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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"José e Pilar" candidato aos Óscares



Congratulo-me e acho que é um forte candidato. Mais do que uma história, é um testemunho real. Porque nem só de Fado, Fátima e Futebol, ah!, e Fracasso, é feito este país.
A notícia acolá.
As minhas palavras sobre o filme aqui.

domingo, 5 de junho de 2011

"Precious" de Sapphire [Opinião]

Título original: Push
Autor: Sapphire
1.ª publicação: 1996
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 180

Para adquirir (outra edição da obra):


Sinopse:

Esta é a história de Claireece Precious Jones, uma jovem de 16 anos, igual às outras raparigas da sua idade em muitas coisas... mas muito singular noutras: Claireece é obesa, analfabeta, foi vítima de abusos sexuais do seu pai, do qual teve uma filha, e é maltratada psicologicamente pela sua mãe. Quando Precious, após outra violação, fica novamente grávida, é expulsa da escola e começa uma nova educação num centro especial para casos extremos... e a sua vida mudará para sempre.

Poucos filmes causaram tanta comoção nos festivais de Sundance e de Cannes de 2009 como Precious de Lee Daniels, no qual as interpretações da recém-chegada ao grande ecrã Gabourey Sidibe no papel de Precious e Mo'Nique no da sua abusiva mãe foram celebradas pela crítica e arrasaram todos os prémios do ano.



Opinião:

Li há poucos dias Precious de Sapphire porque senti necessidade de um exemplo de força e coragem, o que me fez lembrar que este era um livro que falava disso mesmo.

Quem nos fala é Claireece Precious Jones, uma rapariga afro-americana de 16 anos, obesa, que está grávida pela segunda vez do próprio pai (foi mãe pela primeira vez aos 12 anos de uma criança com Síndrome de Down) e que chegou ao 9.º ano analfabeta (só chumbou duas vezes) - para ela todas as páginas são iguais. É ainda vítima da violência física e psicológica da mãe, uma pessoa desestruturada a todos os níveis, que culpa a filha, por ela ter engravidado, de o pai as ter abandonado.

A linguagem tenta retratar as dificuldades por que passa alguém que só aprende a ler e a escrever aos 16 anos. Não sinto que o objectivo tenha sido alcançado, porque se via que Precious tanto escrevia mal palavras simples, como conseguia escrever palavras no mínimo complicadas para uma pessoa possuidora de tão reduzido vocabulário. Ressalve-se que a linguagem utilizada é explícita, o que não nos deixa passar indiferentes por esta leitura - obriga-nos a parar e a reflectir, a retomar o fôlego e a preparar-nos para mais um murro no estômago - o que deve,  sem dúvida alguma, perturbar as mentes mais susceptíveis.

A sucessão de desgraças que ocorrem a Precious é tão intensa que se torna inverosímil: parece padecer e concentrar em si todos os sofrimentos possíveis e imagináveis. Apesar disso, a sua força é, no mínimo, inspiradora. Com a ajuda das suas colegas e da professora Blue Rain da escola alternativa Each One Teach One, vai ultrapassando todas as contrariedades que se lhe deparam, preocupando-se com o seu destino, na medida em que este inclua também um futuro risonho para os seus filhos.
O livro fala ainda de casos de outras mulheres, colegas de turma de Precious: vítimas da droga, do incesto, do roubo e da violência, foram crianças que não existiram...

Está patente uma intensa crítica ao sistema de ensino americano que permitiu que Precious chegasse ao 9.º ano (com 16 anos e só chumbando em dois anos) sem saber ler nem escrever (chegou a ter óptimas notas!). Nenhum dos professores que a ensinaram se preocupou em descobrir as causas dos alarmantes sinais de perturbação emocional que demonstrava.

Igualmente se critica o Well Fare State, correspondente à Segurança Social portuguesa, relativamente à sua  importância para salvar as pessoas de uma situação de penúria extrema, por um lado, e à fiscalização ineficiente, por outro, criando situações viciosas como a de mãe de Precious que, para além de não trabalhar e não procurar emprego, ainda por cima utiliza a filha e a neta - esta última que nem sequer está a seu cargo, mas sim com a mãe, avó de Precious - para obter os cheques da Segurança Social.


O filme: Confesso que as minhas expectativas não eram muitas uma vez que o filme foi produzido pela Oprah Winfrey (o conceito do programa dela é pelo menos duvidoso...). Por outro lado, na altura em que foi lançado, foi tão aclamado pela crítica que ainda me lembrava disso três anos depois. É uma adaptação quase integral do livro, com poucas alterações, que se notam principalmente a partir do meio do filme e não se poupa em reproduzir as suas imagens chocantes. Felizmente estas são alternadas com momentos menos maus que nos ajudam a ver o filme até ao fim. Termina com o destino de Precious em aberto, dando-nos a esperança de que a partir dali só algo de bom lhe pode suceder.

Certo é que, tanto no livro como no filme, a mensagem patente é a de que se tem de lutar para que não nos deixemos dominar pelo infortúnio e para que alcancemos os nossos sonhos. A vida não é fácil, porém, não é menos verdade que podemos sempre fazer algo para que ela melhore.

Classificação: 4/5* (Vale, sobretudo, pela sua mensagem)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O Fiel Jardineiro" de John Le Carré [Opinião]

Título original: The Constant Gardener
Autor: John Le Carré
1.ª publicação: 2000 
Editora: Biblioteca Sábado
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 440
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

"Justin Quayle é um funcionário do Foreign Office destinado no Quénia. A morte da sua mulher, Tessa, ocorrida em misteriosas circunstâncias, incita-o a iniciar por si própria uma investigação para esclarecer o caso. Justin remonta passo a passo o caminho que conduziu à morte da sua esposa, uma atrevida activista de organizações humanitárias, e durante as suas pesquisas vai descobrindo cada um dos fios de uma trama internacional de corrupção, em que os interesses duvidosos de políticos e burocratas se emaranham com as lucrativas acções sem escrúpulos da poderosa indústria farmacêutica."

Opinião:

Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.

Entre outros assuntos, destaco também:
  • O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde acaba a paranóia e começa a verdade?;
  • O encobrimento governamental de realidades totalmente degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
  • Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências ocidentais;
  • A importância das agências não governamentais para a sobrevivências de populações imensas.
A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa, activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de Woodrow, um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo atrás de uma reputação e prestígio social invejável.

Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem, aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign Office no Quénia,  que passa a ser, de mulherengo e solteirão, o marido perfeito.

Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis
. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da população queniana.

Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores. O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.

O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos esperava.

E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente, descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa, apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável, perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao seu filho num mundo melhor.

Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios, acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus, apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.


O filme: realizado por Fernando Meirelles (A Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira) e com Ralph Fiennes e Rachel Weisz nos principais papéis, é uma adaptação quase fiel do livro e, para mim, peca apenas por não explorar com a mesma intensidade do que no livro, a tragédia por que passa Justin ao perder a mulher. No entanto, para tal ser possível, o filme teria com certeza de passar a série. Por outro lado, o drama de África aparece em toda a sua força, deixando-nos uma mensagem de esperança nesta terra e, acima de tudo, nas suas gentes.

Classificação: 5,0/5* Acho que ficou patente que adorei as personagens Justin & Tessa e toda a história que os envolveu. Por isso, julgo que tanto o filme como o livro serão sempre referências para mim. 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

José e Pilar


Se há amores que perduram além da morte, este é um deles.


Um filme tocante que acompanha dois dos últimos anos de vida de José Saramago. 

Dos melhores filmes que vi,  este é o retrato das duas metades que formam uma só vontade: José Saramago e Pilar del Río.   

Nele observamos o dia-a-dia do escritor, vencedor do prémio Nobel da Literatura, e da presidenta da sua fundação, a sua esposa e o seu pilar. Possuidores de caracteres vincados e polémicos, são companheiros, literalmente: Pilar apoia José no seu destino, o de ser escritor, e José só com Pilar a seu lado é feliz, e nem a diferença de idades o impede. São vários os momentos em que o sorriso nos aflora aos lábios: irónicos e sagazes, não deixam passar nem sequer uma oportunidade de fazerem um comentário não muito politicamente correcto. 

O mundo literário é apresentado de uma forma nua e crua: desde o processo de criação à tradução - neste caso do livro A Viagem do Elefante - , ao relacionamento com os leitores e a comunicação social, além dos inúmeros compromissos que surgem a um escritor laureado pelo prémio Nobel, nada é deixado de lado.
Sinceros, fortes, idealistas, são uma fonte de inspiração para qualquer um. Daí que tenha adorado o filme: ultimamente bem tenho precisado de exemplos inspiradores. E, mais do que nunca, a minha convicção de que almas assim nunca deviam partir de entre nós saiu reforçada. 

Assim, José e Pilar é:  óptimo para quem é fascinado pelo mundo literário; ainda melhor para quem é fã do escritor e da sua obra e essencial para quem acredita nos poderes da perseverança e do amor enquanto realizadores de tudo aquilo que desejamos alcançar.

O documentário completo, disponibilizado pelo realizador Miguel Gonçalves Mendes: