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quarta-feira, 5 de abril de 2017

"Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco [Opinião]

Título: Eusébio Macário
Autor: Camilo Castelo Branco
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Alêtheia Editores
Temática: Romance
N.º de páginas: 120
Para adquirir (outra edição da obra):
 

Sinopse:

«Camilo confessa em carta a um amigo que teve a intenção de divertir o público. "Estimo que o Eusébio Macário fizesse rir. Era o escopo que eu tinha em olho." Mas quê? Pode-se fazer rir de muitas maneiras, e Camilo não ajuda a dizer qual. Pelo contrário, lança sobre o caso uma cortina de fumo (será talvez excessivo dizer: engendra uma estratégia). E nós especulamos. Seria o Eusébio Macário um simples exercício de emulação de escola, empreendido quase por diversão? Ou, menos inocentemente, uma caricatura acintosa? Ou ainda uma vingança espirrada na cara dos atrevidos arautos da nova literatura, que afanosamente desacreditavam os cânones ficcionais a que Camilo toda a vida tinha obedecido, e na verdade tinham feito a sua reputação literária?» A. M. Pires Cabral, in Prefácio

Opinião:

De Camilo Castelo Branco havia lido há alguns anos A Queda Dum Anjo e Amor de Perdição: duas obras claramente resultantes da pena do mesmo autor, contudo totalmente opostas nos temas abordados.

Em Eusébio Macário, o prefácio foi preponderante para compreender o propósito da obra: através de uma impiedosa «tentativa» de imitação, Camilo quis parodiar o estilo em que se alcançaria o expoente máximo com Eça: o realismo. O resultado é uma história tremendamente divertida, com enumerações longuíssimas, descrições detalhadas e personagens, no mínimo, ridículas.

Em resposta a um desafio da sua companheira Ana Plácido, Camilo respondeu-lhe com esta história. Eusébio Macário é o boticário da terra, um negócio que herdou do pai, incluindo as fórmulas utilizadas para a cura de todo o tipo de maleitas. Em seu redor coexistem um conjunto de personagens inesquecíveis de tão risíveis: o filho José Fístula, canastrão inveterado que, após uma passagem pouco proveitosa pela universidade de Coimbra, se dedica ao negócio do pai; a filha Custódia, rapariga dada aos bailaricos; o abade Justino, seu grande amigo que de religião pouco prega e que de política - e mulheres - muito sabe e a «fêmea» deste abade, Felícia: sendo-lhe bastante dedicada é, em igual medida, mal amada.

Todos vivem em Basto, localidade do Norte de Portugal, na década 20 do século XIX. A ordem das coisas altera-se devido à chegada do «brasileiro» Bento, o comendador e irmão de Felícia, recheado da fortuna - e que fortuna! - encontrada no Brasil, que decide visitar a irmã e, naturalmente, todas as atenções lhe passam a ser reservadas.

Num puro desafio satírico, Camilo criou situações num enredo risível do princípio ao fim. A quem for possível ultrapassar as condicionantes linguísticas - que até senti serem menores comparativamente a A Queda Dum Anjo - esta pode ser uma leitura prazerosa e, acima de tudo, muito divertida, algo a que o autor me habitou.

A moral desta história leva-nos a reflectir sobre o poder do dinheiro para alterar estilos de vida, ambições, sonhos, esperanças e, até, o conformismo.

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
Camilo Castelo Branco nasce na Encarnação, Lisboa, no dia 16 de março de 1825, e faleceu no dia 1 de Junho de 1890 em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão. Era filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e Jacinta Maria. Passou a infância em Vila Real (Trás-os-Montes), depois da morte dos pais. Frequentou a sociedade portuense, dedicando-se ao jornalismo, e teve uma vida romanticamente agitada, desde vários casos amorosos e prisão. Sentindo-se cego, suicida-se com um tiro na cabeça na casa de São Miguel de Seide. Notabilizou-se com várias novelas, uma delas Amor de Perdição, adaptada diversas vezes ao cinema. É um dos maiores escritores portugueses do século XIX e o mais prolífico. Quase toda a sua obra ficcional se insere na corrente romântica, tendo feito algumas experiências que partilham certas características com a estética realista e naturalista, como Eusébio Macário (1879), A Corja (1880) e A Brasileira de Prazins (novela, 1883). Fonte: Projecto Vercial Fotografia: Luso Livros

quarta-feira, 29 de março de 2017

"A Imperfeição do Amor" de Joaquim Mestre [Opinião]

Título:  A Imperfeição do Amor
Autor: Joaquim Mestre
Edição/reimpressão:  2007
Editora: Oficina do Livro
Temática: Romance
N.º de páginas: 192
Para adquirir:


Sinopse:

Uma criança que adivinha o futuro e um homem que escreve cartas de amor cruzam-se num universo mágico de lendas e crenças.

A vila de Mazouco, na Galiza, nunca mais foi a mesma desde a noite em que uma estrela parou sobre a taberna de Xosé Regueiro e nasceu o seu filho, Quico Regueiro. Os acontecimentos que se seguiram, deixando todos maravilhados, vão construindo e ao mesmo tempo desvendando uma teia narrativa que evoca autores como Juan Rulfo ou Gabriel García Márquez.

Uma criança prodigiosa capaz de adivinhar o futuro, a história de um pastor enganado pela mulher, uma artista de circo pouco dada aos pudores da vida ou um homem que escreve cartas de amor que enfeitiçavam as mulheres fundem-se numa história de grande riqueza onírica e uma linguagem poética envolvente.

Depois de O Perfumista, editado também pela Oficina do Livro, A Imperfeição do Amor vem confirmar a originalidade da escrita de Joaquim Mestre na literatura portuguesa actual.

Opinião:

Algures ouvi comentar que Joaquim Figueira Mestre, falecido director da Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, era um bom escritor. Por isso, quando me surgiu a oportunidade de adquirir este A Imperfeição do Amor, não hesitei.

As histórias que conta desenrolam-se em Mazouco, vila galega, e nas aldeias circundantes. Nesta vila, onde as ocorrências extraordinárias apenas haviam surgido como ficção, contadas de boca em boca, dá-se um acontecimento invulgar: Quico Regueiro, filho dos taberneiros, nasce com um sinal em forma de sardinha e, durante treze dias, a abundância deste peixe nas águas de Mazouco é excepcional. Passará a ser considerado um santo e a sua vida é em tudo por isso limitada, tornando-se o ícone da terra.

Além de acompanharmos a sua existência, seguimos a de várias outras personagens das quais se destacam a de Ilena, filha da anã, infeliz e trágica; a de Fernando, um padre pouco respeitoso quanto ao celibatarismo e com um percurso de inconstâncias trespassado; ou a de Manuel de la Formoseda, um escritor, para todos os lacónicos, de cartas de amor.

No que à narração diz respeito, momentos houve em que me pareceu apressada, com algo por contar nas entrelinhas de histórias que teriam potencial para maior desenvolvimento. Porém, neste universo marcado pela superstição e pela magia, mas igualmente pelo preconceito, a imaginação do autor surpreende e desperta imagens difíceis de esquecer, como a de uma casa assombrada à beira-mar de onde se ouvem os gritos dos náufragos falecidos.

Pretendo, desta forma, apesar de não me ter conquistado inteiramente, ler mais obras deste autor, tais como O Perfumista ou Breviário de Almas, vencedor do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca.

Classificação: 3,5/5*

Nota: A propósito de homenagear este escritor e "promover, defender e valorizar a Língua Portuguesa e a Identidade e Diversidade Cultural da Região Alentejo", num protocolo estabelecido entre a ASSESTA e a Direção Regional de Cultura do Alentejo, foi criado o Prémio Literário Joaquim Mestre. Mais informações sobre o mesmo aqui.

Sobre o autor:
Joaquim Figueira Mestre nasceu em Trindade, concelho de Beja. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Ciências Documentais. Viveu no Alentejo, ermo a que alguns chamam a sua casa, e onde as pessoas andam com o sol nas mãos e a lonjura no olhar. Viveu num monte onde tem uma vinha e sonha ali fazer um grande vinho. Gostava de ler e sonhar, de comer e beber, de amar e viajar… e de escrever. É autor do livro de contos O Livro do Esquecimento e dos romances O Perfumista e A Imperfeição do Amor, ambos editados pela Oficina do Livro. Foi director da Biblioteca Municipal de Beja. Em 2008, venceu a 7.ª edição do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca. Faleceu em 2009, vítima de linfoma. [adaptado] Fonte: Oficina do Livro Fotografia: Abaciente's Blog

quarta-feira, 8 de março de 2017

"Os Olhos de Allan Poe" de Louis Bayard [Opinião]

Título: Os Olhos de Allan Poe
Título original: The Pale Blue Eye
Autor: Louis Bayard
Tradutor: José Remelhe
Edição/reimpressão: 2011
Editora: Edições Saída de Emergência
Temática: Thriller histórico
N.º de páginas: 416

Sinopse:

Corre o ano de 1830. Na Academia de West Point, a tranquilidade de um final de tarde de Outubro é perturbada pela descoberta do corpo de um jovem cadete enforcado junto ao recinto da formatura. Não é a primeira vez que se verifica um aparente suicídio num regime ríspido como o de West Point, mas, na manhã seguinte, constata-se um abominável acto ainda mais grave. Alguém assaltou o quarto onde o cadáver repousava e levou o coração. Desesperada para evitar publicidade negativa, a academia contrata os serviços de Augustus Landor, ex-detective de renome. Viúvo, e atormentado no seu isolamento, Landor decide aceitar o caso. Nos interrogatórios iniciais, descobre um caprichoso e curioso jovem cadete com propensão para a bebida e com um passado sombrio. O nome desse cadete? Edgar Allan Poe. Impressionado pelos astutos poderes de observação de Poe, Landor está convencido de que o poeta lhe pode ser útil - caso consiga permanecer sóbrio o tempo suficiente para colocar em acção os seus perspicazes poderes de raciocínio. Trabalhando em estrita colaboração, os dois homens desenvolvem um relacionamento surpreendentemente profundo à medida que a investigação os conduz a um oculto mundo de sociedades secretas, rituais de sacrifício e mais cadáveres. Porém, os macabros homicídios e o passado secreto de Landor ameaçam afastar os dois e terminar com a sua recente amizade.

Opinião:

Em Os Olhos de Allan Poe, a história tem como pano de fundo a academia militar de West Point, pelo ano de 1830. Neste local ocorre uma morte peculiar, assumindo contornos tenebrosos quando o cadáver desaparece e é posteriormente encontrado com o coração extraído.

Para a investigação deste caso é destacado Landor, um investigador reformado, residente nas redondezas desde há alguns anos, que terá como objectivo descobrir os culpados e salvaguardar o bom nome desta instituição militar. E quem, se não Edgar Allan Poe, poderia ser o seu escolhido para ajudante nestas investigações? Todos poderão ser o criminoso: entre oficiais, funcionários e cadetes, há desconfianças de sobra.

Os thrillers históricos, ao invés de contemporâneos, têm despertado o meu interesse e a presença deste Allan Poe, como personagem deste enredo, ainda mais o cativou. Tendo em conta a minha leitura de Todos os Contos, curiosa fiquei com este título e possíveis informações que desta leitura pudesse extrair.

O autor, aproveitando o desconhecimento de vários aspectos da vida de Allan Poe, reclamou-o como uma das suas personagens. Desta forma, surge nesta narrativa como um jovem na casa dos vinte, culto, eloquente, sagaz e imaginativo. Apresenta, porém, uma faceta perturbada devido à morte da mãe na infância, que continua a venerar, e pela relação conflituosa com o pai adoptivo. Integra a academia de West Point após passagens atribuladas pelas vidas universitárias e militar, com o estigma de problemático e errático. Nesta fase, a sua produção literária tende para a poesia e a sua imensa cultura, evidenciada pelo seu discurso, encontra-se totalmente deslocada no meio académico de West Point, sendo, ao invés de valorizado, marginalizado pelos colegas.

Acompanharemos Landor e Poe nas suas investigações pouco ortodoxas, num crescendo de mistério e suspense, perfeitamente levado a cabo pelo autor Louis Bayard. Os culpados e a conclusão parecem evidentes, todavia, de que forma nos enganamos, e este final não desilude pela previsibilidade que inicialmente aparenta, muito longe disso.

Constituindo esta leitura um caso em que a ficção tomou posse da realidade, a personagem criada é tão palpável que, no fim, só desejamos que corresponda à histórica.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Segundo o Washington Post, com os seus três romances mais recentes, Mr. Timothy, Os Olhos de Allan Poe e The Black Tower, Louis Bayard ascendeu "ao topo da liga do thriller histórico". Notável autor do New York Times, foi nomeado para os galardões Edgar e Dagger e considerado um dos principais autores do ano pela revista People.

Louis é também um ensaísta e crítico reconhecido a nível nacional cujos artigos foram publicados no New York Times, no Washington Post, no Los Angeles Time, no Huffington Post, Salon, Nerve.com e no Preservation. Entre outros romances da sua autoria incluem-se Fool's Errand e Endangered Species. Deu o seu contributo para as antologias The Worst Noel e Maybe Baby (HarperCollins) e 101 Damnations (St. Martin's). Fotografia: Goodreads

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"Criadores" de Paul Johnson [Opinião]

Título: Criadores
Título original: Creators: From Chaucer and Durer to Picasso and Disney
Autor: Paul Johnson
Edição/reimpressão: 2006
Editora: Alêtheia Editores
Temática: Ensaios
N.º de páginas: 388
Para adquirir outras obras do autor:


Sinopse:

Vinte anos depois de ter publicado o «best-seller» Intellectuals, Paul M. Johnson reúne num volume ensaios sobre incríveis e prolíficos espíritos creativos. Ele analisa escritores, de Chaucer a Shakespeare, de Mark Twain a T.S. Elliot, artistas como Dürer, e arquitectos como Pugin e Viollet-le-Duc. Explica as diferentes formas como Jane Austen, Madame de Stael ou George Elliot lutaram para fazer ouvir a sua voz num universo masculino. Victor Hugo por seu turno permitiu-se interrogar: «Podem os génios coexistir com pessoas pouco inteligentes?» Joahnn Sebastian Bach dá-lhe o pretexto para se debruçar sobre o papel da genética na criatividade. Alguns ensaios fazem comparações extraordinárias: de Turner com o japonês Hokusai, e de dois grandes estilistas Balenciaga e Dior. O último ensaio examina dois génios criativos: Picasso e Disney e questiona-se sobre qual dos dois mais influenciou as artes visuais do século XX.

Opinião:

Paul Johnson propõe, com este Criadores, uma reflexão sobre o poder criativo e o que torna determinadas individualidades essencialmente criativas e criadoras. Nas suas palavras:

"(...) embora potencialmente ou na realidade sejamos todos criativos, existem graus na criatividade, que vão desde o instinto que leva um tordo a construir o seu ninho e que, nos seres humanos, se reflecte em construções mais complexas, porém igualmente humildes, ao verdadeiramente sublime, que leva os artistas a empreender obras enormes e delicadas nunca antes concebidas e muito menos concretizadas. Como definir este nível de criatividade, ou como explicá-lo? Não conseguimos defini-lo, da mesma forma que não conseguimos definir o génio. Mas podemos ilustrá-lo. É o que este livro tenta fazer".

Desde o século XIV até à actualidade, as figuras abordadas ocupam essencialmente o campo das artes: literatura - Chauce, Shakespeare, Victor Hugo, Jane Austen, Mark Twain e T.S. Elliot; arquitectura e arte vidreira - Pugin, Viollet-le-duc e Tiffany; moda - Dior e Balenciaga; animação - Wallt Disney; pintura - Dürer, Turner, Hokusai e Picasso. 

O que mais me motivou nesta leitura foi o descobrir do papel de figuras que desconhecia - Dürer e Chaucer, por exemplo - e o conhecer melhor as personalidades de figuras que sempre povoaram o meu imaginário: Shakespeare, Jane Austen, ou Walt Disney. Se, por um lado, deixou-me estarrecida a violência de Picasso, por outro adorei conhecer Mark Twain e compreendi a razão pela qual é uma referência para os comediantes. 

Ao contrário do que se poderia julgar, esta não é uma leitura difícil, apesar do uso de termos mais técnicos referentes aos ofícios de determinadas figuras - Pugin e Viollet-le-duc, enquanto mestres da arte gótica, fizeram-me recorrer várias vezes ao precioso Google.

Não se considere, porém, que o autor menospreza a ciência. No encerramento da obra, surge a referência à bifurcação das artes e das ciências e a importância da «criação» científica:  

"Por que não incluí nada, por exemplo, sobre as ciências? Não tenho resposta satisfatória para esta pergunta. É verdade que alguns observadores não permitirão que os cientistas sejam apelidados de criativos. Os cientistas são descobridores. Não se pode criar algo que já existe. Fazer descobertas é uma forma de actividade factual. Há duas objecções a este argumento (...) ao longo da história não se estabeleceu nenhuma verdadeira distinção entre o exercício da capacidade ou mesmo do génio nas artes e nas ciências.". 

O autor conclui afirmando que a arte ou ciências criativas não estão necessariamente interligadas ao modo de ganhar a vida do criador, nem tão pouco a criação é "propriamente desfrutada", sendo antes "uma experiência dolorosa e muitas vezes aterradora".

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
Paul Johnson, destacado historiador britânico, cuja obra é internacionalmente reconhecida, conta com uma extensa lista de título publicados nas mais diversas áreas. Em History of Christianity e History of the Jews aborda a dimensão religiosa, em Modern Times analisa o século XX, e em Art: a new History relata a história das artes visuais. Com Intellectuals. um «best-seller» internacional, marcou profundamente o pensamento final dos anos 80. Escreve semanalmente para o Spectator e mensalmente para a Forbes. Fotografia: Goodreads

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

"Uma Praça em Antuérpia" de Luize Valente [Opinião]

Título: Uma Praça em Antuérpia
Autora: Luize Valente
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Saída de Emergência
Temática: Ficção histórica
N.º de páginas: 352
Para adquirir:


Sinopse:

A história de duas irmãs que a guerra separou e o terrível segredo que deixaram para trás.

Há uma saga que ainda não foi contada sobre a Segunda Guerra Mundial: a história de duas irmãs portuguesas, Olívia e Clarice. Olívia casa-se com um português e vai para o Brasil. Clarice casa-se com um alemão judeu e vai morar em Antuérpia, na Bélgica. Ambas vivem felizes, com maridos e filhos, até que a guerra começa e a Bélgica é invadida.

Para escapar da sombra nazi que vai devorando a Europa, a família de Clarice conta com a ajuda de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul que salvou milhares de vidas emitindo vistos para Portugal, em 1940, enquanto atuou em Bordéus, França.

A família recebe o visto mas, ao chegar à fronteira de Portugal,um destino trágico a espera... Destino que vai mudar e marcar a vida das irmãs para sempre, por causa de um segredo que só será revelado sessenta anos depois.

Opinião:

Olívia e Clarice são irmãs gémeas nascidas e criadas em Portugal. Porém, à partida, tomamos conhecimento que somente uma está viva, devido a uma grande tragédia que sobre elas se abateu. Para alguns leitores, esta poderá ser uma enorme desvantagem. 

Esta foi uma leitura que iniciei com altas expectativas pelas inúmeras apreciações positivas, apesar de desconhecer outras obras da autora. Aliás, ouvi-a, por mero acaso, apresentar o seu livro na televisão, falando igualmente de Aristides de Sousa Mendes. Personagem histórica pela qual sempre senti grande curiosidade, fui levada a ler a sua biografia antes de iniciar Uma Praça em Antuérpia [ver opinião sobre Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português de José-Alain Fralon aqui].

As expectativas foram parcialmente satisfeitas. O final pareceu-me forçado, conduzido a uma coincidência algo inacreditável, o que, na realidade, não fugiu à globalidade da história, em que as coincidências se sucederam de forma constante e sistemática.

Por outro lado, considerei as personagens credíveis. Ademais as movimentações de Clarice e Theodor na sua rota de fuga aparenta
m ter sido cuidadosamente delineadas pela autora, provocando expectativa e ansiedade  em quem os acompanha. O seu encontro com Aristides e a obtenção do visto pressupõe um futuro risonho e uma esperança palpável...

Luize Valente criou uma ficção sob um fundo histórico, apoiado em testemunhos verídicos e factos comprovados numa teia que, melhor construída seria, não fossem as improbabilidades gritantes minarem a sua narrativa.


Mais uma história sobre a Segunda Guerra Mundial, a propagação do nazismo e a afirmação do anti-simetismo, que continua a não deixar (quase) ninguém indiferente. Foram vidas de sobrevivência e superação quando tudo se perde, incluindo o mais precioso: o amor de quem nos é mais precioso.

Classificação: 3,5/5*

Sobre a autora:
Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro, é escritora, documentarista e jornalista, com mais de 25 anos de experiência em televisão, nas redes Globo, Bandeirantes, canal GNT e GloboNews. É autora de diversas obras e documentários, entre os quais se destacam o livro em coautoria com Elaine Eiger Israel: rotas e raízes, e os documentários Caminhos da Memória: a Trajetória dos Judeus em Portugal (2002) e A Estrela Oculta do Sertão (2005), que recebeu o prémio de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema Judaico de São Paulo.

A partir de 2012 envereda pela ficção, publicando na Editora Record o romance histórico O Segredo do Oratório (2012).

Em 2015 foi lançado, igualmente pela Editora Record, o seu novo romance histórico, Uma Praça em Antuérpia, que agora temos o privilégio de editar em Portugal na ilustre Coleção da História de Portugal em Romances. Estão a decorrer negociações com uma produtora de Nova Iorque para a adaptação deste título ao cinema. Fonte: Saída de Emergência

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português" de José-Alain Fralon [Opinião]

Título: Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português
Título original: Le Juste de Bordeaux
Autora: José-Alain Fralon
Tradutor: Saul Barata
Edição/reimpressão: 2008 (1.ª publicação em 1999)
Editora: Editorial Presença
Temática: Biografia
N.º de páginas: 128

Sinopse:

Em Julho de 1885 nascem César e Aristides, dois gémeos de temperamentos diametralmente opostos. Aristides era tão extravagante quanto o seu irmão discreto e cumpridor. Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo, enquanto Salazar jogava habilmente com a neutralidade. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar ao Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, tanto mais que as tropas alemãs se aproximavam, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos.

Opinião:

Numa obra direccionada para o público francófono, José-Alain Fralon elaborou, de início, uma ligeira contextualização da História portuguesa, sucedida pela acção de Aristides de Sousa Mendes no período pré, durante e pós Segunda Guerra Mundial.

Através de um discurso simples e acessível, inteiramo-nos do seu percurso de vida: de jovem aristocrata que se torna cônsul, a pai de uma numerosa família de catorze filhos, esteve colocado em diversos países, nos quais nem sempre o cumprimento escrupuloso pelas regras se verificou.

Todavia, aquando da sua colocação em Bordéus, enquanto cônsul-geral, surgiu o momento crucial da sua existência. Influenciado pela sua índole cristã, e mesmo consciente das provações a que sujeitaria a família, não pôde ignorar a sua consciência: decidiu salvar todos os refugiados que conseguisse através da autorização e até falsificação de vistos, não contemplando credos, estatutos sociais ou quaisquer outras características dos desesperados fugitivos e ignorando as ordens superiores até à última hipótese. 

Porém, julgo que Aristides não imaginaria a proporção, e a tamanha profundidade, que alcançaria o rancor e a desconsideração de Salazar que, não obstante pregar o seu catolicismo, maior devoção tinha à manutenção da ordem e ao cumprimento das suas obrigações e ao zelo pela sua figura de autoridade.
"Depois de uma grande luta interior, tão bem exposta no seu livro, prevaleceu a compaixão e a solidariedade: Aristides obedeceu antes a Deus que aos homens, ou seja, ao imperativo de salvaguarda das exigências de ordem moral e dos direitos fundamentais das pessoas. 
Não foi letra morta a confissão cristã proclamada anos antes na pedra dos monumentos, pois que ficou patenteada nas pedras vivas dos milhares que salvou. 
Admiro-o muito pela decisão que tomou. 
Mas admiro-o ainda mais pela coragem e fortaleza com que enfrentou durante quase catorze anos as injusti[ç]as e dolorossíssimas consequências que sobre ele desabaram. Sem guardar rancor. Sem perder o sorriso."
São estas as palavras de José de Sousa Mendes, sobrinho de Aristides, filho do seu irmão gémeo, César de Sousa Mendes, que melhor ilustram a abnegação deste homem, que findou os seus dias num sofrimento ignoto. Foi notável como as suas origens aristocráticas não impediram a formação de uma integridade devidamente estruturada e de sólidos princípios morais.

Abstraindo-nos do número de socorridos, questão esta polémica, a vida de Aristides de Sousa Mendes é a prova de que nem sempre os justos vencem no imediato, independentemente de se apelar a valores como a justiça, a solidariedade e a compaixão para com o próximo, mas que os frutos medram e que, mais tarde, puderam mesmo ser colhidos através dos que sobreviveram, criaram, amaram e, sobretudo, o estimaram e ainda hoje agradecem pela sua firmeza de carácter. 

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
José-Alain Fralon é um prestigiado jornalista do jornal Le Monde e autor da admirável obra Aristides de Sousa Mendes.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"A Gata" de Colette [Opinião]

Título: A Gata
Título original: La Chatte
Autora: Colette
Tradutor: João B. Viegas
Edição/reimpressão: 2015 (1.ª publicação em 1959)
Editora: A Bela e o Monstro Edições/Rapsódia Final
Temática: Romance
N.º de páginas: 178
Para adquirir: 

Sinopse:

A Gata não foge à regra de toda a obra de Colette e está patente o seu amor pelos animais. Tem-se dito que há na sensualidade da escritora qualquer coisa de animal e que uma fraternidade secreta a liga a este mundo: toda a sua escrita é instintiva. A figura central deste romance é uma gata – Saha, de seu nome – e Colette retrata-a através de imagens e reflexões pouco comuns. Com uma mestria única, cria como que a presença física do felino, tornando tangível o seu corpo flexuoso e macio. Mas a história é também a análise de um sentimento muito humano: o ciúme.

Opinião:

Obra da autora francesa Colette, publicada em 1959, fala-nos de um trio amoroso entre um jovem mimado e indolente, a gata, por quem nutre profundo amor, e a sua noiva, uma jovem igualmente caprichosa.

Alain tem uma adoração obsessiva por Saha, de raça azul russa. Residem numa moradia com um belo jardim que ela explora intensivamente para pura delícia do dono. Colette engrandece a sua figura felina com delicadas descrições das suas deambulações, tanto no jardim como nos aposentos, e demonstrando a relação entre gata e dono:
"Com um salto vertical, subindo no ar como um peixe para a superfície da água, a gata atingiu uma piéride orlada de preto. Comeu-a, tossiu, cuspiu uma asa, lambeu-se numa afectação. O sol brincava no seu pêlo de gata dos Cartuxos, roxo e azulado como a garganta dos pombos bravos.
- Saha!
Ela voltou a cabeça e sorriu-lhe sem disfarce.
- Meu puma pequenino ! gata bem-amada ! criatura altaneira ! Como viverá se nos separarmos? Queres que entremos os dois para as ordens? Queres... eu sei lá !...
Saha escutava-o, mirava-o com um ar terno e distraído, mas, a uma inflexão mais trémula da voz amiga, retirou-lhe o olhar."
Esta harmonia entre Alain e Saha altera-se drasticamente com a celebração do casamento com Camila. Pertencente a uma burguesia decadente, Alain deixa-se conduzir para um matrimónio que parece, à partida, mal fundamentado, surgindo uma crítica às relações por interesse e aos dogmas sociais.

Desta forma, Saha sente profundamente o afastamento, adoptando uma postura depressiva que, rapidamente, a leva a definhar. É comum  a ideia de que os gatos, ao contrários do cães, são desleais para com os seus donos. Mas é mais frequente do que se julga a depressão nestes felinos perante o desleixo ou o abandono, chegando a falecer por se recusarem a comer e, em última instância, a viver.

Quando o seu tutor a resgata e o convívio dos três se impõe, os ciúmes que surgem levarão a uma situação insustentável. Ainda que o objecto de tais sentimentos seja uma gata, Colette conseguiu, em poucas páginas, retratar o ciúme em toda a sua plenitude, numa linguagem poética e encantadora.

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Sidonie Gabrielle Colette nasceu em 1873, em Saint-Sauveur-en-Puisaye. Aos vinte anos, casa com Gauthier-Villars, crítico musical, autor de romances populares, mais conhecido pelo nome de Willy, e vai viver para Paris. Começa a escrever o seu primeiro livro, Claudine l'École, que, depois de corrigido pelo marido, aparecerá em 1900 apenas com o nome de Willy. Aproveitando o enorme êxito obtido, Willy leva Colette a escrever mais cinco romances que serão publicados, como o primeiro, sem que figure o nome da Aurora.

Em 1906, os Willy divorciam-se e Colette, para viver, faz-se artista de music-hall, mas sem deixar de escrever. É essa experiência que será aproveitada em La Vagabonde (1911).

Em 1912 casa com Henri de Jouvenel, escritor e homem de Estado, com quem vive até 1924. Em 1935 casa, pela terceira vez, com Maurice Goudeket. Entretanto, continuara a publicar os seus livros que, pouco a pouco, a foram impondo como a primeira escritora francesa dos nossos dias.  Chéri (1920), Le Blé en Herbe (1923), La Fin de Chéri (1926), La Chatte (1933), Gigi (1943) são verdadeiras obras-primas.

Membro da Academia Real da Bélgica (1936) e da Academia Goncourt (1944), Colette, venerada por todos, passa os seus últimos dias imobilizada pelo artritismo. Morre em 1954. O governo francês faz-lhe funerais civis oficiais. Fonte: biografia presente em A Gata  Fotografia: The Great Cat

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"A Partir de Uma História Verdadeira" de Delphine de Vigan [Opinião]

Título: A Partir de Uma História Verdadeira
Título original: D'après une histoire vraie
Autora: Delphine de Vigan
Tradutora: Sandra Silva
Edição/reimpressão: 2016 (1.ª publicação em 2015)
Editora: Quetzal
Temática: Romance
N.º de páginas: 400
Para adquirir:


Sinopse:

A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.

Opinião:

Desde o início que sabemos onde nos conduz o final. No entanto, esse conhecimento não me retirou em nada a sede de saber em como se chegará a ele. Por outras palavras, sabemos que Delphine, a autora, verá a sua vida devassada pelo conhecimento travado com L., mulher maravilha que se torna para ela essencial.

A questão mais controversa para que remete esta história relaciona-se com a sua originalidade: a relação entre escritor e leitor e o resvalar desta para a obsessão e para o ciúme doentio não é, de todo, uma elaboração primeva desta autora, surgindo com bastante frequência até noutros campos. No que respeito diz a figuras públicas, são frequentes os relatos de fãs que ultrapassam o limite do razoável e forçam a intromissão na intimidade dos seus idolatrados. 

A autora assume, desde logo, a influência de outras fontes aquando da citação de Misery de Stephen King, cujo enredo aborda uma dependência doentia de uma leitora pelo seu escritor predilecto. Além disso, o rumo e o desenlace não são inesperados nem, tão pouco, surpreendentes. 

Contudo, há algo que realmente valoriza esta narrativa: o jogo de identidades estabelecido entre Delphine e L., quando a primeira consente o roubo da sua identidade e personalidade pela segunda, resultante de uma tremenda crise existencial e literária.

O papel da literatura e do escritor é alvo de constante reflexão e, para mim, é esse o principal propósito do livro: ao longo da narrativa, o leitor é levado a questionar-se a influência do que se escreve para os seus autores, para os visados nas narrativas, para os leitores; o que verdadeiramente querem os leitores ler e se estarão realmente interessados, ou não, nos factos que originaram a ficção; até que ponto poderão os leitores influenciar os escritores na sua criação; até onde irá a importância da ficção perante a realidade.

Estabeleceu-se, desta forma, a admiração pela capacidade da autora alternar entre o real, ou o suposto real, e o ficcional, num jogo de espelhos que se manteve até à última página.

Esta história poderia ser mais inovadora, mais surpreendente? Sim, sem dúvida. Porém, não sei até que ponto serviria aquela que julgo ser a sua finalidade. 

Classificação: 4,5/5*

Sobre a autora:
Vive em Paris. Aplaudida pela crítica e consagrada pelo grande público, é autora de vários romances, entre os quais Nô e Eu, que venceu o Prémio dos Livreiros em 2008. Traduzido em mais de 25 países e adaptado ao cinema em 2010, ultrapassou, só em França, a marca dos 750 000 exemplares, sendo um dos romances mais lidos dos últimos anos. Com Rien ne s’oppose à la nuit, o seu último livro, Delphine de Vigan conquistou o prestigiado Prémio Romance Fnac, em 2011. Nô e Eu é o seu primeiro livro traduzido em Portugal. Fonte: Quetzal

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz [Opinião]

Título: Para onde vão os guarda-chuvas
Autor: Afonso Cruz
Edição/reimpressão: 2013
Editora: Alfaguara
Temática: Romance
N.º de páginas: 624
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Sinopse:

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.

Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

Opinião:

Se há livro cujas citações devem ser partilhadas é este. Porém, tal tarefa não é fácil quando o próprio livro é uma constante de reflexões e de dizeres que nos fazem parar em pérolas que se encontram para retirar o fôlego.

Fazal Elahi é o protagonista desta história, toda ela passada num Oriente distante, mas em que esperanças, medos e sofrimentos são em tudo iguais aos do Ocidente. E são as esperanças, os medos e os sofrimentos de Elahi que acompanhamos. 


Elahi é um homem que vive na esperança de não ser percebido, confundindo-se na multidão, nas paredes, sempre de olhos postos no chão, a evitar desejar para não atrair a infelicidade, escondendo-se na invisibilidade da modéstia. Contudo, nem assim lhe é poupado o Sofrimento, aquele que, para o homem, tende a ser o maior de todos: a perda de um ente familiar querido. A trágica forma como ocorre leva-nos a duvidar da sua capacidade de superação, no entanto o emaranhado da vida traz sempre surpresas. Este é para mim o ponto fulcral do livro: tudo conduz a ele, tudo dele deriva. 


Afonso Cruz disse, aquando da sua presença nas Palavras Andarilhas, preferir personagens com múltiplas facetas, não tendencialmente más ou boas, pretas ou brancas, mas com um colorido de características, qualidades e defeitos, que as tornem humanas. Por isso, à excepção do corruptor e autoritário coronel Krupin, consegui encontrar em todas as personagens pontos de compreensão, identificação, proximidade. Todos temos os nossos demónios, com os quais lutamos para os superarmos.


Bibi procura a liberdade das mulheres ocidentais numa realidade que não a aceita; Badini, o mudo, lutou com a poesia; Aminah, presa aos preconceitos, não reconhece a felicidade pela qual tanto pediu.


Para onde vão os guarda-chuvas é a pergunta que urge: as memórias, as histórias, os sonhos, o que fica em nós dos que partem e dos que vivem, ou seja, tudo o que somos, para onde vai quando o perdemos. E é neste Oriente em que ainda sobrevive a magia e a capacidade de acreditar em milagres, que Afonso Cruz nos leva a procurar a resposta.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014. Fonte: WOOK

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Balanço das leituras de 2016

Como meta estabeleci 35 livros para ler em 2016. Fiquei pelos 33 livros, já que tive várias quebras no ritmo de leitura ao longo do ano. Para este ano vou ser mais modesta e propor-me 30 livros. 

Graças ao Goodreads, é fácil fazer uma avaliação global do meu ano literário:


Uma vez que a média das minhas classificações em 2016 foi de 4,3, naturalmente afirmo que, em termos de qualidade, as leituras deste ano foram muito boas.

De notar que o livro mais longo, Contos de Hans Christian Andersen, transitou para 2017. Não tenho por hábito ler vários livros em simultâneo, pelo que a leitura não tem avançado - algo que terá de mudar, pois são contos deliciosos!

Seguem-se todas as leituras de 2016:



E, entre todas, as leituras mais marcantes foram (top 10):

10. Contos ASSESTA - Alentejo - a força/marça do Alentejo.


8. Os Olhos de Allan Poe de Louis Bayard - um mistério bem concebido.

7. As Horas Invisíveis de David Mitchell - exemplar fascinante de como é possível o cruzamento de géneros literários.

6. Gaibéus de Alves Redol - um clássico português de um realismo incrível.


4. Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz - que me deu a conhecer um autor maravilhoso.

3. Kafka à Beira-mar de Haruki Murakami - que me desconcertou totalmente.

2. Todos os Contos de Edgar Allan Poe - contos que não esquecerei tão cedo.

1. As Horas de Michael Cunningham - um verdadeiro murro no estômago.

Reabri este blogue em Maio de 2016, com novo nome e cara renovada, pelo que ainda não tenho todas as opiniões escritas e publicadas, mas é um trabalho a ser realizado progressivamente. Além disso, tenho várias ideias para futuras publicações. Conto convosco para me acompanharem!