terça-feira, 25 de abril de 2017

Livros censurados antes da Revolução de Abril

Entre muitas das liberdades conquistadas após o 25 de Abril, uma das mais preciosas será a da leitura livre de condicionamentos de qualquer espécie. Através da relação elaborada por José Brandão, relativa aos livros proibidos nos anos da ditadura [ver aqui], procurei alguns títulos que constassem da minha biblioteca e que, sem a revolução que alterou para sempre a história do nosso país não poderiam ser adquiridos, quanto mais lidos, sem subterfúgios engenhosos.

Nesta selecção, de entre os livros lidos (com excepção de Manhã Submersa e O Amante de Lady Chatterley) considero os mais marcantes Esteiros Capitães da Areia. Ambos tendo como personagens crianças órfãs ou pertencentes famílias desestruturadas, alvo de privações e sem direitos considerados garantidos nos dias que correm, como a saúde ou a educação. Talvez seja esse o motivo por que os seus retratos são tão tocantes e genuínos.


As sinopses:

Manhã Submersa de Vergílio Ferreira: O despertar para a vida de uma criança, entre a austeridade da casa senhorial de D. Estefânia, a sensualidade da sua aldeia natal e o silêncio das paredes do seminário. Um jovem seminarista de 12 anos, é obrigado a ir para o seminário. E a história desenrola-se em torno das vivência e sentimentos que o jovem seminarista vai experimentando. Num ambiente negro, triste, ríspido e severo do seminário, o jovem descobre-se e descobre o mundo que o rodeia: a repressão na educação, a pobreza da sua terra, as desigualdades sociais, o desejo do seu corpo, a camaradagem, a amizade, o amor. 

Gaibéus de Alves Redol é um clássico do neo-realismo português: descreve o drama de um rancho de ceifeiros que do Norte do País descem a participar na batalha sem fim travada na lezíria. Esta obra já foi vertida no sistema Braille. Publicações Europa-América sente-se honrada por reeditar uma obra de um dos maiores escritores contemporâneos, que sempre soube defender os humilhados, ofendidos e deserdados. Com opinião aqui.




O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence é por muitos considerado como o romance pioneiro ao abordar questões de sexo e amor na literatura contemporânea. O papel que a energia sexual desempenha em todo o livro provocou reacções indignadas e escandalizadas das fracções mais puritanas e institucionais - a sua primeira edição, de 1928, foi impressa em Itália, depois de uma proibição em Inglaterra, onde só seria integralmente autorizado em 1960. No centro da narrativa está a relação, muito física, entre um proletário e uma mulher da aristocracia. 


Bichos de Miguel Torga, incluído no Plano Nacional de Leitura, Bichos é um dos mais lidos e famosos livros de Miguel Torga. A respeito desta obra dirigia-se ao leitor com as seguintes palavras: 

«São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto. Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de júbilo. […]

És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. Saúdo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construído uma barcaça onde a nossa condição se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes […].»

Esteiros de Soeiro Pereira GomesGineto, Gaitinhas, Malesso, Maquineta, tantos outros, são os operários-meninos dos telhais à beira dos esteiros do Tejo. Sujeitos à dureza do trabalho quando o conseguem arranjar, vadiando ou roubando para comer durante o resto do tempo, apesar de tudo - sonham.

Esteiros é um dos textos inaugurais do neo-realismo e um romance marcante da literatura portuguesa do século XX. 




Capitães da Areia de Jorge Amado, publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e desde então sucederam-se as edições nacionais e estrangeiras, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema.

Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza, dramatismo e lirismo poucas vezes igualados na literatura universal, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia.

Dividido em três partes, o livro atinge um clímax inesquecível no capítulo .Canção da Bahía, Canção da Liberdade., em que é narrada a emocionante despedida de um dos personagens da história, que se afasta dos seus queridos Capitães da Areia «na noite misteriosa das macumbas, enquanto os atabaques ressoam como clarins de guerra». 

2 comentários:

  1. Já li o Esteiros há algum tempo: recordo-me mais ou menos da história mas não consigo encontrar motivos que levou o livro a ser censurado (quase tudo levava com o lápis azul naquela época, pelo que as razões deviam ser muito tontas de qualquer das formas).

    Beijinho*

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    1. "Esteiros" era censurado porque demonstrava uma miséria que não se coadunava com a ideologia e a propaganda salazaristas, em que o Estado Novo era garante de ordem e trabalho para todos. Além disso, surge a exploração do trabalho infantil, para não dizer escravatura.

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