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sábado, 29 de julho de 2017

"Marina" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: Marina
Título original:  Marina
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutora: Maria do Carmo Abreu
Edição/reimpressão: 2010
Editora: Editorial Planeta
Temática: Romance
N.º de páginas: 264
Para adquirir:


Sinopse:


«Por qualquer estranha razão, sentimo-nos mais próximos de algumas das nossas criaturas sem sabermos explicar muito bem o porquê. De entre todos os livros que publiquei desde que comecei neste estranho ofício de romancista, lá por 1992, Marina é um dos meus favoritos.» «À medida que avançava na escrita, tudo naquela história começou a ter sabor a despedida e, quando a terminei, tive a impressão de que qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que ainda hoje não sei muito bem o que era, mas de que sinto falta dia a dia, ficou ali para sempre.» Carlos Ruiz Zafón «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

Opinião:


Óscar Drai é um jovem aventureiro que se perde pelas ruas de Barcelona para combater o tédio, até ao dia em que um canto hipnotizante o leva a invadir uma das velhas mansões. Assim conhece Marina e a luz que se acende perante o seu encontro alumiará as suas solidões. É a história de ambos que ele recordará 15 anos depois.

Através das suas investigações, Óscar e Marina encontram aquele que luta obsessivamente contra o inexorável passar do tempo, condenando-se a ele e todos os que quer salvar à sua perdição. 

Ao preceder a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos, não é de estranhar que em Marina encontremos os elementos caracterizadores dos universos de Zafón. Óscar é a personagem masculina dúbia, Marina é a personagem feminina amaldiçoada, mas cuja fortaleza é invejável. E sempre o ambiente barcelonês, repleto de encantos e recantos, onde ao virar de cada esquina se encontram mistérios cujas resoluções causam danos irreparáveis nos destinos dos seus personagens. 

Uma atmosfera densa e a presença de elementos sobrenaturais reportam para O Jogo do Anjo, onde se incluem ainda referências steampunk e a evocação de Frankenstein, com o surgimento de María Shelley e do seu pai, o doutor Shelley. 

Tendo em conta o tamanho reduzido da narrativa - em comparação com o enorme O Labirinto dos Espíritos - a acção desenrola-se vertiginosamente e o efeito dramático é mais impactante. 

Tornou-se uma leitura mais dura do que as anteriores - ainda que a tenha adorado -, onde Zafón deixava, nos seus finais, a porta aberta ao futuro, ainda que não da forma mais imediata. Em Marinapela tremenda sensação de impotência, fica a certeza de que algo se perdeu e não mais se poderá reclamar, porque a morte é sempre o mais injusto dos fins.

Uma leitura realizada no âmbito do:



Classificação:  5,0/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la MedianocheLas Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"O Labirinto dos Espíritos" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]


Título: O Labirinto dos Espíritos
Título original:  El Laberinto de los Espíritus
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: Mário Dias Correia
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Planeta Editora
Temática: Romance
N.º de páginas: 848
Para adquirir:


Sinopse:


Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível.

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

Opinião:

Sendo este o encerramento da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, criou-se a expectativa de que Carlos Ruiz Zafón se superasse. Não posso afirmar que tal tenha sucedido, adoptando a perspectiva de fã incondicional, mas constato a competência com que alcançou o que lhe era exigido, não perdendo os seus traços característicos.

Desta vez, o autor brinda-nos com um registo mais policial, graças ao qual surge Alicia Gris: femme fatale e anjo caído, concentrado de aura gótica, pincelado de luz e sombras. Investigadora de um obscuro órgão governamental, assumirá um papel crucial na resolução dos enigmas pendentes.  E será neste atar de pontas soltas que Alicia se cruzará com a família Sempere e com o nosso inefável Fermín Romero de Torres, bem como com as maquinações que colocarão em perigo a vida de todos.

Acompanhando uma investigação tão longa, entremeada com as histórias sobre Alicia e os Sempere, e sobre outras personagens trazidas a palco pela primeira vez, senti que, por vezes, o fio se perdia da meada. Ainda assim consegui prever parte da conclusão, algo que não me agradou especialmente.

Entre Madrid e Barcelona, o lado mais negro do franquismo continua a ser explanado: a corrupção e os jogos de poder, tanto em altas instâncias como entre os seus subalternos, são uma constante ao longo da narrativa, numa amostra dos podres desta sociedade.

Algumas falhas cronológicas e problemas na revisão minam a leitura, não constituindo impeditivo para, perto do final da leitura, se instalar a saudade pelas personagens e por um ambiente tão único, numa despedida onde a porta do diabrete se encerra com chave de ouro.

Com a leitura de Rosa de fuego [ver aqui], desenvolveu-se a leve esperança de que mais pistas sobre a origem do Cemitério dos Livros Esquecidos fossem desvendadas, o que não veio a suceder. Assim permaneceu o mistério em torno da sua fundação e em como se acumulou tamanho tesouro.

Apesar de a nota introdutória referir que os "diferentes títulos relativos à série do Cemitério dos Livros Esquecidos poderão ser lidos por qualquer ordem ou separadamente" aconselho a leitura por ordem de publicação. O próprio autor, nas palavras de uma personagem, ajudaria a esclarecer todas as incertezas:
"(...) o primeiro tomo centrar-se-ia na história de um leitor (...) e de como nos seus anos de mocidade descobria o mundo dos livros e, por extensão a vida, através de um enigmático romance escrito por um autor desconhecido que escondia um mistério daqueles de deixar a boca seca".
"O segundo tomo, empapado num sabor mórbido e sinistro destinado a espicaçar os leitores de bons costumes, relataria a macabra peripécia vital de um romancista maldito (...)".
"O terceiro  tomo, supondo que o leitor sobrevivesse aos dois primeiros (...) resgatar-nos-ia de forma momentânea do averno e oferecer-nos-ia a história de uma personagem, a personagem por excelência e a voz da consciência oficial da história, ou seja, (...)  Fermín Romero de Torres". 
"A quarta parte, virulentamente enorme e temperada com os perfumes de todas as anteriores, levar-nos-ia por fim ao centro do mistério e desvendaria todos os enigmas (...)".
Tal como afirmei em relação a A Sombra do Vento, não se considerando uma obra prima consensual a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos dificilmente será olvidada por quem a leu, seja pelo seu cruzamento de diferentes géneros literários, por personagens que nos despertam a mais profunda amizade, ou por uma prosa tão envolvente como a bruma que em tantos momentos cobre Barcelona. Prometo voltar a ela, sem dúvida. 

Uma leitura realizada no âmbito do:



Classificação:  4,5/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la MedianocheLas Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

quarta-feira, 22 de março de 2017

"O Apelo da Selva" de Jack London [Opinião]

Título: O Apelo da Selva
Título original: The Call of the Wild
Autor: Jack London
Tradutora: Maria de Fátima Andrade 
Edição/reimpressão: 2017
Editora: CARDUME EDITORES, LDA. (para Impresa Publishing)
Temática: Romance
N.º de páginas: 128

Sinopse:


Arrancado à doce e pacífica vida que levava numa fazenda da Califórnia, o cão "Buck", metade São Bernardo, metade cão-pastor, é roubado e vendido como cão de trenó. Nas terras selvages do Norte do Canadá, Buck enfrenta a fome, o frio, as lutas com outros cães e os maus tratos sem nunca perder a coragem e a dignidade. Buck acaba por ser esgatado por John Thornton, mas no seu apelo da vida selvagem, que o instiga a rondar livremente pela selva. Esta novela de Jack London, publicada em 1903, revestiu-se de tal sucesso que de imediato foi traduzida em cerca de 90 línguas, sendo reeditada sempre até aos nossos dias.

Opinião:


 No âmbito da inciativa Ler Faz Bem da revista Visão, decidi ler esta obra de Jack London e partilhar a minha opinião de forma diferente: por escrito, como habitual, e por vídeo.


[ ver também aqui ]

Lido numa tarde, o autor não se perde em rodeios e conta uma história poderosa na perspectiva de Buck, o cão traçado de são bernando e cão pastor escocês. Buck parecia destinado a uma vida doméstica, sem percalços além daqueles que encontrasse numa quinta ensolarada em plena Califórnia. Infelizmente, o seu porte possante tenta um dos empregados e Buck acaba por chegar à fronteira com o Canadá, num clima totalmente agreste, depois de vendido para cão de trenó. 


Sujeito às maiores provações, a sua adaptabilidade às circunstâncias foi impressionante: de cão domesticado, torna-se um sobrevivente nato, astuto e líder, evocando a lei do mais forte. O corajoso Buck enfrenta todos os dissabores, mas apenas após a sua prodigiosa transformação num estado totalmente primitivo, encontrará a integração junto dos seus ancestrais.


Esta leitura evocou-me o retrato social de As Vinhas da Ira de John Steinbeck em que, tal como em O Apelo da Selva, se forçam migrações do povo americano devido às condições económico-sociais, ainda que por causas e em períodos diferentes: a seca, durante grande depressão,  e a febre do ouro, iniciada em 1850. Jack London aproveitou, para esta obra, a sua experiência na participação à corrida do ouro (Klondike, no Yukón, Canadá, em 1896). 

Os cães, como todos os animais, são seres sencientes, apenas desconhecemos o alcance da sua percepção da realidade. Ainda assim, o autor deu-lhes voz. Se o ser humano, e assim perdura ao longo de séculos, julga o seu semelhante como objecto mercantil, imaginemos os animais que voz não têm para por si lutar.

Este livro deu-me a esperança de que, desde que estabelecidas com dignidade, as relações entre quaisquer seres vivos só se poderão revestir de respeito e compreensão mútuos.


P.S.: Com esta leitura relembrei-me imediatamente de História de um cão chamado Leal de Luis Sepúlveda, uma história cuja perspectiva é igual - pelos olhos de um cão - e que recomendo vivamente.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:

O escritor norte-americano John Griffith London nasceu em 1876, em San Francisco, e faleceu em 1916. Depois de uma infância marcadamente negativa, exerceu todo o tipo de profissões, interessando-se, no entanto, pela leitura e pela escrita desde muito cedo. Publicou novelas em diversas revistas. Da sua vasta obra, destacam-se The Son of the Wolf (1900), The Call of the Wild (O Apelo da Selva, de 1903, obra diversas vezes adaptada para cinema), Martin Eden (1903), Love of Life (1907) e John Baleycorn (1913). Fonte: WOOK 

Mais sobre o autor em: Entre o mistério e a caricatura, quem é Jack London?

terça-feira, 21 de março de 2017

Para o Dia Mundial da Poesia... um poema

José-António Moreira edição e voz | Sons da Escrita | Março 2014

Os gatos 
de Manuel António Pina

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011) 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português" de José-Alain Fralon [Opinião]

Título: Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português
Título original: Le Juste de Bordeaux
Autora: José-Alain Fralon
Tradutor: Saul Barata
Edição/reimpressão: 2008 (1.ª publicação em 1999)
Editora: Editorial Presença
Temática: Biografia
N.º de páginas: 128

Sinopse:

Em Julho de 1885 nascem César e Aristides, dois gémeos de temperamentos diametralmente opostos. Aristides era tão extravagante quanto o seu irmão discreto e cumpridor. Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo, enquanto Salazar jogava habilmente com a neutralidade. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar ao Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, tanto mais que as tropas alemãs se aproximavam, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos.

Opinião:

Numa obra direccionada para o público francófono, José-Alain Fralon elaborou, de início, uma ligeira contextualização da História portuguesa, sucedida pela acção de Aristides de Sousa Mendes no período pré, durante e pós Segunda Guerra Mundial.

Através de um discurso simples e acessível, inteiramo-nos do seu percurso de vida: de jovem aristocrata que se torna cônsul, a pai de uma numerosa família de catorze filhos, esteve colocado em diversos países, nos quais nem sempre o cumprimento escrupuloso pelas regras se verificou.

Todavia, aquando da sua colocação em Bordéus, enquanto cônsul-geral, surgiu o momento crucial da sua existência. Influenciado pela sua índole cristã, e mesmo consciente das provações a que sujeitaria a família, não pôde ignorar a sua consciência: decidiu salvar todos os refugiados que conseguisse através da autorização e até falsificação de vistos, não contemplando credos, estatutos sociais ou quaisquer outras características dos desesperados fugitivos e ignorando as ordens superiores até à última hipótese. 

Porém, julgo que Aristides não imaginaria a proporção, e a tamanha profundidade, que alcançaria o rancor e a desconsideração de Salazar que, não obstante pregar o seu catolicismo, maior devoção tinha à manutenção da ordem e ao cumprimento das suas obrigações e ao zelo pela sua figura de autoridade.
"Depois de uma grande luta interior, tão bem exposta no seu livro, prevaleceu a compaixão e a solidariedade: Aristides obedeceu antes a Deus que aos homens, ou seja, ao imperativo de salvaguarda das exigências de ordem moral e dos direitos fundamentais das pessoas. 
Não foi letra morta a confissão cristã proclamada anos antes na pedra dos monumentos, pois que ficou patenteada nas pedras vivas dos milhares que salvou. 
Admiro-o muito pela decisão que tomou. 
Mas admiro-o ainda mais pela coragem e fortaleza com que enfrentou durante quase catorze anos as injusti[ç]as e dolorossíssimas consequências que sobre ele desabaram. Sem guardar rancor. Sem perder o sorriso."
São estas as palavras de José de Sousa Mendes, sobrinho de Aristides, filho do seu irmão gémeo, César de Sousa Mendes, que melhor ilustram a abnegação deste homem, que findou os seus dias num sofrimento ignoto. Foi notável como as suas origens aristocráticas não impediram a formação de uma integridade devidamente estruturada e de sólidos princípios morais.

Abstraindo-nos do número de socorridos, questão esta polémica, a vida de Aristides de Sousa Mendes é a prova de que nem sempre os justos vencem no imediato, independentemente de se apelar a valores como a justiça, a solidariedade e a compaixão para com o próximo, mas que os frutos medram e que, mais tarde, puderam mesmo ser colhidos através dos que sobreviveram, criaram, amaram e, sobretudo, o estimaram e ainda hoje agradecem pela sua firmeza de carácter. 

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:
José-Alain Fralon é um prestigiado jornalista do jornal Le Monde e autor da admirável obra Aristides de Sousa Mendes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: A Sombra do Vento
Título original: La sombra del viento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
Edição/reimpressão: 2006
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 512 
Para adquirir:


Sinopse:

A Sombra do Vento é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do Modernismo até às trevas do pós-guerra. Um inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, num crescendo de suspense que se mantém até à última página. Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo.

Opinião:

Dez anos passaram e, da primeira leitura, lembrava-me de Daniel e do seu pai, o sr. Sempere, da sua livraria e do Cemitérios dos Livros Esquecidos, de uma personagem divertida e de outra, obscura e ameaçadora. Contudo, a memória é volátil e esta releitura soube quase a estreia.

Através de uma escrita cuidada e metafórica, o ambiente marcadamente gótico de uma Barcelona do século XX, marcada por um pós guerra civil espanhola, surge quase sempre envolto em brumas e mistério. 

Quando Daniel, o protagonista desta história, encontra no Cemitério dos Livros Esquecidos um livro que devora em poucas horas - A Sombra do Vento - o seu interesse por conhecer mais obras do desconhecido autor, Julián Carax, torna-se premente. Mas tal não será fácil, já que alguém as procura e as destrói sem hesitação
. As suas investigações levarão a que descubra uma trágica história que se irá entrelaçar com a sua... 

À medida que a leitura avançou, a minha vontade de descobrir com Daniel mais sobre este mistério só se foi acentuando. A mistura de estilos, entre romance, suspense, thriller, histórico e de comédia e satírico, sem, contudo, perder a coerência, é um dos grandes trunfos do autor e permite que o leitor flua com a narrativa.


Outro será o conjunto de todas as personagens, sem excepção. De entre elas se destaca o brilhante Fermín Romero de Torres: o homem das mil caras, sofrido, culto, ansioso, sentimental, desbocado, é o sábio filosofante que orienta o jovem Daniel nos momentos mais cruciais. Admirou-me a empatia sentida para com todos os intervenientes, mesmo perante o sanguinário inspector Fumero, cujo passado não justifica, porém clarifica o seu abominável ser. Nem tão pouco as hesitações de Daniel o tornaram menos merecedor do título de herói, uma vez que age no momento preciso.

O clímax será o revelar de uma fatalidade, ao estilo das grandiosas tragédias gregas que, não sendo de uma originalidade inatacável, pelo culminar dos acontecimentos leva a que dor tão pungente seja alvo de toda a comiseração.

Poderá até não ser considerada uma obra-prima consensual, mas com A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón conseguiu algo inegável: atingir e conquistar os corações dos leitores, numa ode magistral ao mundo dos livros.

Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos –, vamos regressar.

No fim desta releitura, A Sombra do Vento continua a merecer o estatuto de um dos meus livros favoritos de sempre e será, por certo, novamente relido.

Uma releitura realizada no âmbito do: 


Classificação:  5,0/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"A Gata" de Colette [Opinião]

Título: A Gata
Título original: La Chatte
Autora: Colette
Tradutor: João B. Viegas
Edição/reimpressão: 2015 (1.ª publicação em 1959)
Editora: A Bela e o Monstro Edições/Rapsódia Final
Temática: Romance
N.º de páginas: 178
Para adquirir: 

Sinopse:

A Gata não foge à regra de toda a obra de Colette e está patente o seu amor pelos animais. Tem-se dito que há na sensualidade da escritora qualquer coisa de animal e que uma fraternidade secreta a liga a este mundo: toda a sua escrita é instintiva. A figura central deste romance é uma gata – Saha, de seu nome – e Colette retrata-a através de imagens e reflexões pouco comuns. Com uma mestria única, cria como que a presença física do felino, tornando tangível o seu corpo flexuoso e macio. Mas a história é também a análise de um sentimento muito humano: o ciúme.

Opinião:

Obra da autora francesa Colette, publicada em 1959, fala-nos de um trio amoroso entre um jovem mimado e indolente, a gata, por quem nutre profundo amor, e a sua noiva, uma jovem igualmente caprichosa.

Alain tem uma adoração obsessiva por Saha, de raça azul russa. Residem numa moradia com um belo jardim que ela explora intensivamente para pura delícia do dono. Colette engrandece a sua figura felina com delicadas descrições das suas deambulações, tanto no jardim como nos aposentos, e demonstrando a relação entre gata e dono:
"Com um salto vertical, subindo no ar como um peixe para a superfície da água, a gata atingiu uma piéride orlada de preto. Comeu-a, tossiu, cuspiu uma asa, lambeu-se numa afectação. O sol brincava no seu pêlo de gata dos Cartuxos, roxo e azulado como a garganta dos pombos bravos.
- Saha!
Ela voltou a cabeça e sorriu-lhe sem disfarce.
- Meu puma pequenino ! gata bem-amada ! criatura altaneira ! Como viverá se nos separarmos? Queres que entremos os dois para as ordens? Queres... eu sei lá !...
Saha escutava-o, mirava-o com um ar terno e distraído, mas, a uma inflexão mais trémula da voz amiga, retirou-lhe o olhar."
Esta harmonia entre Alain e Saha altera-se drasticamente com a celebração do casamento com Camila. Pertencente a uma burguesia decadente, Alain deixa-se conduzir para um matrimónio que parece, à partida, mal fundamentado, surgindo uma crítica às relações por interesse e aos dogmas sociais.

Desta forma, Saha sente profundamente o afastamento, adoptando uma postura depressiva que, rapidamente, a leva a definhar. É comum  a ideia de que os gatos, ao contrários do cães, são desleais para com os seus donos. Mas é mais frequente do que se julga a depressão nestes felinos perante o desleixo ou o abandono, chegando a falecer por se recusarem a comer e, em última instância, a viver.

Quando o seu tutor a resgata e o convívio dos três se impõe, os ciúmes que surgem levarão a uma situação insustentável. Ainda que o objecto de tais sentimentos seja uma gata, Colette conseguiu, em poucas páginas, retratar o ciúme em toda a sua plenitude, numa linguagem poética e encantadora.

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Sidonie Gabrielle Colette nasceu em 1873, em Saint-Sauveur-en-Puisaye. Aos vinte anos, casa com Gauthier-Villars, crítico musical, autor de romances populares, mais conhecido pelo nome de Willy, e vai viver para Paris. Começa a escrever o seu primeiro livro, Claudine l'École, que, depois de corrigido pelo marido, aparecerá em 1900 apenas com o nome de Willy. Aproveitando o enorme êxito obtido, Willy leva Colette a escrever mais cinco romances que serão publicados, como o primeiro, sem que figure o nome da Aurora.

Em 1906, os Willy divorciam-se e Colette, para viver, faz-se artista de music-hall, mas sem deixar de escrever. É essa experiência que será aproveitada em La Vagabonde (1911).

Em 1912 casa com Henri de Jouvenel, escritor e homem de Estado, com quem vive até 1924. Em 1935 casa, pela terceira vez, com Maurice Goudeket. Entretanto, continuara a publicar os seus livros que, pouco a pouco, a foram impondo como a primeira escritora francesa dos nossos dias.  Chéri (1920), Le Blé en Herbe (1923), La Fin de Chéri (1926), La Chatte (1933), Gigi (1943) são verdadeiras obras-primas.

Membro da Academia Real da Bélgica (1936) e da Academia Goncourt (1944), Colette, venerada por todos, passa os seus últimos dias imobilizada pelo artritismo. Morre em 1954. O governo francês faz-lhe funerais civis oficiais. Fonte: biografia presente em A Gata  Fotografia: The Great Cat

sábado, 1 de outubro de 2016

Dia Mundial da Música

Hoje, 1 de Outubro, é Dia Mundial da Música. Num texto que gostei particularmente, intitulado "Música e equilíbrio dos elementos", presente em Breve Notas sobre Música [sobre o qual falei aqui], Gonçalo M. Tavares reflecte sobre a sua influência fisiológica e a sua capacidade de nos «alvoraçar». 


«Há muito se sabe: a música é um dos meios de mais rapidamente alvoraçar a fisiologia humana. Compete com a ligação amorosa e com o desejo.

Os antigos mestres chineses, por exemplo, dividiam as notas em meios-tons e faziam corresponder a cada meio-tom uma sensação psicológica.


A música é uma potência de reacções químicas; uma forma de contágio imediato. A tristeza ou a alegria da música passam para quem escuta.

No fundo, temos duas entidades, duas substâncias: a pessoa que escuta e a música. E o que acontece é uma espécie de osmose ao nível dessas grandes partículas que são os seres humanos. Há a passagem de elementos de um lado para o outro, na tentativa de se obter um equilíbrio do conjunto. E eis, então, que no fim da música triste quase parece que a música ficou menos triste e o ouvinte mais. O ouvinte e a música transformam-se num único elemento.

Absorve-se a música como se absorve algo que está no ar e não se vê. É, de facto, uma substância - e essa substância sonora pode ter uma carga triste, alegre, neutra, melancólica ou excitante. E são raras as substâncias do mundo capazes de provocar reacções tão distintas.»


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"O Primo Basílio" de Eça de Queiroz

Título: O Primo Basílio
Autor: Eça de Queiroz
1.ª publicação: 1878
Editora: Círculo de Leitores
Colecção: Obras completas de Eça de Queiroz
Temática: Romance
N.º de páginas: 432

Sinopse

«Escrito em Inglaterra, O Primo Basílio, publicado em 1878, é um romance de costumes da média burguesia lisboeta e uma sátira moralizadora ao romanesco da sociedade da época.

Luísa é uma vítima das suas leituras negativas e da baixeza moral do primo, quando a ausência do marido a deixou entregue ao seu vazio interior. É uma vítima do ócio.

Eça sugere artisticamente os traços psicológicos das várias figuras da obra com os seus dramas, que de forma alguma enfraquecem o clima trágico, denso, do drama da heroína.»

Opinião

Eça de Queirozpropôs-se a escrever uma série de romances em que espelhasse os podres da sociedade portuguesa, todos de acordo com a corrente literária que adoptou: o realismo(1). Nasceu então O Primo Basílio - Um Episódio Doméstico, depois de um retrato bem tirado à província em O Crime do Padre Amaro.

Luísa é a típica mulher da média burguesia lisboeta. Sem uma ocupação que a preencha, a sua mente é um terreno fértil para devaneios românticos, incitados pelas novelas e pela música melodramática que consome, tal como pela educação que teve e que a deixou demasiado impressionável.

Sozinha em casa durante meses, já que o seu marido, Jorge, teve de se deslocar ao Alentejo, com o ressurgimento na sua vida do primo Basílio, a grande paixão da sua juventude, num momento em que se encontra tão desamparada, surge nela a vontade de provar o fruto proibido...

"Imaginava-o só [a Basílio], no seu quarto de hotel, infeliz e pálido; e daqui, pelos declives da sensibilidade, passava à recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memória demorava-se naquelas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem doce de um pássaro raro. Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as ideias más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Basílio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. Que a não secassem, santo Deus!". - página 122

Por um lado, Basílio encontra um antegozo nos jogos de sedução, como conquistador nato que é, e um verdadeiro gozo, maravilhado, quando toma a presa, com a qual rapidamente se enfastia e abandona. Luísa, por sua vez, é levada pelos galanteios e pela riqueza de Basílio conseguida no Brasil, e sente-se de tal forma lisonjeada pela sua atenção que, num acesso de futilidade, se chega a ver superior ao próprio marido e ao seu círculo de amigos.

Porém, o caso muda de figura quando é descoberto pela criada e esta passa a chantagear, sem tréguas, a patroa. Luísa vê-se então a mãos com uma situação para a qual não estava minimamente preparada, quer por causa dos remorsos e do receio de se ver exposta perante a sociedade, quer por chegar à conclusão que nem tão pouco amava Basílio.

A mensagem e a crítica entrelaçam-se, como sempre, nos romances de Eça e este não é excepção. O adultério é o pretexto utilizado para criticar a burguesia lisboeta em toda a sua dimensão. Desde a condição e educação da mulher, aos políticos, figurinos e ambientes da sociedade burguesa, tudo é devidamente escrutinado pela sua subtil, mas mordaz pena. E não foram poucas as vezes que me ri com algumas das situações criadas.

Assim, temos um leque de personagens secundárias que retratam vários dos tipos existentes na época: a criada Juliana, feia e de uma magreza que roça a secura, vê nas várias patroas que teve e agora em Luísa, a personificação do carrasco que tem feito da sua vida um inferno repleto de pobreza, o que a tornou uma pessoa profundamente má, invejosa e rancorosa; a cozinheira Joana, rapariga simples e de formas roliças, que aproveita as saídas dos patrões para namorar com o sapateiro. No grupo de amigos de Luísa e Jorge temos a D. Felicidade, amiga mais velha de Luísa, muito religiosa e sempre acossada por diversos achaques; o conselheiro Acácio, figura política em destaque, formal e bem tratante, é o moderador nas conversas e, alvo do amor da D. Felicidade, revela-se no final da história; o médico Julião, idealista frustrado, que espera e desespera por um cargo, o qual não quer conseguir por cunhas; e Sebastião, amigo de infância de Jorge, rico ocioso e sempre prestável. Sobram ainda Leopoldina, também amiga de Luísa,  a mal casada que não esconde os seus casos extraconjugais; e os próprios vizinhos de Luísa, sempre à espreita de uma pitada da sua vida para apimentarem as suas próprias vidas.

A linguagem é cuidada e/ou apropriada para cada tipo de personagem, como não poderia deixar de ser, mas em nenhum dos livros que já li do autor se adensa tanto como em Os Maias. Em O Primo Basílio adensa-se, mas de outra forma, pois cria-se uma atmosfera psicológica tão opressiva que quase tudo, desde as falas das personagens às descrições, parece anunciar o fim que se aproxima.

Já o público-alvo é, naturalmente, todo e qualquer contemporâneo do autor, especialmente a burguesia e as mulheres ociosas e consumidoras dos "folhetins". Naturalmente que ele foi beber, e muito, em Madame Bovary de Gustave Flaubert (2). Contudo, isso não invalida em nada o facto de existirem, em O Primo Basílio e em toda a obra de Eça, padrões intrinsecamente portugueses que se repetem ainda hoje - não fosse esta obra um clássico da literatura portuguesa.

Do mesmo autor já tinha lido O Mistério da Estrada de Sintra (1870), A Cidade e as Serras (1901, póstumo), Os Maias (1888), O Crime do Padre Amaro (1875), O Mandarim (1880) e, por último, O Primo Basílio (1878). Para mim, sem sombra de dúvida, o melhor romance de Eça, e um dos meus preferidos de sempre, é Os Maias. Desde a «questão existencial» de Carlos, à arquitectura monumental do romance, à história e à crítica, tudo revela uma mestria invejável. Agora, no que toca a'O Primo Basílio, senti algo diferente: uma empatia genuína por Luísa. Afinal de contas, toda a sua personalidade, e consequente vulnerabilidade, foram fruto de uma educação e de uma sociedade que apelavam ao sentimentalismo barato e que em nada a prepararam para a vida real.

Para rematar, o final, ao contrário de algumas críticas que li entretanto, não me desapontou. Nenhum melhor para mostrar como o «ódio» de Eça de Queiroz não se dirige às personagens em si, uma vez que são mero produto de uma fábrica defeituosa, mas sim a essa mesma fábrica: a sociedade. E mais não posso dizer, não vão as minhas palavras desvendá-lo.

Classificação: 5*   (Adorei! Como quase tudo o que li deste escritor.)

(1) Para os mais distraídos, o realismo do século XIX, do qual os seus paladinos em Portugal são Antero de Quental na poesia, e Eça de Queiroz na prosa - e isto só no que se refere à literatura -, medeia entre o romantismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, e o naturalismo de Cesário Verde, e defende que a literatura deve servir como forma de exposição e reflexão da sociedade em que se vive, com o objectivo de a mudar para melhor, naturalmente.

(2) Se ainda não leram o livro, basta que consultem uma sinopse para comprovarem a minha afirmação.