginas: 224
Para adquirir:


Sinopse:
"O livro vencedor do Pulitzer não é uma reescrita, é um mergulho no abismo de Virginia Woolf, que traz à tona o que faz dele uma obra: o abismo singular do seu autor, com o seu próprio poeta demente (Richard, que podemos fazer equivaler a Septimus, mas também a Virginia), os seus beijos inesquecíveis (o de Clarissa e Richard, junto a uma lagoa, ao crepúsculo, e, sobretudo, o de Laura e Kitty, ajoelhadas no chão de uma cozinha na Los Angeles do pós-guerra), a sua cidade (da West e da Greenwich Villages, com os seus quiosques de flores, os seus garotos de patins, a sua experiência da sida, a sua sexualidade difusa, as suas horas monótonas, o seu brilho incandescente, as suas horas de desistir e as suas horas de ressuscitar), a Manhattan em que em vez do primeiro-ministro ou da Rainha as estrelas que suscitam burburinho quando saem à rua são Meryl Streep, Vanessa Redgrave ou Susan Sarandon, e em que a filha de Clarissa já não passeará etérea no vestido justo mas usará ténis como tijolos, um piercing e cabelo rapado." - Alexandra Lucas Coelho, Público

Opinião:

Em As Horas os relatos sobre as vivências das personagens, à medida que as horas decorrem, vão-se alternando em forma de capítulos. O autor conseguiu a proeza de, em cada um dos dias destas mulheres, sintetizar-lhes toda a vida até aí, como se fosse o culminar das suas existências.

Desta forma, inicia-se com o suicídio de Virginia Woolf em 1941 e seguem-se três planos narrativos diferentes:

Em 1923, encontramos Virginia Woolf em Richmond, um subúrbio de Londres. Acompanhamo-la no dia em que inicia a produção da sua obra Mrs. Dalloway. O dilema da sua doença; o sufoco de se ver afastada do centro de Londres, onde estava em pleno contacto com as suas fontes de observação e inspiração; a visita da sua irmã e dos seus três sobrinhos, espelho da vida que possivelmente gostaria de ter; o embate com o marido, exigindo-lhe voltar à vida – tudo surge num dia pleno em significado.

Numa moradia nos subúrbios de Los Angeles, acompanhamos Laura Brown, dona-de-casa que consentiu um casamento e uma vida familiar que não a trazem minimamente preenchida. Dan é o marido, Richie o filho e mais um bebé está a caminho. Sentimos como anseia libertar-se, ainda que a sua vida seja aparentemente normal, satisfatória e, até, desejável. A grande questão que a envolve é: será a procura pela felicidade legítima quando em detrimento do que é moralmente correcto ou, pior ainda, quando pode estilhaçar o futuro da sua família?

Clarissa Vaughn, editora de profissão e residente em Nova Iorque, prepara uma festa para o seu amigo de longa data Richard, poeta recém-laureado com um prémio de consagração da sua carreira, porém, doente com SIDA em estado avançado e que continua a ser dedicadamente cuidado pela amiga. Clarissa tem uma relação homossexual, numa união de facto que dura há mais de uma década com Sally, e uma filha, Julia, uma jovem nascida de uma inseminação artificial. A sua ligação a Richard, provinda da juventude, e o triângulo amoroso que formaram com Louis, marcou a sua vida e trará o momento mais marcante do seu dia.

As vidas destas três personagens interligam-se, directa ou indirectamente, sendo a obra Mrs. Dalloway o denominador comum. Além disso, a frustração de se almejar algo que, quando se concretiza, é fonte de consequências nefastas e irremediáveis, é simultânea a Virginia, Laura e Clarissa.

A adaptação cinematográfica, realizada por Stephen Daldry, transpõe e complementa o livro de modo a que, depois de visionada uma e lido o outro, se tornam indissociáveis.

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:

Michael Cunningham é autor de As Horas, galardoado com o Pulitzer Prize e o PENFaulkner Award e já adaptado ao cinema; Uma Casa no Fim do Mundo, igualmente adaptado ao grande ecrã; e Sangue do Meu Sangue, todos publicados em Portugal pela Gradiva. Vive em Nova Iorque. Fonte: Gradiva Fotografia: Santa Maddalena Foundation

sábado, 9 de julho de 2016

"O Prédio" de Miguel Morais [Opinião]

Título: O Prédio
Autor: Miguel Morais
Data de edição: 2012
Editora: Edições Vieira da Silva
Temática: Humor
N.º de páginas: 80
Para adquirir:


Sinopse:

Se o seu sonho é morar numa vivenda, contente-se por não viver num prédio assim. Quando uma infiltração nas arrecadações põe à prova os condóminos deste prédio, o que sairá da cabeça de uma corja constituída por um cantor desafinado, uma psicóloga deprimida, um polícia brutamontes, um informático chulo, uma estudante prostituta, um cientista maluco, um casal com sete filhos e um escritor javardo?

Opinião:

Gosto de histórias decorridas em prédios, como Claraboia de José Saramago ou Caminho Como Uma Casa em Chamas de António Lobo Antunes. Porém, naturalmente que não estava a esperar encontrar um registo semelhante. Surgiu-me antes uma narrativa humorístico-satírica em que as personagens são directamente apresentadas e respectivamente colocadas nos seus andares, pelo que não temos de descortinar através da leitura quem é quem ou onde mora esta ou aquela personagem.

Acompanham-se então as peripécias, sobretudo as que reúnem os condóminos, em busca da solução para o problema que atingiu o prédio.

Acabou por ser uma leitura rápida, mas que se perdeu em figuras-tipo demasiado estereotipadas: o que era para ser engraçado, acaba por não o ser demasiadas vezes, roçando apenas o seu objectivo.

Apreciei bem mais as duas histórias em anexo, sobretudo A volta aos cavalos com a sereia taxista, devido ao carácter surreal de uma sociedade conviver tão naturalmente com sereias taxistas e outros seres mitológicos.

Classificação: 2,5/5*

Sobre o autor: 

Nasceu a 6 de outubro de 1977, em Lisboa. Publicou Poesia para médicos, farmacêuticos, biólogos e afins (2009), A (p)Alma da Arte (2010), A crise financeira do Pai Natal (2010), A viagem da Flor Dourada (2011) e O prédio (2012). O seu mais recente trabalho, O ano mais estúpido do meu irmão mais novo (2015), foi lançado em três volumes, um por cada quadrimestre.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho [Opinião]

Título: Perguntem a Sarah Gross
Autor: João Pinto Coelho
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 448
Para adquirir:


Sinopse:


Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.

Opinião:

Primeiramente, esta é uma obra que entrelaça vários géneros literários (mistério, histórico, thriller) e temas diversos de forma coerente e harmoniosa. A linguagem conduz a uma leitura rápida e absorvente, já que é fluída e sem artifícios.

A marca predominante no enredo é o leque de personagens femininas inspiradoras, sobreviventes, dotadas de fortes personalidades – Anna, Sarah, Esther, Kimberly. As personagens masculinas adquirem um papel subalterno, à excepção de Henryk, o pai de Sarah, envolvido num dos episódios mais emotivos do livro.

Anna, Sarah e Esther surgem envolvidas em grandes dramas pessoais representantes de uma época tão funesta. Especialmente o sofrimento de Sarah, torna-se impressionante e, a forma como dele emergiu, icónica. Sem margem para dúvidas, uma personagem inesquecível para mim. Ela é a alma desta história.

Algo que apreciei, sem dúvida, foram as reviravoltas surpreendentes, que me permitiram a renovação da curiosidade e o estímulo para avançar ainda mais depressa na leitura.

No final, achei que a história de Kimberly foi “arrumada” um tanto ou quanto precipitadamente para uma personagem tão relevada, e que alguns pontos poderiam ter sido melhor explorados, como o racismo no colégio de St. Oswald’s, (view spoiler).

Deparei-me com uma forma diferente e original de abordar Auschwitz e toda a miséria, infâmia e ignobilidade que lhe está inerente e que representa um período tão negro da História da Humanidade… O segregacionismo religioso dos judeus ficou patente na forma equilibrada, mas apartada, como os habitantes de Oshpitzin coabitavam e na discriminação ao acesso e pleno cumprimento de funções em cargos políticos. O anti-semitismo já existia. Os incentivos do nazismo apenas fizeram brotar a planta maldita que enraizada estava.

A 2.ª Guerra Mundial e o nazismo continuarão a fornecer matéria mais do que o suficiente para, por um lado, duvidarmos da viabilidade da continuação da espécie humana e, por outro lado, encontrarmos a esperança de que isso seja possível graças aos actos mais extraordinários.

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor: 

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance. Fonte: WOOK

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Aos Olhos da Rita" de Rita Bulhosa [Opinião]

Título: Aos Olhos da Rita - Como sinto e vivo a paralisia cerebral
Autora: Rita Bulhosa
Data de edição: 2015
Editora: Guerra e Paz
Temática: Memórias e Testemunhos
N.º de páginas: 176
Para adquirir:

Sinopse:

Ler a Rita é criar nitidez, terminar o impreciso, o indefinido, sobretudo da vontade.

Há um sol de uma galáxia interior que se pôs no centro deste livro. Caminhamos na pura luz. A cada texto transparecemos.

Opinião:

A Rita é uma menina muito especial, não pela problemática que a acompanha desde o nascimento, mas porque, exactamente pela "diferença" que a paralisia cerebral lhe trouxe, se tornou mais sensível e alerta ao mundo em seu redor.

O seu optimismo transparece constantemente, não fosse o sorriso a sua imagem de marca. Por isso, tem uma visão descomplicada - e consciente - do mundo, apelando sempre aos sentimentos mais puros que existem na espécie humana: o amor, a amizade, a solidariedade, a determinação - palavra indissociável do carácter da Rita, a qual, na minha humilde opinião, deverá ter orgulho da personalidade que possui com tão tenra idade, quando os jovens da sua idade ainda se debatem em exclusivo com questões meramente individualistas e do foro íntimo.

Este é um livro que deveria ser inserido no Plano Nacional de Leitura, uma vez que consegue perfeitamente demonstrar uma realidade que os jovens da actualidade, imersos nos seus umbigos, no geral, não conseguem alcançar; não sendo, por isso, desaconselhado a graúdos que, absorvidos por um dia a dia extenuante, se vão esquecendo dos valores pilares dos relacionamentos.

De realçar ainda a sua escrita, despretensiosa, com imensa margem de crescimento, o tocante prefácio de valter hugo mãe e as ilustrações, muitas das quais adoro. Recomendo!

Classificação: 3,5/5*

Esta opinião pode igualmente ser encontrada no Marcas de Leitura.



Sobre a autora:
«Eu sou a Rita, o meu nome completo é Ana Rita Bulhosa da Rocha Pereira. Nasci em Espinho em 17 de Dezembro de 1999, tenho portanto 15 anos. Na verdade eu era para ter nascido dois meses depois mas apressei-me e nasci antes do tempo. Por ter chegado mais cedo, passei dez dias fechada numa incubadora e essa pressa toda fez com que me fosse diagnosticada paralisia cerebral.


Dizem-me que foi por falta de oxigenação das células do cérebro. Não se assustem, isso não quer dizer nada de especial, apenas me condiciona a marcha, a minha forma de caminhar. Preciso de ajuda de uma canadianas. Passei agora para o oitavo ano e adoro escrever e contar histórias. Já agora quero que saibam que estou sempre a sorrir, há até uma associação que tem o meu nome, “O Sorriso da Rita”.» Fonte: TEDxVilaReal

sábado, 11 de junho de 2016

"Todos os Contos" de Edgar Allan Poe [Opinião]

Título: Todos os Contos
Autor: Edgar Allan Poe
Data de edição: 2014
Editora: Temas e Debates
Temática: Contos
N.º de páginas: 952
Para adquirir:


Sinopse:

Edgar Allan Poe é um dos autores mais publicados do mundo, conhecido pela genialidade expressa também nos seus famosos contos de terror e em algumas das histórias de detetives mais macabras jamais escritas, como A Queda da Casa de Usher, Os Crimes da Rua Morgue ou O Escaravelho de Ouro. Notável mestre do suspense, Poe também era poeta e, como demonstram os seus contos sobre hipnotismo e viagens no tempo, foi um pioneiro da ficção científica.

A presente edição reúne todos os contos deste autor clássico da literatura universal e decorre da edição ilustrada anteriormente publicada em dois volumes.

Opinião:

Não podia deixar de dedicar algumas palavras a um dos livros que mais tempo levei a ler (cerca de 10 meses!), mais do que Guerra e Paz ou Moby Dick que possuem, igualmente, um volume avantajado e um número de páginas considerável.

Antes de mais, posso justificar esta demora com o facto de o livro possuir 69 contos compilados num único volume, o que o torna difícil de transportar dentro da mala, como costumo fazer com os de menor volume. Além disso, ler contos de enfiada não me parece muito satisfatório, já que as histórias não amadurecem suficientemente no meu imaginário, tal como aprecio. Desta forma, fui lendo um conto ali, outro acolá, e assim foi decorrendo a leitura.

Parti para esta leitura esperando encontrar o pioneiro do mistério e do terror e, como tal, uma escrita com uma qualidade elevada. Sem dúvida, não me desiludi. Encontrei igualmente alguns contos que enquadraria em ficção científica o que, de facto, me surpreendeu. Confesso que foram os que me deram mais luta pois as minhas bases científicas são quase nulas. Acabei por adoptar a atitude de retirar todo o prazer possível da leitura, relativizando os aspectos técnicos abordados nestes contos em específico.

Perpassando um olhar generalizado por todos os contos, os que me mereceram maior pontuação baseada sobretudo no gosto pessoal, foram os que mais se contextualizaram em ambientes, tremendamente góticos, de profundo mistério e suspense, os mais transcendentes e/ou os satíricos. O conto final Narrativa de A. Gordon Pym - o de maior dimensão - revelou-se um desfecho fabuloso porque continuo a adorar histórias de marinheiros, piratas e afins, repletas de aventuras e onde o homem se supera na imensidão do mar.

Julgo que todas - ou quase todas - as narrativas foram escritas na primeira pessoa, pelo que os diferentes narradores estão sempre próximos, adoptando-se invariavelmente a postura de contador de histórias. Quando assim se pretende, o suspense é crescente, revelando-se a chave do mistério no final.

A cultura de Poe é imensa, surgindo constantemente sem ferir susceptibilidades. Imagino que tenha sido uma perturbada personalidade na sua época, porém de intelecto elevado e não reconhecido pelos seus contemporâneos, como é de bom tom.

Finalmente, é do meu conhecimento que a Edições tinta-da-china publicou a sua Obra Poética Completa, que entrará directamente para a minha wishlist e, que espero um dia, ler.

Classificação de cada conto (x/5*):
3,0 * A Aventura Sem Paralelo de um Tal Hans Pfall
4,0 * O Escaravelho de Ouro
4,0 * O Embuste do Balão
4,5 * Von Kempelen e a sua Descoberta
5,0 * A Revelação Mesmérica
5,0 * A Verdade sobre o Caso do Sr. Valdemar
4,5 * A Milésima Segunda História de Xerazade
5,0 * Manuscrito Encontrado Numa Garrafa
4,5 * Uma Descida no Maelström
5,0 * Os Crimes da Rua da Morgue
4,0 * O Mistério de Marie Rogêt
4,5 * A Carta Roubada
5,0 * O Gato Preto
5,0 * A Queda da Casa de Usher
5,0 * O Poço e o Pêndulo
4,5 * O Enterro Prematuro
4,5 * A Máscara da Morte Vermelha
4,5 * O Barril Amontillado
4,0 * O Demónio da Perversidade
4,5 * A Ilha da Fada
5,0 * O Retrato Oval
5,0 * O Encontro
5,0 * O Coração Revelador
4,5 * O Sistema do Doutor Tarr e do Professor Fether
4,0 * A Vida Literária do Ex.mo Sr. Thingum Bob
3,5 * Como Escrever Um Artigo à Blackwood
4,0 * Um Aperto
4,0 * Mistificação
3,5 * O Parágrafo TranXformado
5,0 * Da Vigarice Considerada como Uma das Ciências Exactas
4,5 * O Anjo Estranho
4,0 * Mellonta Tauta
4,0 * Perda de Respiração
5,0 * O Homem Que Foi Consumido
5,0 * O Homem de Negócios
4,0 * O Jogador de Xadrez de Maelzel
4,5 * O Poder da Palavra
5,0 * O Colóquio de Monos e Una
5,0 * A Conversa de Eiros e Charmion
4,0 * Sombra
4,0 * Silêncio
3,5 * Filosofia do Mobiliário
3,5 * Uma História de Jerusalém
4,5 * A Esfinge
4,0 * O Homem da Multidão
4,5 * Nunca Aposte a Sua Cabeça com o Diabo
5,0 * «És Tu o Homem»
5,0 * Hop-Frog
4,0 * Quatro Animais Num
4,0 * Por Que Razão Traz o Francesinho o Braço ao Peito
4,5 * Bon-Bon
4,5* Algumas Palavras com Uma Múmia
4,0 * A Propriedade de Arnheim, ou o Jardim-Paisagem
4,0 * A Cottage de Landor
4,5 * William Wilson
5,0 * Berenice
5,0 * Eleonora
5,0 * Ligeia
5,0 * Morella
4,0 * Metzengerstein
5,0 * Uma História das Montanhas Escarpadas
5,0 * Os Óculos
4,0 * O Duc de l’Omelette
5,0 * A Caixa Oblonga
5,0 * O Rei Peste
4,5 * Três Domingos Numa Semana
5,0 * O Diabo no Campanário
4,0 * Entradas de Leão
5,0 * Narrativa de A. Gordon Pym

4,5/5* classificação final

Sobre o autor:


Escritor norte-americano nascido a 9 de janeiro de 1809, em Boston, e falecido a 7 de outubro de 1849. Filho de dois atores de Baltimore, David Poe Junior e Elizabeth Arnold Poe, ficou órfão com apenas dois anos de idade e desde cedo aprendeu a sobreviver sozinho. Foi adotado por uma família de comerciantes ricos de Richmond, de quem recebeu o apelido Allan.

Entre 1815 e 1820, a família Allan viveu em Inglaterra e na Escócia, onde Poe recebeu uma educação tradicional, regressando depois a Richmond. Poe foi para a Universidade da Virgínia em 1826, onde estudou grego, latim, francês, espanhol e italiano, mas desistiu do curso onze meses depois por causa do seu vício do jogo e do álcool. Resolveu então ir para Boston, onde publicou em 1827 um fascículo de poemas da juventude de inspiração byroniana, Tamerlane and Other Poems.

Em 1829 publicou o seu primeiro volume de poemas, com o título Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems, onde se denota a influência de John Milton e Thomas Moore. Foi então para Nova Iorque, onde publicou outro volume, contendo alguns dos seus melhores poemas e onde se evidencia a influência de Keats, Shelley e Coleridge.

Em 1835 estreou-se como diretor do jornal Southern Literary Messenger, em Richmond, onde se tornaria conhecido como crítico literário, mas veio a ser despedido do seu cargo alegadamente por causa do seu problema da bebida. O álcool viria aliás a ser o estigma que marcaria toda a sua vida até à morte. Casou-se nesse mesmo ano com a sua prima de apenas treze anos, Virgínia Clemm, e o casal resolveu então instalar-se em Nova Iorque, onde não chegou a permanecer muito tempo. Foi em Filadélfia que Poe alcançou fama através de vários volumes de poemas e histórias de mistério e de terror. Em 1838 escreveu The Narrative of Arthur Gordon Pym (A Narrativa de Arthur Gordon Pym), obra de prosa em que combinou factos reais com as suas fantasias mais insanes. Em 1839 tornou-se codiretor do Burton's Gentleman's Magazine em Filadélfia, e nesse mesmo ano escreveu várias obras que o tornaram famoso pelo seu estilo de literatura ligado ao macabro e ao sobrenatural. São elas William Wilson e The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher). A primeira história policial surgiu apenas em 1841, na revista Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, sob o nome The Murders of the Rue Morgue (Os Crimes da Rue Morgue), e em 1843 Poe recebeu o seu primeiro prémio literário com a obra The Gold Bug. Em 1844 regressou a Nova Iorque e tornou-se subdiretor do New York Mirror. Na edição de 29 de janeiro de 1845 deste jornal surgiu o poema The Raven (O Corvo), com o qual Poe atingiu o auge da sua fama nacional.

Dois anos mais tarde morre a sua mulher Virgínia, mas Poe volta a casar, com Elmira Royster, em 1849. Porém, antes disso, Poe publica Eureka, uma obra que deu azo a muita contestação por parte de alguns críticos da época e que é considerada uma dissertação transcendental sobre o universo, muito louvada por uns e detestada por outros.

É de regresso à terra natal do seu pai que Poe começa a apresentar indícios de que o problema do alcoolismo já era de certo modo irreversível. De facto, ele esteve na origem da morte do poeta. A obra de Poe é o espelho da sua vida conturbada e dos seus hábitos e atitudes antissociais, que o levavam a ter uma escrita que ia para além dos padrões convencionais. Se por um lado foi vítima de certas circunstâncias que estavam para além do seu controle, como foi o facto de ter ficado órfão aos dois anos de idade, por outro fez-se escravo de um problema - o álcool - que agravaria a sua personalidade já de si inconstante, imprevisível e incontrolável. Edgar Allan Poe. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009. Fonte: WOOK

sexta-feira, 27 de maio de 2016

"A Árvore das Palavras" de Teolinda Gersão [Opinião]

Título: A Árvore das Palavras
Autora: Teolinda Gersão
Data de edição: 2003 (1.ª publicação: 1997)
Editora: Visão/Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 159
Para adquirir:


Sinopse:

"Ela estava na margem, olhando. Enquanto a vida, como os barcos à vela, passava ao largo. Era tudo tão visível e concreto que tinha vontade de chorar. Mas se chorasse era pior, sentiu tirando da mala um lenço de papel, era como se o mundo risse dela, os guarda-sóis, as casas, os barcos, as árvores, as pessoas, sobretudo as pessoas rissem dela."

Opinião:

Uma obra dividida em três partes em que se acompanha Gita e os pais, Laureano e Amélia, no primeiro acto; no segundo, a história de vida de Amélia; e o amadurecimento de Gita no terceiro. Gita é apresentada, inicialmente, como uma menina que encontra compreensão no pai e um tremendo sufoco da parte da mãe, pelo seu desejo de liberdade e independência. Os pais possuem prioridades completamente diferentes: enquanto Laureano se satisfaz com uma vida pacata e sem sobressaltos, Amélia mostra-se permanentemente insatisfeita com a sua sorte, invejando todos os que usufruem de um nível de vida superior ao seu e desdenhando os negros, como Lóia, a empregada doméstica. É neste embate de vivências tão diferentes que Gita cresce e se observa como as discriminações e os preconceitos podem condicionar as vidas.

Habilmente conduzido por Teolinda Gersão, o fio narrativo com avanços e recuos e repartido entre as personagens principais, torna a leitura fluída e saborosa. Moçambique surge como pano de fundo e, simultaneamente, como personagem principal, assumindo-se como a homenagem que a autora pretendeu realizar às dádivas de África recebidas.

"O dia não quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e a vida era gozosa e fácil como o jogo e o sonho. Podiam-se abrir os braços e gritar: Eu vivo - mas não era necessário esse gesto exultante e excessivo, as coisas eram tão próximas e simples que quase não se reparava nelas. Saía-se por exemplo a porta da cozinha sem se dar conta de transpor um limiar. Não havia separação entre os espaços, nem intervalos a separar os dias. Porque o corpo ligava a terra ao céu".

Classificação: 4,5/5*

Este livro foi autografado pela autora na sua vinda à Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago a 8 de Janeiro de 2016.

Sobre a autora: 
Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras de Lisboa e depois de provas académicas professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada. A partir de 1995 passou a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Além da permanência de três anos na Alemanha viveu dois anos em São Paulo, Brasil, e conheceu Moçambique, onde decorre o romance de 1997 A Árvore das Palavras.

Autora sobretudo de romances, publicou até agora duas novelas (Os Teclados e Os Anjos) e duas colectâneas de contos (Histórias de Ver e Andar e A Mulher que prendeu a Chuva).Três dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia: Os Teclados por Jorge Listopad no Centro Cultural da Belém, 2001; Os Anjos por por João Brites e o grupo O Bando, 2003; A Casa da Cabeça de Cavalo ganhou o Grande Prémio do Festival Internacional de Teatro de Bucareste, Roménia, em 2005, com encenação de Eusebiu Stefanescu. Encenada também na Alemanha por Beatriz de Medeiros Silva e o grupo Os Quasilusos, em 2005.

Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004.

O seu livro mais recente é o romance Passagens (2014).

Vive em Lisboa. Fonte: Teolinda Gersão | Site oficial