sábado, 25 de março de 2017

Poesia e Diário de Florbela Espanca com Elsa Ligeiro [Especial Tertúlia + Opinião]



Ontem foi dia de recordar,  na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago, o legado de Florbela Espanca e o lugar da sua obra no contexto literário português. 

Autora «provinciana», não pertenceu a nenhum grupo literário, até porque não é facilmente enquadrável numa só corrente literária, em contraponto com o seu contemporâneo Fernando Pessoa e os modernistas. Não obteve por isso, enquanto viveu, apoio nem tão pouco reconhecimento.

O seu contexto sócio-económico e familiar foi abordado, mas não demasiado aprofundado, embarcando-se antes numa viagem pelo seu diário e lírica, na continuação de um excelente trabalho de promoção da literatura portuguesa por parte de Elsa Ligeiro. Com genuíno entusiasmo discursou sobre Florbela e a sua obra que, apesar de considerada autora menor no meio académico - preconceito outrora partilhado por Elsa, porém ultrapassado com uma leitura mais atenta - tem rasgos de genialidade inegáveis: 

"(...)
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."

"Faço às vezes o gesto de quem segura um filho ao colo. Um filho, um filho de carne e osso, não me interessaria talvez, agora... mas sorrio a este, que é apenas amor nos meus braços."

A todos os presentes foi gentilmente oferecido um exemplar de Diário e, convidados a ler em voz alta um excerto, escolhi este soneto:

"És Aquela que tudo te entristece 
Irrita e amargura, tudo humilha; 
Aquela a quem a Mágoa chamou filha; 
A que aos homens e a Deus nada merece. 

Aquela que o sol claro entenebrece 
A que nem sabe a estrada que ora trilha, 
Que nem um lindo amor de maravilha 
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece! 

Mar-Morto sem marés nem ondas largas, 
A rastejar no chão como as mendigas, 
Todo feito de lágrimas amargas! 

És ano que não teve Primavera... 
Ah! Não seres como as outras raparigas 
Ó Princesa Encantada da Quimera!..."

Com uma audiência numerosa, entre a qual verdadeiros apaixonados, discutiram-se aspectos mais ou menos polémicos da sua existência, mas sobretudo a ambivalência característica da sua produção literária. 



Título: Diário 
Autora: Florbela Espanca
Edição/reimpressão: 2007
Editora: Editora Alma Azul
Temática: Diário
N.º de páginas: 48
Para adquirir:


Sinopse:


No seu último ano de vida Florbela Espanca registou num diário tudo que lhe ia na alma. O seu último registo data de 2 de Dezembro, dias antes do seu suicídio a 8 de Dezembro de 1930.

Opinião:

Em adolescente os sonetos de Florbela Espanca e, mais tarde, os seus contos foram leituras da minha preferência. Assim como Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde ou António Nobre, a sua poesia teve um papel preponderante na minha formação enquanto leitora. 

Desconhecia este seu Diário onde Florbela sentiu, pela primeira vez, a necessidade de escrever no seu último ano de vida. Esparso, com maior número de entradas em Janeiro e Fevereiro e com a última frase escrita seis dias antes da sua morte.

Afirma, no início, que tais registos serão atirados "para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, nem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir". Não diferindo da sua produção literária, presentes estão as dicotomias morte/vida, exaltação/melancolia, desejo/perda: a sua perpétua inconstância de insatisfação/concretização. 

Nele encontramos referências às suas leituras, pensamentos avulsos, desabafos e momentos de afirmação: "Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu?" Contudo, apesar destes últimos, a dor da incompreensão, de si e dos outros, corroía-a: "Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada... Porquê?", em que se reconhece uma alma atormentada.

A última entrada, "E não haver gestos novos nem palavras novas!", será indicativa do que estaria para vir ou uma mera coincidência? Até que ponto nos revelam as suas palavras o que viveu? Meras interrogações que surgem, não silenciadas naturalmente, para alimentar o obscurantismo e o mito que a envolvem e que, aos poucos, vão sendo desvendados.


Classificação: 4,0/5*

Sobre a autora:
Poetisa e contista. Depois de concluir os estudos liceais em Évora, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa. A abordagem crítica da sua obra poética, marcada pela exaltação passional, tem permanecido demasiado devedora de correlações, mais ou menos implícitas, estabelecidas entre o seu conturbado percurso biográfico - uma existência amorosa e socialmente malograda que culminaria com um suicídio aos 36 anos de idade -, e uma voz poética feminina, egotista e sentimental, singularmente isolada no contexto literário das primeiras décadas do século. Na verdade, a leitura mais imparcial das suas composições, entre as quais se contam alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa, permite posicioná-la quer na matriz de uma poesia finissecular que, formalmente, cruza caracteres decadentistas, simbolistas (são várias as referências na sua poesia a autores simbolistas) e neorromânticos (acusando a admiração por certos autores da terceira geração romântica, como Antero de Quental), "à maneira de um epígono de António Nobre" (cf. PEREIRA, José Augusto Seabra - prefácio a Obras Completas de Florbela Espanca, vol. I, Poesia, Lisboa, D. Quixote, 1985, p. IV), quer, ainda, pela forma como a vivência do amor promove, a cada passo, uma mitificação do eu, na senda de certos autores do primeiro modernismo como Sá-Carneiro, Alfredo Guisado ou António Botto. Por outra via, a da literatura mística, Florbela Espanca reata conscientemente (Soror Saudade) com a tradição da literatura claustral feminina que recebera, no período de maior florescimento, uma marca conceptista, mantida na poética de Florbela por certa propensão para a exploração das antíteses morte/vida, amor/dor, verdade/engano. A imagem da mulher que sofre de ilusão em ilusão amorosa, que reitera até ao desespero a sua fatalidade, que dá expressão a uma existência irremediavelmente minada pela ansiedade e pela incompreensão, acabou por, na receção alargada da sua poesia, sobrepor-se a outros nexos temáticos com igual pertinência, como a dor de pensar e a aspiração à simplicidade (...). Florbela Espanca. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. Fonte: WOOK

2 comentários:

  1. Quando era adolescente adorava Florbela Espanca, acho que li quase toda a sua obra poética. A vida dela foi sofrida... a obra que deixou tem grande valor e merece reconhecimento.

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    1. Sem dúvida! Também a li na adolescência. Geralmente acusam-na de ser uma autora demasiado melodramática, o que de facto sucede mas não julgo que gratuitamente. Com o devido enquadramento da sua obra na sua vida, esclarecem-se vários aspectos que isoladamente tendem a parecer exagerados.

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