quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz [Opinião]

Título: Para onde vão os guarda-chuvas
Autor: Afonso Cruz
Edição/reimpressão: 2013
Editora: Alfaguara
Temática: Romance
N.º de páginas: 624
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Sinopse:

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.

Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

Opinião:

Se há livro cujas citações devem ser partilhadas é este. Porém, tal tarefa não é fácil quando o próprio livro é uma constante de reflexões e de dizeres que nos fazem parar em pérolas que se encontram para retirar o fôlego.

Fazal Elahi é o protagonista desta história, toda ela passada num Oriente distante, mas em que esperanças, medos e sofrimentos são em tudo iguais aos do Ocidente. E são as esperanças, os medos e os sofrimentos de Elahi que acompanhamos. 


Elahi é um homem que vive na esperança de não ser percebido, confundindo-se na multidão, nas paredes, sempre de olhos postos no chão, a evitar desejar para não atrair a infelicidade, escondendo-se na invisibilidade da modéstia. Contudo, nem assim lhe é poupado o Sofrimento, aquele que, para o homem, tende a ser o maior de todos: a perda de um ente familiar querido. A trágica forma como ocorre leva-nos a duvidar da sua capacidade de superação, no entanto o emaranhado da vida traz sempre surpresas. Este é para mim o ponto fulcral do livro: tudo conduz a ele, tudo dele deriva. 


Afonso Cruz disse, aquando da sua presença nas Palavras Andarilhas, preferir personagens com múltiplas facetas, não tendencialmente más ou boas, pretas ou brancas, mas com um colorido de características, qualidades e defeitos, que as tornem humanas. Por isso, à excepção do corruptor e autoritário coronel Krupin, consegui encontrar em todas as personagens pontos de compreensão, identificação, proximidade. Todos temos os nossos demónios, com os quais lutamos para os superarmos.


Bibi procura a liberdade das mulheres ocidentais numa realidade que não a aceita; Badini, o mudo, lutou com a poesia; Aminah, presa aos preconceitos, não reconhece a felicidade pela qual tanto pediu.


Para onde vão os guarda-chuvas é a pergunta que urge: as memórias, as histórias, os sonhos, o que fica em nós dos que partem e dos que vivem, ou seja, tudo o que somos, para onde vai quando o perdemos. E é neste Oriente em que ainda sobrevive a magia e a capacidade de acreditar em milagres, que Afonso Cruz nos leva a procurar a resposta.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014. Fonte: WOOK

1 comentário:

  1. Olá,
    Foi o primeiro livro que li (até este momento) do Autor e adorei. Não costuma ser o meu género literário, mas não consegui deixar de ler o livro um dia se quer, nem que fosse apenas uma página.
    Acho que todos deviam de o ler.
    ;)

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