Título: O Torcicologologista, Excelência
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015
Editora: Caminho
Temática: Ficção
N.º de páginas: 265
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Sinopse:
"- Gosto muito de bater na cabeça das pessoas com uma
certa força.
- Gosta?
- Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu
chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
- E ela - a Excelência - vai?
- Sim. Quem não gosta de ser chamado à distância por Vossa
Excelência? Apanho sempre, primeiro, as pessoas pela vaidade… é a melhor forma.
- E quando a pessoa-Excelência chega ao pé de Vossa
Excelência, o que acontece?
- Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com
toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa
força na cabeça de Vossa Excelência. É isto que eu digo, apenas. Nem mais uma
palavra."
Opinião:
Primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, ainda por cima autografado pelo autor, que esteve presente na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago a 4 de Dezembro [de 2015].
O Torcicologologista, Excelência divide-se em duas partes - Diálogos e Cidade. Na primeira, maior em número de páginas, encontramos uma série de diálogos, dos quais posso destacar Como relatar uma experiência dolorosa e Sobre o pensamento e o bater na cabeça, por exemplo. São diálogos que, pelo absurdo e surrealismo de algumas suposições e acções, abrem campo às mais variadas reflexões do leitor. Os interlocutores dialogam cordialmente, ainda que as acções que desempenham nem sempre o sejam e o tratamento por "Excelência" ainda mais enfatiza essa cortesia.
Relativamente a Cidade, que encerra o livro, encontramos aquilo a que eu chamo de enumerações, dado que se tratam de frases curtas sobre estados e acções de indivíduos que, em vez de nomeados, são numerados pelo autor. Segue-se um excerto para que melhor se compreenda o que quero dizer:
"O Número 1 disse uma vez que queria matar o pai, mas não era isso que queria dizer.
O Número 2 não pára de falar.
O Número 3 ainda não disse uma palavra.
[...]
O Número 42 está a dormir com a amante.
O Número 43 partiu outra vez um copo.
O Número 44 foi ao hospital visitar o pai e quando voltou disse à mulher: mais um mês.
O Número 45 está careca, está a fazer quimioterapia, diz que está bonita mas está assustada, treme muito quando leva um copo à boca. O marido diz que ela está linda mas sabe que não é verdade.
O Número 46 diz sim.
O Número 47 dia não."
Possui passagens brilhantes, hilariantes, acutilantes, que
expõe a cru a natureza humana. As palavras que me surgem para melhor o
descrever seriam: diálogos que fazem pensar, enumerações que perturbam.
Classificação: 4,5/5*
Título: breve notas sobre música
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015
N.º de páginas: 265
Para adquirir:

Sinopse:
«1. Um homem que gostava de ouvir música às escuras mas com
uma lanterna na mão.
Quando ligava a lanterna, não a apontava para o aparelho
técnico de onde saíam os sons, mas sim para o espaço por onde a música se
espalhava. Queria localizar os sons como se localiza um objecto.»
Esta é uma das breves notas sobre música, de Gonçalo M.
Tavares.
Opinião:
Decidi juntar esta opinião à anterior uma vez que foram
leituras com pouco tempo a separá-las. Assim, sendo a minha segunda leitura de
Gonçalo M. Tavares, já estava familiarizada com a sua forma de escrever: nada
complexa nem pretensiosa.
Em breve notas sobre música, a música, naturalmente, é a
protagonista das reflexões do autor que, desta vez, não surgem sobre a forma de
diálogos, mas de pequenos textos, acompanhados de ilustrações de Rachel Caiano.
Fala-se da música enquanto objecto corpóreo, dos músicos, dos ouvintes e das
suas atitudes perante ela e de infindas associações passíveis de serem
realizadas, numa busca incansável por uma possível definição.
Deixo-vos esta passagem, de que gostei imenso: "A
pré-história do homem parece muda; pelo menos fazemos dos nossos velhíssimos
pais seres mudos com mãos e cérebros. [...] mas que não são pensados como
capazes de produzir música. [...] O que nos conta a história é que fizeram
objectos, o fogo, utensílios requintados, mataram, esganaram, trucidaram e, uma
ou outra vez, salvaram. Mas as mãos dos antigos também pintaram e desenham e,
sim, claro, tocaram no mundo que existia para que o mundo que existia, em
contacto com as superfícies do seu corpo, produzisse música. Mas disso pouco
sabemos. Conhecemos alguns instrumentos mas não a música. Recuperámos o
esqueleto mas não o sangue".
Classificação: 4,0/5*
Sobre o autor:
Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou
livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50
países.
Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no
estrangeiro. Com Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur
Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan
Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias
Canetti, entre outros.
Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal
Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália),
Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010
(França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes
vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu,
entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros
deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças
radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de
arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, etc. Fonte: WOOK