sábado, 30 de julho de 2016

Roteiros por Beja #2: No Museu Regional de Beja (parte I)

Na continuação dos roteiros por Beja, seguiu-se a visita ao Museu Regional de Beja (ou Museu Rainha D. Leonor), instalado num antigo convento, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e cuja dimensão original não é já a mesma. 

Sendo um museu muitas vezes ignorado pelos próprios bejenses, e cuja administração tem estado envolta em polémica, reúne no seu espólio uma variedade imensa de atracções. Vale a pena, sem sombra de dúvida, uma visita demorada e, se possível, guiada, que felizmente tive o prazer de usufruir por várias vezes.

Logo na entrada costumam estar patentes exposições temporárias. Desta vez o tema era "Aquedutos de Portugal".

No antigo Convento destacava-se a peculiaridade de coexistirem duas facções opostas, ou seja, freiras seguidoras de S. João Evangelista e freiras adeptas de S. João Baptista, possuindo estas últimas mais poder económico. Este facto culminou em diferentes obras artísticas que almejavam superiorizar-se às existentes.

Riquíssima em talha dourada, no centro da igreja, podem ser observados dois andores, incompletos, para desincentivar eventuais amigos do alheio e quatro altares: de S. Cristóvão e de S. Bento (1741) - ambos de barroco pobre -, e de S. João Evangelista - composto por madeira e folha de ouro, num barroco extremamente ornamentado - e de S. João Baptista com mármore de Florentina. Tanto estes altares como os andores colocados ao centro, testemunham a rivalidade anteriormente referida.

Dirigindo-nos para o claustro, encontramos a escudela de Pêro Faria, oferta da dinastia Ming, datada de 1541, de inestimável valor por ser apenas uma das três existentes (em Nápoles e Istambul encontram-se as outras duas). Curiosamente, foi descoberta numa casa particular em que não lhe era reconhecido o seu real valor e ofertada posteriormente ao museu. A sua importância deriva de ser uma das primeiras existentes com caracteres ocidentais, ainda por cima em português.

Em cada convento é usual haver um claustro, rectangular ou quadrangular Neste caso, é quadrangular e os corredores em seu redor denominam-se quadras.

Na quadra de São João Baptista, em que se encontra a capela a si dedicada datada de 1614, as paredes encontram-se cobertas por azulejos com magnólias em azul, amarelo e branco. As faixas de azulejo pretendem reproduzir as rendas de bilros.

Com azulejos portugueses do século XVII, surge a quadra da Portaria. Nela se localizaria a entrada original do Convento e a porta que, em estilo gótico-manuelino, seria uma entrada indirecta para o refeitório.

A quadra de São João Evangelista apresenta azulejos sevilhanos de xadrez do século XVI.  Os azulejos, de inspiração árabe, cobrem  as paredes que estariam repletas de pinturas. O pórtico, entrada para a Sala da Capítulo, está carregado de simbologia: lagartos e caracóis indicam o mal que actua devagar e profusamente; as parras serão sinal de vida e a rosa no topo o bem, que só poderá ser transcendido pelos santos.

Na quadra de Nossa Senhora do Rosário, igualmente com azulejos portugueses do século XVII, observam-se alguns achados arqueológicos, nomeadamente:
  • Estátua do deus romano da Medicina, Esculápio;
  • Uma cabeça de touro, ou seja, a cabeça de touro presente no brasão da cidade já provinha desta altura;
  • Um peixe em mosaico romano, sendo que poderia ser uma representação naturalista ou de parábola para a vida do pescador ou, ainda, símbolo dos primitivos cristãos. Este é realizado com cubinhos de pedra de tecela, utilizados primordialmente como pavimento de chão e piscinas e, só mais tarde, no Império Romano Bizantino, aproveitados como ornamentação nestas composições.

Na segunda parte dar-vos-ei mais detalhes, incluindo a história de Mariana Alcoforado, um dos símbolos da cidade.

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