quarta-feira, 4 de maio de 2011

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham [Opinião]

Título Original: The Razor's Edge
Autor: Somerset Maugham
1.ª publicação: 1944
Colecção: Biblioteca Universal Unibolso
Editora: Ed. Associados
Temática: Romance
N.º de páginas: 272
Para adquirir (outra edição da obra):

Sinopse:

"Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.

(...) Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam (...) e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso.

O Fio da Navalha foi originalmente publicado em 1944, num mundo muito diferente do actual. Contudo, algumas das suas ansiedades e dúvidas permanecem: continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência, mas não queremos apenas deter esse conhecimento, queremos senti-lo no mais fundo de nós. (...) Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento dos homens."

Opinião:

A natureza humana é deveras fascinante. Neste romance, Maugham apresenta-nos uma reflexão sobre um leque de personagens que, segundo nos diz, conheceu ao longo da sua vida e que se relacionaram entre si, retratando exemplarmente as sociedades ocidentais. Porém, de entre todas, uma personalidade eleva-se: Larry.

Larry, rapaz americano igual a tantos outros, é profundamente afectado pela morte de um camarada a que assiste, impotente, durante a Primeira Grande Guerra. De submisso, acatando os caprichos de Isabel, sua namorada, volta à sua pátria imerso numa imensa reflexão sobre a vida e a natureza de deus e do homem, assumindo uma postura em nada igual à dos seus contemporâneos - jovens empreendedores que procuram o sucesso, reconhecimento social e bem-estar material. Incompatibiliza-se com Isabel, a personificação da futilidade e dedica-se, posteriormente, a uma série de estudos e viagens que o guiarão às pessoas que irão mudar profundamente a sua personalidade e a forma como encara o que o rodeia. Parte pelo mundo à descoberta de si e de algo transcendental que o faça perder-se no meio da multidão.

Observamos igualmente Elliot, o "novo-rico", que tem embaraço das suas origens e da forma como adquiriu riqueza, vivendo sempre em prol da aceitação social e de um estilo de vida opulento. No fundo, é apenas uma criança que exibe os seus brinquedos para ser aceite entre os da sua estirpe. Gray, americano típico, só se sente realizado caso trabalhe e proporcione, a si e aos seus, um estilo de vida folgado, tal como havia feito o seu pai. E ainda Sarah, possuidora de um espírito hipersensitivo, leitora de poesia desde tenra idade, que não consegue recuperar de uma grande tragédia e se entrega a uma vida de devassidão e promiscuidade.

O narrador é alguém que convive com todas as personagens, assumindo-se como escritor e contador das suas  histórias e escolhas, as quais, muitas vezes, se entrelaçam, não esquecendo todas as suas consequências. Até que, por fim, cada um segue o seu rumo e encontra aquilo que aparentemente deseja, quer o consideremos positivo ou não.

Realizado um aprofundado retrato físico e psicológico das personagens, mantém-se, no entanto, uma aura de mistério em redor de Larry, até porque a complexidade da sua descoberta dá-lhe poderes e capacidades inacessíveis ao ser humano comum. Ele encontra respostas a questões que vêem assolando civilização ao longo de toda a história da Humanidade: qual é o nosso papel?, qual o sentido da vida?, existe bem e mal?, foi deus quem nos criou?, e o que é, afinal de contas, deus? e as respostas ficam para ele, no mais intrínseco do seu ser.

A linguagem é simplesmente acessível, o que facilita uma leitura devoradora, e ainda por cima motivada pelo verdadeiro interesse que o próprio narrador sente pelas personagens, o qual nos consegue transmitir.

De um modo geral, Larry cativou-me  por ter sido capaz de romper com estereótipos e ultrapassar todas as barreiras. E tudo isto num mundo onde impera o consumismo e o desconhecimento do eu, porque, mais do que tudo, é importante conhecê-lo - ouvir aquela voz que sempre nos acompanha, a nossa consciência - e tentarmos, no mínimo, responder às questões que do íntimo nos brotam. E ele conseguiu-o: arriscando, conhecendo, vivendo, com um desprendimento inexcedível, e ao contrário de todos nós, que nos magoamos, manipulamos e enganamos, só para fugirmos ao vazio que nos corrói...

Assim, sem dúvida que o mais marcante é, na minha humilde opinião, a apologia ao livre-arbítrio, à capacidade e à possibilidade de escolha do ser humano. Afinal, não estamos condenados à vida de todos os dias, está quase tudo na nossa mão.

Classificação: 5,0/5*

Sem comentários:

Enviar um comentário