Título: Quantas Madrugadas Tem a Noite
Autor: Ondjaki
1.ª publicação: 2004
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 190
Para adquirir (outra edição desta obra):

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Sinopse:
Quantas Madrugadas Tem a Noite está destinado a ser um marco
na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma
extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se
sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua
capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a
sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível
literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes
sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta,
simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:
"Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas,
epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em
estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de
invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura
verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te
mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.
Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O
artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no
álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias... Uma noite, quantas
madrugadas tem?".
Opinião:
"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração,
tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta
foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e
te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue
que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim
calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também?
De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te
confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa
pele!" – página 9
Assim começa este romance, produto da prodigiosa imaginação
de Ondjaki, escritor angolano. Quando decidi ler este livro já sabia o autor
tinha recebido vários prémios pela sua obra (Grande Prémio de Conto Camilo
Castelo Branco 2007, Prémio Jabuti na categoria juvenil e prémio Grinzane por
melhor escritor africano de 2008), para além de ser considerado um dos melhores
escritores da sua geração em África. Além disso já tinha lido e ficado
agradada com O Assobiador (romance,
2002) e Há prendisajens com o xão (poesia, 2002), ambos presentes num livro que
saiu na Colecção Frente e Verso da revista Visão. Deste modo, tinha motivos
mais do que suficientes para esperar uma boa história, e não fiquei
desapontada, antes pelo contrário, fiquei maravilhada.
Numa troca de cervejas, numa tarde e pela madrugada
fora, alguém de muito, muito longe, de
tão longe que parece que nasceu de novo, compromete-se a contar uma história.
Num monólogo imenso, toda a narrativa se passa em Angola, mais precisamente na
Luanda contemporânea. Inclui um conjunto de personagens fora do comum que se
cruzam e entrecruzam em situações, no mínimo, surreais, remetendo-nos para o
realismo mágico de que García Márquez é mestre: chuvadas apocalípticas; um
cadáver que é roubado e que circula do tribunal para a polícia e da polícia
para o tribunal num táxi devidamente convertido em carro da polícia pela
colocação de um cartaz e de uma sirene; alguém que comanda e convive com
abelhas como se delas fosse rainha; um cão assustadoramente aterrador,
julgando-se até que poderá ser a encarnação do diabo; um cego que vê tão bem
que até se esquiva de uma bala são alguns dos exemplos.
AdolfoDido é o morto. Os seus amigos preparam-lhe o funeral.
Mas não é fácil... Disputado por duas mulheres, o seu corpo é apreendido várias
vezes pela polícia, e não pára de circular de um lado para o outro. Ainda
casado no papel com DonaDivina, vive com KiBebucha. A primeira só o desejou por
interesse: pensado que AdolfoDido era influente por ter um primo do éme
(Movimento Popular de Libertação de Angola), casa-se com ele esperando uma vida
farta. Rapidamente se desilude. À segunda não lhe pode escapar, pois por detrás
das suas seduções corporais, desconfiava-se que lhe arreava bem... Ficamos
também a saber que, através de uma falcatrua, se disse antigo combatente (num
país onde nunca houve guerra!), quando na verdade é demasiado novo para isso -
ninguém se dá ao trabalho de o constatar. Por isso lutam as viúvas pelo seu
corpo e, claro, pela pensão devida. Sempre se disse que o coração tem razões
que a razão desconhece, não é?
BurkinaFaçam, o anão, sente muito a perda do seu grande
amigo AdolfoDido, aquele que um dia lhe salvou a vida. Apoia a criação fictícia
de um sindicato para as prostitutas para, por um lado, poder gozar de todas as
regalias que as suas festas orgíacas podiam proporcionar e, por outro, para
fazer felizes as suas amigas Eva e Madalena,
também elas prostitutas. Tem um táxi,
fundamental para o desenrolar da história, já que quase todas as
personagens passam pelo seu interior, e servem-se dele para as suas
movimentações. Jaí, o albino, professor e comunista, está grato a Burkina por o
ter salvo de uma população sedenta da sua cabeça para a cura da sida - ai, as
superstições! Conhece um grande amor no decorrer da história... Ambos são
amigos de Adolfo e tentam por tudo poupar o que dele resta às inclemências das
viúvas, da justiça, da população, das intempéries.
É na casa da Kota das Abelhas que se reúnem e onde ocorrem
alguns dos momentos mais decisivos. Após ter «assassinado» a abelha-rainha e
transformado a sua própria casa numa colmeia gigante na qual assumiu o papel de
rainha passaram-na a chamar deste modo. Subsiste do mel que elas fabricam e
utiliza-o em tudo: cremes regeneradores que mantêm a juventude e conservam os
cadáveres (inclusive o de AdolfoDido), bolos, bebidas, etc. Vive com o Cão
[cuja figura está presente na capa desta edição]: dono e senhor da sala, é um
cão assustador que causa um terror imenso em quem se atreve a olhá-lo.
Retrato da coloquialidade angolana, a linguagem pode
apresentar-se como um desafio a superar. Felizmente no final do livro há um
glossário com o significado de quase todas as expressões utilizadas e, como
elas são constantemente repetidas, no decorrer da leitura é fácil apreender o
seu significado, ao ponto de se deixar de o consultar. Por exemplo, cumbú é
dinheiro, ngaia é garrafa, entre outras. Nem por isso nos deixa de parecer
poética e sedutora, onde cada palavra surge no local exacto. De qualquer forma,
um pequeno truque que utilizei foi o de imaginar que me falavam com um forte
sotaque angolano (qualquer pessoa já o ouviu, nem que fosse na televisão!),
meloso pelas cervejas que se sucediam e pelo prazer de uma boa conversa.
Admiravelmente o narrador conhece todos os pormenores e
nunca perde o fio à meada, ainda que os apartes sejam recorrentes. Apartes
esses que não deixam de ser importantes e que, muitas vezes, contêm reflexões
aparentemente tão simples, mas tão, tão bonitas:
"Há muitos teatros – pensas que é só com bilhete e
cadeira sentada com mosquitos que vais no teatro? E a vida?, esqueceste esse
palco puramente verdadeiro a acontecer todos dias, a se entornar nos teus olhos
de lágrimas que nem vês?" – página 31
"Foram então procurar a KiBebucha, na casa dela da
Ilha, onde ela gostava de não ficar dentro de casa, mas lá no quintal-rua,
início do passeio da casa dela, onde espreitava o mar – vício dos olhos dela
desde pequena. Num te falei?, isto é só grandes coisas, efeitos da natureza nas
pessoas mesmo: céu, mar, lua, sol, coisas assim enormes não escapam nas vias do
coração, meu. Qual é a tua inclinação? Nada, nada mesmo? Pra ti pôr do sol e
pôr de merda nenhuma é a mesma coisa? E a lua de noite? Nada mesmo? Porra, meu,
dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres
meter o corpo e o coração nele?" – página 54
De um modo geral, alguns dos temas abordados são a corrupção
e o poder das influências num país ainda marcado pela memória de guerras
recentes, sejam elas contra o invasor branco ou de luta pelo poder; a
superstição e a credulidade dominantes num povo simples; um sistema burocrático
que nem sempre supre as falcatruas que vão surgindo, mas que nem por isso deixa
de zelar por quem escuta e julga; a falsidade e o egoísmo; e, acima de tudo, a
amizade pela qual ainda tudo é possível.
Porque, afinal de contas, nada do que foi contado são
devaneios de um bêbado... Tudo pertence a uma África desconhecida, palpitante
de vida. Desconhecida pois erradamente é-nos incutido que África não passa
de um continente perdido, com uma
população reduzida à miséria e à doença. Palpitante de vida, já que o seu povo,
ultrapassando todo esse sofrimento, nunca deixou de sorrir.
Classificação: 5,0/5*

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