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terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Afinador de Memórias" de Jorge Serafim [Opinião]

Título: O Afinador de Memórias
Autor: Jorge Serafim
Edição/reimpressão: 2017
Editora: Edição de Autor
Temática: Infanto-Juvenil
N.º de páginas: 58

Sinopse: 


Era apenas um solitário afinador de memórias! Um homem tenazmente dedicado a consertar coisas esquecidas. Como as frágeis flores, assim deveria ser cuidado tudo o que passou. "Há que manter a memória regada, tão viçosa quanto o tempo a passar", defendia.

Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.

Opinião:

O Contar - Festival de contos do mundo começou hoje e aproveito a deixa para vos falar do último livro de um dos contadores presentes, Jorge Serafim.

Habituada que estou a narrativas longas, as leituras infantis, por norma mais curtas, deixam-me o agravo de saberem a pouco. Neste livro lancei-me num exercício diferente: saborear cada palavra como se fosse a última e o resultado foi um escrutínio demorado de cada recanto, de cada sentido oculto das suas páginas.

Saltam logo à vista as referências a Beja, tanto nas ilustrações como no texto: "Um amor cego à janela de um convento". Mas a história de que nos fala Serafim não tem limitação geográfica. 

Um homem solitário, "dedicado a consertar coisas esquecidas", leva inexoravelmente as suas palavras a ouvidos desinteressados, onde o tempo para escutar é nulo. Dirige-as às ruas da sua cidade, onde muitas são as casas abandonadas, desleixadas, e convencido está de que a sua reabilitação passará pela partilha das histórias que um dia possuíram, pois "A memória é uma casa obrigatória". 

É esta uma busca pela identidade individual e colectiva com um assumido gosto pelo surrealismo mágico, em que a essência transformadora do contador de histórias surge.

As ilustrações apelativas resultam igualmente do trabalho do autor. Admitindo a sua pouca queda para o desenho, optou pelas colagens de diferentes materiais e texturas, da qual a capa é um exemplo. Não será de estranhar encontrar  códigos de barras enquanto vidraças das janelas, ou pelo menos uma pequena flor em cada ilustração, entre recortes do Diário do Alentejo onde se vislumbram edifícios de Beja.

E, na apresentação de O Afinador de Memórias, Jorge Serafim reafirmou o seu amor por esta nossa cidade em palavras, ao expressar de viva voz o que lhe ia na alma sobre a vida cultural de Beja, e em actos, por publicar um livro que lhe incendeia a inspiração. Não poderá por isso ser acusado de não praticar o que prega.

As memórias somos nós e, quem não as tem, é um quadro vazio, por isso tão necessário é cultivá-las - as boas, as más, as nossas, as de todos.


Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Técnico no sector infanto-juvenil da Biblioteca Municipal de Beja, desenvolveu actividade regular na área da promoção do livro e da leitura durante cerca de treze anos. Como contador de histórias, tem percorrido o país de norte a sul, incluindo os Açores, efectuando inúmeras sessões de contos para públicos de todas as idades. Tem participado em encontros de narração oral, nomeadamente em Espanha, Argentina e Canadá. É presença regular na SIC e na RTP1 em programas de humor e é também autor de vários livros: A.Ventura, A Sul de Ti e Estórias do Serafim.: "Conto para que as palavras regressem a casa mais cedo. Para que entre nós deixem de haver vazios difíceis de habitar. Como as aves rumo a um sul à espera de existir. Conto para dar sentido aos passos que faço. Para reaprender a amar todas as ruas que percorro e entender todas as gentes que encontro. Conto para apagar silêncios fundos e afagar tristezas demoradas. Para fazer dos dias a morada da fala e dos meses a terra sonhada. Conto para que tudo à minha volta seja mais bonito. Tão simples de fazer tão complicado de entender...” Contactos: serafimstoria@gmail.com contacontos@sapo.pt contacontos_2@hotmail.com 965428856 Fonte: Narração Oral Fotografia: Red Internacional de Cuentacuentos

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Contar - Festival de contos do mundo [Divulgação]

Para ouvir e contar histórias o caminho a percorrer será até Beja, a cidade dos Contos. De 22 a 27 de Agosto de 2017, o II Contar - Festival de contos do mundo vai percorrer a cidade. Partindo da Biblioteca, passará pela Mouraria, pelo Pax Julia e, novidade deste ano, irá estar presente no Antigo Hospital da Misericórdia, actual Santa Casa da Misericórdia de Beja. 

Toda a informação aqui.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Aquisições de Abril a Julho

E tal como havia previsto [ver aqui], não só Abril, mas também os meses que se seguiram foram de poucas aquisições. São elas: 


Emily L., se bem se recordam, já foi alvo de leitura e passatempo aqui no blogue e podem ver a minha opinião aqui.

A Lista dos Meus Desejos acabou por me surpreender pelas opiniões positivas. Julguei que não passaria apenas de mais um romance sem grande conteúdo, porém, após o que li, irei dar-lhe uma oportunidade.

Sobre O Homem que Plantava Árvores ouvi elogios rasgados e fiquei muito satisfeita por o conseguir através de uma troca.

De todos o que me desperta mais a curiosidade é A Sociedade dos Sonhadores Involuntários. O autor, José Eduardo Agualusa, recebeu recentemente o International Dublin Literary Award e é uma das vozes mais destacadas da literatura angolana.

Todas informações sobre os livros:

sábado, 29 de julho de 2017

"Marina" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]

Título: Marina
Título original:  Marina
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutora: Maria do Carmo Abreu
Edição/reimpressão: 2010
Editora: Editorial Planeta
Temática: Romance
N.º de páginas: 264
Para adquirir:


Sinopse:


«Por qualquer estranha razão, sentimo-nos mais próximos de algumas das nossas criaturas sem sabermos explicar muito bem o porquê. De entre todos os livros que publiquei desde que comecei neste estranho ofício de romancista, lá por 1992, Marina é um dos meus favoritos.» «À medida que avançava na escrita, tudo naquela história começou a ter sabor a despedida e, quando a terminei, tive a impressão de que qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que ainda hoje não sei muito bem o que era, mas de que sinto falta dia a dia, ficou ali para sempre.» Carlos Ruiz Zafón «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

Opinião:


Óscar Drai é um jovem aventureiro que se perde pelas ruas de Barcelona para combater o tédio, até ao dia em que um canto hipnotizante o leva a invadir uma das velhas mansões. Assim conhece Marina e a luz que se acende perante o seu encontro alumiará as suas solidões. É a história de ambos que ele recordará 15 anos depois.

Através das suas investigações, Óscar e Marina encontram aquele que luta obsessivamente contra o inexorável passar do tempo, condenando-se a ele e todos os que quer salvar à sua perdição. 

Ao preceder a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos, não é de estranhar que em Marina encontremos os elementos caracterizadores dos universos de Zafón. Óscar é a personagem masculina dúbia, Marina é a personagem feminina amaldiçoada, mas cuja fortaleza é invejável. E sempre o ambiente barcelonês, repleto de encantos e recantos, onde ao virar de cada esquina se encontram mistérios cujas resoluções causam danos irreparáveis nos destinos dos seus personagens. 

Uma atmosfera densa e a presença de elementos sobrenaturais reportam para O Jogo do Anjo, onde se incluem ainda referências steampunk e a evocação de Frankenstein, com o surgimento de María Shelley e do seu pai, o doutor Shelley. 

Tendo em conta o tamanho reduzido da narrativa - em comparação com o enorme O Labirinto dos Espíritos - a acção desenrola-se vertiginosamente e o efeito dramático é mais impactante. 

Tornou-se uma leitura mais dura do que as anteriores - ainda que a tenha adorado -, onde Zafón deixava, nos seus finais, a porta aberta ao futuro, ainda que não da forma mais imediata. Em Marinapela tremenda sensação de impotência, fica a certeza de que algo se perdeu e não mais se poderá reclamar, porque a morte é sempre o mais injusto dos fins.

Uma leitura realizada no âmbito do:



Classificação:  5,0/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la MedianocheLas Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

terça-feira, 18 de julho de 2017

Autores ASSESTA - Novos Livros e Projectos [Divulgação]

Venham descobrir as vidas literárias de cinco escritores da ASSESTA - Fernando Évora, Luís Miguel Ricardo, Napoleão Mira, Olinda Gil e Vítor Encarnação -, esta 5.ª feira, às 21h30, na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago. Fica o convite para um serão entre amantes das letras!


Para mais informações:

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Rubricas sobre livros #2: O Livro do Dia


"Editam-se em Portugal 15 mil livros por ano. A maior parte deles nunca encontra os leitores a quem se destina. O Livro do Dia procura ser a montra privilegiada do que de melhor se edita em Portugal nas mais diversas áreas: dos clássicos da literatura à revelação de novos autores, da não-ficção ao livro infanto-juvenil. Diariamente, trazemos à antena um novo livro com a escolha do jornalista Carlos Vaz Marques.

O Livro do Dia, com Carlos Vaz Marques, de segunda a sexta, às 06h25, 10h15, 14h50 e 20h35.

Uma parceria com o Plano Nacional de Leitura."

Para ouvir aqui.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

"O Fantasma de Canterville" de Oscar Wilde [Opinião]

Título: O Fantasma de Canterville
Título original: The Canterville Ghost and Other Stories
Autor: Oscar Wilde
Tradutor: João Gentil
Edições/reimpressão: 2011
Editora:  Biblioteca Sábado
Temática:  Contos
N.º de páginas:  216

Sinopse:
Sir Simon é um espírito bastante contente com o papel que interpreta no mundo: é um fantasma que se dedica a aterrorizar os moradores de Canterville Chase... Até que tudo muda para sempre quando na sua mansão se instala uma família de norte-americanos que não acreditam nas superstições e que não têm medo de fantasmas, e ele descobre que o seu poder sobre os vivos começa a desaparecer.

Oscar Wilde assina aqui um dos contos de fantasmas mais conhecidos de toda a história da literatura, objecto de várias adaptações cinematográficas, no qual critica as antigas convenções da sociedade vitoriana e a frivolidade da emergente cultura americana, que completamos com outros contos tão conhecidos como O Crime de Lord Arthur Saville ou A Esfinge Sem Segredos.

Contém os contos:
- O Fantasma de Canterville
- O Pescador e a sua Alma
- O Aniversário da Infanta
- A Esfinge Sem Segredos
- O Crime de Lord Arthur Saville


Opinião:

A figura de Oscar Wilde, para leitores interessados em clássicos, é um nome deveras conhecido, mais não seja pela sua polémica existência.

A sua escrita e, sobretudo, os seus temas não deixam de lhe fazer jus: elementos mórbidos estão presentes em todos estes contos, a par de uma Natureza e luxo inebriantes.

O Pescador e a sua Alma foi o meu preferido desta colectânea: um homem, pescador de profissão, apaixonado por uma sereia que todas as noites lhe canta e o encanta, abdica da sua alma para com ela concretizar o seu amor. Todavia, a alma, abandonada, toma forma e irá trazer-lhe as maiores tentações.  

Ao ler O Crime de Lord Arthur Saville e A Esfinge Sem Segredos, algo me pareceu estranhamente familiar e ao finalizar a leitura tive a certeza de os haver lido. O Goodreads confirmou-mo: li-os isoladamente na seguinte edição apresentado ao lado.

De qualquer forma, não dei o tempo por desperdiçado: sobretudo O Crime de Lord Arthur Saville é suficientemente perverso para merecer uma releitura. 

Todos os contos foram intrigantes, surpreendentes e, como seria de esperar, com uma moral certeira. 

Sobre O Fantasma de Canterville falarei de seguida.

Classificação de cada conto (x/5*):

4,5* O Fantasma de Canterville
5,0* O Pescador e a sua Alma
4,5* O Aniversário da Infanta
3,5* A Esfinge Sem Segredos
4,0* O Crime de Lord Arthur Saville

4,3/5* classificação final


Título: O Fantasma de Canterville
Título original: The Canterville Ghost
Autor: Oscar Wilde
Tradutora: Maria Manuela Novais Santos
Edição/reimpressão: Outubro de 2016
Editora: Porto Editora
Temática: Literatura juvenil
N.º de páginas: 80
Para adquirir:

Sinopse:


A primeira história publicada por Oscar Wilde leva-nos a um castelo assombrado, adquirido por uma abastada família americana que não acredita no sobrenatural, obrigando o pobre fantasma residente a encetar uma série de estratagemas para assustar os seus novos hóspedes. Nunca o fantástico, o terror e a comédia se combinaram numa trama tão genial, que nos diverte e nos leva a refletir sobre os valores mais elevados da vida.

A Coleção Reino das Letras nasce da vontade de aliar a magia das melhores histórias de todos os tempos à leitura sempre renovada que delas podemos fazer. No Reino das Letras, o rei chama-se Sonho e a rainha Imaginação!

Opinião:

O Fantasma de Canterville é uma belíssima paródia às superstições, além do inerente criticismo à aristocracia inglesa e aos novo-ricos americanos.


Habitando Canterville Chase desde o século XVI, Sir Simon tem como o único propósito  da sua existência assombrar qualquer que seja o residente dos seus aposentos e, com efeito, tem desempenhado essa função brilhantemente. Porém, o caso muda de figura quando a propriedade da mansão passa para um ministro americano, Sir Otis, e respectiva família. Apesar de alertados para a presença de um fantasma, nenhum dos familiares mostra o mais ínfimo receio e seguem-se uma série de episódios hilariantes em que a dignidade do pobre fantasma é reduzida a cinzas.


Nota-se claramente que o autor não se prende a convenções e critica tanto os compatriotas como os estrangeiros que, de uma forma ou de outra, pretendem impor os seus padrões e muito a isso ajuda o fantasma, incumbido de uma função que não questionou durante séculos.

Mas serão a coragem e a constância  que irão conduzir àquilo que realmente importa: o perdão e a redenção que trarão a tão desejada paz.

Li as duas traduções: esta, da edição Porto Editora (colecção Reino das Letras) e a anterior, referente à colecção Biblioteca Sábado. Apreciei notar e comparar as ligeiras diferenças, as opções dos tradutores, mas sem alterarem em nada o cerne da história. Recomendo, sem dúvida, esta edição aos mais novos e a anterior a leitores mais maduros.

Classificação: 4,5/5*


Sobre o autor:
Oscar Wilde foi talvez o mais importante dramaturgo da época vitoriana. Criador do movimento dândi, que defendia o belo e o culto da beleza como um antídoto para os horrores da época industrial, Wilde publicou a sua primeira obra em 1881, a que se seguiram duas peças de teatro. A partir de 1887 iniciou uma fase de produção literária intensa, em que escreveu diversos contos, peças de teatro, como A Importância de se Chamar Ernesto, e um romance. Em 1895, foi acusado de homossexualidade e violentamente atacado pela imprensa, tendo-se envolvido num processo que o levou à prisão. Morreu em Paris em 1900. Fonte: WOOK

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"O Meu Irmão" de Afonso Reis Cabral [Opinião]

Título: O Meu Irmão
Autor: Afonso Reis Cabral
Edição/reimpressão: 2014
Editora: Leya
Temática: Romance
N.º de páginas: 368
Para adquirir:


Sinopse:

A relação entre dois irmãos, um deles com necessidades especiais, que têm de aprender a viver juntos.

Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.

Opinião:

Os Prémios LeYa têm por hábito incitar-me a curiosidade e, assim que possível, entram na minha lista de leituras. O Meu Irmão não foi excepção e que brutalidade se revelou.

Na primeira pessoa, um narrador alterna o seu discurso entre o passado e o presente. Assim conhecemos a infância, a adolescência e a idade adulta de dois irmãos, um deles chamado Miguel e portador de síndrome de Down, num fio narrativo que se estende até à actualidade, em que os encontramos isolados no Tojal, na casa de campo herdada dos pais. Os únicos vizinhos serão uma família de pai e mãe idosos e um filho doente e perturbado. 

Na sua infância e adolescência, o narrador parece ter uma rivalidade saudável com Miguel. Porém, momentos há em que o culpa pela atenção desviada dos pais e, apesar da sua forte ligação, há uma inveja pelo seu Éden, o paraíso perdido, e pelo seu papel de anjo ferido na Terra, incluindo o que isso implica: a devoção dos pais - e do mundo - que nada lhe exigem e tudo lhe perdoam.

Com a deslocação para Lisboa, para estudar e trabalhar, este narrador acaba por se afastar da família por cerca de vinte anos, não estabelecendo mais relações sólidas e duradouras, com ressalva de um casamento, por mera solidão e que redunda em rejeição.

O seu retorno, após a morte dos pais, leva-o a assumir-se como tutor de Miguel e obriga-o a estabelecer uma relação de exclusividade. Define o que para ele acha melhor, independentemente das suas mais ínfimas vontades.

Do possuidor desta mente perturbada nunca conheceremos o nome: a criação de empatia para com ele não se concebe, já que é, além de perturbado, frio e alienado. Ironicamente, o único ser por quem cria uma necessidade de afecto é o seu irmão Miguel, e que, pela sua condicionante, não lhe consegue corresponder na medida do desejado. Chega a acusar o irmão de um egocentrismo exacerbado, naquilo que não passa de um espelhar de si próprio.

A exploração deste tema, a deficiência, é crua e sem rodeios. Numa prosa irrepreensível, passagens relembrarei e não esquecerei tão cedo. E é de realçar que não é qualquer um que se encontra preparado para lidar com tal condição, como ultimamente se vem notando com algumas notícias de maus tratos.

Pela introspecção que me causou, bastante mais poderia dizer. Cinjo-me a afirmar que é uma obra de estreia invejável, uma reflexão sobre a condição do homem perante a deficiência, a velhice, a doença e o seu impacto em todos nós.



Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Afonso Reis Cabral nasceu em Lisboa em 1990 e cresceu no Porto. É o quinto de seis irmãos. Escreve desde os 9 anos. Em 2005 publicou o livro Condensação, no qual reuniu poemas escritos até aos 15 anos. Publicou textos em diversos periódicos. Em 2008 ficou em 8.º lugar no 7th European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, entre mais de 3500 concorrentes de 551 escolas europeias e mexicanas. Foi o único português a concorrer.

É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo recebido o Prémio Mérito e Excelência atribuído ao melhor aluno do curso. Na mesma instituição fez o mestrado em Estudos Portugueses com a dissertação A Orquestra Oculta - Os Estudos da Consciência e a Literatura. Foi bolseiro no Centro de História da Cultura (FCSH-UNL), onde desenvolveu investigação sobre a editora Romano Torres.

Sempre se imaginou a trabalhar na área editorial. Trabalhou como revisor em regime de free-lance e desempenha actualmente as funções de editor. Fonte: Leya

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"O Labirinto dos Espíritos" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião]


Título: O Labirinto dos Espíritos
Título original:  El Laberinto de los Espíritus
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: Mário Dias Correia
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Planeta Editora
Temática: Romance
N.º de páginas: 848
Para adquirir:


Sinopse:


Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível.

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

Opinião:

Sendo este o encerramento da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, criou-se a expectativa de que Carlos Ruiz Zafón se superasse. Não posso afirmar que tal tenha sucedido, adoptando a perspectiva de fã incondicional, mas constato a competência com que alcançou o que lhe era exigido, não perdendo os seus traços característicos.

Desta vez, o autor brinda-nos com um registo mais policial, graças ao qual surge Alicia Gris: femme fatale e anjo caído, concentrado de aura gótica, pincelado de luz e sombras. Investigadora de um obscuro órgão governamental, assumirá um papel crucial na resolução dos enigmas pendentes.  E será neste atar de pontas soltas que Alicia se cruzará com a família Sempere e com o nosso inefável Fermín Romero de Torres, bem como com as maquinações que colocarão em perigo a vida de todos.

Acompanhando uma investigação tão longa, entremeada com as histórias sobre Alicia e os Sempere, e sobre outras personagens trazidas a palco pela primeira vez, senti que, por vezes, o fio se perdia da meada. Ainda assim consegui prever parte da conclusão, algo que não me agradou especialmente.

Entre Madrid e Barcelona, o lado mais negro do franquismo continua a ser explanado: a corrupção e os jogos de poder, tanto em altas instâncias como entre os seus subalternos, são uma constante ao longo da narrativa, numa amostra dos podres desta sociedade.

Algumas falhas cronológicas e problemas na revisão minam a leitura, não constituindo impeditivo para, perto do final da leitura, se instalar a saudade pelas personagens e por um ambiente tão único, numa despedida onde a porta do diabrete se encerra com chave de ouro.

Com a leitura de Rosa de fuego [ver aqui], desenvolveu-se a leve esperança de que mais pistas sobre a origem do Cemitério dos Livros Esquecidos fossem desvendadas, o que não veio a suceder. Assim permaneceu o mistério em torno da sua fundação e em como se acumulou tamanho tesouro.

Apesar de a nota introdutória referir que os "diferentes títulos relativos à série do Cemitério dos Livros Esquecidos poderão ser lidos por qualquer ordem ou separadamente" aconselho a leitura por ordem de publicação. O próprio autor, nas palavras de uma personagem, ajudaria a esclarecer todas as incertezas:
"(...) o primeiro tomo centrar-se-ia na história de um leitor (...) e de como nos seus anos de mocidade descobria o mundo dos livros e, por extensão a vida, através de um enigmático romance escrito por um autor desconhecido que escondia um mistério daqueles de deixar a boca seca".
"O segundo tomo, empapado num sabor mórbido e sinistro destinado a espicaçar os leitores de bons costumes, relataria a macabra peripécia vital de um romancista maldito (...)".
"O terceiro  tomo, supondo que o leitor sobrevivesse aos dois primeiros (...) resgatar-nos-ia de forma momentânea do averno e oferecer-nos-ia a história de uma personagem, a personagem por excelência e a voz da consciência oficial da história, ou seja, (...)  Fermín Romero de Torres". 
"A quarta parte, virulentamente enorme e temperada com os perfumes de todas as anteriores, levar-nos-ia por fim ao centro do mistério e desvendaria todos os enigmas (...)".
Tal como afirmei em relação a A Sombra do Vento, não se considerando uma obra prima consensual a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos dificilmente será olvidada por quem a leu, seja pelo seu cruzamento de diferentes géneros literários, por personagens que nos despertam a mais profunda amizade, ou por uma prosa tão envolvente como a bruma que em tantos momentos cobre Barcelona. Prometo voltar a ela, sem dúvida. 

Uma leitura realizada no âmbito do:



Classificação:  4,5/5*

Sobre o autor:
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El Palacio de la MedianocheLas Luces de Septiembre (reunidos no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001 publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e O Labirinto dos Espíritos (2016) regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. Fonte: WOOK [adaptado]

sábado, 20 de maio de 2017

XIII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja [Divulgação]


«O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja realiza-se este ano entre os dias 26 de Maio e 11 de Junho, abraçando exclusivamente o Centro Histórico da cidade e em especial o Largo do Museu Regional, epicentro desta Festa da BD.

São 18, as exposições patentes ao público, e 10, os países representados, da Argentina à Dinamarca, passando por Angola e pela Roménia…

Para além das exposições, o Festival oferece aos visitantes uma Programação Paralela bastante diversificada onde pontuam as apresentações de projetos, as conversas à volta da BD, o lançamento de livros, as sessões de autógrafos, workshops, concertos desenhados, etc., etc.

Como não podia deixar de ser, o Festival tem também à disposição dos visitantes o Mercado do Livro - a maior livraria do país durante este período, com mais de 60 editores presentes - e uma zona comercial com várias tendas instaladas (venda de action figures, arte original, posters, prints, etc.).
              
O Festival inaugura sexta-feira, 26 de Maio, às 21h00, no Pax Julia – Teatro Municipal.

Na sexta-feira 26 e no sábado 27 as noites são de concertos desenhados (a programação só termina às 4h00 da manhã).

O primeiro fim-de-semana (26, 27 e 28 de Maio) reunirá grande parte dos autores representados nas exposições

sábado, 13 de maio de 2017

"Homens imprudentemente poéticos" de Valter Hugo Mãe [Opinião]

Título: Homens imprudentemente poéticos
Autor: Valter Hugo Mãe
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Porto Editora
Temática: Romance
N.º de páginas: 216
Para adquirir:

Sinopse:


Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.

Valter Hugo Mãe prossegue a sua poética ímpar. Uma humaníssima visão do mundo.

Opinião:

Perante tão intensa leitura o sentimento de
 que qualquer palavra minha não passará de uma vacuidade é uma certeza. Remando contra esta corrente, a obrigação de partilhar convosco o deslumbramento que me proporcionou impôs-se.

Antes de mais, convém expor que a minha atracção pela cultura japonesa é elevada, não ultrapassando, até ao momento, o que conheço através do anime que tenho consumido desenfreadamente nos últimos anos.

Valter Hugo Mãe bebeu profundamente in loco das tradições e lendas japonesas. A sua narração lírica, que tanto me relembrou a do contador japonês Yoshi Hioki, impõe uma leitura pausada, infinitamente atenta, para dar lugar à absorção do que a simplicidade escuda.

Em A Desumanização, o anterior e único livro que havia lido do autor, levando-me numa viagem até à Islândia, uma dor e uma agressividade latentes estiveram sempre presentes tanto na Natureza como nos indivíduos. Neste Homens imprudentemente poéticos, momentos de intensa ternura, através das personagens da senhora Kame, a mãe longínqua, e da sua Matsu, a jovem cega, grandiosa até na sua forma limitada de reconhecer o mundo, causam admiração pelo seu despojamento e, acima de tudo, pela gratidão demonstrada.

No entanto, são os vizinhos desavindos, Itaro san, o artesão de leques, e Saburo san, o oleiro, o epicentro: enquanto Itaro, não obstante conceber peças de uma beleza inefável, se seduz por actos de violência para neles encontrar trágicas previsões, Saburo é a sua antítese, cultivando um jardim para moldar a natureza.

Após a morte da esposa do oleiro, também ele sucumbe à violência e provocações surgem de lado a lado, certeiras como golpes cirúrgicos, culminando num ódio desmedido. Será este exarcebar não mais do que a expressão dos medos: a fome, a miséria, a solidão e a morte que a todos assolam e que conduzem à irracionalidade da barbárie. Ainda que encontrem uma espécie de redenção, a felicidade ficará longe do seu reduto.

E, por último, o contraste entre a cultura japonesa e a ocidental nota-se em algo tão avassalador como a floresta dos suicidas [vejam mais sobre a experiência do autor neste local aqui]. Perto da aldeia, existe esta floresta onde os que desejam morrer se embrenham, não sem antes atarem uma corda a uma das árvores na sua orla. Serve esta corda para, no caso de as suas reflexões os levaram ao arrependimento, poderem encontrar o caminho de volta e se reencontrarem numa espécie de ressurreição. O autor colocou-a neste local para conveniência da narrativa, apesar de, na realidade, se situar no monte Fuji. Ora, a maior diferença prende-se com a aceitação dos japoneses perante o suicídio. Não há uma necessidade de dissuasão colectiva, parte de uma decisão individual cujo final levará o ser de volta à terra, sua origem.


Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:
Valter Hugo Mãe é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou sete romances: Homens imprudentemente poéticos; A desumanização; O filho de mil homens; a máquina de fazer espanhóis (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); o apocalipse dos trabalhadores; o remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino. Escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: Contos de cães e maus lobos, O paraíso são os outros; As mais belas coisas do mundo e O rosto. A sua poesia foi reunida no volume contabilidade, entretanto esgotado. Publica a crónica Autobiografia Imaginária no Jornal de Letras. Fonte: WOOK