segunda-feira, 27 de agosto de 2018

"Levantado do Chão" de José Saramago [Opinião]

Título: Levantado do Chão
Autor: José Saramago
Edição/reimpressão: 1999
Editora: Círculo de Leitores
Temática: Romance
N.º de páginas: 382
Para adquirir (a edição mais recente):


Sinopse:


A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. «Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do setor seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto.»

As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações.

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998

Opinião: 

Foi este o último livro para o Ler os Nossos, do qual em breve farei um balanço, e que serviu de pretexto - ainda que não fosse necessário - para ler mais uma obra de José Saramago. Sendo um dos meus autores favoritos, a par de Gabriel García Márquez e Eça de Queiroz, entre outros, não será de admirar que esta leitura tenha sido do meu agrado. 

O Alentejo é o pano de fundo para a história destes homens - e mulheres - desde o início do século XX até à posse dos latifúndios pelos trabalhadores, no pós-25 de Abril de 1974. Por sua vez, o foco está na família Mau-Tempo, a inssurecta, desde Domingos, passando por João, o de olhos azuis, até António, que herda a necessidade de itinerância do avô. São homens que vivem de ofícios ou da árdua lavoura do campo e que, apesar de esforços que arrancam sangue, suor e lágrimas, não vêem a sua situação, nem a dos seus companheiros, melhorar.

As mulheres acompanham os homens, em igual medida protagonistas destas jornadas de sofrimento. Sobrecarregadas pela criação dos filhos - mais braços com destino marcado -  e oprimidas por pais e maridos, são incansáveis na labuta diária que confrange quem a testemunha.

É esta a realidade específica que serve como retrato de um colectivo: o povo assalariado e a sua condição. Um povo que, paulatinamente, se consciencializa e questiona as normas estabelecidas e o seu papel no mundo. Um mundo em que os salários não matam a fome, em eterna precariedade do nascer ao pôr do sol e onde se labora na miserabilidade. 

Iniciado o caminho que levará à libertação, percorrê-lo não é isento de dificuldades e de vítimas, obra da Santíssima Trindade Terrena. O poder do Estado imposto pela autoridade, a guarda, e por Leandro Leandres, responsável da PIDE;  Noberto, Gilberto, Dagoberto e afins como personificação do Latifúndio; e aquela que deve ser a voz de razão e indulgência, o padre Agamedes. O trio que impõe a ordem vigente e dela sugam seus proveitos. O regime responsável por deixar cair a espada da repressão sobre as cabeças daqueles que o renegam, enquanto os privilegiados assistem, refugiados nas muralhas do castelo.

Saramago refere-se a esta obra como aquela em que encontrou a sua voz e é ela para mim, tal como a delícia do seu arguto sentido crítico, o factor de maior atracção nas suas narrativas. O seu narrador polifacetado que reflecte, critica, observa e, sendo omnisciente, tem conhecimento de todos os tempos, num relato de fusão entre discurso directo e indirecto. 

Inequivocamente uma recomendação sem reservas, pela importância de conhecer a provação dos que nos antecederam. Por todos os que se levantaram do chão. 

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:
José SaramagoAutor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.

As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»

Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
(…)
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.

Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.

No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.

No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.

José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998. Fonte: WOOK

terça-feira, 14 de agosto de 2018

XV Palavras Andarilhas [Divulgação]



As Palavras Andarilhas estão quase, quase aí! De 23 a 26 de Agosto, no Jardim Público e na Biblioteca Municipal de Beja, contos, leituras, oficinas, tertúlias, mercadinho andarilho, marionetas e música, farão parte da programação. Com actividades para todos os amantes da palavra lida e falada, desde as famílias aos técnicos, esta é uma alternativa no mínimo, original, aos habituais planos veraneantes. 

As Palavras Andarilhas são "uma festa da palavra contada, lida, ilustrada que em 2018 integra na coprodução para além do Município de Beja, as associações: Ouvir e contar – Associação de Contadores de Histórias, Laredo – Associação Cultural e Carpe Librum – Movimento Educação pela Arte e pela Leitura – Associação Cultural”. Terão lugar o Encontro de Aprendizes do Contar, o Festival de Narração Oral "Eu conto para que tu Sonhes", o Mercadinho Andarilho - feira da leitura e as Palavras Andarilhas | Estafeta dos Contos (algumas das actividades exigem inscrição prévia).

Toda a programação pode ser consultada em Palavras Andarilhas | Beja - A Cidade dos Contos.

Entretanto convido-vos a recordar a edição anterior aqui e a minha presença na mesma aqui

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

"Onório, o poeta bêbado" de Fernando P. Fernandes [Opinião]

Título: Onório, o poeta bêbado
Autor: Fernando P. Fernandes
Edição/reimpressão: 2018
Editora: Coolbooks
Temática: Humor
N.º de páginas: 120
Para adquirir:


Sinopse:

Onório, o poeta bêbado é o retrato de um quase-pícaro a quem tudo corre mal - até o nome.

Nascido numa aldeia do Minho, neto do mais respeitado lavrador de Rubiães, o rapaz faz-se, quase inadvertidamente, poeta satírico, ainda nos tempos de escola. Qual repórter do absurdo, Onório ilustra com quadras rudimentares, as peripécias em que se envolve - e são muitas. Tudo acontece ao pobre diabo.

Com uma narrativa dinâmica e bem-humorada, salpicada de pequenas quadras alusivas aos episódios da vida do protagonista, a obra promete arrancar muitos sorrisos e proporcionar uma viagem divertida.

Opinião:

Escolhido na categoria "Um título que não te parece minimamente interessante, mas que vais arriscar", para o Ler os Nossos, Onório, o poeta bêbado mostrou ser um livro leve e divertido, que se lê de um fôlego e, verdade seja dita, pelo título julguei que não andaria longe disso, mesmo que não soubesse absolutamente o que esperar por desconhecer o autor.

A história de Onório - sim, Onório, porque o H ficou esquecido algures - é singela e repleta de peripécias rocambolescas a que a sua família e amigos não são alheios. Antes de poeta tornou-se bêbado, pois vinho fez-se remédio que sua mãe encontrou para o choro. E tocado foi pela poesia graças à sua professora primária, que tanto desconsiderou os seus versos. O signo do caricato marca-o desde o casamento dos pais, passando pelo seu nascimento, entre fardos de palha e os animais do sítio, até aquilo que nos é permitido conhecer da sua vida. 

Não há personagem que seja «normal», diremos antes que são pitorescas. Oriundas do interior minhoto, o seu discurso é marcado pela troca dos v pelos b e por expressões idiomáticas, numa reprodução do falar destas gentes. Várias vezes rememorei Camilo Castelo Branco, quem sabe uma inspiração para o autor, que me deu a conhecer algumas das figuras mais risíveis da literatura portuguesa, neste mesmo contexto, o Minho.

Sendo poeta, não é de estranhar que as quadras de Onório pontuem a narrativa. Abordam episódios da sua vivência da mesma forma que confissões, num misto de sabedoria popular e crítica acirrada. Eis um exemplo: 

«(...)
Minha terra também tinha
curbas que metiam medo.
Eram piores à tardinha
quando binha do Semedo.

O raça do home tem lá
uma marabilha de binho.
Se bou pra lá de manhá,
num dou com o caminho.

As retas parecem curbas,
o pneu da Zundapp chia.
Chego c'o as bistas turbas,
limpa-mas logo a Maria».

Até ao fim o absurdo repete-se, semeando sorrisos e algumas gargalhadas e, se não posso dizer que é indelével, posso pelo menos afirmar que Onório e as suas aventuras merecem ser conhecidos se em vista se tem o aprazimento tanto quanto o bom humor.

Classificação: 3,0/5*

Sobre o autor:
Wook.pt - Fernando P. FernandesFernando P. Fernandes nasceu em Lisboa, em 1978.

É professor de Português, tradutor e revisor , para ele, escrever e narrar vidas caricaturadas são prazeres inigualáveis.

Admira Eça e García Márquez pela fluidez narrativa e pelo sarcasmo sempre à espreita. Fonte: WOOK