domingo, 28 de outubro de 2018

"Uma Volta ao Mundo com Leitores" de Sandra Barão Nobre [Opinião]

Título: Uma Volta ao Mundo com Leitores
Autora: Sandra Barão Nobre
Edição/reimpressão: 2017
Editora: Relógio D'Água
Temática: Literatura de viagem
N.º de páginas: 360
Para adquirir:


Sinopse:


Esta viagem de Sandra Barão Nobre começa em abril de 2013, quando chega a casa depois de um dia de trabalho e abre o mapa-mundo no chão da sua sala. A intenção inicial da criadora do site Acordo Fotográfico (uma homenagem ao ato de ler) era visitar os países de língua portuguesa ou as regiões do mundo onde ela ainda sobrevive, como Malaca, Macau e Goa. Mas, quando uma sua amiga decide participar na aventura, combinam explorar mais o sudeste asiático (em particular, países como Tailândia, Laos, Vietname e Camboja).

Quando Sandra Barão Nobre regressou a Portugal em finais de agosto de 2014, visitara catorze países e a sua vida mudara.

Os textos que fazem parte deste livro, fragmentos do diário, entrevistas e narrativas de viagem, foram escritos a propósito dos leitores que a autora conheceu durante este longo périplo e dos lugares onde esses encontros ocorreram.

Opinião:

O interesse concreto por Uma Volta ao Mundo com Leitores surgiu aquando da sua apresentação, em Junho, na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, onde estiveram expostas algumas das suas fotografias a leitores. Descobri depois que fui alvo da lente da Sandra ao passar pela página de Facebook do Acordo Fotográfico.

Previamente, aquando do lançamento em 2017, a capa havia-me suscitado curiosidade, tal como o título: gosto de ler sobre o mundo bibliófilo e apercebi-me de uma recepção positiva generalizada. O formato do livro, um pouco mais pequeno do que o habitual, torna-o um mimo. Aliás, as edições da Relógio D'Água são para mim um fetiche: simples, sóbrias e cuidadas, pelo que ultimamente tenho tentado adquirir mais títulos do seu catálogo.

Em modo low cost, a viagem de Sandra atravessou catorze países (Brasil, Austrália , Timor-Leste, Malásia, Tailândia, Laos, Camboja, Vietname, China, Índia, Zanzibar, África do Sul, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde) de Março a Agosto de 2014. Estava ainda vívido o entusiasmo que demonstrou a falar das suas experiências e do seu inevitável enriquecimento pessoal. Talvez por isso se tenha revelado uma pessoa enérgica, emotiva, aberta e, sobretudo, extremamente empática.

As descrições da viagem são intercaladas pela descoberta de leitores. Esta busca reflecte o seu próprio gosto pela leitura e encontrá-los mostrou ser uma fonte de total satisfação, independentemente do género e autores escolhidos, algo do qual também comungo. Curiosamente alguns títulos repetiram-me em diferentes latitudes, como A Guerra dos Tronos de George R. R. Martin. Quando sobre os encontros não havia muito a dizer, fosse pela timidez dos abordados ou pelas barreiras linguísticas, a autora contornou habilmente estas lacunas abordando antes as circunstâncias que os tornaram possíveis.

Um livro que me acompanhou na canícula dos primeiros dias de Agosto, aliviou-me o calor sofrido com as descrições de alguns dos locais paradisíacos visitados. Mesmo que alguns não primassem pela frescura, surgiu sempre uma praia, um lago, um rio ou, simplesmente, um local com ar condicionado, para retemperar forças e ganhar balanço para mais uma etapa.

Surgindo a hipótese de viajar, optaria certamente até destinos diferentes, numa procura por uma oferta cultural e de maior conforto. Ainda assim, tal como a Sandra, senti-me enriquecida já que os seus relatos me despertaram para realidades antes desconhecidas. Espero ler mais sobre as suas viagens em breve!

Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Sandra Barão NobreSandra Barão Nobre nasceu em França, em 1972. Em 1980 volta para Portugal com a família e vive em Portimão, no Algarve, até ao fim dos estudos secundários. Em 1995 licencia-se em Relações Internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa. Desempenha funções na Telecel, na Câmara de Comércio Uruguaio-Portuguesa (em Montevideu), na Fundação de Serralves e na livraria on-line WOOK, onde trabalha entre 2003 e 2015. Nos entretantos, nunca parou de viajar. Em 2011, cria o Acordofotografico.com — um site onde homenageia o ato de ler — e em 2014 parte de mochila às costas para fazer uma volta ao mundo. Fonte: WOOK

domingo, 14 de outubro de 2018

Rubricas sobre livros #4: À Volta dos Livros


"Conversas diárias com autores portugueses sobre as suas mais recentes obras. Destaques literários, de 2ª a 6ª Feira na Antena 1 com edição de Ana Daniela Soares."

Para ouvir aqui.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

"O Poder" de Naomi Alderman [Opinião]

Wook.pt - O Poder
Título: O Poder
Título original: The Power
Autora: Naomi Alderman
Tradutora: Sónia Maia
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Saída de Emergência
Temática: Romance
N.º de páginas: 368
Para adquirir:


Sinopse:

Romance vencedor do Baileys Women's Prize para ficção 2017

Quando as raparigas ganham o poder de causar sofrimento e morte, quais serão as consequências?

E se, um dia, as raparigas ganhassem subitamente o estranho poder de infligir dor excruciante e morte? De magoar, torturar e matar? Quando o mundo se depara com esse estranho fenómeno, a sociedade tal como a conhecemos desmorona e os papéis são invertidos. Ser mulher torna-se sinónimo de poder e força, ao passo que os homens passam a ter medo de andar na rua, sozinhos à noite.

Ao narrar as histórias de várias protagonistas, de múltiplas origens e estatutos diferentes, Naomi Alderman constrói um romance extraordinário que explora os efeitos devastadores desta reviravolta da natureza, o seu impacto na sociedade e a forma como expõe as desigualdades do mundo contemporâneo.

Opinião:

E após Pequenos Fogos em Todos o Lado, a escolha para o #netbookclub [referido aqui] foi O Poder, uma distopia decorrida num mundo similar ao nosso, mas que se altera drasticamente pelo surgimento de uma força. A capacidade de libertar descargas eléctricas dá às mulheres a superioridade, originando uma troca de papéis que abala todos os alicerces conhecidos. O homem deixa de ser o predador, secundarizando-se perante esta onda de poder.

A autora vai alternando entre as perspectivas das personagens, quase todas femininas: Margot, uma influente política americana, e a sua filha Jocelyn, que se debate com o poder que teima em fugir ao seu controlo; Allie, uma adolescente em fuga da violência familiar e que, ao encontrar refúgio num mosteiro, se reinventa como a Mãe Eva, uma líder espiritual; Roxy, filha de um magnata da máfia inglesa e a mais poderosa.

Há uma excepção, nada ocasional. Tunde, um jovem jornalista, partilha os primórdios da mudança e vibra com eles, testemunhando eventos que tanto o atemorizam como o atraem e esta dualidade é um dos pontos mais interessantes da história. É através dele que a autora mostra que, independentemente do sexo, existem emoções e sentimentos partilhados: o instinto de sobrevivência, o medo, a humilhação, o desespero, a necessidade de conforto e de estabilidade e, sobretudo, o sofrimento que o homem, subjugado, experiencia em igual medida.

A capacidade de chocar da narrativa, mais do que a sua forma, induz reflexão sobre o papel feminino nas sociedades contemporâneas, do Oriente ao Ocidente, nos vários estratos sociais. Senti falta de descrições elaboradas que levassem a uma evolução da acção mais pausada e satisfatória para o meu gosto literário. Já o final em aberto assenta que nem uma luva.

As últimas décadas têm representado um ganho significativo quanto aos direitos das mulheres, ou seja, à concretização dos direitos humanos para ambos os sexos. Ainda assim este livro deve ser considerado um alerta ao seu estado de vulnerabilidade, sobretudo nas sociedades em vias de desenvolvimento, em que estão longe de se afirmar sequer como seres humanos de pleno direito.

Seja quem for que detenha o poder, a degenerescência e o caos podem instalar-se. Iremos a tempo de evitar a perpetuação deste paradigma?

Classificação: 4,5/5*

Sobre a autora:
Naomi Alderman
Nascida em Londres, Alderman frequentou a South Hampstead High School e a Lincoln College, Oxford, onde leu Filosofia, Política e Economia. Mais tarde, estuda escrita criativa na Universidade de East Anglia antes de se tornar uma romancista. Em 2007, o Sunday Times nomeou-a escritora jovem do ano.


Foi a principal escritora da Perplex City, um jogo de realidade alternativa, em Mind Candy de 2004 a junho de 2007. Passou a escritora principal no jogo de vídeo em execução Zombies, Run! que foi lançado em 2012. Escreveu artigos para vários jornais britânicos, e tem uma coluna de tecnologia regular no The Guardian.

Em 2012 Alderman foi nomeada Professora de Escrita Criativa na Bath Spa University, Inglaterra. Em 2013, foi incluída na lista Granta dos 20 melhores jovens escritores. O seu pai é Geoffrey Alderman, um académico que se especializou em história anglo-judaica. Fonte: WOOK