sábado, 24 de novembro de 2018

"As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" de Claire North [Opinião]

Título: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August
Título original:  The First Fifteen Lives of Harry August
Autora: Claire North
Tradutor: Casimiro da Piedade
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Saída de Emergência
Temática: Ficção científica
N.º de páginas: 412
Para adquirir (a edição mais recente):


Sinopse:

Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?

A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se. Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

Opinião:

Os membros do Clube Cronus, os kalachakras, têm em comum um destino: após a sua morte todos renascem, regressando sempre ao ponto de origem. Desta forma, a Harry August está garantido que, assim que morra, voltará às circunstâncias do seu nascimento: o dia de Ano Novo de 1919, numa casa de banho em que a mãe o dá à luz. Este ciclo irá repetir-se, levando-o a passar uma e outra vez pelo período que tinha acabado de viver, com a mesma família e no mesmo contexto social, e são os acontecimentos das suas primeiras quinze vidas que ele nos vem narrar.

Existem clubes Cronus em todas as épocas, desde o passado remoto a um futuro desconhecido e o espírito de entre-ajuda predomina. Quando o seu equilíbrio é posto em causa, pela infracção da regra de ouro de não se interferir e influenciar os marcos históricos, é Harry quem recebe a mensagem do caos futuro e cabe a ele descobrir a sua origem.
"Era uma lembrança do velho adágio segundo o qual tudo o que a tirania precisa para florescer é da cumplicidade de alguns homens bons"
No confronto entre si e aquele que oscila entre seu amigo e arqui-inimigo, surge um retrato da complexidade das relações humanas, inúmeras questões éticas e, mais uma vez, as ambições desmedidas que apodrecem os espíritos. E ainda que se considere o nosso narrador o bom da fita, nem por isso deixa de ter o seu lado negro, nem as suas escolhas deixarão de causar danos.
"Haverá inocência na ignorância? E se há, será que toleramos os outros por causa da sua ignorância? Sentado dentro daquele comboio, com o vapor do meu bafo a juntar-se ao deles e a subir até ao tecto, e a carruagem a saltar sobre cada junção na linha como uma jovem gazela, descobri que não tinha qualquer resposta satisfatória a essa pergunta"
De 1919 até ao final do século XX, o protagonista revive um período abundante em episódios históricos, onde a evolução da espécie se acelerou prodigiosamente. Desde a II Guerra Mundial à expansão espacial, passando pela evolução tecnológica e por construções e colapsos de sistemas políticos, muitos são os acontecimentos abordados na narrativa e que, sem dúvida, a enriquecem. 

Foi uma leitura que, ao não me desiludir, me fez ter ainda mais vontade de ler este género - a ficção científica - que, de inferior, nada tem. Uma obra completa que me trouxe os mesmos prazeres de As Horas Invisíveis de David Mitchell, sobretudo porque não se limita a ficcionar a ciência, mas também alternativas históricas e ambientes sociais, assim como o comportamento humano perante estas possibilidades.

A edição lida (não a referida acima, mas a pertencente à colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica) tem como prefaciadora Inês Botelho, que nos fala sobre a ficção científica, em concreto a sua indevida menorização relativamente a outros géneros literários - percepção essa que partilho - e que ficções como esta vêm desmistificar.  No final, há um posfácio em que Nuno Galopim se debruça sobre obras que se reportam a Histórias que manipulam os calendários, entre as quais 1984 de George Orwell, A Máquina do Tempo de H.G. Wells, ou Dune de Frank Herbert.

Classificação: 4,5/5*

Sobre a autora:
Claire NorthClaire North é um dos dois pseudónimos de Catherine Webb – uma autora britânica nascida em 1986. Estudou História na London School of Economics e Teatro na RADA. A sua estreia, Mirror Dreams, foi publicada quando tinha apenas 14 anos. O livro foi publicado em 2002 e granjeou comparações a Terry Pratchett e Phillip Pullman. Webb publicou mais sete romances, conquistando as críticas, o público e mais duas nomeações para a medalha Carnegie. Sob o pseudónimo Kate Griffin, publicou seis obras de fantasia. Em 2014 publicou o primeiro romance de ficção científica sob o pseudónimo de Claire North, As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, tendo sido um bestseller. Em 2015 e 2016, publicou Touch e The Sudden Appearance of Hope. Fonte: WOOK

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