Autor: Gabriel García Márquez
1.ª publicação: 1967Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
ISBN: 9789722039208
N.º de páginas: 424
Para adquirir (outra edição da obra):
Sinopse:
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o
coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai
o levou a conhecer o gelo.» Com estas palavras – tão célebres já como as
palavras iniciais do Dom Quixote ou de À Procura do Tempo Perdido – começam
estes Cem Anos de Solidão, obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em
todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Marquez
como um dos maiores escritores do nosso tempo.
A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán com os seus
milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias,
descobertas e condenações são a representação ao mesmo tempo do mito e da
história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.»
Opinião:
Cem Anos de Solidão é um dos livros mais traduzidos e lidos
e, por isso mesmo, o mais badalado de
Gabriel García Márquez, escritor colombiano e prémio Nobel da Literatura de
1982. Percursor do chamado "realismo mágico" ou "realismo
fantástico", esta obra é um marco na literatura latino-americana e serviu
de inspiração para escritoras tão conhecidas como Laura Esquível ou Isabel
Allende.
Nele o autor narra-nos a história da família Buendía, desde
a sua origem até ao seu fim, geração após geração. Fundada pelo José Arcadio
Buendía e pela sua esposa, Úrsula Iguarán, toda a acção se passa em Macondo,
uma aldeia, depois vila e cidade, cuja localização exacta não nos é dita, mas
que claramente deduzimos, pelo seu clima tropical e quente, ficar no interior
de um dos países da América Latina: perto dos pântanos, longe do mar e da
civilização.
Ao longo de cem anos, nos quais Úrsula vive acompanhando e
cuidando dos seus descendentes (estima-se que tenha vivido bem mais de cem
anos), observamos como os membros da família Buendía, por mais que tentem, não
conseguem fugir à solidão. Ainda que alcancem momentos de intensa e extrema
felicidade, a inevitabilidade do seu destino alcança-os sempre, sendo que a
maioria morre em circunstâncias inusuais.
Assim, o tempo e a repetição de características nos diversos
membros da família, formam como que um círculo vicioso, onde o tempo não parece
ter nem princípio nem fim. A própria Úrsula, possuidora de um profundo
conhecimento de todos os homens da sua família, chega a esta conclusão nos
últimos instantes da sua longa, longa vida:
"O tempo anda em círculos".
Outra personagem que acompanha esta família é o misterioso
Melquíades, um dos primeiros ciganos que chega a Macondo e que demonstra várias
das maravilhas inventadas por todo o mundo, cativando desde logo o primeiro José Arcadio Buendia, curioso
inventor. Ao morrer, Melquíades deixa um misterioso manuscrito escrito numa
linguagem desconhecida e que as diversas
gerações tentam decifrar, com a ajuda do seu próprio fantasma. Caberá ao último
descendente da família decifrá-lo e revelar-nos o destino da família Buendía...
Estive a ler algumas opiniões pela internet fora e, de uma
forma geral, um dos principais obstáculos com que os leitores se deparam é a
dificuldade sentida em conseguirem acompanhar a torrente de acontecimentos
narrados, nem sempre claros pela introdução de marcas do realismo mágico (por
exemplo, um homem perseguido por borboletas amarelas, uma população inteira que
se esquece de um massacre, uma mulher que se eleva até aos céus como se de uma
santa se tratasse). Não surgem reflexões da parte do autor a não ser pela boca
das personagens: a história é simplesmente narrada e a nós cabe-nos o papel de
tirar as conclusões pelos episódios que ocorrem.
Para além disso, um fenómeno curioso é a repetição de nomes
pelas sucessivas gerações: por um lado encontram-se os Aurelianos,
introspectivos, acanhados, mas persistentes defensores das suas causas; por
outro, os Arcadios, impulsivos, emotivos e sonhadores. Ambos marcados pela
solidão. O facto de esta repetição ser uma constante e do narrador evocar
personagens de gerações anteriores, facilita a existência de alguma confusão.
Nada mais simples do que utilizar uma árvore genealógica para evitar este
problema. Esta edição da obra tem uma no início do livro, mas existem muitas
mais, basta para isso pesquisar no Google.
Até aqui tenho falado das personagens e da forma como é
construída a história. Mas afinal de contas, qual é a mensagem que nos veicula
Cem Anos de Solidão? García Márquez, enquanto escritor contestário das
injustiças que o rodeiam, aproveita a personagem do coronel Aureliano Buendía
para criticar a guerra - as suas causas e consequências -, e a política - a
inconstância dos seus defensores que, além de terem ideologias ocas, alternam
de lado consoante o vento mais favorável... A prepotência ditatorial surge num
massacre cujos efeitos nefastos arrasam José Arcadio Segundo: o único
sobrevivente de três mil e tal pessoas, enlouquece. Num dado momento invade
Macondo uma companhia bananeira dirigida pelos gringos, devastando para sempre
uma cidade que até então tinha tido um desenvolvimento inacreditável: o
capitalismo usou e abusou de Macondo, sem consultar os que já lhe pertenciam, e
deslocalizou-se, deixando atrás de si uma cidade que não mais veio a recuperar.
Uma questão que também se pode colocar é a importância dos laços de sangue, da
genética, na transmissão de conhecimentos - instintos - e experiências
implícitos de geração para geração. A
própria religião não escapa, sendo expostos através de Fernanda del Carpio os
efeitos devastadores do fanatismo religioso.
Deste escritor já tinha lido Crónica de Uma Morte Anunciada,
Ninguém Escreve ao Coronel e Amor em Tempos de Cólera, portanto já sabia de
antemão o que esperar. Porém, nenhum destes me agarrou tanto como Cem Anos de
Solidão: identifiquei-me intimamente com a sina das personagens, a solidão que
as perseguia. Foi uma leitura impulsiva derivada do prazer que me provocou: não
consegui largar o livro, devorei-o num par de dias, precisava de saber que
destino iria ter esta família tão fora do comum. E julgo que é assim que deve
ser lido, caso contrário, perdemos o fio à meada: se ficamos muito tempo longe
da história, quando voltarmos a mergulhar nela, dificilmente nos conseguimos
situar. Não achei nem a escrita demasiado rebuscada, nem tão pouco o rol de indivíduos com os mesmos nomes me confundiu, até porque estou habituada a ler
clássicos da literatura - e este livro já se encontra nessa categoria, na minha
humilde opinião -, que exigem uma atenção constante aos pormenores.
O final é perfeito e deixou-me sem palavras. Cada palavra
deleitou-me e inspirou-me a combater a solidão.
Classificação: 5/5* (Adorei!)

Tenho até vergonha de dizer, mas ainda não li Cem anos de solidao..
ResponderEliminarVou adiando, adiando..
São tantos livros que quero ler que é complicado gerir as leituras.
Gostei do teu blogue. Parabens!
Um dos melhores que já li! Vale mesmo a pena.
ResponderEliminarBeijinhos
@ miGuel pesTana:
ResponderEliminarEntão não percas muito tempo, é mesmo muito bom. Claro que não posso garantir que vás adorar porque gostos não se discutem, mas pelo menos quando terminares a leitura vais perceber por que razão é uma obra-prima.
Como compreendo essa complicação. Eu própria com as colecções que tenho vindo a fazer já juntei o módico número de 243 livros por ler. xD
Obrigada! Já passei pelo teu blogue e irei deixando comentários. Desde já te digo que revelas uma sensibilidade espectacular e a nível de livros e filmes reparei logo que temos gostos semelhantes.
Um bem haja e cumprimentos directamente do Alentejo para a Madeira! :D*
@ Luh: Concordo inteiramente contigo. Já tinha lido algumas coisas do García Márquez, mas esta obra ultrapassou as minhas expectativas. (:
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