sexta-feira, 1 de julho de 2016

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho [Opinião]

Título: Perguntem a Sarah Gross
Autor: João Pinto Coelho
Edição/reimpressão: 2015
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
N.º de páginas: 448
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Sinopse:


Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.

Opinião:

Primeiramente, esta é uma obra que entrelaça vários géneros literários (mistério, histórico, thriller) e temas diversos de forma coerente e harmoniosa. A linguagem conduz a uma leitura rápida e absorvente, já que é fluída e sem artifícios.

A marca predominante no enredo é o leque de personagens femininas inspiradoras, sobreviventes, dotadas de fortes personalidades – Anna, Sarah, Esther, Kimberly. As personagens masculinas adquirem um papel subalterno, à excepção de Henryk, o pai de Sarah, envolvido num dos episódios mais emotivos do livro.

Anna, Sarah e Esther surgem envolvidas em grandes dramas pessoais representantes de uma época tão funesta. Especialmente o sofrimento de Sarah, torna-se impressionante e, a forma como dele emergiu, icónica. Sem margem para dúvidas, uma personagem inesquecível para mim. Ela é a alma desta história.

Algo que apreciei, sem dúvida, foram as reviravoltas surpreendentes, que me permitiram a renovação da curiosidade e o estímulo para avançar ainda mais depressa na leitura.

No final, achei que a história de Kimberly foi “arrumada” um tanto ou quanto precipitadamente para uma personagem tão relevada, e que alguns pontos poderiam ter sido melhor explorados, como o racismo no colégio de St. Oswald’s, (view spoiler).

Deparei-me com uma forma diferente e original de abordar Auschwitz e toda a miséria, infâmia e ignobilidade que lhe está inerente e que representa um período tão negro da História da Humanidade… O segregacionismo religioso dos judeus ficou patente na forma equilibrada, mas apartada, como os habitantes de Oshpitzin coabitavam e na discriminação ao acesso e pleno cumprimento de funções em cargos políticos. O anti-semitismo já existia. Os incentivos do nazismo apenas fizeram brotar a planta maldita que enraizada estava.

A 2.ª Guerra Mundial e o nazismo continuarão a fornecer matéria mais do que o suficiente para, por um lado, duvidarmos da viabilidade da continuação da espécie humana e, por outro lado, encontrarmos a esperança de que isso seja possível graças aos actos mais extraordinários.

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor: 

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance. Fonte: WOOK

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