Sinopse:
"Justin Quayle é um funcionário do Foreign Office
destinado no Quénia. A morte da sua mulher, Tessa, ocorrida em misteriosas
circunstâncias, incita-o a iniciar por si própria uma investigação para
esclarecer o caso. Justin remonta passo a passo o caminho que conduziu à morte
da sua esposa, uma atrevida activista de organizações humanitárias, e durante
as suas pesquisas vai descobrindo cada um dos fios de uma trama internacional
de corrupção, em que os interesses duvidosos de políticos e burocratas se
emaranham com as lucrativas acções sem escrúpulos da poderosa indústria
farmacêutica."
Opinião:
Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos
ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.
Entre outros assuntos, destaco também:
- O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde
acaba a paranóia e começa a verdade?;
- O encobrimento governamental de realidades totalmente
degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
- Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências
ocidentais;
- A importância das agências não governamentais para a
sobrevivências de populações imensas.
A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa,
activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign
Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo
esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da
perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de
Woodrow, um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e
caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz
tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo
atrás de uma reputação e prestígio social invejável.
Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem,
aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign
Office no Quénia, que passa a ser, de
mulherengo e solteirão, o marido perfeito.
Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de
negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis
. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir
numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se
voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura
reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus
projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez
que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial
a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável
por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da
população queniana.
Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa
como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a
coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma
empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de
um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida
de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores.
O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para
recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.
O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do
seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de
a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos
esperava.
E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente,
descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna
plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse
parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta
fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa,
apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois
sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável,
perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes
multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um
incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao
seu filho num mundo melhor.
Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma
africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se
torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo
para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais
influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro
tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros
descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios,
acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os
brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus,
apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os
refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho
de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.