sábado, 22 de outubro de 2016

"Os Antiquários" de Pablo De Santis [Opinião]

Título: Os Antiquários
Título original: Los Anticuarios
Autor: Pablo De Santis
Tradutora: Helena Pitta
Edição/reimpressão: 2013 (publicação original em 2010)
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 232
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Sinopse:

Os antiquários vivem escondidos, sempre rodeados por objetos do passado, em velhas livrarias ou lojas de antiguidades. Não suportam as mudanças nem o presente, são colecionadores. Têm a capacidade de evocar nos outros o rosto ou os gestos de pessoas que morreram. Aprenderam a controlar a sede primordial. Mas quando se sentem atacados, o antigo apetite regressa…

A partir de um incidente, Santiago Lebrón ficará contaminado, transformado em mais um antiquário. E enquanto descobre os segredos dessa antiga tradição, conhecerá o amor estranho, poderoso e perturbador provocado pela sede de sangue. Terá também de descobrir as estratégias de sobrevivência num mundo hostil. Entre elas, a obrigação de acabar com a vida daqueles que cedem à sede, para que a tradição possa continuar na sombra.

Reinventando o mito dos vampiros de forma inteligente, e afastando-se das abordagens corriqueiras da literatura do género dos últimos anos, Pablo de Santis volta a deslumbrar-nos com um notável romance onde seres melancólicos, que habitam espaços repletos de nostalgia, e sobretudo de livros, vivem reclusos.

Opinião: 

Desde criança que Santiago Lebrón contactou com os livros: após ser castigado por uma diabrura, o seu local de contrição foi a biblioteca da aldeia. 

Aos vinte anos procurou, na cidade de Buenos Aires, uma outra vida: primeiro a reparar máquinas de escrever com o tio, depois empregado num jornal onde se torna responsável pela secção «O Mundo do Oculto». E, assim, tudo o que o rodeia começa a mudar drasticamente graças às investigações que desenvolve em torno dos antiquários.

Esta é a história de como Santiago se tornou igualmente um antiquário, ou seja, um vampiro que, apesar de de evitar o sol dizimador e de conseguir controlar a sua sede primordial, se vê refém pela impossibilidade de concretizar o amor que o atormenta, restando-lhe a fuga e a solidão. Não há soluções perfeitas, sendo por isso a capacidade de adaptabilidade determinante para a sobrevivência do protagonista.

De Santis oferece-nos vampiros que ocultam a sua existência em livrarias, antiquários, galerias de arte, tudo o que lhes invoca o passado, permite controlar a existência quotidiana e os impede de imaginarem o incógnito e solitário futuro. E nada melhor para estes seres avessos a mudanças, do que o universo apelativo aos amantes de livros que o autor explora e do qual fica o exemplo:

«Graças a Calisser fui construindo a minha biblioteca. A minha biblioteca-mala, na realidade, porque guardada todos os livros na minha velha mala com autocolantes de transatlânticos e hotéis, que acabou por ficar cheia. Um dos primeiros livros que me ofereceu foi um exemplar da Eneida onde eu tinha estado a meter o nariz.

- É uma má tradução. Mas as más traduções são fundamentais na história da literatura porque são a prova de que os bons livros resistem a qualquer coisa. Sem as más traduções, que mérito teria a nossa fé?»

Tal como nos diz a sinopse, esta é uma belíssima reinvenção da mitologia vampiresca e relembrou-me, por diversas ocasiões, A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón, pelo seu ambiente melancólico, mas, principalmente, pelo carácter defensivo deste mundo de livros cujos segredos cheiram a sangue fresco.

Classificação: 4,5/5*

Sobre o autor:
Pablo De Santis nasceu em Buenos Aires, em 1963. É licenciado em Letras pela Universidade de Buenos Aires e trabalhou como jornalista e como guionista de banda desenhada, quer compilou em dois álbuns: Rompecabezas e El hipnotizador. Publicou mais de dez livros para adolescentes, ganhando em 2004 o Prémio Konex de Platina. O volume Rey secreto (2005) reúne pequenos contos. É também autor dos romances El palacio de la noche (1987), A Tradução (1998), Filosofía y Letras (1999), El teatro de la memoria (2000), O Calígrafo de Voltaire (2001), La sexta lámpara (2005), O Enigma de Paris (2007), com o qual obteve o Prémio Planeta-Casa de América 2007 e o Prémio da Academia Argentina de Letras 2008, e Os Antiquários (2010). Escritor de sucesso internacional, as suas obras encontram-se traduzidas em francês, italiano, português, alemão, checo, grego, holandês e russo. Fonte: WOOK

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