Desde 1967, data em que se assinala o nascimento de Hans Christian Andersen, que se celebra o Dia Internacional do Livro Infantil. Pretende-se assim chamar "a atenção para a importância da leitura e para o papel fundamental dos livros para a infância".
Este ano "a DGLAB convidou a ilustradora Fátima Afonso, vencedora do Prémio Nacional de
Ilustração do ano passado, para ser a autora da imagem do cartaz". Pode igualmente visualizar-se o cartaz internacional aqui.
O pequeno torna-se grande num livro
"As pessoas inclinam-se para o ritmo e para o equilíbrio, tal
como a energia magnética organiza as aparas de metal numa experiência da física, tal como um
floco de neve forma cristais a partir da água.
Num conto de fadas ou num poema, as crianças gostam de
repetição, de refrãos e de temas universais, porque eles podem ser reconhecidos uma e outra
vez – trazem ao texto regularidade. O mundo ganha uma ordem bonita. Ainda me
lembro como, em criança, lutava comigo mesma para defender a justiça e a simetria, pela
igualdade de direitos da esquerda e da direita: se tamborilava com os dedos em cima da mesa,
contava quantas vezes tinha de bater com cada dedo, para que os outros não se sentissem
ofendidos. E quando aplaudia, batia com a mão direita na esquerda, mas depois pensava que
não era justo e aprendi a fazê-lo de maneira contrária – batendo com a esquerda na direita.
Este desejo instintivo de equilíbrio parece engraçado, é certo, mas mostra a necessidade de
evitar que o mundo se torne assimétrico. E eu tinha a sensação de ser a única
responsável por todo o seu equilíbrio.
A inclinação das crianças por poemas e por histórias surge
igualmente da sua necessidade de levar harmonia ao caos do mundo. Da indeterminação, tudo
tende para a ordem. As canções infantis, as canções populares, os jogos, os contos de
fadas, a poesia – são formas de existência ritmicamente organizadas que ajudam os mais
pequenos a estruturar a sua presença no grande caos. Criam a consciência instintiva de
que a ordem do mundo é possível, e que as pessoas têm nele um lugar único. Tudo conduz para
este objetivo: a organização rítmica do texto, as linhas com letras e o design da página,
a impressão do livro como um todo bem estruturado. O grande revela-se no pequeno, e damos-lhe
forma nos livros infantis, mesmo quando não estamos a pensar em Deus ou na dimensão
fractal. Um livro infantil é uma força milagrosa que favorece o enorme desejo das crianças e
a sua capacidade de ser. Promove a sua coragem de viver.
Num livro, o pequeno é sempre grande, de forma instantânea e
não apenas quando se chega à idade adulta. Um livro é um mistério onde se pode encontrar
algo que não se procurava ou que não estava ao nosso alcance. Aquilo que os leitores de
uma certa idade não conseguem compreender, permanece na sua consciência como uma
impressão, e continua a atuar mesmo quando não o compreendem totalmente. Um livro ilustrado pode
funcionar como uma arca do tesouro de sabedoria e cultura mesmo para os adultos, da
mesma forma que as crianças podem ler um livro para adultos e encontrar nele a sua
própria história, um indício para as suas jovens vidas. O contexto cultural molda as pessoas,
estabelecendo as bases para as impressões que se farão sentir no futuro, assim como para
experiências mais difíceis, às quais terão de sobreviver sem por isso terem de deixar de ser
íntegras.
Um livro infantil representa o respeito pela grandeza do
pequeno. Representa um mundo que se cria de novo uma e outra vez, uma seriedade lúdica e
preciosa, sem a qual tudo, incluindo a literatura para crianças, seria apenas um trabalho pesado e
vazio.
INESE ZANDERE, nascida na Letónia em 1958, é poeta e uma das
maiores escritoras de livros para a infância do seu país.
Tradução: Maria Carlos Loureiro, feita a partir da versão
francesa e espanhola".