quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

"Ala Feminina" de Vanessa Ribeiro Rodrigues [Opinião]

Título: Ala Feminina
Autora: Vanessa Ribeiro Rodrigues
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Desassossego (chancela da Saída de Emergência)
Temática: Memórias e Testemunhos
N.º de páginas: 272
Para adquirir:

Sinopse:

Pode a reclusão revelar mistérios da condição da mulher?

O que têm em comum uma colombiana, uma romena, uma angolana, uma venezuelana, uma uruguaia, três brasileiras e nove portuguesas? Para elas, a liberdade é um desejo que carregam na mente, livre para sonhar, com o corpo preso num cárcere, labirinto entre o Rio de Janeiro, o Porto e Lisboa.

São mães, vaidosas, filhas, amantes, sonhadoras, escrevem cartas, leem livros, amam. São barqueiras invisíveis entre dois mundos: o mundo cá de fora e um céu gradeado. Este é mais do que um livro-reportagem, é a intuição subjetiva a partir de conversas com mulheres privadas de liberdade: os medos, os desafios, as conquistas, os desabafos, a ânsia de ser livre.

Opinião:

Ouvir, não há muito, relatos sobre a situação das prisões, em específico as limitações derivadas da greve dos guardas prisionais, ressuscitou-me a vontade de escrever sobre este livro.

Vanessa Ribeiro Rodrigues, jornalista de formação, delineia em Ala Feminina um retrato de cunho próprio da condição das prisioneiras em Portugal. Oriundas de outros domínios ou nascidas no nosso país, todas partilham o mesmo destino: a condenação a uma pena efectiva e o estigma do crime. 

A autora envereda por uma linguagem, além de jornalística, literária, não se esquivando a um caminho difícil de trilhar. Nas suas palavras,
 (...) este livro só fazia sentido formar-se em camadas literárias, em linguagens que se sobrepõem, em sedimentos que se transformam numa matéria viva, em fragmentos de histórias e vivências, itinerâncias e recortes do real. - p. 257
Surge assim a forma de contextualizar as passagens entre os actos - as entrevistas - não o tornando um mero repositório de perguntas e respostas. 
Um pai e uma filha reunidos por um crime? Há de Soraia dizer que se a vida assim foi, terá valido a pena. Há de sossegar, perdoar-se, para ter o abraço paterno. Talvez, então, I-t-a-g-u-a-í, essa palavra-verbo, essa onomatopeia prolongada, seja isso mesmo: o som de um rio a misturar-se no outro, numa forma natural de reconciliação. - p. 57 
Vanessa interroga-se, nomeia e dá voz aos anseios das presidiárias. Começa pelo Brasil e recentra-se em Portugal: Margarida, Aurora, Aida, Elis, Agostinha são exemplos das que sonham com o futuro, para algumas ao virar de poucos meses, tecendo planos e a sofrer antecipadamente pela libertação.

Poderíamos afirmar que estas mulheres são vítimas das circunstâncias, e são-lo, sem dúvida. Porém, confrontadas com as decisões que as levaram às celas, tinham consciência da infracção em que poderiam incorrer, ainda que o risco fosse longínquo no seu horizonte. Apresentam-se na defensiva: dependência, pobreza, doença e enganos, a elementar sobrevivência, uma súmula de factores de condicionamento, encurta-lhes a vista e fá-las saltar a barreira entre o certo e o errado por impulso ou premeditação.

As prisões são, para a generalidade da população, uma realidade velada em que a separação entre eles, os que estão presos, e nós, está sempre presente. A tarefa de a tornar conhecida parece hercúlea. A realização destas entrevistas causa incómodos e leva a reflexões sobre o que se esconde, sobre o que tanto se receia mostrar. Pela minha parte, questiono: revelar as condições das prisões poderia produzir empatia suficiente para que surgissem exigências? A voz dos presidiários é limitada, tal como demonstrado nos últimos protestos.

O cumprimento dos seus direitos viabilizará a sua integração na sociedade. Se, à partida, essa garantia for negada, a possibilidade de uma recaída no mesmo padrão de vida - se é que dele conseguiram entretanto sair - será certa. 

Este livro constitui um contributo relevante para tal debate, permitindo em simultâneo uma leitura prazerosa. Poderia, por certo, integrar o Plano Nacional de Leitura. Fica a dica.

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Vanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, realizadora de cinema documental e professora universitária. Navega entre a poesia, o jornalismo, a literatura, o documentário, a fotografia e a pesquisa académica. Colabora de forma independente com vários órgãos de informação. É investigadora em Comunicação para o Desenvolvimento, mestre em Informação e Jornalismo. Realizou o filme documental Baptismo de Terra, sobre a emigração portuguesa no Rio de Janeiro, que recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no Festival de Cinema Art&Tur e a menção especial de TV no Festival de Cinema de Avanca. A reportagem da TSF Palestina, diários de um lugar incerto ganhou uma menção honrosa no Prémio Jornalismo Direitos Humanos & Integração – UNESCO (2015). Em 2014 foi distinguida com o prémio literário OFF FLIP, Paraty, Brasil, na categoria de conto. Fonte: WOOK Fotografia: ISCIA