quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Kafka à Beira-mar" de Haruki Murakami [Opinião]

Título: Kafka à Beira-mar
Título original: Umibe no Kafka (traduzido do inglês Kafka on the Shore)
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Maria João Lourenço
Edição/reimpressão: 2009 (1.ª publicação em 2002)
Editora: Casa das Letras
Temática: Romance
N.º de páginas: 589
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Sinopse:
Kafka à Beira-Mar narra as aventuras (e desventuras) de duas estranhas personagens, cujas vidas, correndo lado a lado ao longo do romance, acabarão por revelar-se repletas de enigmas e carregadas de mistério. São elas Kafka Tamura, que foge de casa aos 15 anos, perseguido pela sombra da negra profecia que um dia lhe foi lançada pelo pai, e de Nakata, um homem já idoso que nunca recupera de um estranho acidente de que foi vítima quando jovem, que tem dedicado boa parte da sua vida a uma causa - procurar gatos desaparecidos.

Neste romance os gatos conversam com pessoas, do céu cai peixe, um chulo faz-se acompanhar de uma prostituta que cita Hegel e uma floresta abriga soldados que não sabem o que é envelhecer desde os dias da Segunda Guerra Mundial. Assiste-se, ainda, a uma morte brutal, só que tanto a identidade da vítima como a do assassino permanecerão um mistério.

Trata-se, no caso, de uma clássica (e extravagante) história de demanda e, simultaneamente, de uma arrojada exploração de tabus, só possível graças ao enorme talento de um dos maiores contadores de histórias do nosso tempo.

Opinião:

Estreei-me com Haruki Murakami em 2008 com Sputnik, Meu Amor. Na altura atribui-lhe três estrelas e, apesar de ter apreciado alguns aspectos, não fiquei totalmente convencida. Fortemente terá contribuído para isso a minha jovem idade que, na altura, fazia de mim uma leitora inexperiente (o que não é sinónimo de agora ser muito diferente, mas acredito ter progredido).

Com Kafka à Beira-mar a história foi muito diferente. Encontramos nesta obra quatro personagens marcantes que, mesmo sem todas elas se cruzarem, têm uma influência definitiva nas existências de cada uma: Nakata, um simpático velhote cujo conhecimento e passado, após um acidente na juventude, é uma enorme folha em branco e na qual não consegue reescrever, perdendo capacidades cognitivas. Porém, adquire a curiosa capacidade de comunicar com os gatos. Kafka Tamura, um rapaz que foge de casa, com receio de cumprir a nefasta profecia edipiana do seu progenitor. Oshima, um jovem bibliotecário que, apesar de uma busca continua pelo seu lugar no mundo, tudo o que diz é de uma profundidade assombrosa, com as suas reflexões deliciosas. Saeki, uma misteriosa e encantadora mulher dominada pelo passado e por uma trágica história de amor, que a tornou incapaz de viver em pleno o presente. Surge ainda Hoshino, que ajuda Nakata na demanda da sua fantástica missão. 

Algumas das marcas de Murakami ao longo das suas obras surgem flagrantemente: os gatos, o jazz, uma mulher misteriosa, poderes sobrenaturais, entre praticamente tudo o que está mencionado na compilação desta imagem bastante curiosa:


( via A.V. CLUB )

Nunca poderei esquecer o serial killer de gatos ou a biblioteca Komura que, à beira-mar plantada, surge como um paraíso para qualquer leitor. Com uma linguagem simples, contudo poética e envolvente, surgem temas como a velhice, o incesto, a construção da personalidade, todos rodeados de uma aura de fantasia e ocorrências paranormais, de tal forma coerentes com a narrativa que não parecem mais do que consequências naturais da mesma.

Ter demorado bastante com esta leitura levou-me a absorvê-la em profundidade, em aproveitar cada momento para saboreá-la. No fim, não é de todo uma história em que todas as pontas soltas fiquem unidas. O surrealismo que lhe é inerente assim o dita, porém de outra forma não me faria sentido.

Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:
Haruki Murakami, de quem a Casa das Letras editou Kafka à Beira-Mar (com mais de 15 mil exemplares vendidos) e Sputnik, Meu Amor, é um dos escritores japoneses contemporâneos mais divulgados em todo o mundo sendo, simultaneamente, aplaudido pela crítica, que o considera um dos «grandes romancistas vivos» (The Guardian) e a «mais peculiar e sedutora voz da moderna ficção» (Los Angeles Times).

Nasceu em Quioto, em 1949. Estudou teatro grego antes de gerir um bar de jazz em Tóquio, entre 1974 e 1981. Além de Sputnik, Meu Amor, Kafka à Beira-Mar, Dança, Dança, Dança e Em Busca do Carneiro Selvagem, que recebeu o Prémio Noma destinado a novos escritores, Murakami é ainda autor, entre outros, de O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo (distinguido com o prestigiado Prémio Tanizaki) e, mais recentemente, de Sono, a sua terceira colectânea de contos, distinguida com o Frank O'Connor International Short Story Award e a trilogia 1Q84Fonte: WOOK [adaptado] Fotografia: Tsunagu Japan 

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