segunda-feira, 25 de julho de 2011

E ainda... Ondjaki

( Mulher à janela de Fernando Botero)

"(…) Nada.., que a tuga até num vale a pena…! Mambo(1) que às vezes penso – epá, vais rir, eu sei, mas é o rabo das tugas… Meu, tábua d’engomar, a xoetice(2) toda? Rabo foi aonde então, Nzambi(3) lhes castigou assim porquê?, nossa observação que nós fazíamos, antigas missões na tuga e noutras europas mais, comissão disto e daquilo que dava é pra tirarmos comissões no nosso bolso, e nós ali no bar, fim de tarde, sem as palavras – os olhares só: uma tuga, duas tugas, muitas tugas, mas agora pra encontrar inda um rabo de acender mesmo as vistas? Passas mal. Uí, falo isso por causa da maka(4) das culturas, diferenças só, que eu fico mesmo a pensar que a cultura está mesmo até nos nossos olhos de pessoas, tás a rir?, gala(5) só então: um gajo é daqui, fica a pôr riso na dança dos tugas e outros europeus, ancas desarranjadas e não dão semba(6), tão a falar é malcriado, mambos(7) dos brasileiros, carnaval só. Afinal? Mas depois, considera só: eles também a nos verem dançar e vestir e pôr cu duro, num vão falar dança dos bêbados?, a dar bungula(8) puramente e pôr açúcar e as kabetulas(9) todas, num vão dizer estamos a ficar parecidos com os macacos?, xinguilamentos(10) musicais? Olhos deles, muadiê(11), tou ta pôr, e os nossos olhos todos de cada um: culturas!, num enormes plural e final das contas.” – página 105, em Quantas Madrugas Tem a Noite, de Ondjaki.

(1) coisa; assunto. (2) desprovimento de nádegas salientes. (3) Deus. (4) problema. (5) vê. (6) passo de dança que consiste no confronto das zonas pélvicas entre duas pessoas. (7) coisas; assuntos. (8) tipo de dança. (9) tipo de dança. (10) o estrebuchar. (11) moço; rapaz; homem.


Admirável como Ondjaki consegue conjugar temas tão diversos como a anatomia feminina e os preconceitos culturais. Simultaneamente, deu ainda pequenos consolos à minha auto-estima. Peso 70 kg e a minha gordura está localizada nas ancas e nas coxas. Deverei eu, e todas as mulheres que não tiveram a sorte da perfeição, emigrar para Angola? Ou tudo não passa de uma brutal futilidade que só tem valor pelo lugar em que nascemos e fomos educados? E como isto é tudo, pois caso tivéssemos derivado de um sítio onde fosse culturalmente aceite que, por um lado, os homens andassem de saltos altos e, por outro, as mulheres se pavoneassem nuas para facilitar a reprodução, alguém veria o ridículo da questão? Eu não.

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