terça-feira, 31 de maio de 2011

The Dresden Dolls "Girl Anachronism"


you can tell
from the scars on my arms
and cracks in my hips
and the dents in my car
and the blisters on my lips
that i'm not the carefullest of girls

you can tell
from the glass on the floor
and the strings that're breaking
and i keep on breaking more
and it looks like i am shaking
but it's just the temperature
and then again
if it were any colder i could disengage
if i were any older i could act my age
but i dont think that youd believe me
it's
not
the
way
i'm
meant
to
be
it's just the way the operation made me

and you can tell
from the state of my room
that they let me out too soon
and the pills that i ate
came a couple years too late
and ive got some issues to work through
there i go again
pretending to be you
make-believing
that i have a soul beneath the surface
trying to convince you
it was accidentally on purpose

i am not so serious
this passion is a plagiarism
i might join your century
but only on a rare occasion
i was taken out
before the labor pains set in and now
behold the world's worst accident
i am the girl anachronism

and you can tell
by the red in my eyes
and the bruises on my thighs
and the knots in my hair
and the bathtub full of flies
that i'm not right now at all
there i go again
pretending that i'll fall
don't call the doctors
cause they've seen it all before
they'll say just
let
her
crash
and
burn
she'll learn
the attention just encourages her

and you can tell
from the full-body cast
that i'm sorry that i asked
though you did everything you could
(like any decent person would)
but i might be catching so don't touch
you'll start believeing youre immune to gravity and stuff
don't get me wet
because the bandages will all come off

and you can tell
from the smoke at the stake
that the current state is critical
well it is the little things, for instance:
in the time it takes to break it she can make up ten excuses:
please excuse her for the day, its just the way the medication makes her...

i dont necessarily believe there is a cure for this
so i might join your century but only as a doubtful guest
i was too precarious removed as a caesarian
behold the worlds worst accident
I AM THE GIRL ANACHRONISM

copyright 2002 amanda palmer

domingo, 29 de maio de 2011

"Filhos e Amantes" de D. H. Lawrence [Opinião]

Título original: Sons and Lovers 
Autor: D. H. Lawrence 
1.ª publicação: 1913 
Editora: Público 
Temática: Romance 
ISBN: 9789896820855 
N.º de páginas: 507
Para adquirir (outra edição da obra):



Sinopse:

"Este clássico de D. H. Lawrence passa-se nas minas de carvão de Nothingham e acompanha a vida da família de Walter Morel, mineiro de profissão. Cansado e desiludido com o seu trabalho, Morel é um homem rude que está frequentemente alcoolizado. A sua mulher, decepcionada com o seu comportamento, acaba por depositar todas as suas esperanças nos filhos, principalmente em Paul, o protagonista do romance. Filhos e Amantes é considerado o primeiro retrato moderno do Complexo de Édipo, estudado por Freud.

D. H. Lawrence não ganhou o prémio Nobel por ser considerado um misógino "fora de moda". O escritor de Lady Chaterley foi uma figura controversa, com obras censuradas pelo seu erotismo, o que pode ter contribuído para a não atribuição do prémio."

Opinião:

Quem não ouviu já falar do complexo de Édipo? Freud formulou-o com base na tragédia grega Édipo Rei. De forma resumida, esta contava-nos a história de Édipo: ainda em pequeno, após ser predestinado pelos oráculos que mataria o seu pai e se casaria com a mãe, os pais, reis de Tebas, resolvem abandoná-lo. Encontrado por um pastor, Édipo cresce e sai da sua terra. Ignorando as suas verdadeiras origens, encontra no caminho o seu verdadeiro pai, acabando por matá-lo. Ficando com o direito a ser rei de Tebas por um desafio que ultrapassou, sua cidade natal. Inconscientemente escolhe para sua consorte a sua própria mãe, tendo com ela quatro filhos. Novamente os oráculos têm um papel predominante: dizem a Jocasta e a Édipo que são mãe e filho. A primeira, suicida-se; o segundo, fura os próprios olhos, castigo a que se submete por não ter reconhecido aquela que era sua mãe. Assim, Freud diz-nos que o complexo de Édipo se baseia no desejo que o rapaz, num dado estádio do seu desenvolvimento físico e sexual, sente pela mãe por ser um ser do sexo oposto, nutrindo por ela amor, enquanto que o pai passa a ser um seu rival, o que lhe desperta ódio. Apenas quando a criança se apercebe da impossibilidade de possuir a mãe, o pai surge como uma figura que deve ser tomada como exemplo.

Ora, que tem tudo isto a ver com o romance?  Filhos e Amantes surge exactamente como um retrato do complexo de Édipo em tempos mais recentes (princípio do século XX).

Gerturde e Walter Morel formam um casal que, à partida, não tem muito futuro. Walter é um ser primitivo, irascível, rude e fogoso. Gertrude apaixona-se por ele, fascinada com o seu vigor e vitalidade. Após os primeiros tempos de um casamento feliz, Gertrude depara-se com consecutivas desilusões: ao contrário de si, Walter é imprudente, irresponsável, mentiroso, nada ambicioso, contentando-se com a vida pouco regrada que o seu labor de mineiro pode proporcionar, não se preocupando em dar mais do que o estritamente necessário à família. Pelo contrário, Gertrude é uma mulher de carácter vincado, o pilar da família, responsável por controlar a economia familiar e a criação e educação dos filhos. Intelectualmente activa, religiosa e puritana, nunca dançava. Incutiu aos filhos a sua visão da vida, já que a sua educação estava a seu cargo e promete a si própria poupar os filhos do ambiente familiar miserável em que vivem -  as privações materiais mais a ausência de carinho e amor por parte do pai - sendo que tudo redonda na sobreprotecção da mãe.

Acompanhamos o nascimento dos filhos no seio de uma relação extremamente conflituosa: William, o primogénito, é a esperança da mãe; Annie, a única menina; Paul, de quem acompanhamos o nascimento e se torna o protagonista - profundamente ligado à mãe; Arthur, o único que gostava do pai, a princípio, e que herdou o seu carácter impetuoso. Estes estão contra o pai, alcoólico, presente mas ausente, sempre surripiando o dinheiro para satisfazer o seu vício, ainda que numa proporção manifestamente inconsequente.

Os episódios de extrema violência sucedem-se numa guerra pautada pela frustração de Gertrude e pela insensibilidade do seu marido. Após um episódio deveras marcante para o casal, Gertrude desiste de tentar mudar o marido e faz dos filhos a sua razão de viver.

William e Paul tornam-se, primeiro um, depois o outro, em depósitos das esperanças, desejos e mesmo da vida da mãe, que só vive para e por eles. A mãe desencadeia neles, sobretudo em Paul, o amor, mesmo a uma paixão ardente, e retribui-lhes na mesma moeda, ainda que não tenha havido concretização física - tudo acontece do ponto de vista de uma análise psicológica.

A segunda parte do romance (está dividido em duas partes, sendo que a segunda é a maior) foca-se em Paul, o terceiro filho da família Morel. Dependente da mãe e da irmã, mais distante de William, o irmão mais velho, e sem qualquer ligação ao pai - tudo isto contribuiu para a não resolução do seu complexo de Édipo. Assume a predilecção da mãe por si e corresponde-lhe vivamente. Ela não tem defeitos perante os seus olhos e recusa-se a aceitar que o passar dos anos lhe causem algum desgaste, santificando-a. Conta-lhe todos os acontecimentos da sua vida, por mais insignificantes que sejam, à excepção das experiências sexuais. Paul mostra-se ainda extremamente influenciável pela mãe, ainda que a sua personalidade caprichosa por vezes o faça divergir dela. Nota-se como facilmente se torna íntimo das mulheres e como elas o têm entre si sem receios, chegando mesmo a competir pela sua atenção e amizade. Gertrude é ciumenta pelo lugar que elas ocupam no coração do filho, contudo é a si que Paul retorna sempre, pois a mãe é o seu porto seguro. Por tudo isto julgo que é explorado um quadrilátero amoroso entre Paul, a sua mãe, Miriam e Clara.

Após consultar uma outra edição desta obra (edição de 1994 das Publicações Dom Quixote), acho que há duas informações que não podem deixar de ser dadas: "D. H. Lawrence (1885-1930) nasceu em Eastwood, no Nottinghamshire, filho de um mineiro e de uma mulher de grandes ambições, assistiu desde menino às desavenças entre os pais, motivadas por divergências de opinião quanto ao futuro dos filhos, conflitos conjugais esses que retratou na presente obra" , o que revela um carácter marcadamente autobiográfico nesta história.

Para além disso, na contracapa da mesma edição é-nos dito que: "A versão integral de Filhos e Amantes é agora publicada pela primeira vez. É dez por cento mais longa do que a versão disponível até à data: oitenta páginas haviam sido cortadas pelo primeiro editor, algumas delas devido à inclusão de sexo explícito. Sem outra fonte de rendimento, D. H. Lawrence viu-se forçado a concordar com os cortes e as alterações introduzidas: «Quero lá saber se [o editor] vai cortar uma centena de páginas duvidosas de Filhos e Amantes. O livro tem de se vender, preciso do dinheiro para viver». Passados oitenta anos, a obra-prima de D. H. Lawrence pode finalmente ser publicada tal qual ele a escrever". Fiquei sinceramente na dúvida se esta edição do Público que li está ou não completa, sobretudo depois de ler a introdução da edição da Dom Quixote. Não encontrei cenas de sexo explícito, apenas erotismo. Comparei e encontrei manifestas diferenças. Por exemplo:

Versão da edição do Público: "Havia até um par de meias no espaldar duma cadeira. [...] Sentou-se na cama, considerou em volta a escuridão do quarto, com as pernas cruzadas, imóvel, escutando" (pp. 407-408).

Versão original: "Sentou-se na cama e olhou o quarto às escuras. Apercebeu-se então de um par de meias de vidro nas costas de uma cadeira. Levantou-se sem ruído e calçou-as, sentando-se na cadeira imóvel, sabendo que tinha de a possuir. Depois, sentou-se na cama, erecto, com os pés dobrados sob o corpo, perfeitamente imóvel, à escuta".

Afinal, em que ficamos? Se alguém souber, que me diga. Custo a acreditar que tenha sido publicada a versão censurada de uma obra em pleno século XXI...

De qualquer forma, o livro não me cativou o suficiente para me fazer aprofundar as pesquisas. Dividido em duas partes, achei a primeira, com o combate entre Gertrude e Walter e a formação da sua família, bastante melhor do que a segunda, onde acompanhamos o crescimento de Paul, os seus amores e desamores e a sua relação com a mãe. A exploração do complexo de Édipo é bem feita, sem dúvida - e julgo que esse era o propósito do autor: mostrar como o seu protagonista foi vítima do excesso de amor da mãe e do seu complexo de Édipo não resolvido. Porém, Paul revela-se como alguém cada vez menos interessante, cada vez mais vazio, perdido nas teias do amor que consagra à mãe, até ele próprio se desfazer em nada. Deste modo, acabei por naturalmente me desinteressar acerca do seu destino e perder interesse na leitura.

Classificação:  3,0/5*

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A problemática do verbo amar



Olho para os teus pés, descalços. Se não estivéssemos aqui, nada me impediria de idolatrá-los. Não, não é o resultado de alguma perversão fetichista. Apenas quero amar-te. Apetece-me. E se os meus braços não te podem abarcar por inteiro, melhor será que vá por partes. 

Nada em ti é por acaso. Tudo está em total harmonia ainda que toldado pela mais perfeita desproporção. Se as partes fazem o todo, e o todo é perfeito, por que não haveriam de o ser as partes? São incompletas, dizes, nada significam por si só. Mais uma razão para que as abandones: todo o teu pouco é tudo para mim.

Neste jogo em que não há certo ou errado, por que não me deixas a eles consagrar? Não quererás que lhes conjugue o verbo amar?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A leitora





Sou uma leitora compulsiva, mesmo quando não tenho vontade de mais nada (e isso acontece mais vezes do que o recomendável...).  Não sou capaz de ler de manhã à noite, porque rapidamente os meus olhos se ressentem e me impedem de prosseguir as leituras de que tanto gosto. Por isso mesmo a minha falta de vista tem aumentado de forma galopante, mas não me importo, porque quem corre por gosto não se cansa.

Consigo ler em qualquer sítio, sendo fácil, por um lado, concentrar-me no que leio, e, por outro, abstrair-me do que me rodeia. Sinto que não tenho uma imaginação pródiga, pois não consigo visualizar sempre, com toda a precisão, as imagens que nos tentam evocar (talvez porque a experiência de vida não é muita? ou, noutros casos, será incapacidade do próprio escritor?). Quando isso acontece, recorro a filmes baseados nas obras, se existirem, claro (por exemplo, Orgulho e Preconceito de Jane Austen).

Privilegio os clássicos. Creio que, para terem alcançado esse estatuto, certamente são garante de alguma qualidade e o preço é, de um modo geral, convidativo (graças a colecções que revistas e jornais têm vindo lançando). São imperenes: aprendo com eles e enriqueço o meu carácter, quer tenham surgido no século XV ou XX.

Todos os livros da minha biblioteca passam por um mesmo ritual. A aquisição de um novo inquilino é especial: estudo-o ao pormenor, analiso se a relação qualidade-preço é positiva, e, quando o obtenho, sinto um gozo imenso ao folheá-lo e cheirá-lo (adoro tanto o cheiro de um livro novo!);  adiciono-o à minha base de dados livresca (utilizo o Goodreads); coloco-o na minha biblioteca, que vou vendo crescer de dia para dia, o que exige sempre alguns estratagemas para ir arranjando espaço; observo-os a todos nos sítios que lhes destinei; e, por fim e mais importante, chega o momento de os ler, acabando quase sempre por decidir impulsivamente.

Como não consigo estar sem fazer nada - começo a ficar ansiosa, sem saber onde pôr as mãos, olhando para tudo e todos -, socorro-me da leitura para me livrar dos tempos mortos. E, devo admitir, dá um certo ar de intelectual ler numa esplanada, café, jardim, ou até na escola, sobretudo se os que me rodeiam passam o tempo em maledicências sobre a vida dos outros...

Encaro as vidas que se desenrolam perante mim como muito menos interessantes quando comparadas às que encontro nos livros. Nem que seja por, na maioria dos casos que, apesar de se tratarem de épocas remotas e/ou lugares longínquos, me ensinam muito mais sobre o carácter humano do que o contacto com as pessoas reais,  já que as personagens nos são apresentadas em toda a sua dimensão: conhecemos os seus segredos, intenções e motivações. Fica a esperança de um dia poder pôr em prática os conhecimentos que adquiri.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Clã "Utilidade do Humor"

Um pequeno grande exemplo de um dos meus álbuns favoritos de sempre: Cintura dos Clã.


Ontem à noite pus-me a reflectir
Nas coisas da vida em vez de dormir
Tive um quebranto fiquei surdo e mudo
Tolhido de espanto mas percebi tudo
O mundo era meu sentia-me um rei
O tempo era extenso e eu ditava a lei
Bastou dar um passo e crescer em frente
Perdi toda a graça quase de repente
Não fosse um sentido de humor apurado
Que me faz viver um sonho acordado
Não via tão claro o sentido da vida
E tudo seria bem mais complicado

Eu era feliz tinha os meus brinquedos
O anjo da guarda tirava-me os medos
Descobri o amor e vi nele o paraíso
Mas para ser expulso às vezes pouco é preciso
Podia ter tudo do bom e do caro
Que nada acodia ao meu desamparo
Sou a alma do mundo mais bem informada
Quanto mais me informo mais sei que sei nada

Não fosse um sentido de humor apurado
Que me faz viver a sonhar acordado
Não via tão claro o significado
E tudo seria bem mais complicado

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Os Grandes Mistérios da História" [Opinião]

Título original:  Los Grandes Misterios de la Historia
1.ª publicação: 2008 
Editora:  Clube do Autor
ISBN: 9789898452061 
Temática: História 
Páginas: 440
Para adquirir:


Sinopse:

"A História da humanidade está repleta de grandes mistérios. Desde as civilizações mais antigas, passando por continentes perdidos e lendários, até um passado mais recente, são incontáveis os factos «históricos» que carecem de uma explicação razoável. Eis Os Grandes Mistérios da História decifrados com o rigor e perícia do Canal de História.

Mitos, lendas e enigmas seculares são explicados na obra Os Grandes Mistérios da História através da exposição de teorias distintas defendidas por historiadores de renome.

A Atlântida existe? Como foram construídas as pirâmides do Egipto? Onde está, afinal, o Santo Graal? Porque continuam a acontecer desaparecimentos no Triângulo das Bermudas? A História está repleta de perguntas sem resposta, enigmas inquietantes que têm deixado perplexos até os investigadores mais reputados.

Civilizações antigas, tesouros ocultos, fenómenos inexplicáveis, personagens lendárias … Os Grandes Mistérios da História revela as respostas aos temas mais controversos e aparentemente incompreensíveis da história da humanidade."

Opinião:


Para todos os amantes da História, seja ela comprovada ou ainda um mito, este é um livro indispensável. Através de uma linguagem acessível, todos os mistérios são apresentados de forma concisa, seguindo-se as teorias e contra-teorias que os tentam desvendar, ou, simplesmente, a sua explicação quando tudo o que o rodeia está já a descoberto. No que me toca, foi uma leitura compulsiva e assaz agradável, mas a minha opinião é tendenciosa, já que adoro História...  De qualquer forma, aqui ficam imagens e algumas citações de alguns dos mistérios que achei mais fascinantes:


O mistério dos anasazi
"Mesa Verde, no Sudoeste do Colorado, é uma terra de canyons escarpados e mesetas elevadas onde se localizam algumas das ruínas pré-históricas mais impressionantes dos Estados Unidos e alguns dos maiores mistérios da arqueologia norte-americana. (...) No entanto, ninguém conseguiu ainda explicar a razão que terá levado os índios anasazi, antigos habitantes do Sudoeste dos Estados Unidos, a construir estes povoamentos incríveis em alcantilados para os abandonarem décadas depois e nunca mais regressarem."


O que mais me impressionou: a complexidade das construções, o desaparecimento sem deixar rasto deste povo e a brutalidade dos rituais que lhe é associado.

( via Top Tenz )

Os gémeos do Titanic
"Os grandes transatlânticos Olympic, Titanic e Britannic nasceram na primeira década do século XX, quando este tipo de embarcações majestosas dominava o mundo. Os três navios, quase idênticos, tiveram uma existência estranha e um final trágico. Chegou-se mesmo a falar de navios marcados pela desgraça".

O que mais me impressionou: a monumentalidade dos navios - assustadoramente imensos! - e o trágico destino que tiveram.
( via Faro é Faro )

A lenda do rei Artur
"Entre os relatos perduráveis ao longo de séculos na civilização ocidental, e que chegaram aos nossos dias, salienta-se um cuja origem data da Alta Idade Média, numa época de convulsas migrações e brutais guerras étnicas. Um relato de heróis e de grandes batalhas, de um poderoso e magnânimo rei, de fraternidade de nobres cavaleiros e da sua cruzada para criarem o mundo perfeito (...) a  lenda do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola (ou mesa) Redonda."

O que mais me impressionou: a explicação clara de todas as possibilidades acerca da remota origem da lenda do rei Artur, incluindo o próprio idealismo medieval que muitos pormenores terá acrescentado a esta lenda.

( via Britannia )

O Santo Sudário
"Desde 1578, atraídos pela mais famosa relíquia do cristianismo, milhares de crentes acorrem à cidade italiana de Turim. Querem ver um pedaço de lençol de pouco mais de quatro metros de comprimento por cerca de um metro de largura, onde se exibe a imagem de frente e de costas de um homem morto por crucificação. Como tantos outros milhões de cristãos, estão convencidos de que se trata da autêntica mortalha de Jesus, o «Santo Sudário» que lhe envolveu o corpo após a sua morte."

O que mais me impressionou: o combate renhido entre a Fé e a Ciência, sem que nenhum ganhe definitivamente. Muitas são as reticências que ficam, ainda que eu me incline a aceitar a datação por carbono 14 que situa a origem do Sudário entre os séculos XIII e XIV - opinião meramente pessoal, influenciada pelo meu agnosticismo, tendente ao ateísmo...

( via Wikipedia )


Classificação: 5,0/5*

terça-feira, 17 de maio de 2011

Memórias

Porque hoje recebi conselhos de um bom amigo, recordo:

"O Princípio da Loucura" pintado por mim, com a ajuda de Zandre, meu estimado professor de Pintura.


Inspirado em "O Princípio do Prazer" de Magritte.

sábado, 14 de maio de 2011

Death From Above 1979 "Romantic Rights"

Porque eles estão de volta, porque o seu álbum "You're a Woman, I'm a Machine" é dos melhores da última década, e porque a sua música é das poucas que ainda me faz vibrar, aqui ficam os DFA 1979 com "Romantic Rights". : D

[ Let's make love and listen Death From Above...]


Your romantic rights are all that you got
Push them down son it's more than just lip
C'mon girls I know you know what you want
C'mon, C'mon now and give them all shhhhh
You're beating walls now you just won't quit
You play with shapes but they just won't fit
I know you love me you don't know what you like
You're watching TV I stay up all night

I don't need you
I want you [2x]

South Carolina kid is heating things up
His wounds are bleeding and we're filling the cup
This game will save us if we don't die young
C'mon, c'mon now yea have some fun

Come here baby I love your company
We could do it and start a family
She was living alone unhappily
We could do it, it's right romantically [3x]

I don't need you
I want you [6x]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O Fiel Jardineiro" de John Le Carré [Opinião]

Título original: The Constant Gardener
Autor: John Le Carré
1.ª publicação: 2000 
Editora: Biblioteca Sábado
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 440
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

"Justin Quayle é um funcionário do Foreign Office destinado no Quénia. A morte da sua mulher, Tessa, ocorrida em misteriosas circunstâncias, incita-o a iniciar por si própria uma investigação para esclarecer o caso. Justin remonta passo a passo o caminho que conduziu à morte da sua esposa, uma atrevida activista de organizações humanitárias, e durante as suas pesquisas vai descobrindo cada um dos fios de uma trama internacional de corrupção, em que os interesses duvidosos de políticos e burocratas se emaranham com as lucrativas acções sem escrúpulos da poderosa indústria farmacêutica."

Opinião:

Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.

Entre outros assuntos, destaco também:
  • O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde acaba a paranóia e começa a verdade?;
  • O encobrimento governamental de realidades totalmente degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
  • Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências ocidentais;
  • A importância das agências não governamentais para a sobrevivências de populações imensas.
A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa, activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de Woodrow, um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo atrás de uma reputação e prestígio social invejável.

Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem, aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign Office no Quénia,  que passa a ser, de mulherengo e solteirão, o marido perfeito.

Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis
. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da população queniana.

Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores. O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.

O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos esperava.

E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente, descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa, apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável, perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao seu filho num mundo melhor.

Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios, acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus, apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.


O filme: realizado por Fernando Meirelles (A Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira) e com Ralph Fiennes e Rachel Weisz nos principais papéis, é uma adaptação quase fiel do livro e, para mim, peca apenas por não explorar com a mesma intensidade do que no livro, a tragédia por que passa Justin ao perder a mulher. No entanto, para tal ser possível, o filme teria com certeza de passar a série. Por outro lado, o drama de África aparece em toda a sua força, deixando-nos uma mensagem de esperança nesta terra e, acima de tudo, nas suas gentes.

Classificação: 5,0/5* Acho que ficou patente que adorei as personagens Justin & Tessa e toda a história que os envolveu. Por isso, julgo que tanto o filme como o livro serão sempre referências para mim. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A minha estante

Estou impada de orgulho por ver os meus livros expostos no Estante de Livros, um dos melhores blogues sobre o mundo literário, e em português! Obrigada...! :'D









domingo, 8 de maio de 2011

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki [Opinião]

Título: Quantas Madrugadas Tem a Noite
Autor: Ondjaki
1.ª publicação: 2004
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 190 
Para adquirir (outra edição desta obra):


Sinopse:

Quantas Madrugadas Tem a Noite está destinado a ser um marco na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta, simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:

"Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.

Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias... Uma noite, quantas madrugadas tem?".

Opinião:

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa pele!" – página 9

Assim começa este romance, produto da prodigiosa imaginação de Ondjaki, escritor angolano. Quando decidi ler este livro já sabia o autor tinha recebido vários prémios pela sua obra (Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, Prémio Jabuti na categoria juvenil e prémio Grinzane por melhor escritor africano de 2008), para além de ser considerado um dos melhores escritores da sua geração em África. Além disso já tinha lido e ficado agradada  com O Assobiador (romance, 2002) e Há prendisajens com o xão (poesia, 2002), ambos presentes num livro que saiu na Colecção Frente e Verso da revista Visão. Deste modo, tinha motivos mais do que suficientes para esperar uma boa história, e não fiquei desapontada, antes pelo contrário, fiquei maravilhada.

Numa troca de cervejas, numa tarde e pela madrugada fora,  alguém de muito, muito longe, de tão longe que parece que nasceu de novo, compromete-se a contar uma história. Num monólogo imenso, toda a narrativa se passa em Angola, mais precisamente na Luanda contemporânea. Inclui um conjunto de personagens fora do comum que se cruzam e entrecruzam em situações, no mínimo, surreais, remetendo-nos para o realismo mágico de que García Márquez é mestre: chuvadas apocalípticas; um cadáver que é roubado e que circula do tribunal para a polícia e da polícia para o tribunal num táxi devidamente convertido em carro da polícia pela colocação de um cartaz e de uma sirene; alguém que comanda e convive com abelhas como se delas fosse rainha; um cão assustadoramente aterrador, julgando-se até que poderá ser a encarnação do diabo; um cego que vê tão bem que até se esquiva de uma bala são alguns dos exemplos.

AdolfoDido é o morto. Os seus amigos preparam-lhe o funeral. Mas não é fácil... Disputado por duas mulheres, o seu corpo é apreendido várias vezes pela polícia, e não pára de circular de um lado para o outro. Ainda casado no papel com DonaDivina, vive com KiBebucha. A primeira só o desejou por interesse: pensado que AdolfoDido era influente por ter um primo do éme (Movimento Popular de Libertação de Angola), casa-se com ele esperando uma vida farta. Rapidamente se desilude. À segunda não lhe pode escapar, pois por detrás das suas seduções corporais, desconfiava-se que lhe arreava bem... Ficamos também a saber que, através de uma falcatrua, se disse antigo combatente (num país onde nunca houve guerra!), quando na verdade é demasiado novo para isso - ninguém se dá ao trabalho de o constatar. Por isso lutam as viúvas pelo seu corpo e, claro, pela pensão devida. Sempre se disse que o coração tem razões que a razão desconhece, não é?

BurkinaFaçam, o anão, sente muito a perda do seu grande amigo AdolfoDido, aquele que um dia lhe salvou a vida. Apoia a criação fictícia de um sindicato para as prostitutas para, por um lado, poder gozar de todas as regalias que as suas festas orgíacas podiam proporcionar e, por outro, para fazer felizes as suas amigas Eva e Madalena,  também elas prostitutas. Tem um táxi,  fundamental para o desenrolar da história, já que quase todas as personagens passam pelo seu interior, e servem-se dele para as suas movimentações. Jaí, o albino, professor e comunista, está grato a Burkina por o ter salvo de uma população sedenta da sua cabeça para a cura da sida - ai, as superstições! Conhece um grande amor no decorrer da história... Ambos são amigos de Adolfo e tentam por tudo poupar o que dele resta às inclemências das viúvas, da justiça, da população, das intempéries.

É na casa da Kota das Abelhas que se reúnem e onde ocorrem alguns dos momentos mais decisivos. Após ter «assassinado» a abelha-rainha e transformado a sua própria casa numa colmeia gigante na qual assumiu o papel de rainha passaram-na a chamar deste modo. Subsiste do mel que elas fabricam e utiliza-o em tudo: cremes regeneradores que mantêm a juventude e conservam os cadáveres (inclusive o de AdolfoDido), bolos, bebidas, etc. Vive com o Cão [cuja figura está presente na capa desta edição]: dono e senhor da sala, é um cão assustador que causa um terror imenso em quem se atreve a olhá-lo.

Retrato da coloquialidade angolana, a linguagem pode apresentar-se como um desafio a superar. Felizmente no final do livro há um glossário com o significado de quase todas as expressões utilizadas e, como elas são constantemente repetidas, no decorrer da leitura é fácil apreender o seu significado, ao ponto de se deixar de o consultar. Por exemplo, cumbú é dinheiro, ngaia é garrafa, entre outras. Nem por isso nos deixa de parecer poética e sedutora, onde cada palavra surge no local exacto. De qualquer forma, um pequeno truque que utilizei foi o de imaginar que me falavam com um forte sotaque angolano (qualquer pessoa já o ouviu, nem que fosse na televisão!), meloso pelas cervejas que se sucediam e pelo prazer de uma boa conversa.

Admiravelmente o narrador conhece todos os pormenores e nunca perde o fio à meada, ainda que os apartes sejam recorrentes. Apartes esses que não deixam de ser importantes e que, muitas vezes, contêm reflexões aparentemente tão simples, mas tão, tão bonitas:

"Há muitos teatros – pensas que é só com bilhete e cadeira sentada com mosquitos que vais no teatro? E a vida?, esqueceste esse palco puramente verdadeiro a acontecer todos dias, a se entornar nos teus olhos de lágrimas que nem vês?" – página 31

"Foram então procurar a KiBebucha, na casa dela da Ilha, onde ela gostava de não ficar dentro de casa, mas lá no quintal-rua, início do passeio da casa dela, onde espreitava o mar – vício dos olhos dela desde pequena. Num te falei?, isto é só grandes coisas, efeitos da natureza nas pessoas mesmo: céu, mar, lua, sol, coisas assim enormes não escapam nas vias do coração, meu. Qual é a tua inclinação? Nada, nada mesmo? Pra ti pôr do sol e pôr de merda nenhuma é a mesma coisa? E a lua de noite? Nada mesmo? Porra, meu, dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres meter o corpo e o coração nele?" – página 54

De um modo geral, alguns dos temas abordados são a corrupção e o poder das influências num país ainda marcado pela memória de guerras recentes, sejam elas contra o invasor branco ou de luta pelo poder; a superstição e a credulidade dominantes num povo simples; um sistema burocrático que nem sempre supre as falcatruas que vão surgindo, mas que nem por isso deixa de zelar por quem escuta e julga; a falsidade e o egoísmo; e, acima de tudo, a amizade pela qual ainda tudo é possível.

Porque, afinal de contas, nada do que foi contado são devaneios de um bêbado... Tudo pertence a uma África desconhecida, palpitante de vida. Desconhecida pois erradamente é-nos incutido que África não passa de  um continente perdido, com uma população reduzida à miséria e à doença. Palpitante de vida, já que o seu povo, ultrapassando todo esse sofrimento, nunca deixou de sorrir.

Classificação: 5,0/5*

sábado, 7 de maio de 2011

Agorafobia


"O sujeito que sofre de agorafobia experimenta uma extrema ansiedade e angústia perante agrupamentos de pessoas ou animais, espaços públicos e, sobretudo, espaços amplos.
(...)
Os pacientes agorafóbicos consideram tais situações ameaçadoras, sentindo que não conseguem sair delas nem obter ajuda para o mesmo efeito. Assim, estes pacientes restringem em muito as suas atividades pessoais, sociais e profissionais pelo medo que sentem em sair de casa sozinhos, causando-lhes muita dependência em relação a outras pessoas, em especial, à família com quem convivem mais.

Esta doença insere-se no grupo das perturbações fóbicas e, dentro deste grupo, é considerada uma fobia que a ela pode, ou não, estar associada uma perturbação de pânico. Pânico é um medo terrível, insuportável, que faz com que a pessoa deixe de raciocinar com clareza e apresente um comportamento estranho e irrefletido."

agorafobia. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-05-07]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$agorafobia>.


Ela e eu

Tudo começou num concerto. Andávamos no meio da multidão, à procura do melhor lugar, andávamos até de mãos dadas para não nos perdermos uns dos outros. No momento em que parámos, senti-me sem forças, receosa e com tonturas. Tive de me sentar e agarrar-me bem ao banco. Não passou disso, porém. Voltámos mesmo para a confusão e nem me senti mal outra vez. Desvalorizei completamente o que se passou.

Não me lembro quando se voltou a repetir, mas sei que ao longo dos anos tenho vindo a evitar cada vez mais lugares assim, repletos de pessoas. Assusta-me sequer a ideia de ir sozinha a hipermercados ou centros comerciais, a feiras ou concertos, a bares ou discotecas, ou meramente a sítios que tenham demasiados rostos desconhecidos. No entanto, se for acompanhada, não me sinto tão mal, ainda que esteja constantemente a olhar para os lados, até me ambientar. Sigo quem vai comigo, não vá por mero acaso perder-me.

( Obviamente que uma pessoa da minha idade que não frequente bares e discotecas, ou acontecimentos sociais, como é uma feira cá da minha terriola, pura e simplesmente não existe. Ainda por cima, não bebendo álcool, autocondenei-me ao ostracismo. Bem que me podem dizer que não beber e não gostar de lugares assim não tem influência alguma na aceitação de alguém no seio de um grupo. Balelas. A cultura do álcool está instalada e é um milagre encontrar alguém que não lhe pertença. )

Entro em pânico. No meu caso, é um estado de terror total. Não desato a gritar, apenas fujo ou espero que alguém "de confiança" apareça. Um horror inenarrável apossa-se da minha razão. Sinto-me dissecada até aos ossos. Tantos olhos em cima de mim fazem-me sentir nua e vulnerável. Parece que a barreira que protege os meus pensamentos se quebra ali, num instante, e que todos me podem ouvir. Perdi a conta a quantas vezes julguei que ia morrer. É sempre assim, nestes momentos mais desesperantes...

Há sempre altos e baixos. Se a depressão que não me larga me puxa ainda mais para baixo, então nem vale a pena pensar em enfrentar isto. Tudo me parece odioso: as pessoas e as suas atitudes, tudo o que ocorra e do qual não esteja à espera: nunca me agradaram imprevistos. Contudo, não deixo de apreciar espaços verdes, principalmente jardins. É igualmente bom estar sentada numa esplanada e observar as pessoas que me rodeiam. A "minha" agorafobia está bem longe de uma fase extrema. Mesmo assim, se vejo um aglomerado de pessoas, dou logo a volta, nem que a distância a percorrer seja muito maior.

Os piores momentos foram mesmo as apresentações de trabalhos. É um receio que, de um modo geral, todos nós temos. Uma sala de aula não é um lugar propriamente ameaçador: não costuma ser muito grande e nem tem assim tanta gente. Sentia-me bem, desde que sentada no meu canto, observando os outros. Muitas foram as vezes que utilizei os livros para fugir à confusão que me rodeava.

Sempre tive tendência para me faltarem as palavras quando estou nervosa - quando vou a uma loja e tenho de pedir algo, por exemplo -, só que aqui era demais. O cérebro pura e simplesmente apagava-se. Cheguei a fugir, a faltar às aulas... Mas era inevitável. De uma maneira ou de outra, os professores exigiam sempre uma apresentação de um qualquer trabalho. E com o tempo, fui conseguindo, a muito custo, com resultados até surpreendentes para mim.

Por isso tenho a certeza de que um dia libertar-me-ei disto. Se me consegui superar em salas cheias de pessoas que me escutavam atentamente, não será impossível ir a um sítio maior e com ainda mais pessoas que, provavelmente, nem darão pela minha existência...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Death Cab for Cutie "Someday You Will Be Loved"


I once knew a girl
In the years of my youth
With eyes like the summer
All beauty and truth
In the morning I fled
Left a note and it read
Someday you will be loved.

I cannot pretend that I felt any regret
Cause each broken heart will eventually mend
As the blood runs red down the needle and thread
Someday you will be loved

You'll be loved you'll be loved
Like you never have known
The memories of me
Will seem more like bad dreams
Just a series of blurs
Like I never occurred
Someday you will be loved

You may feel alone when you're falling asleep
And everytime tears float down your cheeks
But I know your heart belongs to someone you've yet to meet
Someday you will be loved

You'll be loved you'll be loved
Like you never have known
The memories of me
Will seem more like bad dreams
Just a series of blurs
Like I never occurred
Someday you will be loved

You'll be loved you'll be loved
Like you never have known
The memories of me
Will seem more like bad dreams
Just a series of blurs
Like I never occurred
Someday you will be loved
Someday you will be loved

quarta-feira, 4 de maio de 2011

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham [Opinião]

Título Original: The Razor's Edge
Autor: Somerset Maugham
1.ª publicação: 1944
Colecção: Biblioteca Universal Unibolso
Editora: Ed. Associados
Temática: Romance
N.º de páginas: 272
Para adquirir (outra edição da obra):

Sinopse:

"Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.

(...) Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam (...) e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso.

O Fio da Navalha foi originalmente publicado em 1944, num mundo muito diferente do actual. Contudo, algumas das suas ansiedades e dúvidas permanecem: continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência, mas não queremos apenas deter esse conhecimento, queremos senti-lo no mais fundo de nós. (...) Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento dos homens."

Opinião:

A natureza humana é deveras fascinante. Neste romance, Maugham apresenta-nos uma reflexão sobre um leque de personagens que, segundo nos diz, conheceu ao longo da sua vida e que se relacionaram entre si, retratando exemplarmente as sociedades ocidentais. Porém, de entre todas, uma personalidade eleva-se: Larry.

Larry, rapaz americano igual a tantos outros, é profundamente afectado pela morte de um camarada a que assiste, impotente, durante a Primeira Grande Guerra. De submisso, acatando os caprichos de Isabel, sua namorada, volta à sua pátria imerso numa imensa reflexão sobre a vida e a natureza de deus e do homem, assumindo uma postura em nada igual à dos seus contemporâneos - jovens empreendedores que procuram o sucesso, reconhecimento social e bem-estar material. Incompatibiliza-se com Isabel, a personificação da futilidade e dedica-se, posteriormente, a uma série de estudos e viagens que o guiarão às pessoas que irão mudar profundamente a sua personalidade e a forma como encara o que o rodeia. Parte pelo mundo à descoberta de si e de algo transcendental que o faça perder-se no meio da multidão.

Observamos igualmente Elliot, o "novo-rico", que tem embaraço das suas origens e da forma como adquiriu riqueza, vivendo sempre em prol da aceitação social e de um estilo de vida opulento. No fundo, é apenas uma criança que exibe os seus brinquedos para ser aceite entre os da sua estirpe. Gray, americano típico, só se sente realizado caso trabalhe e proporcione, a si e aos seus, um estilo de vida folgado, tal como havia feito o seu pai. E ainda Sarah, possuidora de um espírito hipersensitivo, leitora de poesia desde tenra idade, que não consegue recuperar de uma grande tragédia e se entrega a uma vida de devassidão e promiscuidade.

O narrador é alguém que convive com todas as personagens, assumindo-se como escritor e contador das suas  histórias e escolhas, as quais, muitas vezes, se entrelaçam, não esquecendo todas as suas consequências. Até que, por fim, cada um segue o seu rumo e encontra aquilo que aparentemente deseja, quer o consideremos positivo ou não.

Realizado um aprofundado retrato físico e psicológico das personagens, mantém-se, no entanto, uma aura de mistério em redor de Larry, até porque a complexidade da sua descoberta dá-lhe poderes e capacidades inacessíveis ao ser humano comum. Ele encontra respostas a questões que vêem assolando civilização ao longo de toda a história da Humanidade: qual é o nosso papel?, qual o sentido da vida?, existe bem e mal?, foi deus quem nos criou?, e o que é, afinal de contas, deus? e as respostas ficam para ele, no mais intrínseco do seu ser.

A linguagem é simplesmente acessível, o que facilita uma leitura devoradora, e ainda por cima motivada pelo verdadeiro interesse que o próprio narrador sente pelas personagens, o qual nos consegue transmitir.

De um modo geral, Larry cativou-me  por ter sido capaz de romper com estereótipos e ultrapassar todas as barreiras. E tudo isto num mundo onde impera o consumismo e o desconhecimento do eu, porque, mais do que tudo, é importante conhecê-lo - ouvir aquela voz que sempre nos acompanha, a nossa consciência - e tentarmos, no mínimo, responder às questões que do íntimo nos brotam. E ele conseguiu-o: arriscando, conhecendo, vivendo, com um desprendimento inexcedível, e ao contrário de todos nós, que nos magoamos, manipulamos e enganamos, só para fugirmos ao vazio que nos corrói...

Assim, sem dúvida que o mais marcante é, na minha humilde opinião, a apologia ao livre-arbítrio, à capacidade e à possibilidade de escolha do ser humano. Afinal, não estamos condenados à vida de todos os dias, está quase tudo na nossa mão.

Classificação: 5,0/5*