quinta-feira, 5 de maio de 2016

"O Torcicologologista, Excelência" e "breves notas sobre música" de Gonçalo M. Tavares [Opinião]

Título: O Torcicologologista, Excelência
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015 
Editora: Caminho
Temática: Ficção
N.º de páginas: 265
Para adquirir:


Sinopse: 

"- Gosto muito de bater na cabeça das pessoas com uma certa força.
- Gosta?
- Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
- E ela - a Excelência - vai?
- Sim. Quem não gosta de ser chamado à distância por Vossa Excelência? Apanho sempre, primeiro, as pessoas pela vaidade… é a melhor forma.
- E quando a pessoa-Excelência chega ao pé de Vossa Excelência, o que acontece?
- Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa força na cabeça de Vossa Excelência. É isto que eu digo, apenas. Nem mais uma palavra."

Opinião:

Primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, ainda por cima autografado pelo autor, que esteve presente na Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago a 4 de Dezembro [de 2015].

O Torcicologologista, Excelência divide-se em duas partes - Diálogos e Cidade. Na primeira, maior em número de páginas, encontramos uma série de diálogos, dos quais posso destacar Como relatar uma experiência dolorosa e Sobre o pensamento e o bater na cabeça, por exemplo. São diálogos que, pelo absurdo e surrealismo de algumas suposições e acções, abrem campo às mais variadas reflexões do leitor. Os interlocutores dialogam cordialmente, ainda que as acções que desempenham nem sempre o sejam  e o tratamento por "Excelência" ainda mais enfatiza essa cortesia.

Relativamente a Cidade, que encerra o livro, encontramos aquilo a que eu chamo de enumerações, dado que se tratam de frases curtas sobre estados e acções de indivíduos que, em vez de nomeados, são numerados pelo autor. Segue-se um excerto para que melhor se compreenda o que quero dizer:

"O Número 1 disse uma vez que queria matar o pai, mas não era isso que queria dizer.
O Número 2 não pára de falar.
O Número 3 ainda não disse uma palavra.
[...]
O Número 42 está a dormir com a amante.
O Número 43 partiu outra vez um copo.
O Número 44 foi ao hospital visitar o pai e quando voltou disse à mulher: mais um mês.
O Número 45 está careca, está a fazer quimioterapia, diz que está bonita mas está assustada, treme muito quando leva um copo à boca. O marido diz que ela está linda mas sabe que não é verdade.
O Número 46 diz sim.
O Número 47 dia não."

Possui passagens brilhantes, hilariantes, acutilantes, que expõe a cru a natureza humana. As palavras que me surgem para melhor o descrever seriam: diálogos que fazem pensar, enumerações que perturbam.

Em algumas das emissões de O Livro do Dia (emitido na rádio TSF),  Carlos Vaz Marques e o ator Gonçalo Waddington dão voz a estes diálogos de Gonçalo M. Tavares. Para ouvirem, basta clicarem aqui: O Livro do Dia @ TSF e de seguida procurarem pelas emissões denominadas O Torcicologologista, Excelência.

Classificação: 4,5/5*


Título: breve notas sobre música
Autor: Gonçalo M. Tavares
Data de edição: Setembro de 2015 
Editora: Caminho
Temática: Ficção
N.º de páginas: 265
Para adquirir:

Sinopse: 
«1. Um homem que gostava de ouvir música às escuras mas com uma lanterna na mão.
Quando ligava a lanterna, não a apontava para o aparelho técnico de onde saíam os sons, mas sim para o espaço por onde a música se espalhava. Queria localizar os sons como se localiza um objecto.»
Esta é uma das breves notas sobre música, de Gonçalo M. Tavares.

Opinião:

Decidi juntar esta opinião à anterior uma vez que foram leituras com pouco tempo a separá-las. Assim, sendo a minha segunda leitura de Gonçalo M. Tavares, já estava familiarizada com a sua forma de escrever: nada complexa nem pretensiosa.

Em breve notas sobre música, a música, naturalmente, é a protagonista das reflexões do autor que, desta vez, não surgem sobre a forma de diálogos, mas de pequenos textos, acompanhados de ilustrações de Rachel Caiano. Fala-se da música enquanto objecto corpóreo, dos músicos, dos ouvintes e das suas atitudes perante ela e de infindas associações passíveis de serem realizadas, numa busca incansável por uma possível definição.

Deixo-vos esta passagem, de que gostei imenso: "A pré-história do homem parece muda; pelo menos fazemos dos nossos velhíssimos pais seres mudos com mãos e cérebros. [...] mas que não são pensados como capazes de produzir música. [...] O que nos conta a história é que fizeram objectos, o fogo, utensílios requintados, mataram, esganaram, trucidaram e, uma ou outra vez, salvaram. Mas as mãos dos antigos também pintaram e desenham e, sim, claro, tocaram no mundo que existia para que o mundo que existia, em contacto com as superfícies do seu corpo, produzisse música. Mas disso pouco sabemos. Conhecemos alguns instrumentos mas não a música. Recuperámos o esqueleto mas não o sangue".

Classificação: 4,0/5*

Sobre o autor:

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países.

Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Com Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros.

Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, etc. Fonte: WOOK

2 comentários:

  1. Fiquei fã com um único livro. Jerusalém é uma obra de arte, Gonçalo M. Tavares é uma das melhores coisas que aconteceu na literatura portuguesa, nos últimos tempos.

    Encontrei o blog por acaso. Passarei a seguir :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ainda só tive oportunidade de ler estes dois e fiquei com vontade de ler mais. "Uma Viagem à Índia" é o que me desperta mais curiosidade.

      Por acaso só o reiniciei a semana passada, é um autêntico bebé. Volte sempre, será sempre bem-vindo! :)

      Eliminar