segunda-feira, 18 de abril de 2011

Crónica de um internamento

( via Elise Fr


A luz que perpassa as janelas gradeadas. 
Os enfermeiros que não param de passar. 
As pessoas que não conheço e não me inspiram confiança. 
O cheiro dos detergentes que nem sequer disfarça o que devia eliminar.

 A certeza de estar num mundo completamente à parte.


O primeiro dia

Depois de uma noite dormida junto de pessoas a quem nem vi a cara, levam-me na ambulância para um grande edifício. É o único de um cor-de-rosa pálido e deslavado... Será, simplesmente, uma coincidência?

Levam-me até ao meu quarto. Pelo caminho apoio-me nas paredes dos corredores, sempre com mais medo de cair do que não me levantar mais. Passo a passo, vejo-os amplos e plenamente inundados pela luz que perpassa as janelas gradeadas, essa luz que me cega e hostiliza. É o efeito das drogas que circula em mim, as que tomei na apoteose do vazio.

Caras curiosas espreitam-me.

Até que não é mau estar aqui. Sinto-me aliviada por esta não ser a mesma vidinha de sempre. Só que estou tão cansada... Quero ir sentar-me, dormir, não consigo mais estar assim, a ter de andar de um lado para o outro. Sinto-me enjaulada.

Não admira. Olha para as janelas.

Os enfermeiros falam comigo, explicam-me os horários e as regras. Sim, regras. Porque no meio da loucura, a voz da razão ainda se faz ouvir.



Os outros dias

Onde estão os meus livros? Tragam-me livros, não consigo estar sem fazer nada...

Acordo, dia sim, dia não, às 7h da manhã. É preciso tomar banho e não gosto da confusão, dos olhares, do barulho. Assim gozo a impunidade do silêncio, porque tenho a certeza de que ele não me vai julgar pelo meu corpo fraco, que ainda deixa cair tudo pelo chão.

Ainda não tenho cacifo. Por isso, guardo tudo bem escondido na mesa-de-cabeceira. Não que seja obstáculo a quem queira roubar seja o que for mas, talvez, o barulho até me acorde e, quem sabe, eu apanhe o ladrão! Doce ilusão... 

Pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar, ceia. Sempre à mesma hora, às vezes com alguns minutos de atraso. Oh, odeio tanto os atrasos! Porém, comemos, num destes raros momentos em que a necessidade supera até a loucura. Os que não respondem à chamada são procurados e, se por mero acaso, não fazem de conta que tudo está bem, os comprimidos, os braços e as agulhas esperam-nos. 

Há quem não aguente e chore. Falo das mulheres, porque cada sexo tem a sua sala de jantar, não se fosse ali mesmo começar uma revolução e desatássemos todos a fornicar! Pois se malucos de várias estirpes - esquizofrénicos, deprimidos, neuróticos, histéricos, dementes - estão todos ao molho e fé em deus - ou  fé nos enfermeiros que sempre nos vigiam -, por que raios não podem homens e mulheres estar juntos à hora das refeições? Provavelmente por um critério como qualquer outro: para evitar que uma multidão de loucos se junte. Não que isto seja importante. Apenas implico com tudo. É normal de quem não está feliz, julgo eu.

O silêncio é a melhor arma. Entre nós, quem não diz palavra, é rei. Não que eu tenha alguma coisa a dizer, quero é que me deixem em paz... 

Às vezes é que as injustiças são de mais. Pois por que razão está aquela idosa, demente já, obrigada a sentar-se num sofá onde nem uma almofada tem? Porquê? Porque não se podem abrir os quartos ou os meninos já não vão à ceia. São precisos dias e uma queda da cama para que a pobre possa ser uma excepção. 

Voltando ao silêncio, os que se calam é que ganham. Óbvio. Óbvio, igualmente, que não são poucos os que falam apenas para dizerem nulidades. Para gritarem. Serem agressivos. Reclamarem atenção. 

Como o miúdo ou a histérica, que nunca mais daqui devem sair. 
Como aquele que não toma banho e vem sempre, sempre pedir-me cigarros, mesmo sabendo que não fumo.
Como aquela que clama pelos filhos. 
Como aquele que, como eu, está sempre a ler. 
Mas não como aquelas mulheres tão desanimadas. Até a mim dão pena... Que ironia.

Gosto de ir para a entrada. Inspiro o ar fresco quando a porta se abre. Posso sair, mas não o faço. Espero que me venham ver ou que o telefone toque. E tenho ao colo o meu livro. Sim, porque os doidos também lêem. Eu e mais dois, pelo menos. E eu leio, quem diria, o Dom Quixote... 

Meu querido, dirias tu que és o salvador da minha consciência?


O último dia

Os enfermeiros gostam de mim. Os auxiliares também. Pudera, sou a menina mais nova que aqui anda, a mais bem comportada, aquela a quem mal ouviram a voz. Só eu ainda não gosto de mim.

Com um sorriso no rosto e miríades de esperanças a nascer em mim, faço as malas. Todos dizem que o meu lugar não é aqui. Eu sei que não, não sei é qual será, lá fora. 

Despeço-me. 

Adeus, miúdo, desculpa por te acordar. 
Adeus, ó histérica! Aquela força inspira-me.
O que fuma? Não merece sequer o meu olhar. 
Adeus, flor. Não chores mais pelos teus filhos.  
Adeus, leitor. Ainda nem percebi o que fazes aqui...
E as mulheres? Delas também me despeço, olhando-as atentamente. Porque, afinal, também podia ser uma delas.  

E agora? Agora sobrevivi. E parto para não mais voltar.

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